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				<title>"Que sejamos girassóis o ano todo": Selma Garrido Pimenta recebe o título de Doutora Honoris Causa</title>
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				<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 12:44:06 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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						<description><![CDATA[Honraria foi entregue no primeiro dia do II Seminário de Pedagogia da Região Sul ]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:tadv/classic-paragraph -->
[caption id="attachment_73882" align="alignright" width="632"]<a href="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/08/IC3A2300.jpg"><img class=" wp-image-73882" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/08/IC3A2300.jpg" alt="" width="632" height="422" /></a> Mojubá: Danças Populares Brasileiras realizou a abertura do evento[/caption]
<p><span style="font-weight: 400">O Centro de Convenções da UFSM é local de encontro de um evento relevante para a educação nos próximos dias, o </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.even3.com.br/ii-seminario-de-pedagogia-da-regiao-sul-713059/" target="_blank" rel="noopener">II Seminário de Pedagogia da Região Sul</a> - Pedagogia, política e democracia: desafios para o trabalho pedagógico. Realizado desta segunda (24) até quarta-feira (26), o seminário é um conjunto de ações entre o Centro de Educação (CE), a Rede Nacional de Pesquisas em Pedagogia (RePPed) e o Kairós – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Educação e Políticas Públicas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">O primeiro dia do evento começou com uma apresentação do grupo de extensão Mojubá, do Centro de Letras e Artes (CAL). O momento artístico fez referência às matrizes africanas, com danças religiosas e expressivas, e às festas juninas.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Então, o título de Doutora Honoris Causa foi entregue à professora Selma Garrido Pimenta, figura importante para a formação da educação brasileira. Selma, graduada na </span><span style="font-weight: 400">Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),</span><span style="font-weight: 400"> escreveu sobre didática, formação de professores e identidade docente. Foi na Universidade de São Paulo (USP) que se tornou professora universitária, pesquisadora e gestora. Ajudou a questionar modelos de ensino que reduzem o professor a um simples transmissor de conteúdos ou executor de técnicas, defendendo uma formação baseada na relação entre teoria e prática, na reflexão crítica e na valorização dos saberes construídos no exercício da docência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Quando recebeu o título, Selma leu uma passagem sobre girassóis: “que eles procuram a luz do sol, todos sabem. O que eu não sabia é que em dias nublados eles viram uns para os outros, buscando a energia de cada um. Não ficam murchinhos nem de cabeça para baixo. Olham uns para os outros, lindos. É a natureza nos ensinando. Se não tem sol todos os dias, temos uns aos outros. Que sejamos girassóis o ano todo”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Antes do início da cerimônia, a UFSM conversou com Selma Garrido Pimenta. Confira a entrevista:    </span></p>
<p><b>Por que a senhora escolheu estudar pedagogia? </b></p>
<p><b>Selma Garrido</b><span style="font-weight: 400">: Eu sou do tempo que a gente fazia Escola Normal. Estava terminando o curso de normalista, que era de formar professores para educação básica. Então, eu tive uma experiência que foi muito importante na minha vida, que deu uma virada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Nós fazíamos estágio nas escolas próximas. E eu fui um dia chamada pela diretora para assumir uma turma de quarto ano primário de meninos, porque tinha faltado uma professora. E como eu era boa aluna, fui lá toda “pimpona”, de uniforme. Cheguei lá, tomei um banho, porque a meninada começou a fazer bagunça. Durante três horas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Quando terminou, eu voltei correndo e chorando para a Escola Normal. Falei para a coordenadora: “vou acabar aqui, não vou terminar a escola normal, porque eu não sirvo para ser professora”. Eu tive um susto, eu estava aos prantos. Aí ela me acolheu, era o final do terceiro ano, um mês antes de terminar para receber o diploma. Ela disse: “olha, eu acho que tudo bem você não querer ser professora. Mas você vai terminar o curso, porque são seus irmãos mais velhos que estão pagando a sua escola”. Aquilo me deu aqui uma coisa. “Segunda coisa, você vai dar aula o ano que vem, depois você decide. E a terceira coisa, você vai prestar um vestibular, e vai fazer o curso de pedagogia”, a coordenadora falou. Eu nem sabia direito o que era vestibular, porque isso era em 1961. Aí lá fui eu, na PUC, prestar o vestibular. Aí eu descobri, fui descobrindo aos poucos o que era a pedagogia. E eu me identifiquei bastante </span></p>
[caption id="attachment_73883" align="alignleft" width="377"]<a href="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/08/IC3A2707.jpg"><img class=" wp-image-73883" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/08/IC3A2707.jpg" alt="" width="377" height="566" /></a> Selma defende uma formação baseada na relação entre teoria e prática[/caption]
