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A narrativa como linguagem jornalística



 

Professor da Universidade de Brasilia, jornalista e estudioso sobre narrativa jornalística, Luiz Gonzaga Figueiredo Motta foi um dos convidados para o V Seminário Internacional de Pesquisa em Comunicação (SIPECOM). Durante o evento, que se encerrou na tarde de ontem (17), o professor participou da mesa “Desafios da pesquisa em cultura e comunicação”, como também promoveu o lançamento de seu novo livro “Análise Crítica da Narrativa”.

Na seguinte entrevista, Motta esclarece mais a respeito de seus estudos sobre narrativa. Além de comentar o lançamento de seu livro e a pesquisa que vem desenvolvendo atualmente sobre a construção de uma identidade nacional por meio da mídia brasileira.

Laíssa Sardiglia – O que é a narratologia?

Luiz Motta – A narratologia é um método de olhar a narrativa. É um procedimento que nos permite se aproximar das narrativas com o olhar de pesquisador. Com o olhar rigoroso, tentar compreender a narrativa como uma forma de instituição do mundo, de criação do mundo. O que a narrativa faz? Ela reproduz o mundo, ela representa o mundo. O termo narratologia foi cunhado por Tzvetan Todorov, que é um búlgaro que vive na França, e que escreve muito sobre narrativas. Ele usou esse termo para descrever essa ciência e esse processo metodológico de entender as narrativas.

L. S. – Como os estudos sobre a narrativa se aproximaram do jornalismo?

L. M. – Isso é uma coisa muito recente, porque os estudos da narrativa começaram na literatura. Mais ou menos na década de 1960, os estruturalistas começaram a trabalhar as narrativas. O primeiro estudo das narrativas é de um russo. O livro dele ficou sumido na União Soviética, primeiro porque era escrito em russo e segundo por causa de problemas políticos, e só veio aparecer na década de 1950 para o mundo, através do uso que o famoso antropólogo Levi Strauss fez para analisar os mitos bororós no Brasil. Então, ele usou essa metodologia do formalismo russo, e a metodologia foi ganhando espaço e adeptos. Assim, ela começa na literatura com contos infantis, já que esse estudo na Rússia foi sobre literatura infantil, e passa para a análise do mito. E mais recentemente, eu diria de 20 anos para cá, alguns pesquisadores do jornalismo começaram a ver que o jornalismo, apesar de estar sempre lidando com a verdade dos fatos e a linguagem muito factual, repassa muito mitos. Narrativas que estão subentendidas nas notícias. Daí, começou mais ou menos uns 20 anos a ser estudado o jornalismo enquanto narrativa. E ultimamente virou moda, está todo mundo falando de narrativa jornalística.

L. S. – Como você passou a se envolver com os estudos sobre a narrativa jornalística?

L. M. – Eu trabalhava até então, mais de 20 anos atrás, como o mito se revelava na narrativa jornalística. Por exemplo, como o crime era tratado como uma questão que se repetia? Havia uma moral por trás da cobertura das notícias do crime. Se o crime é notícia é porque há alguma coisa de anormal. Então, qual é a normalidade? A normalidade é não ter crime e isso tem muito a ver, essa repetição tem muito a ver, com essa moralidade. Então, há um conteúdo subjetivo por trás do conteúdo objetivo das notícias. Por aí, eu fui trabalhando, pesquisando. Os meus primeiros estudos foram nessa linha. E eu fui vendo que quem na verdade poderia me dar a resposta era a teoria da narrativa. Ela tinha elementos que me forneciam e me davam a capacidade de compreender a linguagem jornalística de um ponto de vista narrativo. Aí, eu fui me aprofundando e virei um narratólogo.

L. S. – O que a narrativa contribui para o jornalismo?

L. M. – Muito. Eu acho que essa preocupação cada vez maior com a narrativa está gerando um questionamento do jornalismo. Ela é hoje quase uma técnica para você fazer uma crítica do jornalismo. Crítica em que sentido? Você mostrar que o jornalismo é superficial na maneira que ele cobre os fatos. Ele fica na superfície, tentando ser objetivo, enquanto na verdade está carregado de subjetividade. Então, por que não assumir essa subjetividade e contar os fatos desde um ponto de vista narrativo? Aí, você começa a mostrar que as pessoas são compostas de razão e de emoção. Assim que é o mundo humano e assim que somos nós. Então, contando narrativamente, você deixa essa emoção entrar no seu texto. A revista da UFSM, a revista Proa, está fazendo uma bela experiência de jornalismo literário; que é chamado jornalismo literário, mas eu diria que é mais um jornalismo narrativo que literário.

L. S. – Qual o objetivo do livro “Análise Crítica da Narrativa”, que você está lançando?

L. M. – O meu livro é um livro que pretende ser um manual, ou quase um manual. Um livro que procura auxiliar os estudantes de graduação e pós-graduação nas pesquisas que eles estão fazendo com a abordagem da narrativa, da narratologia. Ele procura dar pistas e dicas para as pessoas desenvolverem os seus próprios métodos. Não é um livro de receita, não é um livro “está tudo pronto e só precisa repetir”. É só um estímulo nas pessoas que estão pensando em usar essa abordagem. 

