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				<title>Cigarro eletrônico faz mal? Entenda os impactos à saúde e os riscos de dependência </title>
				<link>https://www.ufsm.br/2026/05/26/vape</link>
				<pubDate>Tue, 26 May 2026 11:02:00 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[divulga ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[cigarro eletrônico]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina UFSM]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[vape]]></category>

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						<description><![CDATA[Pesquisa desenvolvida por estudantes da UFSM aponta riscos respiratórios e reforça alerta sobre dependência em nicotina 
]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <figure>
										<img width="1024" height="712" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/05/estudo-arte-Vape-1024x712.jpg" alt="Imagem horizontal de uma mão segurando um cigarro eletrônico no fundo tem uma fumaça branca. Ao lado do aparelho tem textos com nomes de várias substâncias presentes em sua composição. O fundo é vermelho escuro." /><figcaption>Cigarro eletrônico pode conter mais de 2 mil substâncias em sua composição</figcaption></figure>
<p>Ainda na adolescência, Laura Giacetti teve contato com uma nova forma de consumir nicotina. Em 2017, aos 13 anos, experimentou pela primeira vez um cigarro eletrônico influenciada por amigos mais velhos que já utilizavam o dispositivo. Na época, o aparelho parecia algo moderno e inofensivo. “Eu achava aquilo super legal, descolado, sabe? E como era algo novo, ninguém falava muito dos riscos”, relembra.</p>
<p>O que começou como curiosidade rapidamente se transformou em hábito. Nos anos seguintes, passou a utilizar o cigarro eletrônico diariamente, até perceber que o consumo já havia se tornado uma dependência. Foi durante a pandemia de Covid-19 que ela identificou a gravidade da situação. Laura conta que priorizava a compra dos dispositivos sempre que tinha algum dinheiro disponível. “Eu dormia com ele embaixo do meu travesseiro para usar assim que eu acordava. Eu não saía de casa sem [o cigarro eletrônico] nunca. Foi aí que eu entendi que já não era algo normal, era realmente uma dependência”, relata hoje aos 22 anos.</p>
<p>O cigarro eletrônico já faz parte da realidade de uma parcela significativa dos adolescentes brasileiros. Dados da <a style="font-size: 1rem" href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/46172-consumo-de-cigarro-eletronico-cresce-entre-estudantes-de-13-a-17-anos">Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar</a> (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 29,6% dos estudantes de escolas públicas e privadas entre 13 e 17 anos afirmaram já ter experimentado. O levantamento aponta ainda que a exposição ao dispositivo é maior entre as meninas: 31,7% relataram já ter usado cigarros eletrônicos, frente a 27,4% dos meninos. </p>
<p>Apesar de populares entre os jovens, os cigarros eletrônicos têm comercialização, importação e propaganda proibidas no Brasil desde 2009, conforme a Resolução nº 46 da<a style="font-size: 1rem" href="https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2009/res0046_28_08_2009.html"> Anvisa</a>. Conhecidos também como <i style="color: #000000;font-size: 1rem">vape</i>, <i style="color: #000000;font-size: 1rem">pod</i> ou dispositivo eletrônico para fumar, os aparelhos funcionam por meio do aquecimento de um líquido que contém principalmente nicotina, frequentemente em altas concentrações, propilenoglicol, glicerina vegetal, aromatizantes e metais pesados como níquel, estanho e chumbo. Ao ser aquecido, esse líquido cria um aerossol tóxico que contém substâncias cancerígenas quando inaladas, equivalendo, em alguns casos, a mais de 20 maços de cigarro comum. </p>
<p>Segundo o pneumologista Paulo Correia, ex-coordenador da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, as substâncias químicas presentes nos cigarros eletrônicos reagem entre si durante o aquecimento, formando compostos tóxicos capazes de provocar inflamações severas nos pulmões. Entre essas substâncias estão compostos carbonílicos e derivados químicos associados a doenças respiratórias graves. </p>
