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				<title>Um novo réptil de 225 milhões de anos do Brasil</title>
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				<pubDate>Tue, 03 May 2022 17:13:04 +0000</pubDate>
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						<description><![CDATA[Maehary bonapartei representa um réptil de pequenas dimensões que é tido como o mais basal da linha evolutiva que deu origem aos pterossauros. O estudo também demonstra que Faxinalipterus minimus, não é um réptil alado, ao contrário do que se supunha.]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <!-- wp:tadv/classic-paragraph -->
<p><span style="font-weight: 400"><img class="wp-image-58442  alignright" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2022/05/Maehary-por-Marcio-L.-Castro-alta.jpg" alt="" width="660" height="375" />Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria, do Museu Nacional da UFRJ, da Universidade Regional do Cariri,</span> <span style="font-weight: 400">da Universidade Federal do Pampa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da COPPE/UFRJ apresentaram um estudo de revisão sobre um pequeno réptil denominado </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i> <i><span style="font-weight: 400">minimus</span></i><span style="font-weight: 400">, proveniente de rochas do Triássico (cerca de 225 milhões de anos atrás) do Rio Grande do Sul. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> foi descrito há mais de uma década (2010), sendo atribuído ao grupo Pterosauria, que reúne os primeiros vertebrados a desenvolverem o voo ativo. Originalmente, o fóssil de </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> era composto por ossos do esqueleto pós-cranial e por uma parte do crânio (uma maxila com dentes), encontrados separadamente em duas expedições de campo, ocorridas em 2002 e 2005, no sítio fossilífero Linha São Luiz, localizado no município de Faxinal do Soturno. Assim, não era possível afirmar com certeza se todas as partes pertenceriam a um mesmo tipo de animal. Apesar disso, assumiu-se na época que todos os ossos pertenciam a uma única espécie, denominada </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus minimus</span></i><span style="font-weight: 400">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">A nova análise de </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">, permitiu estabelecer de fato que existiam ali duas espécies distintas. Ou seja, a maxila pertenceria a outro animal. Isso foi possível com base na comparação com um novo fóssil encontrado recentemente no mesmo sítio Linha São Luiz. O novo fóssil é composto por um crânio incompleto, cuja maxila exibe as mesmas feições da maxila atribuída a </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">, além de partes da mandíbula, partes de uma escápula e de vértebras. A maxila de </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">, pode, então, ser incorporada à descrição do novo fóssil que recebeu o nome </span><i><span style="font-weight: 400">Maehary bonapartei</span></i><span style="font-weight: 400">. O estudo foi publicado em destaque pela revista </span><a href="https://peerj.com/articles/13276/"><i><span style="font-weight: 400">PeerJ</span></i></a><span style="font-weight: 400">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">“Sempre houve uma grande dúvida se os dois exemplares atribuídos ao </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> representavam uma mesma espécie, e se esta se tratava de um réptil alado” comentou Alexander Kellner, especialista em pterossauros que atualmente dirige o Museu Nacional/UFRJ. Tendo examinado o exemplar logo após a publicação em 2010, ele viu que diversos ossos poderiam estar mal identificados e a falta de características diagnósticas dos pterossauros, entre elas a ausência de feições específicas no úmero (osso do braço), como uma projetada crista deltopeitoral, que é típica dos pterossauros. Borja Holgado do Institut Català de Paleontologia Miquel Crusafont (Barcelona, Espanha) também especialista em pterossauros e atualmente pesquisador da Universidade Regional do Cariri (Ceará), analisou o material e concordou com as conclusões iniciais. "Estava claro para mim que se trata de um réptil primitivo que não pertencia aos pterossauros,</span> <span style="font-weight: 400">pois não apresentava nenhuma feição inequívoca dessa linhagem" esclarece Holgado, para logo apontar: "Mas também o conhecimento presente das faunas de finais do Triássico indica que a disparidade de animais da época na qual datam os primeiros pterossauros era tão grande que encontram-se animais que à primeira vista poderiam lembrar pterossauros, mas realmente não são. Isso foi o que aconteceu com </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> e </span><i><span style="font-weight: 400">Maehary</span></i><span style="font-weight: 400"> ".</span></p>
[caption id="attachment_58443" align="alignleft" width="661"]<img class="wp-image-58443" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/2022/05/Cranio-de-Maehary.jpg" alt="" width="661" height="442" /> Crânio do Maehary[/caption]
