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Pesquisadores da UFSM participam de projeto meteorológico internacional

Grupo de pessoas observa telas em uma estação semelhante a uma van, cheia de aparelhos tecnológicos
UFSM é uma das instituições brasileiras que participam com uma equipe no projeto internacional

Enquanto grande parte da população tenta se manter longe das tempestades severas, uma equipe formada por alunos e professores do programa de pós graduação em meteorologia da UFSM, em parceria com pesquisadores de universidades e centros de pesquisa brasileiros, argentinos e norte americanos, procura estar cada vez mais próxima dessas condições de tempo. Através do Projeto Relâmpago (sigla em inglês para ‘Detecção Remota de Processos de Eletrificação, Raios e Mesoescala/Microescala com Observações de Campo’), uma equipe internacional de pesquisadores  se dedica a observação e ao estudo de fenômenos climáticos severos na América do Sul.

O projeto, idealizado em 2012 pelo pesquisador norte americano Stephen Nesbitt, é financiado pela National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos, e traduz o interesse dos cientistas em entender como se formam as tempestades na América do Sul, principalmente no território localizado a leste da Cordilheira dos Andes, onde incidem algumas das mais severas tempestades do mundo, além de ser local com a maior ocorrência de granizo no planeta. Dessa maneira, desde agosto deste ano, um grupo de pesquisadores da Universidade de Illinois (EUA) se deslocou até acidade de Córdoba, na Argentina, onde, a partir da instalação de equipamentos de controle meteorológico, iniciaram a observação do clima regional. A atividade conta com a participação de pesquisadores da NASA, Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação da Argentina, Serviço Meteorológico Argentino, Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet) da Argentina, além do Ministério da Ciência da Província de Córdoba (Argentina).

Outras participações importantes vêm do território brasileiro. Os pesquisadores são financiados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e pela Universidade de São Paulo (USP) através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), além da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) que disponibilizou recursos de projetos e a utilização de instrumentos meteorológicos da instituição. No Brasil, a missão é estudar o crescimento e desenvolvimento das tempestades, que se formam no território argentino, depois de cruzar a fronteira com o Rio Grande do Sul. Para fazer essa análise, foram deslocados equipamentos de observação e controle meteorológico para a cidade de São Borja (RS), na fronteira com a Argentina, onde desde o dia 1º de novembro equipes de pesquisadores da UFSM, INPE e USP se alternam na coleta de dados sobre as condições climáticas do local.

O Projeto acontece a partir de duas etapas: a fase extensiva, que iniciou ainda no mês de agosto na Argentina, quando os equipamentos meteorológicos foram posicionados em locais específicos para que os primeiros dados relativos às condições climáticas passassem a ser registrados. Já a segunda fase, denominada intensiva, caracteriza-se pelo trabalho prático e experimental:  nessa etapa, os pesquisadores americanos e argentinos, bem como a equipe brasileira localizada em São Borja, tem a missão de sair a campo para observar os fenômenos climáticos pessoalmente. Nesse momento, através da utilização dos equipamentos meteorológicos, os cientistas conseguem prever, por exemplo, a ocorrência ou não de alguma tempestade severa, podendo,dessa forma, programar o lançamento de instrumentos de análise específicos, como o balão de radiossondagem, utilizado para registar dados referentes ao perfil atmosférico, como temperatura,umidade e vento.

De acordo com o meteorologista, pós-graduando em meteorologia da UFSM e membro da equipe brasileira de pesquisadores, Murilo Machado, quando as análises climáticas demonstram a possibilidade de ocorrência de alguma tempestade, a rotina de trabalho da equipe é intensificada. “Durante a ocorrência do evento severo, a equipe fica acompanhando as imagens de satélite e as imagens de radar, acompanhando as estações e vendo a evolução desse sistema. Aí entra o alerta de curto prazo, que é baseado na observação do momento. Além disso, quando temos a tempestade se aproximando, as radiossondagens passam a ser feitas em horários especiais. Ou seja, largamos um balão meteorológico antes da chegada da tempestade, outro durante a ocorrência do fenômeno e um posterior”, explica.

A fase intensiva do Projeto iniciou no dia 1º de novembro e se estende até o próximo dia 15,quando os equipamentos meteorológicos começam a ser desmontados.

Equipe da UFSM contribui na interceptação de tempestades vindas da Argentina

A participação da UFSM no projeto é marcada por um grupo formado por quatro alunos do programa de pós-graduação em meteorologia orientados pelo professor e coordenador regional do Projeto Relâmpago, Ernani de Lima Nascimento. A equipe de estudantes da Instituição que atua em São Borja conta com a participação de Carolina Kannenberg, Murilo Machado Lopes, Patrícia Feldhaus e Vanessa Ferreira, que está acompanhando as atividades desenvolvidas pelo Projeto na cidade de Córdoba desde o início do mês de outubro.

O balão meteorológico é um dos instrumentos utilizados nas observações de tempestades pela equipe em São Borja-RS.

