{"id":180,"date":"2018-12-12T16:03:08","date_gmt":"2018-12-12T18:03:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/graduacao\/santa-maria\/artes-visuais\/?page_id=180"},"modified":"2018-12-12T16:03:09","modified_gmt":"2018-12-12T18:03:09","slug":"realidade-e-sentimento-na-obra-de-frida-kahlo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/graduacao\/santa-maria\/artes-visuais\/realidade-e-sentimento-na-obra-de-frida-kahlo","title":{"rendered":"Realidade e sentimento na obra de Frida Kahlo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Realidade e sentimento na obra de Frida Kahlo<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ana Paula Jorge Klainpaul<\/strong><\/p>\n<p>-Publicado na revista Apreciando, Edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 20, p\u00e1gina 40.<\/p>\n<p>O presente artigo versa sobre a pintura \u201cEl abrazo de amor de El Universo, la tierra, yo, Diego y el so\u00f1or X\u00f3lotl\u201d (1949) da artista mexicana Frida Kahlo (1907-1954), pintada em \u00f3leo sobre tela nas dimens\u00f5es 70&#215;60,5 cm. Podemos apontar em suas obras, tend\u00eancias surrealistas, em especial neste quadro representa um momento de fragilidade de Frida, onde ela se retrata segurando em seus bra\u00e7os, seu ex esposo \u2013 Diego Rivera \u2013 na figura de uma crian\u00e7a, e evidencia elementos da cultura mexicana bem como da mitologia pr\u00e9-hisp\u00e2nica.<\/p>\n<p>Pela diversidade e amplitude que envolveu os aspectos da arte no s\u00e9culo XX, \u00e9 um tanto dif\u00edcil caracterizar a artista com precis\u00e3o, pois tanto na Europa quando nos demais pa\u00edses, ao inv\u00e9s de um movimento uniforme, o que existiu foram correntes art\u00edsticas que se auto-afirmam principalmente pela quebra dos valores tradicionais e pela busca de t\u00e9cnicas e meios de express\u00e3o capazes de traduzir uma nova realidade que ora se apresentava. Neste contexto n\u00e3o h\u00e1 como enquadrar Frida Kahlo em um movimento art\u00edstico especifico de seu, pa\u00eds, ela traduz caracter\u00edsticas de alguns destes movimentos, por\u00e9m n\u00e3o participou ativamente de nenhum, preferiu ser al\u00e9m de pintora, uma revolucion\u00e1ria atuante na pol\u00edtica mexicana e uma mulher que, apesar das adversidades, lutou para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem cultural. Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon, nasceu em 6 de julho de 1907, em Cyocan, no M\u00e9xico. Como uma revolucion\u00e1ria, militante do partido comunista e agitadora cultural, teve uma vida cheia de percal\u00e7os. Aos 6 anos de idade, contraiu poliomielite (paralisia infantil), mas recuperou-se. Por\u00e9m sua perna direita ficou afetada e teve de conviver com um p\u00e9 atrofiado e uma perna mais fina que a outra.<\/p>\n<p>Em 1925 aos 16 anos, o \u00f4nibus em que Frida estava chocou-se contra um trem. Ela foi atravessada por uma barra de ferro que perfurou seu abdome, lesionou a coluna vertebral e saiu pela p\u00e9lvis. Passou por 35 cirurgias permanecendo por muito tempo presa a uma cama sendo necess\u00e1rio o uso permanente de um colete de gesso que auxiliava a sustenta\u00e7\u00e3o da coluna. Foi nesta \u00e9poca que ela come\u00e7ou a pintar, quando sua m\u00e3e pendurou um espelho em cima de sua cama. Aos 22 anos casa-se com o pintor Diego Rivera, socialista e mais importante, pintor mexicano do s\u00e9culo XX, que pertenceu ao movimento Muralista. O casamento n\u00e3o foi bem visto pela fam\u00edlia de Frida levando em conta o fato de ele ser vinte anos mais velho que ela. Diego desenvolveu um importante papel na vida de Frida, ajudou-a a revelar-se como artista.