<figure>
										<img width="1024" height="712" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/05/Info-arte-Vape-1024x712.jpg" alt="Imagem horizontal de uma montagem com fotos de um pulmão, na frente uma mão segurando um cigarro eletrônico ao redor tem fumaça branca sobre um fundo vermelho." />											</p>
<figcaption>Uso de cigarros eletrônicos pode causar danos pulmonares graves<br />
</figcaption>
</figure>
<h3><strong>Indústria do vape usa sabor, design e redes sociais </strong></h3>
<p>Para a doutora em saúde pública Cristina Perez, coordenadora técnica da  organização <a href="https://actbr.org.br/">ACT Promoção da Saúde</a> o avanço desses dispositivos entre adolescentes reflete estratégias históricas da indústria do tabaco para atrair novos consumidores. Segundo Cristina, o vape é apresentado de forma enganosa como produto menos nocivo, enquanto utiliza elementos voltados ao público jovem, como sabor doce, design tecnológico e divulgação em redes sociais.</p>
<p>Fora do Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que esses produtos estão alimentando uma nova geração dependente de nicotina, com milhões de adolescentes usuários no mundo. Cristina também avalia que, embora a comercialização dos cigarros eletrônicos seja proibida, a fiscalização ainda é insuficiente. A venda irregular em redes sociais, o comércio informal e a entrada ilegal dos dispositivos no país ajudam a ampliar o acesso. O que representa um alerta para a saúde pública. </p>
<p>Na vida de Laura, esse alerta surgiu quando os impactos do fumo começaram a afetar sua saúde respiratória. Antes acostumada a uma rotina ativa e à prática de esportes, ela conta que passou a sentir dificuldades até mesmo em atividades simples do dia a dia após o uso diário do cigarro eletrônico. “Eu sempre fui uma pessoa muito ativa, que gosta muito de esporte. Nunca tive nenhum problema, mas depois que comecei a usar o vape todo dia, senti uma dificuldade muito grande para respirar. Só de correr um pouco já ficava super ofegante”, relata. Segundo Laura, mesmo após interromper o uso do dispositivo, parte das consequências respiratórias ainda permanecem. “Hoje em dia isso nunca melhorou”, afirma.</p>
<p>De acordo com Paulo, os sintomas de doenças respiratórias relacionadas ao uso do cigarro podem surgir após poucas semanas de utilização e variam conforme o organismo de cada pessoa e o tipo de produto utilizado. “É como se fossem múltiplas inflamações dentro do pulmão”, explica. Essas lesões podem atingir tanto a região responsável pela respiração quanto provocar formação de bolhas pulmonares com danos permanentes. </p>
<p>O pneumologista afirma que os sintomas mais comuns incluem tosse, febre, dores no peito e falta de ar. Em casos mais graves, os pacientes podem precisar de ventilação mecânica, apresentar sequelas respiratórias permanentes e até necessitar de transplante pulmonar. Segundo ele, exames como tomografia e espirometria ajudam a identificar alterações inflamatórias e danos causados pelo uso contínuo do vape. </p>
<h3><strong>Pesquisa da UFSM alerta para danos respiratórios </strong></h3>
<p>Pesquisadores do curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) têm investigado os impactos do uso de cigarros eletrônicos na saúde respiratória. Em um artigo publicado neste ano, estudantes da instituição analisaram estudos sobre a EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos e vaporizadores. A condição ganhou atenção internacional após centenas de casos de internações relacionadas ao uso de vape, especialmente entre jovens.</p>
<p>O estudo, intitulado <a href="https://revista.scientificsociety.net/wp-content/uploads/2026/04/Art.ID_.1273.pdf"><i>Lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico e vaporizadores (EVALI): uma revisão narrativa</i></a>, aponta que os dispositivos eletrônicos liberam aerossóis tóxicos. Segundo os pesquisadores, os sintomas da EVALI podem incluir tosse persistente, dor no peito, febre, fadiga e dificuldade respiratória progressiva. Em muitos casos, os sinais se confundem com outras doenças pulmonares, o que dificulta o diagnóstico.</p>
