{"id":2557,"date":"2023-04-04T16:47:42","date_gmt":"2023-04-04T19:47:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/?p=2557"},"modified":"2023-04-06T12:14:16","modified_gmt":"2023-04-06T15:14:16","slug":"de-que-audiencia-estamos-falando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2023\/04\/04\/de-que-audiencia-estamos-falando","title":{"rendered":"De que audi\u00eancia estamos falando?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando comecei meus estudos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, um de meus interesses centrais era o leitor. Naquele momento, a emerg\u00eancia dos blogs como fen\u00f4meno de autocomunica\u00e7\u00e3o de massas inundava os acad\u00eamicos e profissionais de expectativas sobre o potencial da participa\u00e7\u00e3o dos leitores nas reda\u00e7\u00f5es. N\u00f3s quer\u00edamos estudar a ag\u00eancia dos leitores como produtores e promotores de not\u00edcias. Os jornais passaram a reconhecer os leitores como figuras relevantes na reconfigura\u00e7\u00e3o do jornalismo, e criavam editorias participativas com nomes esperan\u00e7osos como &#8220;jornalista-cidad\u00e3o&#8221; e &#8220;voc\u00ea rep\u00f3rter&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os meus estudos sobre leitura me apresentaram uma paix\u00e3o: hist\u00f3ria social dos livros e da leitura, perspectivas cognitivistas sobre o ato de ler, a leitura como ag\u00eancia social, processos de media\u00e7\u00e3o do outro pelo discurso. N\u00e3o posso dizer que para o jornalismo o entusiasmo foi o mesmo. As editorias participativas minguaram frente a um turbilh\u00e3o chamado &#8220;redes sociais&#8221; e a descoberta dos leitores a partir das caixas de coment\u00e1rios certamente apontou para um desconhecido a ser desprezado: os leitores de jornais que comentavam as not\u00edcias eram, de forma gen\u00e9rica, raivosos e sem muitos limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2023 minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado completa 14 anos. E sinceramente parece que estamos em outro mundo. Mas tenho refletido que os problemas que se desenhavam naquele momento continuam a n\u00e3o ser enfrentados de frente pela maioria de n\u00f3s, pesquisadores de jornalismo. E por isso, hoje pensei em indicar a leitura de uma edi\u00e7\u00e3o especial da <strong>Digital Journalism <\/strong>publicada em 2022: <strong>&#8220;<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/toc\/rdij20\/10\/1?nav=tocList\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/toc\/rdij20\/10\/1?nav=tocList\">Advancing the Audience Turn in Journalism<\/a>&#8220;<\/strong>. S\u00e3o 10 textos que exploram o debate sobre a audi\u00eancia a partir de perspectivas metodol\u00f3gicas ou de subtemas como excesso de informa\u00e7\u00f5es, interseccionalidade, aspectos hipergeogr\u00e1ficos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O artigo de introdu\u00e7\u00e3o ao dossi\u00ea \u00e9 especialmente interessante. &#8220;<strong><a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/21670811.2021.2024764\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/21670811.2021.2024764\">Advancing a Radical Audience Turn in Journalism. Fundamental Dilemas for Journalism Studies<\/a><\/strong>&#8221; \u00e9 assinado pelos editores convidados, os pesquisadores Jo\u00eblle Swart, Tim Groot Kormelink, Irene Costera Meijer e Marcel Broersma. Vou desdobrar alguns pontos a partir dele, com quest\u00f5es sobre as quais tamb\u00e9m tenho pensado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"679\" height=\"724\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/513\/2023\/04\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2559\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/513\/2023\/04\/image-1.png 679w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/513\/2023\/04\/image-1-281x300.png 281w\" sizes=\"(max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No texto, os autores sugerem uma &#8220;virada radical&#8221; em torno dos estudos sobre audi\u00eancias no jornalismo. A ideia central \u00e9 de que as pesquisas em jornalismo est\u00e3o historicamente centradas nos interesses das m\u00eddias informativas &#8211; inclusive os estudos sobre audi\u00eancia, que buscam conhecer quem l\u00ea, paga, compartilha jornalismo profissional. \u00c9 dif\u00edcil discordar dessa ideia. Na Am\u00e9rica Latina (e no Brasil) temos uma tradi\u00e7\u00e3o importante de estudos, conhecidos pelo r\u00f3tulo mais geral de &#8220;Estudos de Recep\u00e7\u00e3o&#8221;, que sempre se interessou pelos modos a partir dos quais as pessoas se apropriam dos produtos midi\u00e1ticos e como fazem sentidos a partir deles. Inclusive quando os produtos midi\u00e1ticos s\u00e3o o jornalismo. Ainda assim, de modo geral, grande parte das nossas pesquisas continuam a assumir uma perspectiva