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UFSM concede o título de Doutor Honoris Causa ao professor Dermeval Saviani



O Centro de Convenções foi palco novamente, na tarde de quinta-feira (15), de uma cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa, que teve como agraciado o docente e pesquisador Dermeval Saviani, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ao conceder esse título, a UFSM o homenageia por sua extensa obra, a qual abrange áreas como pedagogia, história da educação, filosofia da educação e políticas educacionais.

A entrega do título foi proposta pelo Colégio Técnico Industrial de Santa Maria (Ctism), tendo sido aprovada pelo Conselho Universitário. Por isso, na mesa da solenidade, juntamente com o homenageado e o vice-reitor Luciano Schuch, estavam dois representantes do colégio: o seu diretor, Rafael Adaime Pinto, e a coordenadora do Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica, Cláudia Smaniotto Barin.

Ela foi a primeira a manifestar-se na cerimônia, abordando com brevidade a trajetória de Dermeval Saviani. Natural da cidade de Santo Antônio da Posse (SP), ele graduou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mesma instituição pela qual concluiu o doutorado em Filosofia da Educação. A sua formação inclui ainda a livre-docência na Unicamp e estágio sênior na Itália.

Em seu discurso, Dermeval Saviani abordou a atual conjuntura do país

Ele é pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenador do HistedBR – Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil. Embora tenha sede na Unicamp, o HistedBR tem grupos de trabalho espalhados por diferentes estados brasileiros.

“Aos 75 anos, o professor exerce incontestável influência na formação de educadores das universidades e do Brasil, comprometidos com a defesa da democracia e da educação, através dos postulados da sua pedagogia e história crítica, que consideram o conhecimento e o saber escolar como patrimônio da humanidade, a serviço de sua própria emancipação”, afirma a professora.

Nos últimos anos, Dermeval desenvolveu uma estreita relação com o Ctism, particularmente com o Kairós – Grupo de Pesquisas e Estudos sobre Trabalho, Educação e Políticas Públicas. Por esse motivo, vem semestralmente à UFSM, participando de reuniões, orientações e atividades afins junto ao Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica.

Em sua manifestação, o diretor do Ctism reverenciou as obras de Saviani: “sempre com visão humanista da educação, sempre respeitando as diversidades, as características do indivíduo e principalmente as transformações históricas desse processo educacional, e que são referências a todos os trabalhos voltados à educação profissional.”

Logo após, o homenageado levantou-se para o ritual em que lhe foi vestido o traje talar, o que foi concluído quando o vice-reitor pousou sobre a cabeça de Saviani um capelo de cor roxa, a qual simboliza a área da educação.

Ao iniciar o seu discurso, Dermeval destacou que a sua relação com a UFSM remonta há quase quatro décadas. Listou então algumas de suas colaborações com a instituição, incluindo a participação em congressos e a assessoria para a criação do curso de Doutorado em Educação da UFSM, que foi implantado em convênio com a Unicamp. Ele atuou como coordenador do convênio e professor do curso. 

Depois dessa introdução, o seu discurso tratou da conjuntura atual do país. Um dos seus alvos foi o movimento que provocou o impeachment de Dilma Rousseff.

“A expectativa de termos atingido a consolidação de nossa democracia não resistiu a 13 anos, e foi ela novamente golpeada. Desta vez, não com recurso às forças armadas, com apoio da CIA, a agência central de inteligência dos Estados Unidos. Agora a estratégia mudou, na direção da desestabilização, seguida de destituição por via parlamentar de governos populares, configurando a estratégia da guerra híbrida, que prescinde de tanques e canhões, mas conta com o apoio de elementos internos estrategicamente colocados no poder Judiciário para realizar um trabalho que antes era feito pelos militares.”

“É nesse contexto que se consumou, em 31 de agosto de 2016, o golpe mediante o qual o Senado Federal destituiu da presidência da República Dilma Rousseff, reeleita democraticamente em um pleito disputadíssimo. Ao desrespeitar a Constituição, depondo uma presidenta sem a tipificação do crime de responsabilidade, quebrou-se a institucionalidade democrática, abrindo-se as portas para toda sorte de arbítrio, com constantes violações dos direitos dos cidadãos. Encontramo-nos, pois, em um verdadeiro estado de exceção, evidenciado por diversos fatos que não tenho tempo de arrolar aqui.”

