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Professor da UFSM homenageado na Feira do Livro de Santa Maria fala da importância do evento



Pedro Brum Santos em atividade na 46ª Feira do Livro de Santa Maria

O professor do Departamento de Letras Vernáculas do Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM Pedro Brum Santos é o Professor Homenageado da 46ª Feira do Livro de Santa Maria, que acontece até este sábado (11), na Praça Saldanha Marinho.

Pedro Brum Santos graduou-se em Letras-Português em 1985 pela Unifra (atual UFN), tem mestrado e doutorado em Linguística e Letras pela PUCRS, e pós-doutorado em Linguística, Letras e Artes pela USP. Entre 2010 e 2018, foi diretor do CAL da UFSM. Atualmente é professor do curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, com a Linha de Pesquisa Literatura, Comparatismo e Crítica Social.

Já teve diversos artigos publicados em periódicos, livros publicado, organizados ou reedições, entre outras numerosas produções bibliográficas. Além disso, é consultor da Capes/CNPq e tem grupos de pesquisa voltados à Literatura, História e Identidade.

Em 2012, foi Patrono da Feira do Livro de Santa Maria, e nesta edição é o Professor Homenageado. O professor coordenou o bate-papo no Livro Livre sobre Prado Veppo 20 anos: Vida e Poesia, no dia 3 de maio.

Confira a entrevista concedida à Agência de Notícias:

Qual sua expectativa para esta Feira do Livro?
Expectativa de uma grande Feira. Ela tem uma programação, como sempre, intensa, de muitos lançamentos de livros e participação forte da comunidade que escreve em Santa Maria e na região. Mas também uma programação paralela muito boa, entre as melhores programações que a Feira já conseguiu realizar, tem vários escritores com premiações nacionais, alguns até de circulação internacional, que vão estar presentes na Feira, participando de diversos momentos dessa programação que a Feira já tradicionalmente faz, como Livro Livre, atrações levadas até escolas, abertas à comunidade, algumas inclusive fora da praça, como no teatro e outros locais próximos, oficinas, workshops. Então realmente eu acho que nós vamos ter uma Feira diferenciada nesse sentido, de oferecer uma programação aberta e gratuita para comunidade, que é sem dúvida o forte diferencial desta feira de 2019.

Para o senhor, qual a importância de existir uma Feira do Livro em Santa Maria, uma cidade conhecida como Cidade Cultura?
Eu acho que a Feira cumpre um papel muito importante em Santa Maria para afirmar a cidade como pólo de produção de literatura. A programação da Feira tem mantido há alguns anos entre 90 a cento e poucos lançamentos, e isto é significativo, de autores que são fundamentalmente locais e regionais. Então eu acho que nesse sentido a Feira cumpre um papel importantíssimo, porque ela mantém a circulação de um sistema literário, tem um número significativo de autores que escreve e publica aqui na cidade, que tem suas obras circulando preferencialmente aqui na cidade ou na região. Esse lado, que é um institucional da literatura, ou seja, aquele que permite à literatura se colocar diante à comunidade, circular enquanto artefato, objeto, livro, tem na Feira um polo que é de fato fundamental. Faz muita diferença no conjunto de criação de literatura na cidade, estou falando porque a Feira trata de livros, mas diria até mais nas artes de modo geral, porque a Feira também reúne outras atrações, como teatro, dança, música, artes visuais, que estão sempre presentes na programação da Feira. Ela tem um papel central na vida espiritual e na criação literária em Santa Maria.

Esse ano o senhor assina uma reedição de Prado Veppo. De onde surgiu o interesse sobre autores santa-marienses?