<p>Além dos danos pulmonares, o estudo aponta que a exposição contínua à nicotina presente nos dispositivos eletrônicos pode causar dependência intensa e rápida, especialmente entre adolescentes. Os pesquisadores destacam que adolescentes estão mais vulneráveis aos efeitos da nicotina, já que o cérebro ainda está em desenvolvimento nessa faixa etária, favorecendo a consolidação da dependência. </p>
</p>
<p>							“A indústria do tabaco sempre foi um lobo. Agora tenta vestir a pele de cordeiro”,<br />
														pneumologista Paulo Correia, <br />ex-coordenador da Comissão de Tabagismo da <br />Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia</p>
<h3><b>“A melhor coisa que fiz na minha vida foi não usar mais o vape.” </b></h3>
<p>Em 2023, Laura, que hoje trabalha como influenciadora digital, <a href="https://vt.tiktok.com/ZS9sjxsDw/">publicou um vídeo</a> nas redes sociais relatando sua experiência ao abandonar o uso de cigarros eletrônicos. No conteúdo, ela incentiva seguidores a deixarem o vício. Atualmente, a publicação já ultrapassa 100 mil visualizações.</p>
<p>Nos comentários, usuários relatam experiências semelhantes às vividas por Laura e compartilham dificuldades relacionadas à dependência e aos impactos na saúde. “Quero muito parar, estou tendo muita dificuldade em respirar”, escreveu um internauta. “Hoje em dia eu só fumo o <i style="color: #000000;font-size: 1rem">pod </i>se [sic] eu estou sem cigarro. Não tenho muito vício em si no <i style="color: #000000;font-size: 1rem">pod</i>, mas no cigarro sim. Tô tentando parar e vou conseguir. Hoje eu decidi de vez não fumar mais”, comentou outro usuário na publicação. </p>
<p>Parar de usar o cigarro eletrônico, no entanto, não foi um processo simples para Laura. Conforme a influenciadora digital, um dos maiores desafios foi romper com os hábitos criados ao longo dos anos e se afastar de pessoas que continuavam incentivando o uso do <i style="color: #000000;font-size: 1rem">vape</i>. “Eu me afastei de muitas pessoas, de muitos ‘amigos’. Me afastei de quem usava e não respeitava minha decisão de parar, porque quem realmente se importa com você quer te ver bem”, conta. </p>
<p>Laura relata que passou a pesquisar mais sobre os impactos do <i style="color: #000000;font-size: 1rem">vape</i> na saúde e se impressionou com imagens e relatos sobre os resíduos produzidos pelos aparelhos. “Quando eu vi de verdade os efeitos, me deu um nojo inexplicável. Lembro de ver uma foto de um líquido amarelo escuro que sai do vape e pensar que aquilo estava dentro do meu corpo”, recorda. Depois de um episódio de falta de ar que a levou ao hospital, ela decidiu abandonar o uso dos dispositivos. “O médico confirmou que era por causa do vape. Aquilo mudou tudo para mim. Joguei todos os meus vapes fora e nunca mais usei.”, relembra. </p>
<p>Para quem deseja parar de fumar <i>vape</i>, o pneumologista Paulo Correia recomenda buscar acompanhamento profissional. Ele explica que o tratamento mais eficaz envolve o desmame gradual da nicotina, associado a estratégias de reposição e medicamentos específicos utilizados no combate ao tabagismo. “Parar de fumar é possível, mas com acompanhamento médico o processo se torna muito mais seguro e eficiente”, ressalta.</p>
<p>O especialista também alerta para a desinformação disseminada nas redes sociais sobre os cigarros eletrônicos. Conforme o médico, a ideia de que o vape seria “apenas vapor de água” ajuda a normalizar o consumo entre jovens e reduz a percepção de risco. “A indústria do tabaco sempre foi um lobo. Agora tenta vestir a pele de cordeiro”, critica.</p>
<p><b><i>Texto:</i></b><i> João Victor Souza, estudante de jornalismo e estagiário da Agência de Notícias</i></p>
<p><b><i>Artes gráficas:</i></b> <i>Daniel Michelon De Carli, designer</i><i> </i></p>
<p><b><i>Edição:</i></b><i> Maurício Dias, jornalista</i><i> </i></p>

