| A fama e a influência da mídia na felicidade dos jovens |
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Diego Pereira Machado |
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Acadêmico do 9º semestre de Direito do Instituto de Ensino Superior de Santo Ângelo (IESA). |
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A
insatisfação dos jovens brasileiros com o próprio corpo e com a sua condição
social é imensurável e demonstra ser um sentimento crescente. A busca por uma
posição de destaque, de superioridade ou de onipotência é uma marca deste
século, processo involutivo se contrastarmos com a inoperância e conformismo
dos jovens frente aos problemas sociais da atualidade. Essa nova filosofia de
vida, de insatisfação pessoal permanente, como se algo quase que inalcançável
faltasse, priorizando-se o “eu”, é utilizada como mecanismo eficiente pela TV
brasileira para venda de seus produtos, resultando na formação de uma nova
juventude, onde a prioridade é a conquista da fama, do sucesso e dinheiro,
consequentemente de uma suposta felicidade ditada pela TV.
A influência dos programas de TV começa desde cedo, na infância,
sequer espera, não se restringe à adolescência. Não é
de se espantar que sejam realizadas inúmeras pesquisas por grupos de estudo,
instituições internacionais, pela Igreja e missionários que tentam desvendar
qual a influência dos programas televisivos no comportamento dos jovens,
defendendo teses de que a TV passa uma mensagem oculta de incentivo ao sexo,
violência, homossexualismo e, até mesmo, para os mais radicais, apologia ao “satanás”. Neste sentido, em outubro de
Dentro
deste cenário o que mais nos tem estarrecido ao analisarmos o comportamento do
jovem, não é apenas a influência direta da mídia no comportamento violento dos
adolescentes ou a atividade sexual precoce, que começa desde a infância como
acima exposto, mas sim a incansável busca por um lugar no mundo dos famosos,
como se este fosse o passo final para a felicidade. Esta é a mensagem
endereçada[i]
aos jovens atualmente, prova de que a presença da TV nas casas e nas escolas
não é mais com fins informativos, mas sim posta-se como fato social permanente
e irreversível, sendo bem interpretada por Rosa Maria Bueno Fischer (2001,p.28),
da seguinte maneira:“‘Imagem é tudo!’ – esse é o conselho que ouvimos todos os
dias: é preciso não apenas ser, mas ‘parecer ser’; e se não pudermos ser, que
nos esforcemos para parecer, e isto até pode bastar, porque cultivar a imagem
(de si mesmo, de um produto, de uma idéia) mostra-se como algo tremendamente
produtivo. Basta lembrar como ocorrem as campanhas políticas ou as performances públicas dos governantes,
especialmente como um país como os Estados Unidos da América.”
A
comunicação audiovisual não é mais um simples mecanismo informativo, não é mais
um simples meio de comunicação onde se mostra o que aconteceu, mas sim é uma “instância da cultura que deseja oferecer
muito mais que informação, lazer e entretenimento” (Rosa M. B. Fischer;
2001-p.18), mostra-se como instrumento de comunicação que está acima do bem e
do mal, como se fosse imune a críticas. Este poder de fazer a verdade, onde se
explora a desgraça de miseráveis que acreditam que a única verdade dos fatos e
o único lugar onde a justiça pode ser feita estão em programas como Linha Direta (Rede Globo) ou Cidade Alerta (Rede Bandeirantes),
lugares onde os apresentadores são os verdadeiros “justiceiros”, onde a
incoerência e inconsistência das colocações são interpretadas como soluções dos
problemas. Esta estratégia da TV de se mostrar inquestionável é extremamente
eficaz, resulta numa falsa opinião pública, que na verdade acaba expressando um
desejo, não mais da sociedade, mas sim do poder concentrado da mídia.
A
insatisfação dos jovens com a própria imagem e com o que possuem leva-os a
buscar mais, algo que tem sido oferecido pela mídia e só ela pode tornar
realidade, por esta razão nós presenciamos o fenômeno da “cópia”, ou seja, não
há mais originalidade no comportamento dos adolescentes, principalmente quando
abordamos o “parecer ser”. Não enxergamos mais jovens brasileiros, mas sim
jovens “americanos” com um ofuscado vínculo com nosso país, tamanha a
influência norte-americana no comportamento dos jovens brasileiros,
principalmente no modo de se vestir. Quando saímos pelas ruas nos deparamos com
inúmeros candidatos a rapper, esta moda “bad-boy” americana está calcada na conquista
da fama rápida, dinheiro, violência e sexo fácil, características que são
almejadas pelos jovens brasileiros, fenômeno também presente no estilo dos
carros, onde imagem é tudo, principalmente os rebaixados, com vidros fume e
sons potentes, expressando um ar desafiador. Há um apelo a todos os recursos
para ser famoso, se o objetivo não é alcançado, que ao menos pareça ser.