L. S. – Qual a contribuição que você espera que o seu livro tenha para o estudo da narrativa?

L. M. – Eu espero que ele estimule o debate. Como é um campo novo, é uma teoria ainda pouco sistematizada, eu espero que ele contribua muito. Porque a teoria da narrativa se desenvolveu na literatura; só que a literatura, o livro, é uma obra fechada. O livro é da primeira página a última. Você terminou de ler um romance, você fecha o livro e acabou. Ele é uma obra completa. As narrativas da comunicação não são completas, não são obras fechadas. Na narrativa jornalística, o fato é noticiado e volta. Você pega o mensalão, por exemplo, ele está sempre nos jornais. Ele não acabou, a história não acabou, não está fechada. Então ele tem um componente de comunicação que é muito importante. No meu livro, eu procuro buscar isso. Há um componente na narratologia jornalística, na narratologia midiática. Um videoclipe, uma canção, uma música popular; elas são narrativas, mas elas são comunicativas. Elas são um processo de comunicação que se dá em determinados momentos, então elas estão condicionadas por esse momento da comunicação. A literatura não deixa de ter isso também, o romance não deixa de ter isso também; mas isso é menos evidente. Então, a narrativa jornalística, a narrativa midiática, da publicidade; elas têm esse aspecto comunicacional que faz delas umas narrativas muito próprias, muito singulares. Eu trago essa questão e proponho uma metodologia nova pra analisar as narrativas da comunicação, a partir do que elas significam como processos de comunicação. E, por isso, que eu acho que ela pode contribuir para esse debate.

L. S. – A história e o tempo são questões que aparecem com frequência no seu trabalho. Dessa forma, o jornalismo contribui para a construção de uma memória social?

L. M. – Eu acho que a minha pesquisa, se tem algum mérito, o mérito dela é introduzir a questão do tempo como uma questão fundamental de quem analisa narrativa. Porque a narrativa é tempo, a narrativa é uma forma de “empalavrar” o tempo. A narrativa é sempre um transcurso, ela é sempre uma série de ações. Essas ações têm uma sequência, têm uma cronologia, têm um desdobramento. E os estruturalistas, quando a narratologia se desenvolveu na literatura, retiraram essa questão do tempo. Eles estavam preocupados com a questão da estrutura interna. E essa questão do tempo foi relegada e agora a gente está recuperando. Eu e vários, porque eu sou apenas um grão de areia. Então, tentar recuperar a importância do tempo, da cronologia, da história; como ela representa uma ação do tempo e no tempo. Porque existem várias representações de nós humanos, mas a narrativa sempre diz alguma coisa que aconteceu no tempo. É um transcurso, então é muito importante recuperar o tempo. E quando nós falamos em tempo, naturalmente nós caímos na história. O componente da história, da historiografia, da narrativa histórica entra necessariamente nessas análises.

L. S. – Em sua recente pesquisa, você aborda a identidade nacional como uma construção no jornalismo. De que forma o jornalismo brasileiro tem representado a ideia de nação?

L. M. – Infelizmente, muito menos do que eu gostaria e muito menos do que seria necessário. Eu acho que o noticiário precisaria remeter mais ao país. O noticiário acaba sendo muito circunstancial, muito factual. Muito em termos dos eventos diários e muito pouco relacionado para que isso significa para o país. Na cobertura de economia, nas notícias de economia, você vê mais do que nas editorias de cidades, política, esportes. Eu acho que a editoria de economia tem isso mais positivo. Por exemplo, quando se fala de inflação se fala do Brasil, quando se fala na instabilidade da moeda se fala no Brasil, quando se fala de emprego e desemprego se fala no Brasil. Então, é interessante que a cobertura econômica tenha por natureza uma preocupação maior com o Brasil. Mas o noticiário político, que eu estou examinando, tem muito pouca preocupação em relacionar aquilo que está acontecendo com aquilo que é o país. O que aquilo significa? Aonde o país vai? O que o país foi? O que aquilo representa em termos das mudanças que estão ocorrendo no país?  Então, é um jornalismo muito pobre em termos de imagem de país, de formulação de uma representação de país, de uma narrativa sobre o Brasil. O que é o Brasil? Como ele deve ser? Como ele pode ser? Como ele é? E como ele deveria não ser? Enfim, o noticiário político está muito em termos de bastidores, de conchavos políticos, e acaba esquecendo que as pessoas que estão lendo querem saber o que aquele episódio significa para o país. Isso não está no noticiário de política. Está muito mais no noticiário econômico que no noticiário político.

L. S. – Você está estudando essa questão nos períodos dos mandatos Lula e Fernando Henrique Cardoso. Como a identidade nacional é representada nesse diferentes tempos?

L. M. – Eu não posso ainda te dizer. Não posso fazer uma comparação entre o Fernando Henrique e o Lula, porque eu ainda não cheguei lá na minha pesquisa. Mas é muito interessante como os políticos em geral utilizam a rememoração, como trazem a memória do passado para legitimar as suas ações e para mostrar como o futuro com eles será melhor. Um uso muito funcional, muito pragmático da narrativa, da memória, da história, da rememoração em função do que eles imaginam que são no presente e do que eles querem projetar como futuro do país. É um uso muito político, muito estratégico que o político faz da história, da nação, do passado e do que deve ser no futuro.

L. S. – Pode-se considerar o Brasil-nação como um personagem na narrativa jornalística?

L. M. – Não, a narrativa jornalística não tem muito o Brasil como personagem. Ela tem o Brasil como alguma coisa que está subentendida, mas o que importa é muito mais as pessoas da política, os políticos, os partidos, os conchaves políticos do que o país como nação. O país como algo que está sendo constituído nessas mudanças na política, o jornalismo deveria explicar isso; mas em geral não explica.

Foto: Leonardo Cortes – Acadêmico de Jornalismo.

Repórter: Laíssa Sardiglia – Acadêmica de Jornalismo.

Edição: Lucas Durr Missau.


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