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													</item>
						<item>
				<title>Malawi: o coração afetuoso da África</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/malawi-coracao-afetuoso-da-africa</link>
				<pubDate>Thu, 01 Jul 2021 10:55:40 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Câncer]]></category>
		<category><![CDATA[cultura africana]]></category>
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		<category><![CDATA[voluntários]]></category>

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						<description><![CDATA[Médico e professor aposentado da UFSM conta sobre a trajetória como voluntário no país africano]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <img width="1024" height="674" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/07/Capa_Malawi-1-1024x674.jpg" alt="" loading="lazy" />														
		<p>De julho a outubro de 2018, o professor aposentado de Gastroenterologia do Departamento de Clínica Médica da UFSM Renato Fagundes trabalhou como voluntário na República do Malawi, país da África Oriental. A viagem se deu pelo consórcio AfrECC, um projeto realizado entre o National Institute of Health (NIH) e outros grupos, que identificaram crescente número nos casos de câncer esofágico entre a população malawiana. </p><p>O Rio Grande do Sul, juntamente com o Uruguai e o norte da Argentina, constituem a área de maior risco para esse tipo de câncer na América do Sul. Ciente disso, Fagundes sempre se dedicou ao estudo de tumores no esôfago, com mestrado e doutorado nessa área. O médico relatou à Revista Arco sobre as experiências e trabalhos desenvolvidos no país africano:</p><h3><strong>Povo de Malawi, crenças e costumes</strong></h3><p>Malawi é conhecido como <i>The warm heart of Africa,</i> que eu traduziria livremente por “o coração afetuoso da África”. Eu brincava constantemente dizendo que estava em busca de um um malawiano desagradável e não conseguia encontrá-lo. A afetividade e a disponibilidade em ajudar demonstrada pelas pessoas são muito grandes. Em geral, são pessoas bem-humoradas, um pouco tímidas no primeiro contato e, como a maioria dos africanos, extremamente musicais, caindo na dança por qualquer motivo.</p><p>É um dos países mais pobres e menos desenvolvidos do mundo. Foi colônia do Reino Unido até 1964. O idioma oficial é o inglês, porém uma significativa parte da população não se comunica nesse idioma, mas em alguns dos diferentes dialetos, dos quais o mais comum é o <i>chechewa</i>. A economia é baseada na agricultura, com a maior parte da população vivendo na área rural. O Malawi tem uma baixa expectativa de vida (ao redor de 50 anos), apresenta altas taxas de mortalidade infantil e uma alta prevalência de HIV/AIDS. O risco para doenças infecciosas é muito alto, incluindo hepatite A, febre tifoide, malária e <strong>esquistossomose.</strong></p><h3><strong>Lilongwe</strong></h3><p>Lilongwe é a capital de Malawi, situa-se na região central do país. Apesar de existir como cidade de pequeno porte há mais de 60 anos, adquiriu importância quando foi elevada à condição de capital, em 1975, quando passou a apresentar um aumento da população, que atualmente ultrapassa um milhão de habitantes. Nestes 43 anos de existência, Lilongwe é uma cidade em construção, com algumas vias asfaltadas e muitas ruas sem calçamento. A existência de calçadas para pedestres é quase nula. Os pedestres dividem os acostamentos das vias asfaltadas com ciclistas e com motoristas afoitos que invadem o acostamento colocando todos em risco. </p>		
									<figure>
										<img width="914" height="697" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/07/Mapa_Malawi.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Localização do Malawi no continente africano</figcaption>
										</figure>
		<p>É uma região árida e seca, nos meses de julho a outubro não chove e a poeira é uma constante. É uma cidade espalhada, com grandes intervalos sem construções, com iluminação e limpeza precárias, com muitas desigualdades, predominando pessoas de baixa condição social, econômica e cultural. Contrastando com a pobreza geral, existem construções públicas suntuosas como os prédios do parlamento, a residência do presidente, o banco central e as embaixadas, assim como o centro internacional de convenções e o estádio de futebol Bingu National Stadium. Apesar das desigualdades, a taxa de criminalidade é baixa e durante o dia é possível se mover em qualquer área da cidade em segurança.