A busca
constante pela fama, aliada às estratégias televisivas, faz-nos lembrar da
frase do famoso pop norte-americano
Andy Warhol, onde este disse: “In the
future everybody will be world-famous for 15 minutes”[ii],
este futuro já chegou, as pessoas buscam minutos de fama na frente da telinha,
sem se importar com o preço. O maior preço pago pelo telespectador que pretende
ser famoso é a perda da intimidade, haja vista que não se pode mais diferenciar
espaço público por espaço privado. Hoje, o mais eficiente caminho de se tornar
público é estar na mídia, “estar lá como
destaque, como grande astro, ou então como simples mortal que de alguma forma
conheceu o sucesso, a ‘grandeza’, o ‘heroísmo’” (Rosa M. B. Fischer;
2001-p.35). Este apelo à quebra da intimidade é um recurso utilizado com muita
freqüência em programas como de talk show,
de forma exemplificativa podemos citar o programa do Jô (Rede Globo), percebe-se que não há um momento em que o apresentador
não deixe de apelar a este recurso, seja questionando o auditório, o
entrevistado ou até o público de casa com perguntas sobre sexo, homossexualismo
ou fetiches, tudo gira em torno do desafio de desvendar o que acontece na
intimidade das pessoas.
O
enfraquecimento da personalidade, conforme fenômeno da “cópia” citado, onde ser
famoso significa ser aceito pela mídia, custe o que custar, encontra-se
presente no comportamento dos jovens brasileiros da atualidade, principalmente
quando encaram isto como meio único de serem felizes e realizados. Tal forma de
comportamento acaba “amputando” valores dos jovens que a sociedade espera que
não pereçam frente a uma mídia manipuladora, principalmente quando são
depositadas expectativas de mudança, que muitas vezes apenas podem ser
concretizadas pelos jovens. Esta inoperência que tem se constatado, influencia
negativamente todos os níveis da sociedade, por esta razão necessitamos do
desenvolvimento de uma metodologia que objetive ensinar a criticar de forma
objetiva o que se transmite pela televisão. Sobre este necessário comportamento
crítico, Rosa M. B. Fischer (2001,p.45) narra palestra do escritor José
Saramago: “(...)
Em resumo, podemos resistir às incursões
mentais feitas pela TV, podemos criticar e manter nossa originalidade. Este
comportamento pode ser trabalhado com os jovens, desde que comece nas séries
inicias e seja um trabalho constante. É um ensinamento que também podemos
concluir quando analisamos a obra de Paulo Freire, em que este preceitua acerca
do inaceitável conformismo social, muito mais presente hoje nos jovens, por
causa da priorização do “eu”, transmitida pela TV e também por estarmos vivendo
um processo de transmissão de massa onde a mensagem principal é que do modo
como estão as coisas não podemos mudar, devemos aceitar calados, oprimidos.
Acerca do conformismo humano disserta Paulo Freire (2000,p.126): “(...) quanto mais
os oprimidos vejam os opressores como imbatíveis, portadores de um poder
insuperável, tanto menos acreditam em si mesmos. Foi sempre assim(...). Uma das
tarefas (...) é procurar, por meio da compreensão crítica(...), ajudar o
processo no qual a fraqueza dos oprimidos se vai tornando força capaz de
transformar a força dos opressores em fraqueza. É uma esperança que nos move.”
Os recentes programas televisivos criados pelas
emissoras de televisão brasileira incentivam a involução cultural e
comportamental dos jovens, fortalecem o processo de opressão, onde a TV ao
invés de informar o que é, passa a dizer como devem ser feitas as coisas. Ao
mesmo tempo que se mostra um brasileiro que venceu na vida de forma honesta e
com muitas dificuldades, nunca deixam de lembrar que ser modelo e jogador de
futebol é mais fácil e financeiramente mais rentável. Esta influência está também
fundamentada na constante priorização pela TV do corpo, sua perfeição e na
necessidade de ser perfeito fisicamente e ter uma virilidade incontestável.
Comportamento este encontrado em crianças que, mesmo aparentando uma certa
inocência, não vislumbram outra coisa a não ser dinheiro e fama, moda e luxo,
violência e sensualidade. Chegamos a um ponto em que o pudor feminino começa a
ser substituído pelo frenético, incontrolável e ilimitado assédio masculino,
que sonha com seios e bumbuns milimetricamente perfeitos. É o processo em que a
TV dita o que deve ser assistido, oprimindo a personalidade e a liberdade de
escolha dos telespectadores.
A fama resulta como uma espécie de motor que rege a
mente dos jovens, vítimas de uma programação que mais se parece com o livro
vermelho de Mão Zedong[iii],
vislumbrando criar um novo homem (no nosso caso famoso!) sem dar muitas opções.
Esta falta de escolha pode ser facilmente constatada se levarmos em conta que a
grande maioria dos lares brasileiros não têm internet e muito menos TV a cabo.