<p><b>A senhora acredita que sua primeira experiência na sala de aula, que foi um susto, te incentivou a estudar sobre a formação dos professores e sobre a didática no futuro? </b></p>
<p><b>Selma Garrido</b><span style="font-weight: 400">: Depois que eu dei aula, um ano, alfabetizando comecei a me encantar pelo curso. </span><span style="font-weight: 400">Também nós tínhamos um movimento estudantil, era período da ditadura, e a gente convivia com muitos estudantes de várias áreas, na própria Universidade. Eu também fazia parte de um grupo da Teologia da Libertação, que era a JUC, Juventude Universitária Católica. E eram uns pares progressistas, e nós tínhamos um pertencimento, uma relação muito intensa com as populações mais pobres, com escolas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Então, isso foi também trazendo essa consciência de que a educação é um direito, uma boa educação, todas as crianças têm que ter. Então, fui criando esse compromisso com a área da educação.Depois eu assumi minha atividade profissional como professora na Educação Básica, e comecei a sentir falta de estudar mais. Então, eu fui fazer a pós-graduação, Stricto Sensu, que a gente chama. Fiz o mestrado, depois o doutorado, e isso foi me dando cada vez mais um embasamento para poder compreender a origem das desigualdades escolares, educacionais, e compreender a importância do trabalho dos professores. Aí que eu caminhei para essa área da pesquisa, fiz várias pesquisas na USP, como professora. </span></p>
<p><b>Existe uma distância entre o que os professores aprendem na universidade e o que é a realidade? </b></p>
<p><b>Selma Garrido</b><span style="font-weight: 400">: Então, isso que eu acabei de ilustrar com a minha história, mostrava que nós éramos completamente distantes da realidade. Hoje, penso que as coisas mudaram um pouco, mas não muito. E vai depender muito de cada faculdade, de cada universidade, de como ela trabalha, por exemplo, o estágio durante a formação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Então, nesse sentido, nós encontramos pessoas que se identificam ao longo do curso, na medida em que vão conhecendo mais a realidade das escolas. Por isso, eu digo que o estágio tem que ser feito de preferência em escola pública, que é onde está a maioria da população de crianças brasileiras. E essa aprendizagem, tem uma relação muito grande com a formação teórica que o curso oferece. Então, se o curso não tiver essa integração, dificilmente o jovem que termina o curso estará preparado. Não é que ele vai repetir as práticas, mas para ingressar e ir formando a sua identidade como professor e ir criando o seu próprio processo de trabalho, sobretudo quando na própria escola já existe uma equipe de pedagogos que orienta, que acompanha os professores. Então, essa relação da instituição formadora com as instituições da educação básica é essencial. </span></p>
<p><b>A senhora escreveu sobre a identidade do professor. O que é se tornar professor? </b></p>
<p><b>Selma Garrido:</b><span style="font-weight: 400"> Todo mundo tem uma ideia do que é ser professor, porque foi aluno de professores. Então, se você perguntasse para qualquer pessoa se ela seria professora e ela dizia com demérito. Com razão, por conta do movimento que tem na nossa sociedade, e é contrário para que haja bons professores, que os professores e as professoras sejam reconhecidos, inclusive salarialmente, tenham boas condições de trabalho e tudo mais. Nesse sentido, quando o estudante vem para a universidade, ele já tem uma ideia, porque ele foi aluno de professores. Ele vai pensar que alguns ele gostaria de ser igual, outros ele jogaria fora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Isso já é um movimento que vai construindo a identidade. Só que a identidade não é uma coisa que você constrói e fica para sempre. Não, ela é um processo histórico, pessoal. E é fundamental que o próprio curso o provoque nesse sentido, de ele ir percebendo a história da profissão em diferentes países, mas principalmente no Brasil. As questões que envolvem a própria, o modo de ser professor e para que ele seja professor, superando essa visão social negativa que há sobre a profissão. Que ele vá se identificando, não como ser igual o professor que ele teve, que ele gostou, mas que agora ele tem que olhar a realidade na qual ele vai atuar. E o curso tem que provocar isso. Trazendo essa relação com a realidade, mas sempre fundamentado informação teórica sólida para fazer uma análise crítica do que existe, e aí ele vai então se identificando ou não com ser professor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Muitos desistem, outros tentam. Nessa tentativa, muitos decidem que é isso mesmo que querem. Vão percebendo que o importante em ser professor é a relação humana que você tem e a possibilidade de ajudar o outro sempre. E que isso é uma coisa que você está fazendo, contribuindo para que os estudantes, os seus estudantes possam ir se desenvolvendo como seres humanos. Porque a educação é uma atividade de humanização do humano, como a gente diz. Ele não nasce pronto. Diferente do gato  que já nasce pronto. Nós, humanos, precisamos de um processo que se chama educação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">E na sociedade que a gente vive há contradições e embates, porque os setores de classes dominantes, os poderosos financeiramente, nem sempre querem que a população inteira aprenda, porque aprender é um instrumento de luta. E aí se vai aprendendo, inclusive as raízes que originam os problemas de pobreza, de miséria, de falta de água, de alimentação, de habitação, que são direitos. O estudante, à medida que ele vai entrando nesse universo, vai percebendo que faz todo sentido ser professor Ao longo da vida vai se desenvolvendo profissionalmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Por isso é que a gente diz que são necessários os saberes da docência. Você não nasce sabendo ser docente, mesmo tendo sido aluna de docentes. Porque o docente que você teve era de uma realidade diferente da que você tem. Então, esse é um processo da própria humanização do professor como um ser profissional. </span></p>