Eu tenho um grupo de há mais de 20 anos na Universidade chamado Literatura, História e Identidade, que tem focado muito na identidade regional, e como sou professor de literatura e pesquiso literatura, foi bem natural chegar até os autores da região, às vezes eles são um pouco mais da macrorregião, ou seja, da Região Sul, mas muito assim locais, lá pelas tantas fui descobrindo que temos um conjunto bem significativo de escritores, poetas, memorialistas e historiadores, já de muito tempo e muitos deles deixaram obras importantíssimas que foram ficando para trás, se elas não são reeditadas e depois esgota a edição, você não tem mais acesso a esse material, a não ser indo a uma biblioteca, e às vezes até nas bibliotecas elas ficam raras. Então comecei a trabalhar profissionalmente com isso, ou seja, trazer essa preocupação para dentro da Universidade, montar um grupo de trabalho, e lá pelas tantas isso começou a acontecer. Tenho tido parcerias muito interessantes, a própria Editora da UFSM tem sido muito parceira deste trabalho. Este ano estamos reeditando Veppo diretamente em parceria com Editora, e eu acho que é um trabalho importante para comunidade, fico feliz de poder estar fazendo este trabalho e poder estar montando equipes, porque é um trabalho de equipe, para levar adiante isso. Já reeditamos vários autores, o Beltrão, João Daudt, Felipe de Oliveira, agora é o Veppo, e tem outros em vista mais pra frente. 

De onde surgiu esse amor pela Língua Portuguesa e pela Literatura?
É quase uma história de vida. Eu sou leitor desde pequeno, praticamente já em casa, desde quando alfabetizado. No primeiro momento, ainda não por formação, mas por desejo e por gosto pessoal, tentar comunicação social, trabalhei em rádio, fiz radiojornalismo, e sempre tive uma face, um pouco dessa coisa, algo cultural pro lado do livro, de leitura de obras, acompanhando isso. Quando fiz o Curso de Letras já se tornou sequência desse caminho na verdade, um pouco uma caminhada de vida, desde muito novo, desde muito jovem. Claro, depois que me formei em Letras, dei sequência e acabei professor, as coisas aumentaram, quer dizer, eu comecei a fazer isso como profissão mesmo, mas junta as duas coisas, quer dizer, junta isso que hoje é também, eu diria, algo parte da atividade profissional, com uma coisa que é muito de gosto pessoal, de uma certa propensão, de ter me achado muito entre os livros, e é muito bom porque também une as duas coisas, porque tem aqui uma parte que vem de uma história pessoal, particular, e passa por essas coisas de propensões e gostos, e lá pelas tantas você se vê fazendo isso também profissionalmente. Juntar interesses fazendo o que gosta, é claro, é uma realização pessoal

Como se sente em ser o Professor Homenageado?
Eu fiquei muito feliz, fiquei até surpreso, naturalmente, mas fiquei muito feliz mesmo. Eu ser homenageado duplamente pela Feira é uma coisa inimaginável para mim. A Feira tem lugar forte em Santa Maria, uma posição de destaque na comunidade, então ocupar esse posto e ter esse reconhecimento é muito importante na minha trajetória profissional, na minha história de vida pessoal. Eu fiquei muito feliz em poder voltar à Feira, estar na praça e poder falar mais até mesmo por essa minha condição de professor, por ser profissional da educação, que trabalha num curso de formação de professores, de poder estar próximo dessa comunidade, que é uma comunidade que vai muito à praça, que vai muito à Feira com seus alunos, com suas presenças, com seus projetos e tudo mais. Então, poder estar lá e de algum modo poder contribuir para o diálogo, para os debates que se apresentam na Feira, conversar com os escritores, conversar com os livreiros, conversar com o pessoal que trabalha no dia a dia com essas coisas é muito legal, é uma experiência muito gratificante. Eu sou muito grato pela escolha e sou muito grato pelas pessoas pelo reconhecimento. Mas também tem muita dívida com as pessoas que no dia a dia também trabalham com isso e de algum modo as coisas que a gente faz no nível acadêmico, na universidade, a gente tem que contar com uma rede, uma cadeia muito eficiente para multiplicar o pensamento e o conhecimento, eu acho que esses lugares nos ajudam também nesse sentido.