<\/p>\n<p>Em 1939, em Nova York, faz sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual, que \u00e9 bem vista pela cr\u00edtica. Em seguida, viaja para Paris e l\u00e1, conhece Pablo Picasso, Wassily Kandinsky e Marcel Duchamp. Por levar uma vida conturbada, Frida encontra-se com a sa\u00fade fragilizada. Em 1950, permanece internada durante nove meses com fortes dores na perna direita, que teve de ser amputada. Com isso, Frida entra em depress\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o deixa de pintar.<\/p>\n<p>Frida Kahlo destaca-se, principalmente, na produ\u00e7\u00e3o de auto-retratos, onde utiliza fantasia e estilos inspirados na arte popular do seu pa\u00eds \u2013 M\u00e9xico. Influenciada pela obra de seu marido Frida optou pelo emprego de amplas zonas de calor e sens\u00edveis pinceladas, em um estilo deliberadamente ing\u00eanuo. Prezava para que suas pinturas afirmassem sua identidade mexicana e para isso, utilizou em v\u00e1rios quadros temas extra\u00eddos do folclore e da arte popular do M\u00e9xico. Posteriormente, incluiu elementos fant\u00e1sticos claramente introspectivos, a livre utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pict\u00f3rico e a justaposi\u00e7\u00e3o de objetos incongruentes, que refletiu no desenvolvimento de seus trabalhos ao ponto de serem relacionados como movimento surrealista.<\/p>\n<p>Considerando que n\u00e3o houve, na primeira metade do s\u00e9culo XX, uma arte uniforme, visualizamos em sua obra, um conjuntos de tend\u00eancias art\u00edsticas, proveniente de diferentes pa\u00edses, com propostas e objetivos que se aproximam, e tra\u00e7os que se assemelham no sentido de liberdade criadora, no desejo de romper com o passado e na express\u00e3o da subjetividade.<\/p>\n<p>Depois do casamento com Diego Rivera, Frida apresenta uma not\u00e1vel mudan\u00e7a de estilo. Se em seus primeiros trabalhos demonstra interesse pela pintura renascentista italiana, depois, seus trabalhos mostram um estilo voltado \u00e0 arte popular mexicana e sem qualquer compromisso com as regras da perspectiva. (KETTENMANN, 1994.)<\/p>\n<p>Frida Kahlo encontrou na arte popular mexicana algumas de suas principais tem\u00e1ticas como as \u201cfiguras de Judas\u201d \u2013 tipo de esqueleto que a acompanham em alguns auto-retratos. Tamb\u00e9m aparece vestida com roupas t\u00edpicas da cultura ind\u00edgena mexicana. Seus quadros s\u00e3o uma express\u00e3o de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia nacional, neles, predominam as cores verde branco e vermelho da bandeira mexicana. Obteve reconhecimento art\u00edstico ainda em vida e sustentando-se da vendo de seus quadros. Frida participou de v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es, tanto em grupo quanto individuais, nos Estados Unidos Europa e M\u00e9xico na d\u00e9cada de 40.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"pull-center\" src=\"http:\/\/coral.ufsm.br\/artesvisuais\/images\/acervo-banco-de-mexico-diego-rivera-frida-kahlo-museums-trust.jpeg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>No final dos anos 40 viu-se a deteriora\u00e7\u00e3o de sua sa\u00fade, permaneceu por muitos meses internada e somente depois da sexta, num total de sete opera\u00e7\u00f5es que fez na coluna no ano de 1950, \u00e9 que ela sentiu-se em condi\u00e7\u00f5es de voltar a pintar quatro a cinco quadros por dia. Para isso foi montado um cavalete especial em sua cama para que pudesse trabalhar deitada de costas. Com o agravamento de seu problema na coluna e na perna, Frida ficava a maior parte do tempo em casa, uma vez que, n\u00e3o podia percorrer longas dist\u00e2ncias. Nesta \u00e9poca, pinta poucos auto-retratos, dando maior \u00eanfase \u00e0s naturezas mortas.