| A meritocracia atrasando a inclusão I |
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Pamela Marconatto Marques |
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Aluna dos cursos de Direito e Ciências Sociais da UFSM |
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Já dizia Ivor Morish em 1975
(ano de publicação de sua obra “Anomia”) que as velhas barreiras sociais
estavam sendo substituídas pelas do "mérito". “A antiga elite, com
a sua gravata com as cores da escola, pode ter desaparecido, mas está sendo
firmemente substituída por uma nova elite cuja prescrição é o mérito”
assegurava o sociólogo.
O princípio da Meritocracia,
cujo cerne está contido na máxima “a cada um é dado o que merece”,
serviu, ao longo da história, de respaldo à perpetuação da dominação e
ainda hoje serve com excelência a esse fim.
Não me atrevo a negar a eficácia
de tal método e nem a sutileza com que se vai instalando nas mentes que se
deixam seduzir por sua cínica comodidade. Atribuir unicamente ao indivíduo
suas conquistas e fracassos pode soar, afinal, perfeitamente coerente àqueles
que se desejam ver livres de qualquer contribuição que não lhes aproveite e
mais conveniente do que ter as oportunidades de um de seus herdeiros reduzidas
em favor do filho da faxineira.
O que apraz às elites (que não
necessitam de cotas que assegurem a vaga de seus descendentes), continua
contando com teorias que lhes sustentem e justifiquem (Marx continua
lamentavelmente atual).
Enquanto o mérito daqueles que
puderam custear um ensino médio de excelência e um bom cursinho pré-vestibular
vai sendo reconhecido, as crianças negras continuam sem referencial. O filho da
faxineira não se identifica com figuras decisivas em sua formação: o
professor que detém o saber e o médico, que detém a cura. Vai, assim, se
contentando e quase se condicionando ao papel secundário que lhe foi reservado,
na escola, no mercado de trabalho e na vida.
Talvez
o sistema de cotas seja, realmente, apenas um paliativo que deve ser seguido por
uma séria mudança nas bases do sistema educacional, que dê a todos o mesmo
ponto de partida (já que a meritocracia não pode ser aplicada sem igualdade
social). No entanto, a reforma impreterível deve ser feita na consciência
social imperante. Aquela que se recusa a admitir-se preconceituosa, mas continua
temendo um assalto ao depara-se com um negro em uma rua deserta em hora avançada
da noite ou a aceitar o sucesso de um negro em áreas que não sejam o samba ou
o futebol. Consciência que não liberta o negro de sua posição servil e o faz
sentir oprimido, ainda que constitua metade da população nacional.
A adoção do sistema de cotas não
vem restringir as possibilidades de alguns para beneficiar outros. Vem
unicamente exercer sua finalidade constitucional: incluir aqueles que ficaram de
fora na partilha do bolo, dispensando aos mesmos, tratamento desigual, eis que
desigual é a sua situação, medida amplamente mais difícil e trabalhosa do
que simplesmente ignorar a diversidade e confortavelmente nos recostarmos nas
acomodações da alienação, munidos do discurso falacioso de que todos somos
absolutamente iguais e continuamos recebendo exatamente aquilo que merecemos.
Defender cotas é contribuir para
a implementação de um sistema onde todas mereçam dignidade e esta não seja
privilégio alcançado “só pela graça de Deus”.*
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Referência aos dizeres da faixa de aprovação de um aluno negro no vestibular
da UFRGS
Informações Bibliográficas
| Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: |
| MARQUES, Pamela Marconatto. A meritocracia atrasando a inclusão I. Site do Curso de Direito da UFSM. Santa Maria-RS. Disponível em: <http://www.ufsm.br/direito/artigos/opiniao/meritocracia_inclusao.htm>. |