E nesse cenário atual de desvalorização do professor, como o senhor vê a homenagem ao professor na Feira do Livro?
Levei uma mensagem na abertura da Feira, uma mensagem de que nós temos que recuperar para a sala de aula espaço de confiança, esse espaço de concórdia, e até falei de amor e amizade. Hannah Arendt, que é uma grande pensadora, em uma de suas reflexões sobre educação, falou sobre o sentido da amizade em sala de aula, acho que essa confiança, esse respeito, ele precisa ser recuperado. Estamos realmente vivendo um
momento político e institucional extremamente hostil para as coisas que fazemos, sobretudo nas humanidades. Acaba de ser anunciado a intenção política de Estado de extinguir cursos de humanidades das grades de instituições públicas brasileiras. Acho que este é o momento de nós nos unirmos, nos aproximarmos e de algum modo fazermos as pessoas entenderem, na sociedade, da perenidade, da importância do nosso papel como educadores, mas não só como educadores, de transmissão do conhecimento, mas como educadores que podem dar de fato um exemplo para uma sociedade melhor, por um mundo melhor, a despeito de todo o lixo que tem circulado ultimamente em redes sociais, como manifestação de poder, inclusive discricionário, perseguidor. Acho que é muito importante nós recuperarmos essa respeitabilidade, essa importância do papel do educador na sociedade.

Qual a importância de existir feiras do livro nesse contexto de falta de incentivo à cultura?

Acho que a Feira resiste a estas questões. Ela é importante para contrapor essa desvalorização geral, eu já falei assim pelos livros, pelos produtores culturais, pelos livreiros, professores, etc, também porque ela é um espaço privilegiado para manifestações de arte em geral. Se nós olharmos a programação da Feira, tem audiovisual, tem teatro, tem dança, tem música e, claro, tem livro, tem escritor, naturalmente. Ela ocupa espaço público muito importante, se pensarmos na comunidade, e até geograficamente, ela está localizada no espaço muito importante, e funciona intensivamente nesse período, ela envolve muita gente da comunidade, muitas instituições, o poder público no sentido geral, Câmara de Vereadores, Prefeitura, empresariado, o comércio de Santa Maria tem um envolvimento, carinho e amor pela Feira. Então, eu acho que é um contraponto muito interessante, justamente para mostrar que ali, no meio da cidade, se tem a irradiação de um poder, eu diria que é um poder espiritual, daquilo que emana da arte, da literatura, e daquilo que nos toca como humanos mesmo. Um evento com a Feira é muito importante nesse momento para fazer contraponto para todo o resto que está aí, de certo modo.

Qual a importância das produções literárias nacionais, tanto no cenário local quanto no internacional? E quais as particularidades da nossa literatura?
Acho que a literatura sempre traz boas novidades. Nós nunca tivemos, como temos hoje, tantas plataformas de divulgação de arte no sentido geral, e mesmo de literatura, você tem acesso de modo digital a textos e eu acho que hoje existe caminho para vozes que antes você tinha menos consciência sobre elas, a despeito de você manter a literatura, que tem um aparato de alta cultura, de uma certa complexidade, quer dizer, essa ideia de autores que normalmente a escola trabalha, que constituem o cânone,  você também tem hoje outras formas de manifestação, outras vozes que se manifestam. Eu li há pouco uma tese sobre minificção ou miniconto, nós temos aqui de Santa Maria o Leonardo Brasiliense, que já publicou um livro premiado com um Jabuti, e agora está trabalhando minicontos. Então, assim, são outras formas de elaboração, são outras formas de circulação, eu acho isso positivo, eu acho que isso tem mudado muito o próprio conceito de Literatura, fica muito difícil você apontar nomes, por exemplo, de destaques, vejo assim que há muitas estratificações de produção, mas sem dúvidas que há muita gente produzindo, há muita coisa circulando e claro, estamos no meio desse turbilhão, fica difícil eu fazer um juízo melhor sobre isso. Mas a experiência também tem indicado que essa coisa de mais qualificado, menos qualificado, o que fica e o que não fica, o tempo sempre vai definir isso,e sempre foi assim na literatura, um autor como Machado de Assis recebeu muitas críticas na época em que surgiu, se cobrava muito dele, não se entendia direito que ele escrevia, o tempo depois depura. 

Texto: Ana Laura Iwai, acadêmica de Jornalismo, bolsista da Agência de Notícias

Foto: Assessoria de Imprensa da Feira do Livro

Edição: Ricardo Bonfanti


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