O Rincão do Inferno é uma região próxima ao rio Ibirapuitã e o arroio Paipasso em Quarai – RS, localizando-se na região de fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. (sudoeste).
Essa área nunca fora objeto de pesquisa arqueológica, devido a fatores como o difícil acesso, o isolamento e os projetos que metodologicamente só prospectavam os grandes rios. O projeto Rincão do Inferno desenvolvido pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas Arqueológicas visava prospectar os pequenos arroios, assunto pouco conhecido pelos primeiros arqueólogos. A região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul foi foco de interesse de arqueólogos desde os anos 40. Posteriormente essa região foi incorporada ao mapa arqueológico do Rio Grande pelo PRONAPA (1965-1970) e em seguida pelo PROPA (1972-1978).
Os sítios de caçadores coletores mais antigos, não foram atingidos pelas várias incursões feitas em campo pelo projeto Rincão do Inferno, muito embora sejam sítios importantes no contexto platino.
A metodologia aplicada pelos arqueólogos vinculados ao PROPA contemplava a interdisciplinaridade, inerente à ciência arqueológica, porém as práticas refutavam qualquer influência do fator geo. Milder (1994 e 2000) deixa claro a participação de geomorfólogos, como John Albanese e Juan Varella, nos anos em que o Smithsonian patrocinou as atividades de campo.
No Brasil, de uma forma geral a situação começa a se diferenciar e algumas equipes começam a privilegiar elementos da ordem do fator geo (Morais,1999). Isto ocorreu de fato com a consolidação de teses e publicações na qual especialistas divulgam seus resultados, como a tese de livre docência do professor Dr. José Luiz de Morais e a tese de doutoramento do professor Dr. Saul Milder.
Paisagem, elemento artefactual indispensável a qualquer abordagem em arqueologia, insere-se dentro das construções sociais e ideológicas dos grupos que por ela se apropriam. Assim sendo, urge os modelos e as reconstituições ambientais do passado para que se crie um palco adequado aos atores.
Partimos do pressuposto que a arqueologia trabalha com paisagem e enfoca a interação entre as pessoas e os ambientes, como também os modos sociais complexos que as pessoas fixam nos mundos nos quais elas vivem.
Metodologia
A região denominada de Rincão do Inferno é um corte arbitrário da região que se desdobra entre o Rio Ibirapuitã e o Arenal. Assim sendo, procurou-se nessa região mentalmente estabelecer e localizar o maior numero possível de sítios arqueológicos pré-coloniais.
Com esse fim, optou-se pela denominada “Analise de Padrão Locacional” com base em UNDR (unidade natural de design do relevo) , ou seja, através de um modelo preditivo, de antemão, cogita-se o tipo de sítio a ser encontrado. Essa metodologia foi desenvolvida por Morais (1999) para o Estado de São Paulo, com utilização ampla nos projetos de Salvamento Arqueológico do rio Paranapanema. Essa mesma foi adaptada para o Rio Grande do Sul por Milder (2000), porém com testes anteriores no Salvamento da UTE-Uruguaiana, UHE-Dona Francisca, LT Garabi/Itá, e projetos acadêmicos.
Os parâmetros do modelo locacional que permitem o mapeamento das áreas potencialmente favoráveis ao encontro de sítios arqueológicos, foram fixados a partir de algumas situações de ordem universal, relativas aos padrões de estabelecimento, corroboradas por várias situações locais e regionais. Reforçam, outrossim, um esquema preditivo, a subsidiar o encaminhamento das etapas de reconhecimento geral e levantamento arqueológico (Morais:1999).
Os parâmetros do modelo locacional são de grande valia nos processos de levantamento de sítios arqueológicos pré-coloniais, porém requerem uma constante avaliação para que parâmetros novos possam ser incorporados evitando-se assim o engessamento do método e a estagnação teórica.
A experiência desenvolvida em Quaraí revelou uma utilização da paisagem e da geologia local por grupos de caçadores-coletores por um largo período de tempo, podendo situar-se no Pleistoceno final o paleomanejo da região. Assim, podemos dizer que para a região sudoeste do Rio Grande do Sul, mais especificamente a área de Quarai, uma divisão geológica influenciou significativamente a ocupação do meio.
Tendo uma visão macro supomos que a região se insere nas Superfícies Aplainadas (Ab’Saber, 1969). As áreas onde predominam os relevos aplainados possuem uma concentração de sítios de obtenção de matéria-prima, mais especificamente calcedônia. Essa rocha aparece em topos de interflúvios e terraços primários e secundários de planícies de inundação.
Já as áreas onde se concentram os afloramentos de arenito, os sítios são extremamente numerosos e os artefatos são encontrados em todas as unidades de relevo.
Os assentamentos são multicomponensiais, possuindo uma organização muito anárquica, devido às sucessivas ocupações e a ausência, em boa parte dos casos, de estratificação, podendo ocorrer esta apenas em terraços formados próximo ao arroio.
Esse fenômeno de ocupações inclui as encostas de morros testemunhos com 45 graus de inclinação transformando um vale em um ótimo lugar para se fabricar utensílios.
Resultados
Sítios arqueológicos de obtenção de matéria-prima/calcedônia

Sítios arqueológicos em terraços fluviais

Sítios arqueológicos de residência