[caption id="attachment_73884" align="alignright" width="521"]<a href="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/08/IC3A2083.jpg"><img class=" wp-image-73884" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2026/08/IC3A2083.jpg" alt="" width="521" height="347" /></a> Para Selma, a educação é um meio de luta[/caption]
<p><b>A precarização do trabalho e a questão salarial é um meio das classes dominantes impedirem que mais pessoas se formem professores? </b></p>
<p><b>Selma Garrido:</b><span style="font-weight: 400"> Exatamente. Não só formem professor, mas formem esse professor que compreende que pelo processo de escolarização, de uma boa escolarização, você vai capacitando os alunos a terem uma visão crítica pelos conhecimentos. Como dizia Paulo Freire, é pelo conhecimento que você vai adentrando a conhecer a realidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Desde a educação infantil, é importante que as crianças comecem a relacionar uma coisa com outra. Por exemplo, falta de água. Por que falta água? E onde falta? Qual a origem desse problema? Por que alguns têm, outros não têm?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Isso não interessa para a classe dominante, porque se todas as crianças, os jovens, aprenderem a origem das condições precárias que eles têm, eles serão guerreiros, lutadores para conquistar esse direito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Atualmente temos visto um crescimento da inteligência artificial, principalmente na educação. Como a senhora vê isso? A senhora acha que é mais prejudicial ou pode auxiliar de um jeito positivo? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">A inteligência artificial, para o começo de conversa, não é humana. Ela não substitui, ela é um instrumento e que depende de como você usa. É igual você usar um carro, que é uma tecnologia avançada. Você pode usar o carro como forma de proteção ou como forma de destruição. Então, depende do uso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Mas a gente precisa tomar muito cuidado com a tentativa que não é inerente à inteligência artificial, mas ela é inerente a políticos que são contrários ao desenvolvimento de humanização para todos, que colocam a inteligência artificial para substituir os professores, porque dizem que a educação é muito cara. Só que a educação é um direito, assim como é direito de moradia, de alimentação, são direitos democráticos. Então, estamos vivendo momentos em que a inteligência artificial vai sendo solapada para essa finalidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">O que nós, professores, temos que fazer, junto com os estudantes, é compreender que ela é um instrumento, ela pode facilitar uma busca que você faça de um assunto, mas ela não pensa. E, portanto, o pensar é na relação coletiva com o professor, com seus colegas, com uma leitura que você faz. É igual quando você lê diferentes livros sobre o mesmo assunto, você tem que ter uma mediação dos professores para ver as posições que geram aquele conhecimento ali. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Vou dar um exemplo concreto, bem imediato agora. Na área de história, nós vemos que a ultradireita brasileira, tende a manter uma história que a gente chama de oficial e que mitifica os fatos. O fato, por exemplo, da independência. A Independência não se deu com um Grito do Ipiranga. A Independência foi um processo de revoltas de vários grupos no Brasil até se chegar à conquista. Foi uma conquista da independência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Então, isso é uma coisa importante de perceber: como os conhecimentos não são verdades absolutas prontas e acabadas, mas a quem interessa que eles sejam essa história oficial. </span></p>
<p><b>Para finalizar, a senhora sempre foi uma defensora da educação pública. Como a senhora se sente recebendo o título de Doutora Honoris Causa em uma universidade pública? </b></p>
<p><b>Selma Garrido:</b><span style="font-weight: 400"> Eu sinto muita alegria, estou muito feliz. Quero compartilhar com vocês, porque não é uma conquista individual, tem uma longa história de pessoas juntos que foram me possibilitando ser meritória, do Doutor Honoris Causa. E me deixa muito feliz, porque esse reconhecimento também evidencia que para a Universidade Federal de Santa Maria, eu não estou falando sozinha.  A Universidade reconhece essa validação pública da minha trajetória. Nesse sentido, eu me sinto muito feliz. </span></p>
<p><em><span style="font-weight: 400">Texto, entrevista e fotos: Jessica Mocellin, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias </span></em><br /><em>Edição: Ricardo Bonfanti, jornalista</em></p>
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