<\/p>\n<p>O seu trabalho at\u00e9 1951 apresenta ampla precis\u00e3o t\u00e9cnica, mas o fr\u00e1gil estado de sa\u00fade come\u00e7a agora a afetar-lhe a destreza da m\u00e3o. Devido \u00e0s fortes dores que sentia na coluna, Frida tomava uma medica\u00e7\u00e3o cada vez mais forte, o que talvez tenha sido a prov\u00e1vel causa para suas pinceladas mais frouxas, apressadas e quase descuidadas; uma aplica\u00e7\u00e3o mais densa de tinta e um executor menos preciso caracterizam sua pintura de 1952. No ano de sua morte, 1954 havia dias que simplesmente n\u00e3o conseguia pintar, devido ao d\u00e9bil estado de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em seus \u00faltimos quadros, fica evidenciada sua simpatia pelo socialismo ut\u00f3pico, onde abra\u00e7a as id\u00e9ias marxistas, seu \u00faltimo quadro (que ficou inacabado) \u00e9 um retrato de Karl Marx. Ao observarmos seus \u00faltimos trabalhos, notamos uma evolu\u00e7\u00e3o no sentido de que os mesmos foram ganhando matrizes cada vez mais ideol\u00f3gicas. Visualizamos Frida Kahlo num quadro social e pol\u00edtico que exigiu dos artistas intelectuais uma tomada de posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, do que resulta, em grande parte, em uma arte engajada, de clara milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Observando a obra \u201cEl Abrazo\u201d notamos alguns tra\u00e7os que s\u00e3o caracter\u00edsticos na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Frida Kahlo, entre eles, o princ\u00edpio dualista: dia e noite, sol e lua. H\u00e1 presen\u00e7a de elementos mitol\u00f3gicos, como o c\u00e3o (Xol\u00f3tl) que representa o ser que guarda o reino dos mortos na mitologia pr\u00e9-hisp\u00e2nica e Cihuacoatl, a Deus da Terra mexicana. Deste modo, Frida reconstr\u00f3i um novo mundo para ela e Diego, onde\u00a0 dia e noite penetram-se mutuamento o sol e a lua formam um n\u00facleo do universo envolvendo a terra (M\u00e9xico) representada pela vegeta\u00e7\u00e3o que os circunda e a deusa Terra Cihuacoatl de cujo \u00fatero nasce toda flora, segundo a mitologia (KETTENMANN, 1994.) que segura em seus bra\u00e7os a est\u00e9ril Frida; enquanto dos seios da Deusa nasce um rio de onde sai leite, dos seios de Frida, que surge como uma representa\u00e7\u00e3o em menor tamanho de Cihuacoatl, nasce um rio de sangue que representa a aus\u00eancia da fertilidade.<\/p>\n<p>A amarga incapacidade de ter filhos faz com que a artista assuma um papel maternal para com Diego e representa a figura de seu esposo como um rec\u00e9m nascido em seus bra\u00e7os, nele aparece um terceiro olho, s\u00edmbolo de sabedoria e as chamas que tem nas m\u00e3os representam a purifica\u00e7\u00e3o renascimento e renova\u00e7\u00e3o. (KETTENMANN, 1994.).<\/p>\n<p>Compreendemos esta pintura como um quadro complexo, uma vez que, apresenta grande n\u00famero de informa\u00e7\u00f5es e diversos planos com cores e texturas variadas. A composi\u00e7\u00e3o aparece de maneira equilibrada, centralizda e disposta em um formato piramidal, e, nela notamos uma linha vertical dominante que atravessa a tela, transmitindo a ideia de ascend\u00eancia, bem como, duas diagonais na parte inferior passando a sensa\u00e7\u00e3o de dein\u00e2mica e movimento.<\/p>\n<p>Suas formas s\u00e3o fechadas e encontramos dois c\u00edrculos perfeitos na parte superior que se\u00a0 apresentam com certa simetria dentro da estrutura da tela, uma forma ovalada onde se localizam os tr\u00eas rostos das figuras principais tamb\u00e9m podendo enquadr\u00e1-las dentro de uma grande pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>O quadro possui v\u00e1rios planos, sendo que, no primeiro est\u00e3o as m\u00e3os que abra\u00e7am Frida, Diego e a deusa Cihuacoatl, localizadas na parte inferior em diagonais. Num segundo plano vemos o c\u00e3o (X\u00f3lotl), na parte inferior esquerda, e um terceiro plano que pode ser subdividido em outros tr\u00eas: com Diego em primeiro, depois Frida atr\u00e1s a figura da Deusa. E finalmente os dois circulos que representam o sol e a lua, a vegeta\u00e7\u00e3o que rodeia a composi\u00e7\u00e3o central forma outros v\u00e1rios planos.