De acordo com ele, o ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier de Olivo, falecido em 2017, foi “a primeira vítima fatal provocada por essa escalada de arbítrio que tomou conta do país”. “Foi ele levado ao suicídio por uma prisão injusta, sem provas, diante de uma acusação sobre fato que sequer ocorreu em sua gestão.”

O governo Bolsonaro foi outro alvo das críticas de Saviani. Afirmou ainda que Lula foi preso sem provas.

“O grupo que arrebatou o poder por meio do golpe de 2016 logrou legitimar-se nas eleições de 2018, caracterizadas por uma dupla fraude. A primeira fraude foi a exclusão da disputa, por meio de condenação sem provas, do candidato que tinha a preferência majoritária da população. E a segunda fraude: uma enxurrada de notícias falsas despejadas nas redes sociais pelo aplicativo Whatsapp. Consumou-se assim o suicídio da democracia, pois as próprias instituições ditas democráticas golpeiam o estado democrático de direito pela ação articulada da grande mídia, do parlamento e do Judiciário.”

“Os adeptos do conspirantismo beligerante tomaram de assalto o Estado e se empenham diuturnamente em destruir o país, desmontando as políticas públicas, buscando criminalizar os movimentos sociais e culturais, levando à falência as grandes empresas nacionais, vendendo a preços vis as empresas estatais, em suma, desqualificando as forças progressistas e, especificamente, desfechando ataques contra as universidades públicas, as instituições científicas e os trabalhadores da educação.”

O vice-reitor Luciano Schuch finaliza o ritual de colocação do traje talar pousando o capelo sobre a cabeça do homenageado

Saviani rebateu ainda as acusações de que as universidades e escolas fazem doutrinação e proselitismo de esquerda.

“Embora os atuais governantes nos acusem de fazer proselitismo e doutrinação nas escolas e universidades, o contrário é o que ocorre. Ou seja, nós, do campo crítico-progressista, aqueles que se classificam como sendo de esquerda, nós não precisamos doutrinar, pois temos a verdade do nosso lado, consoante o lema ‘a verdade é sempre revolucionária.’”

Terminado o discurso de Dermeval, o vice-reitor iniciou a manifestação de encerramento da solenidade. De acordo com Schuch, o professor homenageado deu “uma aula de cidadania”.

“Professor Saviani, esse auditório lotado mostra que a sua trajetória impactou a vida de muitas pessoas, e esta homenagem que estamos fazendo hoje engrandece muito a nossa universidade”

Schuch prosseguiu com as críticas a Bolsonaro, seus aliados e suas políticas para a educação.

“Não podemos aceitar de forma nenhuma que forasteiros venham à nossa cidade e critiquem a UFSM e queiram comparar o orçamento da UFSM com o orçamento de Santa Maria. Isto mostra um total desconhecimento das instâncias públicas, porque a UFSM não é de Santa Maria, não é de Frederico Westphalen, não é de Palmeira das Missões e também não é de Silveira Martins, onde temos as nossas sedes. A UFSM está aqui para prestar um serviço para a nação brasileira.”

“Quando o presidente brasileiro ataca o diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), um dos cientistas mais renomados do nosso país e do mundo, ele está desqualificando o trabalho de cada uma das pessoas que estão dentro desse auditório, dos nossos cientistas.”

Da mesma forma que Saviani, o vice-reitor rejeitou a acusação de que nas universidades se faça doutrinação de esquerda.

“Quando uma universidade questiona o status quo, questiona o modelo de desenvolvimento e pensamos no cidadão que está passando fome, muitos nos acusam de comunistas. Não somos comunistas. Queremos o bem-estar para a população brasileira. Nunca vamos aceitar pessoas morrendo em filas de hospitais. Nunca vamos permitir, calados, ver a população passando fome”

“Quando tivermos um pensamento hegemônico dentro de uma universidade, seremos qualquer coisa, menos uma universidade. Quando tivermos uma escola sem partido, não seremos mais escola. Conteúdo não muda uma nação. O que muda a nação são cidadãos transformadores lutando por um país melhor.”

Após a cerimônia, Dermeval Saviani ainda proferiria no mesmo local a palestra “Educação, prioridade nacional no Brasil? Análise histórica e situação atual”.

Texto e fotos: Lucas Casali



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