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A universidade como universo: JAI coloca em pauta a política linguística

O tema foi abordado pela professora Eliana Sturza na terça-feira (23), em conferência via Youtube



Projeto Santé pour Haiti debate o SUS com estudantes haitianos: exemplo de como as trocas culturais ajudam a construir o “universo” da UFSM

A política linguística foi tema da conferência da professora Eliana Sturza na 36ª Jornada Acadêmica Integrada (JAI) na tarde de terça-feira (23), transmitida no canal do evento no Youtube. Professora do Departamento de Letras Estrangeiras e Modernas da UFSM há mais de duas décadas, ela compartilhou sua experiência e conhecimento na teoria e na prática da política linguística – campo das ciências da linguagem com teor multidisciplinar, isto é, que se relaciona com políticas públicas, educação, geopolítica, dentro outras áreas, a fim de incentivar a pluralidade do ensino das línguas. Em sua palestra, a docente ressaltou como a UFSM se beneficia com o tema, pois com isso a instituição se torna mais internacional, ou seja, receptiva e acolhedora a estudantes de diversas culturas que vierem estudar na universidade.

Passado e presente – A professora Eliana conta que se aprofunda no assunto desde 2002, na época do doutorado. Em 2018, quando a UFSM aprovou a resolução que institui a Política Linguística, ela estava presente nas discussões. De lá para cá, Eliana afirma que ainda está sendo debatido como será de fato a implementação dessa política. Em sua apresentação na JAI, ela fez um retrospecto dos avanços e retrocessos de todo esse processo ao longo dos anos. Por exemplo, a UFSM já chegou a ter curso de Licenciatura em Francês, porém ele foi extinto, após a disciplina desse idioma perder espaço nas escolas. O mesmo ocorre com a língua espanhola, a qual não é mais obrigatória na grade curricular dos colégios no Brasil, o que acarreta diretamente a evasão de alunos do curso de Letras/Espanhol da universidade.

Eliana Sturza foi a palestrante

Segundo Eliana, uma das causas desses acontecimentos é o fato de a língua inglesa receber um papel predominante no ensino, pois é a língua em comum das pessoas no mundo globalizado. Mesmo assim, ela alega que a procura e o interesse de estudantes por outras línguas não sumiu, citando o programa Idiomas sem Fronteiras (IsF) como um dos avanços da política linguística dos últimos tempos na instituição. Um dos dados apresentados prova isso: em 2019, houve 3.280 inscritos nas seis modalidades de idiomas ofertadas (inglês, italiano, francês, alemão, espanhol e português para estrangeiros). Sobre toda essa demanda, ela explica que “os estudantes da universidade estão procurando agregar a língua estrangeira na sua formação, como um diferencial. Faz parte da formação de um profissional que está sintonizado com o mundo globalizado, diverso e interconectado”.

Além disso, a professora acredita que quem tem contato com outro idioma em sua cidade ou família possui uma certa sensibilidade e abertura para conhecer melhor a língua. Como ocorre na região da Quarta Colônia, perto de Santa Maria, onde crianças têm contato com a língua italiana ou alemã desde o nascimento, algo que as familiariza na aprendizagem. “É um conhecimento em potencial que deveríamos trabalhar, acolher e considerar para aprimorar a proficiência desses alunos”, complementa.

Riqueza cultural – A riqueza cultural advinda dos alunos na UFSM é algo que chama atenção para a política linguística. A presença de haitianos, senegaleses e indígenas das etnias guarani e kaingang, dentre outros, fomenta as trocas culturais e torna a universidade um “universo”. Para Eliana, esses movimentos de pluralismo linguístico vêm avançando desde a década de 90. Se por um lado há a globalização, com grandes potências econômicas agrupadas e influentes na geopolítica, há na contramão manifestações em prol das línguas minoritárias, em busca de valorização e de um lugar nesse espaço diverso. “São etnias produtoras de literatura, gramática e dicionários, agregando mais línguas nesse quadro multilíngue chamado mundo”, salienta.

Internacionalização – Dessa forma, a Política Linguística coloca a UFSM numa discussão adequada e oportuna para a sua internacionalização. Segundo a professora, é preciso pensar em como as pessoas vão ter proficiência de línguas, tanto para receber pesquisadores, alunos estrangeiros e missões de estudos, quanto para publicar e divulgar conhecimento científico e suas produções intelectuais. “Uma universidade, hoje, para se internacionalizar, precisa ter acesso às línguas. Estabelecer convênios e buscar financiamentos externos, tudo isso passa pelo saber negociar, saber articular, usando a língua do outro ou vice-versa. Não há outra forma que não seja essa”, acrescenta.

Daqui para frente – Quanto ao futuro da Política Linguística na UFSM, a professora Eliana ressalta algumas mudanças necessárias para o seu desenvolvimento. Um problema que ela enxerga é a exigência da proficiência em língua estrangeira para um aluno de pós-graduação, mesmo quando ela não tenha sido ofertada a ele ao longo da graduação. “Se o estudante não pode pagar um curso de idiomas fora da universidade, como ele fica?”, questiona. Para solucionar essa questão, ela acredita que um centro de línguas, de formação complementar à graduação de todos os discentes, como há em outras instituições, ajudaria.

Para ela, quanto mais um aluno souber, mais ele amplia a capacidade de trocas culturais, de expandir sua formação cultural. Igualmente, aprenderá uma cultura, uma literatura, um modo de pensar, um modo de se relacionar. “Aprende a ser um sujeito mais flexível, mais adaptável, isso é um grande passo na formação”, frisa Eliana. A professora também considera relevante preservar o fluxo linguístico da universidade, ao torná-la também um espaço para expor manifestações de línguas e organizar momentos de troca culturais, onde pode-se trabalhar com a bagagem que estudantes trazem consigo. “Com isso, esses estudantes de fora podem se sentir mais acolhidos e integrados ao contexto universitário, o qual não vai achá-los estranhos, mas, sim, parte desse universo. Aí está a troca, a riqueza”, finaliza.

Texto: Gabrielle Pillon, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias

Edição: Lucas Casali

Imagens: Trecho do documentário “Migrar não é Delito” (2019, TV Campus UFSM) e Arquivo Pessoal

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