que olha para o leitor a partir do lugar da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No momento em que o jornalismo se debate, como um peixe fora d&#8217;\u00e1gua, em um cen\u00e1rio que destaca, ano ap\u00f3s ano, a queda do interesse dos leitores pelas not\u00edcias e o decl\u00ednio da confian\u00e7a no jornalismo, olhar para o modo como temos estudado as audi\u00eancias parece ser uma necessidade. E esse artigo contribui muito para pensar sobre isso. Um exemplo de provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 esse: <strong>precisamos pensar mais nas experi\u00eancias informativas dos leitores, porque o experienciado como not\u00edcia parece transcender os limites do jornalismo profissional<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que as informa\u00e7\u00f5es sobre o cotidiano continuem importando aos leitores, isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente verdade quanto ao jornalismo como institui\u00e7\u00e3o: \u201cO que \u00e9 experienciado como informa\u00e7\u00e3o relevante, importante e atual pelas audi\u00eancias pode, mas n\u00e3o automaticamente, se alinhar com o que \u00e9 produzido pelos jornalistas profissionais\u201d, dizem os pesquisadores. Se o jornalismo como institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais automaticamente o <em>locus <\/em>onde as audi\u00eancias encontram o que elas experienciam como not\u00edcias, o que isso significa para o campo de estudos em jornalismo, quanto a seu objeto, suas fronteiras e seus objetivos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra discuss\u00e3o interessante, sugerida pelos editores do dossi\u00ea, \u00e9 <strong>quem consideramos como audi\u00eancia<\/strong>. Se temos privilegiado o &#8220;leitor jornal\u00edstico&#8221;, a partir dos interesses das empresas de m\u00eddia, ser\u00e1 que n\u00e3o estamos deixando algu\u00e9m de fora? Ser\u00e1 que n\u00e3o estamos excluindo ou descuidando de audi\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam o mesmo apelo para essas m\u00eddias noticiosas, talvez at\u00e9 mesmo ajudando a reproduzir (mais do que mitigar) desigualdades no acesso, na exposi\u00e7\u00e3o e no uso de not\u00edcias? Os autores sugerem que precisamos pensar a audi\u00eancia a partir de ONDE e COMO as pessoas experienciam o jornalismo, e mesmo de ONDE e COMO elas experienciam as informa\u00e7\u00f5es que constituem seu cotidiano, especialmente quando n\u00e3o mediado pelo jornalismo. Isso poderia nos ajudar a perguntar quais s\u00e3o os papeis e fun\u00e7\u00f5es sociais do jornalismo a partir de uma perspectiva das audi\u00eancias hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem mais spoilers. O texto aponta outras muitas provoca\u00e7\u00f5es interessantes. E vale a pena conhecer o dossi\u00ea como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estou voltando \u00e0s origens, e passei a integrar uma pesquisa que busca estudar <strong>&#8220;os mundos locais da informa\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong>. A pesquisa busca substituir a m\u00eddia pelo territ\u00f3rio como dispositivo de constru\u00e7\u00e3o dos p\u00fablicos, considerando o papel da dimens\u00e3o territorial como um espa\u00e7o de pertencimento e de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria nos quais os indiv\u00edduos v\u00e3o desenvolver suas pr\u00e1ticas informacionais, para al\u00e9m do simples consumo do conte\u00fado midi\u00e1tico. Como as pessoas se informam? Como as informa\u00e7\u00f5es circulam? Qual o papel da m\u00eddia na constru\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de consumo da informa\u00e7\u00e3o? Como essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 mobilizada no cotidiano das conversas entre indiv\u00edduos situados em territ\u00f3rios precisos? Quais s\u00e3o as sociabilidades que se organizam ao redor dessa informa\u00e7\u00e3o? E como as pessoas percebem as ferramentas de circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, os roteiros propostos pelos algoritmos das redes sociais? Quais s\u00e3o as pr\u00e1ticas de resist\u00eancia e contorno a esses formatos desenvolvidas? Como essas pr\u00e1ticas se inserem nas carreiras dos indiv\u00edduos que participam desses mundos sociais da informa\u00e7\u00e3o local? Acho que temos muito a aprender com o modo como as pessoas se informam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Laura Storch<\/p>\n","protected":false},"author":635,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[71,67,69,162],"class_list":["post-2557","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-ejor","tag-grupos","tag-grupos-pesquisa","tag-pesquisasejor"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/635"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2557\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}