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WJS3 mostra jornalistas mais vulneráveis, precarizados e sujeitos à autocensura no Brasil



O WJS buscou compreender como os profissionais brasileiros percebem sua atuação e os valores que orientam o exercício da profissão

Por: Mariane Machado 

Pensar o jornalismo a partir das realidades de cada país foi o ponto de partida do The Worlds of Journalism Study (WJS), que ouviu mais de 32 mil jornalistas em 75 países, de contextos políticos, culturais e midiáticos distintos.

O levantamento mostrou que o jornalismo tem passado por transformações profundas, especialmente nas formas de trabalho e nas rotinas da profissão. Apesar das diferenças culturais e regionais, há um ponto comum que une os jornalistas: a defesa da credibilidade, da liberdade de imprensa e do direito à informação. Ao mesmo tempo, surgem novas preocupações, como o avanço das plataformas digitais, a precarização das condições de trabalho, a desinformação e as tentativas de controle político.

A partir desse panorama global, o estudo também ajuda a entender como essas transformações se expressam em contextos específicos, como o brasileiro. O jornalismo no Brasil compartilha muitas das tensões observadas em outros países, como a precarização das condições de trabalho e os desafios éticos diante da desinformação, mas também revela particularidades marcadas pelas desigualdades regionais e pela concentração dos grandes meios de comunicação. É nesse cenário que o Worlds of Journalism Study buscou compreender como os profissionais brasileiros percebem sua atuação e os valores que orientam o exercício da profissão.

O que o Worlds of Journalism Study revela sobre o jornalismo no Brasil

Falar de jornalismo no Brasil é entender a grande diversidade e contrastes em que cada profissional está inserido. Entender como o jornalismo é feito aqui exige olhar para a variedade de locais, contextos e condições em que os profissionais atuam.

A terceira edição do WJS Brasil buscou entender como os jornalistas brasileiros percebem o próprio trabalho em meio a tantas mudanças políticas, econômicas e tecnológicas. O levantamento ouviu 602 jornalistas, de todas as regiões do Brasil, entre janeiro e maio de 2023.

O estudo mostra que o Brasil é um ambiente hostil à imprensa, marcado por episódios de violência, intimidação e tentativas de descredibilização. Apesar de uma leve redução nas violações à liberdade de imprensa em 2023, os casos de assédio judicial e censura ainda preocupam.

Entender esse cenário é fundamental para o desenvolvimento de protocolos e políticas de proteção à imprensa, é o que ressalta a professora Laura Strelow Storch, coordenadora do EJor e uma das coordenadoras da pesquisa no Brasil: “Quando entendemos a natureza dessas pressões, conseguimos agir não apenas para proteger jornalistas, mas para garantir o direito da sociedade a uma informação de qualidade. É por isso que esse diagnóstico é tão importante”, explica.

Quem são os jornalistas brasileiros

O retrato dos jornalistas brasileiros mostra que a categoria é plural. O relatório revelou que, em sua maioria, os profissionais são experientes, qualificados e divididos entre múltiplas funções. Metade dos entrevistados são mulheres (50,3%) enquanto 49,5% são homens . A idade média dos profissionais é de 40 anos. A maioria tem formação superior (62,9%), e parte significativa também possui mestrado (28,1%) ou doutorado (2,9%).

Quando se trata de função, 49,7% ocupam funções de reportagem, 36,2% estão em cargos intermediários e 14,1% em posições de liderança. A maioria trabalha em mídia privada ou comercial (77,5%), seguida de mídia pública (9%), organizações sem fins lucrativos (5,5%), mídia estatal (3,3%) e comunitária (1,9%). Os veículos em que atuam são, em grande parte, regionais (43,7%) e nacionais (36,9%), com presença menor no nível local (10,4%) e transnacional (8,3%).

Números do jornalismo no Brasil

Os dados do Worlds of Journalism Study mostram a realidade de quem vive o dia a dia do jornalismo. As preocupações com segurança são altas: 71,9% acreditam que agressores de jornalistas não são punidos, 43,9% dizem estar preocupados com o bem-estar emocional e 16,9% com a própria integridade física.

Mesmo em um cenário difícil, a pesquisa mostra que o sentido público continua sendo o principal norteador do jornalismo. Combater a desinformação é prioridade para 94,7% dos entrevistados. Logo depois vêm a exposição de problemas sociais (92,8%) e a oferta de informação política de qualidade (86%).

Os dados também mostraram que cerca de 47,2% dos jornalistas acreditam que a interpretação é necessária para compreender os fatos, e 35,8% ressaltam a importância de identificar informações falsas. Os números revelam uma categoria que reflete ativamente sobre o seu próprio papel.

Ainda que 81,2% defendam seguir sempre os padrões profissionais, menos da metade (48,4%) diz ter plena liberdade para escolher o que publicar, e 54,5% afirmam ter autonomia semelhante para decidir como abordar os temas. Mas apenas 12,4% sentem o mesmo grau de liberdade na estrutura da mídia brasileira, um dado que revela que a liberdade de pautar certos temas, ainda é um desafio para os jornalistas brasileiros. 

Na prática, as decisões editoriais são moldadas por fatores internos: a ética profissional aparece como o mais influente (83,4%), seguida por chefias, políticas editoriais, acesso à informação e prazos apertados.

Um retrato que provoca reflexão

O Worlds of Journalism Study mostra um jornalismo brasileiro que continua acreditando em sua função, mesmo diante de condições que preocupam. A professora Laura Strelow Storch reforça essa percepção ao lembrar que o jornalismo é uma instituição social de relevância para a vida democrática: “Monitorar como os jornalistas percebem o próprio trabalho nos oferece indicadores valiosos sobre os desafios que marcam o país. A combinação de precarização, violência (sobretudo de natureza psicológica e digital) e a intensificação de tensões econômicas e tecnológicas configura um cenário que ultrapassa o campo profissional e interpela a sociedade como um todo”, destaca.

O panorama brasileiro dialoga com o cenário global apontado pelo Worlds of Journalism Study, que revela pressões estruturais e desafios compartilhados por jornalistas em diferentes países. A pesquisa mostra que, embora o contexto mude, a busca por credibilidade e autonomia continua sendo um ponto de convergência.

Saiba mais sobre a pesquisa em: https://www.ufsm.br/cursos/pos-graduacao/santa-maria/poscom/2025/11/22/docente-do-poscom-integra-pesquisa-global-sobre-condicoes-de-trabalho-do-jornalismo-no-mundo

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