</p><h3><strong>Biópsias e próteses</strong></h3><p>O projeto funciona em dois contextos, um trabalho de campo, que visa a inclusão de pacientes com câncer esofágico, e outro de controles sem câncer. A abordagem inicial é feita através de questionários que visam identificar fatores de riscos, ambientais e familiares, seguidos de endoscopia digestiva alta nos pacientes com suspeita ou já diagnosticados previamente com câncer do esôfago. Nesses pacientes, são coletadas biópsias seguindo um protocolo padrão para todos os centros, e colocação de próteses metálicas expansíveis nos pacientes com obstrução esofágica, visando que eles possam deglutir. As biópsias vão ser alvo de identificação de marcadores moleculares para se formar um perfil molecular desses tumores. As próteses são uma inovação de origem chinesa, muito simples e de custo muito baixo, e estão sendo testadas nesses pacientes, aparentemente com bons resultados. Esse projeto é de longo prazo e envolve uma série de questões de pesquisa e de abordagens, com resultados previstos para os próximos cinco anos. </p><h3><strong>Kamuzu Central Hospital (KMC)</strong></h3><p>Fiz a opção para desenvolver o projeto em Lilongwe por ser a região mais carente de pessoal para a realização de exames e procedimentos endoscópicos e, de forma contrastante com o ambiente geral de carência, possuir uma unidade da UNC com laboratórios de ponta para a realização de análises moleculares e genômicas. O Kamuzu Central Hospital é um hospital terciário de referência em Lilongwe, tem em torno de mil leitos, mas muitas vezes sua capacidade é excedida pelo número de pessoas da região (aproximadamente cinco milhões) que estão em sua área de abrangência. A maior parte dos leitos é ocupada por pacientes com HIV/AIDS. Em 2017, aproximadamente 70% dos óbitos ocorridos no hospital foram causados por HIV/AIDS. Exerci minha atividade basicamente na unidade de endoscopia digestiva. Um hospital dessa dimensão tem apenas dois médicos habilitados a realizar exames endoscópicos, e ambos são cirurgiões gerais, também responsáveis pelas cirurgias do hospital. Além disso, uma vez por semana eles devem viajar para os distritos satélites de Lilongwe para executarem pequenas cirurgias, de forma a manter os pacientes nos hospitais distritais. Devido a essa sobrecarga, a realização de endoscopia digestiva fica restrita a duas manhãs por semana, e muito frequentemente, em virtude de alguma urgência cirúrgica, os exames endoscópicos são suspensos.</p>		
												<img width="1024" height="773" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/07/04-1024x773.jpg" alt="" loading="lazy" />														
												<img width="1024" height="767" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/07/05-1024x767.jpg" alt="" loading="lazy" />														
		<p style="text-align: center">Entrada do hospital. </p><h3><strong>Desafios na rotina de trabalho</strong></h3><p>A dificuldade inicial foi que, contrariando a norma mundial de se efetuar endoscopia digestiva com sedação, no KMC, por razões econômicas, as endoscopias eram realizadas sem que o paciente estivesse sedado. Foi preciso muito argumento para conseguir sedativos, que, depois de algum tempo, faltaram e não foram repostos. A essa dificuldade, se somaram as relacionadas a equipamento deficiente e falta de pessoal treinado para auxiliar nos procedimentos. A unidade dispunha de somente uma funcionária fixa, que era aposentada e participava de um programa de aproveitamento de aposentados com salário irrisório. </p><p>Um dos procedimentos relacionados à pesquisa incluiu o tratamento paliativo do câncer de esôfago avançado pela colocação de uma prótese metálica expansível através do tumor esofágico. É uma técnica que permite que o paciente possa deglutir e não venha a sucumbir pela fome e pela sede. Para a colocação dessa prótese, é necessário proceder a dilatação do tumor através da inserção de sondas de calibre progressivo, até se atingir um túnel adequado para se introduzir a prótese. Trata-se de um procedimento extremamente doloroso, que deve ser realizado sob sedação e analgesia. Na maior parte das vezes, os sedativos e analgésicos estavam em falta e tive de executar o procedimento sem sedação, surpreendentemente com pouca reação por parte dos pacientes. </p><p>O equipamento de endoscopia consta fundamentalmente de duas partes: o tubo que é introduzido no tubo digestivo do paciente e uma processadora que gera a iluminação no interior do órgão e processa a imagem para um monitor. A única processadora era mantida ligada por, literalmente, um “curativo” feito com gases e esparadrapo que mantinham pressionado o botão comutador do aparelho. Quando eu cheguei estava assim, e assim permaneceu até a minha partida. Sem contar com os frequentes “apagões” de energia elétrica, que podiam durar alguns segundos ou se prolongar por tempo indefinido. Muitas vezes, com o endoscópio dentro do paciente, ficava na dúvida se deveria retirá-lo e aguardar a vinda da luz ou esperar com o instrumento inserido até a volta da energia. Esses apagões aconteciam em média cinco a seis vezes por dia.</p>		
									<figure>
										<img width="1024" height="759" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/07/06-1024x759.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>“Curativo” que mantinha ligada a processadora do endoscópio.</figcaption>
										</figure>