Encontramo-nos adstritos a assistir programas como o que transforma simples
brasileiros em famosos, sendo assim, transmitem a mensagem de que alcançaram a
felicidade e o sucesso (Ex.:Big Brother –
Rede Globo), ou em assistir novelas que se estruturam numa produção semelhante
à mexicana e que transformam a traição em exercício diário e a raiva de um ser
por outro num toque sedutor (E.:Canavial
de Paixões - SBT).
A música, como muitos programas de TV, também
é utilizada pela mídia como ferramenta auxiliar para passar a mensagem de que a
busca pela fama deve ser perene. É mais um meio de “castrar” a esperança de
mudança dos jovens. Esta constatação, em que a música é um caminho doentio para
atingir a fama, independente dos obstáculos, que não são mais a qualidade e
dedicação, mas sim a sensualidade dos corpos, faz-nos lembrar de uma entrevista
Entre
programas e grupos musicais também devemos nos atentar para o sensacionalismo
influenciador de alguns fatos e personagens sobre os jovens, decisivos para que
estes escolham seus ídolos e definam, muitas vezes, seus objetivos de vida.
Entre muitos fatos e personalidades, devemos relembrar de como foi a morte de
nosso “Zeus” (o deus dos deuses na Grécia antiga), referimo-nos a
Roberto Marinho, que após sua morte nos fez entrar num profundo processo de
reflexão. Num dos poucos momentos de “filosofia”, perguntava-nos se haveria
pessoa mais perfeita que Roberto Marinho, acreditava-se que deveriam substituir
Jesus Cristo por aquele homem. Eram tantos elogios, tanta modelação de um deus
que vai deixar saudade, pois sua “perfeição” como pessoa fez com que o
Congresso Nacional parasse e a Igreja se perguntasse se deveria ou não
santificá-lo. Mesmo depois de tanto estardalhaço, continuamos achando que Chico
Mendes foi muito mais significativo para nosso país.
Esse fenômeno, ou seja, esta
presença inafastável da TV na escola e lares, não pode ser encarada, precipitadamente,
somente de forma negativa, pois a TV tem se mostrado também um meio de
comunicação eficiente na educação pública, em casos específicos e isolados.
Podemos citar como exemplo a Rede Vida, TVE do Rio de Janeiro, Canal Futura,
Globo News e TV Escola, programas que têm servido como orientadores de
professores e instituições. Entretanto, não basta ser a TV simples orientadora,
deve ser também objeto de uma análise crítica e objetiva por professores e
alunos, interpretando-se o enfoque, a abrangência e o endereçamento dos
programas, viabilizando um processo onde jovens possam escolher o que assistir
de forma consciente, comportamento este já cristalizado
Mesmo com tantos adolescentes
candidatos ao estrelato, ainda estamos convencidos de que a fama não é a
panacéia para os desafios da juventude brasileira, não é só o sucesso na mídia,
tão bem trabalhada pelos produtores de TV, que traz felicidade, mas sim a
consciência de definir o que é suficiente para desfrutar simples momentos da
vida. Não nos referimos ao simples conformismo, mas sim à simplicidade, é fácil
ser feliz, basta buscar o possível e não deixar ser influenciado ou alienado
pelos sonhos dos outros. A TV incute uma mensagem de que o famoso ou bem
sucedido é o bem feliz, bem bonito, bem dotado e bem afortunado, mas muitas
vezes é bem mal informado, pois uma mensagem televisiva nem sempre expressa a
realidade.
Referências
FISCHER,
Rosa Maria Bueno. Televisão &
Educação, Fruir e Pensar a TV. Editora Autêntica, Belo Horizonte – 2001.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da Esperança. Um reencontro
com a Pedagogia do Oprimido. Editora Paz e Terra,São Paulo – 2000.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes
necessários à prática educativa. Editora Paz e Terra. São Paulo – 1999.
ZANGONEL,Bernadete. MÚSICA,
MIDIA E EDUCAÇÃO. Artigo publicado no Jornal Gazeta do Povo, Paraná, em
07/05/2001.
Koogan/Houaiss.
Enciclopédia e Dicionário Ilustrado. Edições Delta, Rio de Janeiro – 1997.
[i] Endereçamento é o processo de saber
a quem está sendo direcionado determinado programa. (Rosa
M. B. Fischer; 2001-p 80)
[ii] Tradução: “No futuro todos terão
15 minutos de fama”.
[iii] Ou Mao Tse-Tung, ditador comunista
da China (1893-1973). Líder do Partido Comunista Chinês que baseou sua política
nas teorias marxistas, criando o “Pequeno livro vermelho”.
[iv] ZANGONEL,Bernadete. “MÚSICA, MIDIA E EDUCAÇÃO” (2001).
Informações Bibliográficas
| Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: |
| MACHADO, Diego Pereira. A fama e a influência da mídia na felicidade dos jovens. Site do Curso de Direito da UFSM. Santa Maria-RS. Disponível em: <http://www.ufsm.br/direito/artigos/opiniao/influencia-midia.htm>. |