O hacker mais famoso do Brasil
por Leandro Soares Indrusiak alternet@bagda.cpd.ufsm.br
Há umas semanas atrás, recebi um mail de um tal Derneval
Cunha, elogiando o AlterNETive e dizendo que tinha um zine sobre Computer
Underground, mas que ainda estava se desenvolvendo, blablabla... Alguns
segundos após ler o mail, meu cérebro conseguiu linkar as
informações e concluiu: "É o cara do Barata
Elétrica!!". O zine do
cara, apesar da editoração pobre, tem um conteúdo
riquíssimo, sobre o "movimento" hacker, segurança na
Internet, criptografia, etc. Vale a pena cansar um pouco a vista no
monitor!!
Imediatamente, um dos Leandros
que habita meu
corpo (provavelmente um dos mais imbecis) disse: "Apaga apaga!!! O cara
é um hacker!! Aposto que esse mail vai se comunicar com ele e
passar a senha da tua conta... ele vai tomar conta do AlterNETive!!!".
Mandei o imbecil se calar, enquanto escutava uma outra faceta mais
sensata do meu interior (!), que dizia: "O cara é metido a hacker...
vive dando
entrevista pras revistas do gênero... aproveita que ele tá
dando mole e entrevista o cara sobre isso!! O Fanzine tá
precisando de assunto...". Dei os parabéns para mim mesmo pela
idéia e imediatamente entrei em contato com o Derneval. Para
minha surpresa, ele aceitou!
Na
íntegra para vocês, o resultado dessa EMAILtrevista (demorou
duas semanas! esses zineiros são realmente muito ocupados...)
L.S.I - Tu te consideras um hacker?
D.C. - Não, não me considero realmente um hacker. Ainda
falta muito, muita coisa
para aprender antes de chegar perto do que alguns caras que conheço,
fazem. Mas a mentalidade e o modo de agir, isso conheço bastante bem.
Num certo sentido, a pessoa que ainda tem curiosidade e fuça ate' saciar,
que é o motor da coisa, isso eu tenho desde os sete ou oito anos de
idade, ainda não me abandonou. Enquanto eu tiver isso, posso chegar perto
das "feras" e fazer perguntas, e com jeitinho, obter respostas.
L.S.I. - E qual é o porquê de aparecer nas revistas, dar entrevistas? Não seria
melhor para um hacker permanecer anônimo?
D.C. - Eu tenho um projeto, a nível pessoal e também de
trabalho. Colocar um
bando de gente parecida comigo (no que se refere a área de computação)
num lugar, tipo uma vez por mês, num boteco, trocando idéias,
organizando coisas em conjunto. Isso, a nível pessoal, sempre quis
fazer e um monte de gente que conheço. A nível profissional, tem uma
conferência que quero montar com gente de outros países. Não dá prá
fazer isso anonimamente.
L.S.I. - Então, no fundo, pretendes um dia ser um hacker remunerado? Ou a fama já ê
remuneração suficiente?
D.C. - De acordo com a definição de hacker que tem no
jargão, (disponível no
Barata Eletrica 00), eu já sou hacker remunerado. Minha tarefa é fuçar
assuntos interessantes na rede e para isso tenho uma bolsa de iniciação
científica. O BE seria um passatempo que me permitiu "acessar" meus 18
minutos de fama. Minha verdadeira remuneração são as cartas que recebo,
elogiando esse trabalho que faço. Não achava que fazia um zine tão bom
quanto aqueles que volta e meia consigo pegar na rede Internet. Como ele
é único, o pessoal curte. Mas ainda podia ser melhorado, se tivesse
tempo.
L.S.I. - Não tens medo, que agora com toda essa exposição, que o termo HACKER seja
transformado em mais um dos inúmeros rótulos que a mídia adora usar para
definir o comportamento das pessoas?
D.C. - O termo hacker já existia antes dessa exposição. Se verificarmos a
tradução que arrumei, "fuçador", sendo ela empregada corretamente, sem a
conotação negativa, tudo bem. Há um estado de espírito de "fuçador".
Já se fizeram estudos sociológicos em cima disso. O perigo não existe na
rotulação, mas no preconceito, de se achar que todo fuçador é um
terrorista em potencial. Algo como: "fulano tem uma faca de açougueiro,
por isso pode ser o Serial-Killer". A coisa não é assim.
L.S.I. - Já sofreste alguma forma de preconceito por ser
considerado hacker?
D.C. - Já. Frequentava a sala de computação da Letras e até era
considerado um
monitor não-oficial muito melhor e mais educado do que os monitores
oficiais da sala, contratados para ajudar os inexperientes em
Informática. Sofri perseguições de várias formas incluindo uma expulsão
da sala, um dia que não trouxe a carteirinha da USP. Alguns dos
funcionários daquela sala (não todos, um ou outro pode ser novo) não
servem nem para adubo, na minha opinião. Outra perseguição que aconteceu
foi quando pintou no jornal que eu fazia o Barata Elétrica. Minha conta
foi "travada" até que eu explicasse o lance e depois fui proibido de
usar "qualquer computador da USP" para distribuir o dito. Uma vez, quando
editava o número dois do BE, usando o JOE (editor tipo wordstar, prá
computadores de grande porte), vi minhas sessões serem canceladas, sem
nenhum motivo. Atualmente, me liberaram por exemplo, divulgar minha conta
no spider, mas ainda assim, não tenho certeza se eles me toleram muito na
USP. Minha impressão é que qualquer dia que eu fizer algo errado (coisa que
eu não faço) nunca mais me liberam o acesso. Me falaram inclusive que se
não fosse pelo BE, eu seria Super-Usuário de um computador ligado a
rede no local onde trabalho.
L.S.I. - E como todo zineiro diz ao terminar uma entrevista (eu tentei, mas não
consegui ser exceção!): deixe uma mensagem para os web-leitores do AlterNETive:
D.C. - Uow! Que responsa. Mas aqui vai:
A rede Internet é a grande prova de que o computador não vai
automatizar a raça humana. Isso só depende dela. Havendo uma
conscientização, todo mundo que fuça na rede pode ajudar a integrar
outros menos capacitados a também usufruirem. Todo mundo que puder fazer
um esforco nesse sentido, de facilitar o acesso de outrem àa informação,
está ajudando a humanidade como um todo. Só pelo esforço tanto
individual quanto em grupo, podemos, através da Rede, unir o mundo num
esforço conjunto. Multinacionais se preocupam com o lucro. Estatais se
preocupam com privilégios no mercado. Mas pessoas comuns se preocupam
com seus colegas, porque precisam deles no dia-a-dia. Seja colega da
humanidade. Descubra e ajude a descobrir a rede.