		<h3><b>Quando a vida diz para deixar a infância</b></h3><p>Uma menina de 11 anos, vinda de um distrito distante, acompanhada da mãe, compareceu no dia aprazado para realização de endoscopia digestiva alta, indicada para esclarecimento de vômitos com sangue há dez dias. Não havia sedativos disponíveis. Explicamos a situação para a mãe e solicitamos que ela definisse um dia para o agendamento com o anestesista. A mãe, muito angustiada, disse que seria impossível voltar outro dia pois não teria dinheiro para a condução. Todo o dinheiro que dispunha tinha sido gasto nas passagens daquele dia. Expliquei, via intérprete (ela não falava inglês), os desconfortos do exame e as possíveis reações a esses desconfortos. Omiti minha angústia de realizar o exame em uma criança de 11 anos, a mesma idade de minha neta. A mãe conversou alguns minutos com a menina em dialeto <i>chechewa. </i></p><p>Depois de um diálogo permeado de temor e ansiedade, a mãe falou com a enfermeira que servia de intérprete. A tradução da enfermeira, seguida do olhar ansioso da mãe, foi que eu não só poderia, como deveria fazer o exame, garantindo que a menina suportaria os desconfortos com a menor reação possível. Considerando que a menina poderia sofrer outros episódios de hemorragia digestiva, tomei a difícil decisão de tentar o exame. Somente com um spray de xilocaína na garganta para reduzir o reflexo de vômito, iniciei o exame. A reação da menina foi mínima, fez uma arcada de vômito, na introdução do endoscópio, e permaneceu imóvel, com lágrimas escorrendo de seus olhinhos fechados durante o tempo que durou o exame. </p><p>A suspeita diagnóstica se confirmou. Ela apresentava varizes esofágicas de grande calibre e com sinais de sofrimento, o que significa risco de novos sangramentos. Para realizar o procedimento, é necessário retirar o endoscópio, montar o kit de ligadura elástica no endoscópio e reintroduzi-lo. A resposta da menina para nossa explicação foi um cerrar de dentes seguido de um balançar afirmativo da cabeça. Reintroduzimos o endoscópio com o kit de ligadura, que torna um pouco mais desconfortável a introdução. Houve a mesma reação do início do exame, seguido de lágrimas. Consegui colocar com sucesso cinco anéis nas varizes e completei o procedimento. Ao terminar, ela se abraçou à mãe e deixou vir o choro contido, soluçando convulsivamente, sem emitir nenhum som. Foi de cortar o coração.</p><h3><b>Jornada de uma mãe ao fundo de sua dor</b></h3><p>Este foi um dos fatos mais tristes que presenciei em minha vida calejada de médico. Uma criança de colo morreu no hospital. Uma enfermeira enrolou cuidadosamente seu corpinho inanimado em um lençol e o entregou à mãe, que estava sozinha. A mãe, num silêncio profundo que gritava aos corações de quem estava presente, colocou o pequeno fardo em seu xale, colocou-o em suas costas e iniciou sua jornada solitária para casa, distante quatro horas de caminhada. Confesso que me foi impossível reter as lágrimas ao ver aquela mãe afastando-se lentamente em direção ao seu destino, para enterrar sua carga física juntamente com a dor de sua alma.</p><h3><b>O que Malawi me acrescentou</b></h3><p>Sempre considerei a resiliência, a capacidade de adaptação e a tolerância como os pontos fortes de minha personalidade. Essas características foram testadas ao máximo em minha estada no Malawi. A carência de medicamentos e materiais limitando um trabalho adequado pode ser frustrante, mas é melhor fazer improvisando do que não executar a tarefa. Trabalhar com funcionários despreparados, e muitas vezes indolentes em situações delicadas, representou um grande esforço de autocontrole. Ao me sentir violentado por fazer procedimentos sem um mínimo de alívio do paciente aos meus cuidados, tive de me consolar que todo o sofrimento infligido por meus atos iria ser compensado pelos resultados decorrentes do procedimento. Acho que contribuí de forma significativa, tanto do ponto de vista científico quanto do ponto de vista humano e social, mas deixo os testemunhos de minhas ações em Malawi para os representantes das organizações, que promovem e patrocinam estas ações, com quem convivi.</p>		
									<figure>
										<img width="768" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/07/07-768x1024.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Ao lado de uma paciente.</figcaption>
										</figure>
		<section data-id="0d0f865" data-element_type="section"><p><em><strong>*Texto:</strong></em> Renato Fagundes</p><p><em><strong>Expediente:</strong></em></p><p><i><strong>Ilustrador:</strong> Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista</i></p><p><i><strong>Mídia Social:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes e Martina Pozzebon, estagiárias de Jornalismo<br /></i></p><p><i><strong>Edição de Produção:</strong> Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><i><strong>Edição Geral:</strong> Luciane Treulieb, jornalista</i></p></section>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Um olhar humanizado sobre a medicina</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/um-olhar-humanizado-sobre-a-medicina</link>
				<pubDate>Mon, 18 Feb 2019 18:14:24 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[jesus zevallos]]></category>
		<category><![CDATA[medicina humanista]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina UFSM]]></category>
		<category><![CDATA[plantas medicinais]]></category>
		<category><![CDATA[prevenção]]></category>