<p><span style="font-weight: 400">“O material no qual o </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> é baseado, é muito frágil e muito incompleto. Além disso, partes dos ossos estavam encobertas por rocha, necessitando uma preparação mais detalhada” comentou Cesar Schultz, da UFRGS, e um dos autores do trabalho de 2010 e da nova pesquisa que acaba de ser publicada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">A preparação do material original requereu muita experiência, e foi realizada no Museu Nacional. “Felizmente tivemos a possibilidade de fotografar em detalhe todo o exemplar”, salientou Orlando Grillo, que teve o cuidado de reproduzir em forma de desenhos cada detalhe anatômico dos ossos de </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Foi com ajuda de um tomógrafo que o enigma foi sendo revelado. “A tomografia computadorizada tem sido uma ferramenta cada vez mais utilizada nos estudos paleontológicos” destaca Ricardo Lopes da COPPE/UFRJ. “É uma análise não-destrutiva que permite a visualização de detalhes anatômicos ainda recobertos pela rocha sedimentar onde o fóssil está preservado” complementa Olga Araújo, também da COPPE.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">“No trabalho original de 2010, verificamos que os dentes presentes na maxila de </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> eram muito espaçados entre si, o que é uma característica de pterossauros primitivos do Triássico. Porém, a tomografia da maxila demonstrou que os dentes não eram separados, pois muitos dentes haviam sido perdidos na fossilização. Com isso, o padrão da dentição e o próximo espaçamento entre os alvéolos (cavidades onde os dentes se inserem) não eram condizentes com pterossauros,” destaca Marina Soares. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Após estes estudos, ainda pairava a dúvida sobre quem era, afinal, </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">. A solução veio a partir do achado de um novo exemplar que havia sido coletado na mesma região de onde vieram os exemplares de </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">. “Coletas sistemáticas têm sido realizadas pelo Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa) da UFSM, revelando uma série de novas espécies fósseis para o Triássico do Rio Grande do Sul” comentou Flávio Pretto. No sítio fossilífero Linha de São Luiz, no município de Faxinal do Soturno, já foram encontrados diversos fósseis, como parentes próximos dos mamíferos, dinossauros e outros répteis. A região onde foram realizadas as escavações fica localizada no território do Geoparque Quarta Colônia Aspirante UNESCO.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">“Quando tivemos acesso ao estudo que estava sendo desenvolvido pela equipe do Museu Nacional, ficou claro que a maxila, até então referida à </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">, era muito similar ao material que a gente estava estudando,” complementou Leonardo Kerber. “Definitivamente não se tratavam de exemplares de um pterossauro,” reforçou Felipe Pinheiro, da UNIPAMPA, pesquisador também especialista em répteis alados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Usando uma base de dados anatômicos, a equipe estabeleceu que </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> estaria proximamente relacionado aos lagerpetídeos, um ramo considerado como grupo-irmão de Pterosauria em estudos mais recentes. Juntos, lagerpetídeos e pterossauros formam um grupo mais abrangente denominado Pterosauromorpha. Neste contexto, a nova espécie </span><i><span style="font-weight: 400">Maehary bonapartei</span></i><span style="font-weight: 400"> foi posicionada como o membro mais primitivo dentro de Pterosauromorpha. "Isto é, </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> e </span><i><span style="font-weight: 400">Maehary</span></i><span style="font-weight: 400"> não são pterossauros, porém são aparentados a eles. Especialmente </span><i><span style="font-weight: 400">Maehary</span></i><span style="font-weight: 400"> se configura como um elemento-chave na elucidação de como as características anatômicas foram evoluindo ao longo da linhagem dos pterossauromorfos até os pterossauros propriamente ditos, totalmente adaptados ao voo", pontua Rodrigo Müller. "Essas espécies, com um comprimento estimado em 30 cm para </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400"> e 40 cm para </span><i><span style="font-weight: 400">Maehary</span></i><span style="font-weight: 400">, demonstram a importância de prosseguir as coletas de fósseis nessa região".</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">O nome do gênero da nova espécie vem de Ma'ehary, uma expressão do povo originário Guarani-Kaiowa, que significa “quem olha para o céu” em alusão à sua posição na linha evolutiva dos répteis, sendo o mais primitivo dos Pterosauromorpha, grupo que inclui os tão fascinantes pterossauros. O nome específico é uma homenagem ao principal pesquisador de vertebrados fósseis da Argentina, José Fernando Bonaparte (1928-2020), falecido recentemente, e que atuou ativamente junto com paleontólogos brasileiros em afloramentos do Rio Grande do Sul, na coleta e descrição de muitos vertebrados extintos que viveram durante o período Triássico, incluindo </span><i><span style="font-weight: 400">Faxinalipterus</span></i><span style="font-weight: 400">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Agora os pesquisadores seguem em busca de novos achados que ajudem a entender como sugiram as primeiras formas desse tão fascinante grupo, os pterossauros.</span></p>
<p> </p>
<p><em>Texto: <span style="font-weight: 400">Alexander</span><span style="font-weight: 400"> W.A. Kellner, Borja Holgado, Orlando Grillo, Flávio Augusto Pretto, Leonardo Kerber, Felipe Lima Pinheiro, Marina Bento Soares, Cesar Leandro Schultz, Ricardo Tadeu Lopes, Olga Araújo e Rodrigo Temp Müller<br /></span>Ilustração: Marcio L. Castro</em><br /><em>Foto: Rodrigo Temp Müller</em></p>
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