<\/p>\n<p>A pintura tamb\u00e9m revela uma grande variedade crom\u00e1tica, com predomin\u00e2ncia das cores frias, entre elas os verders e marrons, com alguns toque de vermelhos e beges. As rela\u00e7\u00f5es de luz e sombra transmitem equil\u00edbrio entre claros e escuros, passando a sensa\u00e7\u00e3o de volume, proximidade e profundidade.<\/p>\n<p>Encontramos o fundo da pintura rico em\u00a0 texturas, do mesmomodo que percebemos varia\u00e7\u00f5es de textura em todo o quadro. No sol, na lua, nas plantas e ra\u00edzes vemos uma textura mais carregada e detalhista, j\u00e1 nos personagens e nas m\u00e3os que simbolizam o universo, percebemos uma textura mais lisa. Notamos um grande contraste localizado no centro da tela, gerado pelo vermelho do vestido e o verde da vegeta\u00e7\u00e3o, ocasionada pelo uso das cores complementares, este grande contraste faz com que nosso olhar focalize o centro da pintura e n\u00e3o se perca na variedade de texturas e detalhes no fundo.<\/p>\n<p>Percebemos uma despropor\u00e7\u00e3o \u2013 possivelmente proposital \u2013 no tamanho da figura que representa Diego, este e pintado como um beb\u00ea um tanto corpulento, incongruente como uma crian\u00e7a de colo. Esta despropor\u00e7\u00e3o pode ter o intuito de n\u00e3o se desprender de todo da realidade, uma vez que Diego Rivera era um homem grande acima de seu peso. As pr\u00e1ticas de pintura de que nossos conceitos art\u00edsticos adv\u00eam s\u00e3o bastante variadas. Talvez possamos compar\u00e1-las com a gama de experi\u00eancias individuais e coletiva dos povos. O grande desafio \u00e9 interpretar a arte de Frida Kahlo, observando a mudan\u00e7a cultural e a din\u00e2mica da economia e da pol\u00edtica. Desde a descri\u00e7\u00e3o mais simples das formas, linhas e cores s\u00e3o projetos que absorvem experi\u00eancias vividas, com isso, queremos dizer o quanto a vida de Frida refletiu em toda a sua trajet\u00f3ria art\u00edstica como demonstra\u00e7\u00e3o de seus sentimentos e express\u00f5es dos acontecimentos que se desenvolvem em fun\u00e7\u00e3o do ambiente que a cerca.<\/p>\n<p>Observando sua obra identificamos um conjunto de aspectos dentro da cultura popular mexicana, bem como do gosto da artista, desprendida de qualquer conven\u00e7\u00e3o social e estil\u00edstica. Os estilos art\u00edsticos perceptivos no quadro da autora s\u00e3o elementos que nos d\u00e3o indicativos para equacionar influ\u00eancias de \u00e9pocas e entender a mec\u00e2nica, ou a din\u00e2mica das cria\u00e7\u00f5es e recria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Referencial bibliogr\u00e1fico<\/p>\n<p>DICION\u00c1RIO, Oxford De Arte. S\u00e3o Paulo: Martins fontes, 1996.<\/p>\n<p>KITTENMANN, Andr\u00e9a. Frida Kahlo 1907 \u2013 1954: Dor e Paix\u00e3o. Col\u00f4nia (Alemanha): Benedikt Taschen, 1999.<\/p>\n<p>TREVISAN, Armindo. Como apreciar a arte. Porto Alegre: AGE, 2002.<\/p>\n<p>CUNHA, Elisabete. \u201cQuem foi Frida Kahlo?\u201d. Dispon\u00edvel em: &lt;HTTP:\/\/www.portalartes.com.br\/portal\/article_read.asp?id=417&gt; Acesso em 30\/06\/07 \u00e1s 15h00min.<\/p>\n<p>FRIDA Kahlo. Dispon\u00edvel em &lt;HTTP:\/\/www.publispain.com\/fridakahlo&gt; Acesso em 30 de junho de 2007 \u00e1s 15h20min.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Realidade e sentimento na obra de Frida Kahlo &nbsp; Ana Paula Jorge Klainpaul -Publicado na revista Apreciando, Edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 20, p\u00e1gina 40. 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