				<guid isPermaLink="false">http://coral.ufsm.br/arco/sitenovo/?p=5316</guid>
						<description><![CDATA[O médico peruano Jesus Zevallos conta sobre os 55 anos de trajetória na área da saúde]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <strong>ATENÇÃO: Esta matéria foi atualizada no dia 20 de fevereiro, às 15h43min devido a equívoco cometido no ano da formatura de Jesus Zevallos.</strong>

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<span style="font-weight: 400">Mesmo depois de 55 anos de formado, o ex-aluno da UFSM e médico Jesus Velarde Zevallos, leva consigo valores e aprendizagens que desenvolveu ainda no início de sua graduação, concluída em 1963. Após a formatura, Zevallos, que é natural do Peru, fez residência e especialização no Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.</span>

<img class=" wp-image-5320 alignright" src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/02/img328a-178x300.jpg" alt="" width="174" height="293" />

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<span style="font-weight: 400">No exercício da profissão, defendeu a medicina preventiva como fundamental para o bem estar e a qualidade de vida das pessoas. Além disso, Zevallos reforça a importância do desenvolvimento de uma relação próxima entre o médico e a comunidade, em uma prática humanizada. Ele também tece críticas à medicina como forma de negócio e ao consequente desenvolvimento de uma sociedade hipocondríaca. </span>

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<span style="font-weight: 400">A Revista Arco conversou com o médico durante sua visita a Santa Maria. Confira:</span>

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<b>ARC</b><b>O: Co</b><b>mo começou sua trajetória dentro da Medicina?</b>

<b>Zevallos: </b><span style="font-weight: 400">Me formei em 1963 com meus incríveis colegas de quem gosto muito. Devo ressaltar o Magnífico professor Mariano da Rocha Filho, uma pessoa e um trabalhador admirável, com muita planificação estratégica. Quando eu cheguei a Santa Maria, fomos recebidos por ele e foi uma honra para nós. Ele disse que seríamos grandes cirurgiões. Tudo o que ele falava passava uma imagem de segurança e de paixão. </span>

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<blockquote><span style="font-weight: 400">"A vida toda é paixão, se não se coloca paixão nas coisas, não se faz nada".</span></blockquote>
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<span style="font-weight: 400">Depois de graduado, fiz a residência no Instituto Nacional de Câncer do Rio de Janeiro. Voltando ao Peru, fiz a parte assistencial e a parte docente. Na assistencial, trabalhei com cargos como diretor do hospital e presidente de um corpo médico. Na parte docente, tenho um instituto de investigação. Damos um curso de técnica cirúrgica e fazemos trabalho de investigação.</span>

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[caption id="attachment_5318" align="alignleft" width="2976"]<img class="wp-image-5318 size-full" src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/02/MG_2480.jpg" alt="" width="2976" height="1984" /> Jesus Zevallos ao lado do quadro do fundador da UFSM, José Mariano da Rocha Filho[/caption]

<b>ARCO: Por que você escolheu a UFSM para estudar Medicina? Existe algo específico que lhe atraiu?</b>

<b>Zevallos: </b>Nós, quando chegamos ao Brasil, depois da seleção que tivemos na embaixada de Lima, tivemos que passar pelo Ministério da Educação. No Ministério, fizeram a distribuição. Vim para Santa Maria e me encantei com a cidade. Tive muito amor fraternal aqui dentro. Isso ajudou a formar meus valores éticos e morais de forma excelente. A vida vai nos dando oportunidades e não podemos perdê-las.