Em São Borja, durante o período de 45 dias de atividades intensivas, os pesquisadores produzem análises climáticas a partir da utilização de equipamentos capazes de realizar a medição do tamanho de gotas de chuva e do campo elétrico das tempestades, os balões meteorológicos de radiossondagem, além de radares meteorológicos, estações meteorológicas de superfície e de instrumentos de detecção do tamanho das pedras de granizo, os chamados ‘hailpads’.

De acordo com o professor Ernani, a equipe da UFSM esteve em São Borja durante 15 dias. A experiência aconteceu em dois períodos diferentes já que a ideia é que ocorra um “rodízio” na observação dos fenômenos entre todos os pesquisadores que participam do Projeto. Para o desenvolvimento das atividades, o fase brasileira, conta com o auxílio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) com sede em São Borja, da base local da Universidade do Pampa (Unipampa) e do Instituto Federal Farroupilha (IFF) de São Borja. Para realizar as análises, o destacamento do Exército Brasileiro que atua na região cedeu aos pesquisadores o espaço necessário para a instalação das estações meteorológicas.

Em relação a análise realizada na cidade gaúcha, Murilo comenta que a interceptação das tempestades que vem da Argentina e que chegam ao Brasil é importante pois, depois de cruzar a fronteira, o fenômeno já está em uma fase de maturação e decaimento, podendo apresentar uma menor intensidade de força, diferente do padrão inicial das tempestades. “Na Argentina eles têm alguma influência dos Andes, e um dos focos do Projeto Relâmpago é entender qual o papel da Montanha na formação das tempestades. Mas aqui estamos muito longe dos Andes, ou seja, há outras coisas que ajudam a disparar as tempestades no Rio Grande do Sul e que a ideia do projeto em São Borja é identificar e observar com o auxílio das estações meteorológicas e dasradiossondagens que são feitas”, explica.

Previsão do tempo a curto prazo pode ajudar na prevenção contra tempestades

Outra atividade desenvolvida pelo projeto em São Borja é a previsão do tempo a curto prazo. De acordo com Ernani, o trabalho é essencial, pois a equipe responsável por realizar a previsão orienta as atividades de todos os outros grupos, informando sobre as possibilidades de ocorrerem ou não tempestades. A partir do alerta, é possível mobilizar as equipes responsáveis, por exemplo, pelo lançamento do balão de radiossondagem ou mesmo informar sobre a necessidade de preparação dos radares que acompanham os fenômenos severos.

A partir da previsão do tempo, é possível também emitir alertas que podem auxiliar na prevenção da sociedade. O projeto desenvolvido em São Borja trabalha de maneira integrada com a Defesa Civil local, justamente para testar a prática de previsão a partir do monitoramento em tempo real das tempestades.Dessa maneira, a partir detecção de um fenômeno severo a Defesa Civil é notificada e, assim, a possibilidade de agir de forma preventiva aumenta. “Conseguindo eficiência e resultados nesse trabalho, a ideia é que essa prática seja espalhada para os centros regionais de previsão que estão sendo montados no país em parceriacom o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTec), que é um órgão ligado a INPE. A meteorologia também está focada nessa parte social porque os modelos numéricos que usamos  para fazer a previsão do tempo estão sendo rodados nos computadores com uma resolução mais voltada no Rio Grande do Sul e também estão sendo testados. Isso vai influenciar em uma melhoria nesses modelos,o que também vai refletir em uma previsão do tempo melhor no futuro” explica Murilo.

Em relação participação daUFSM no Projeto, Ernani destaca a importância da experiência para as pesquisas desenvolvidas na Instituição. Segundo o professor a preocupação dos grupos em estudar tempestades que geram granizo,vendaval e chuvas no sul do Brasil ocorre há anos Dessa maneira, o interesse dos estudante em participar das atividades em São Borja foi imediato e essencial, principalmente pelo conhecimento dos alunos em relação aos fenômenos climáticos que ocorrem no território gaúcho. “Para o seguimento da nossa pesquisa é fundamental, porque não é sempre que nós temos todos esses instrumentos meteorológicos instalados, então temos a oportunidade de coletar alguns dados que, em condições normais, nós não conseguiríamos coletar.Isso vai dar origem a bastante trabalho no mestrado, no doutorado e até de conclusão de curso nos próximos anos”,analisa.

A contato entre os pesquisadores locados em São Borja e os cientistas que desenvolvem as atividades na Argentina, que ocorre diariamente através de videoconferências, foi fortalecido quando, no último dia 29, a equipe de estudantes da UFSM se deslocou até Córdoba para acompanhar o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores americanos e argentinos na região.Durante o encontro, que durou quatro dias, os pesquisadores puderam participar das atividades práticas e observações climáticas do território.

As atividades intensivas e de observação prática do Projeto Relâmpago em Córdoba e no Brasil encerram ainda no próximo dia 15 de dezembro. Entretanto, as análises externas e relacionadas ao território argentino acontecem até abril de 2019.

Reportagem: Bárbara Marmor
Edição: Davi Pereira
Fotos: Projeto Relâmpago