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<b>ARCO: Quais são as áreas que mais se destacam dentro da sua prática médica?</b>

<b>Zevallos</b>: Nós trabalhamos muito com o que se diz de prevenção. Hoje estamos lutando para que a prevenção seja declarada um direito humano, porque é o único procedimento da saúde capaz de controlar a pessoa saudável. O médico foi formado para cuidar o paciente são, e não somente o doente. Nós também solicitamos um projeto de lei chamado <i>Prevenção: responsabilidade compartilhada</i>, ou seja, a prevenção deve ser dada por todas as entidades de saúde e com a responsabilidade do paciente. Além disso, trabalhamos com muita ênfase na docência através do que chamamos de “novos paradigmas do ensino médico e da gestão de políticas de saúde”. O médico e o estudante de Medicina têm que estar em íntimo contato com a comunidade, não só com a universidade. Também focamos no uso das plantas medicinais. Elas não são curativas, mas ajudam em diversas coisas, o que conduz a um estilo de vida muito saudável.

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<b>ARCO: Você poderia falar mais sobre o a sua experiência no uso de plantas medicinais como tratamento?</b>

<b>Zevallos: </b>As plantas medicinais são o melhor tratamento que podemos fazer. É preciso haver um uso contínuo, não apenas esporádico. O uso das plantas medicinais tem que se tornar um hábito diário para que funcione. Não é uma medicina alternativa, é um tratamento alternativo. A medicina é uma só. Os médicos estão deixando que outras profissões se encarreguem do uso e do acompanhamento de tratamentos com as plantas medicinais, enquanto nos encarregamos só da medicina com o uso de remédios. No Peru, aprendemos que existem cuidados simples que podem prevenir diversos problemas, como lavar as mãos e a hidratação através da ingestão de líquidos.

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<blockquote>"O uso exagerado de medicamentos faz com que se crie uma sociedade hipocondríaca, então temos que lutar para que a medicina preventiva seja cultivada".</blockquote>
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<b>ARCO: Em textos que você escreveu, cita a </b><b><i>Medicina Humanista</i></b><b>. O que podemos entender a partir dela? </b>

<b>Zevallos: </b>Dentro do que estamos vivendo, ela não existe. A medicina é um negócio, e é uma tristeza dizer isso, mas é assim. Estamos submetidos ao que dizemos ser a evolução da ciência e tecnologia. O médico deve atender diversos pacientes por hora para haver produtividade - e isso deixa de ser humanista. A humanidade está na prevenção, que é o cuidado da pessoa sã.

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<blockquote>"Dentro da medicina humanista, precisamos ver o ser humano com integridade, não fragmentá-lo".</blockquote>
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Nós formamos a Sociedade Peruana do Ato Médico, porque acreditamos muito nisso. O ato se dá a partir da relação médico-paciente e do respeito com o paciente. Além disso, temos que dar respaldo ao núcleo familiar, pois quando alguém fica doente, isso desequilibra a família e, por isso, eles devem se manter sempre informados.

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[caption id="attachment_5319" align="alignleft" width="2976"]<img class="wp-image-5319 size-full" src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/02/MG_2438.jpg" alt="" width="2976" height="1984" /> Jesus Zevallos entregando presente para o reitor da UFSM, professor Paulo Afonso Burmann[/caption]

Jesus Zevallos esteve na Universidade, em dezembro de 2018, durante a comemoração dos 55 anos de formatura da sua turma de Medicina. Emocionado com a homenagem, ele agradeceu à Universidade, aos seus professores e colegas de turma. Para demonstrar sua gratidão, o médico entregou presentes típicos peruanos ao reitor. Também mostrou seu livro de poemas, que incluem textos sobre o tempo em que morou em Santa Maria.

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<b>Reportagem:</b> Martina Irigoyen, acadêmica de Jornalismo

<b>Edição: </b>Maria Helena da Silva

<b>Fotografia: </b>Rafael Happke

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