{"id":2851,"date":"2023-10-17T15:30:18","date_gmt":"2023-10-17T18:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/?p=2851"},"modified":"2023-10-17T15:30:20","modified_gmt":"2023-10-17T18:30:20","slug":"o-preco-do-tempo-economia-da-atencao-e-outras-reflexoes-sobre-a-sociedade-de-plataformas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2023\/10\/17\/o-preco-do-tempo-economia-da-atencao-e-outras-reflexoes-sobre-a-sociedade-de-plataformas","title":{"rendered":"O pre\u00e7o do tempo, economia da aten\u00e7\u00e3o e outras reflex\u00f5es sobre a Sociedade de Plataformas."},"content":{"rendered":"\n<p>O surgimento de uma ideia pode ocorrer quando confrontamos nossas rotinas di\u00e1rias e reavaliamos nosso modo de vida. Semanalmente, recebo relat\u00f3rios de uso em meu celular, que indicam a quantidade de horas di\u00e1rias que passei conectada. Esses relat\u00f3rios geralmente apontam entre 6 e 8 horas por dia, e trazem consigo preocupa\u00e7\u00f5es sobre o aumento no consumo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 semana anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando analiso esses relat\u00f3rios, examino minha atividade em cada plataforma digital e acabo encontrando justificativas para o tempo que gasto nelas. Afinal de contas, como estudante de jornalismo, o Twitter se torna uma ferramenta indispens\u00e1vel para mim. As horas dedicadas ao TikTok, YouTube e Netflix tamb\u00e9m encontram justifica\u00e7\u00e3o, pois costumo assisti-los enquanto realizo outras tarefas. E assim, seguimos, cada um de n\u00f3s, com nosso conjunto de desculpas quando se trata do tempo que dedicamos \u00e0s plataformas digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que estamos cada vez mais conectados, uma vez que uma vida completamente desconectada se tornou uma realidade cada vez menos vi\u00e1vel. No entanto, \u00e9 crucial reconhecer que frequentemente nos engajamos nessa conectividade de maneira passiva, especialmente quando se trata das redes de m\u00eddia social. Neste segundo texto para o site do Ejor, proponho-me a explorar quem nos tornamos quando estamos online, e convido \u00e0 reflex\u00e3o sobre o fen\u00f4meno do Capitalismo de Vigil\u00e2ncia, tamb\u00e9m conhecido como a Era da Economia da Aten\u00e7\u00e3o, pensando sempre em como o jornalismo se coloca nesse meio. Isso nos leva a questionar se somos verdadeiramente viciados em tecnologia ou se estamos simplesmente condicionados por ela.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u201c<em>Stand Out of Our Light: Freedom and Resistance in the Attention Economy <\/em>&#8220;, do fil\u00f3sofo e programador James Williams, apresenta que as plataformas s\u00e3o desenvolvidas para controlar nosso foco, elas buscam vender a ideia de desenvolvimento tecnol\u00f3gico como desenvolvimento humano. Mas essas duas formas de desenvolvimento n\u00e3o necessariamente, na pr\u00e1tica, s\u00e3o faces da mesma moeda. A Economia da Aten\u00e7\u00e3o vende-se como um mundo de possibilidade de intera\u00e7\u00e3o mas muitas vezes seus resultados s\u00e3o divergentes. Nosso tempo se torna a principal moeda de troca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As Big Five, grandes plataformas infra-estruturais, controlam os dados que circulam e moldam boa parte das rela\u00e7\u00f5es humanas. Seus produtos s\u00e3o projetados para se tornarem viciantes, o algoritmo e design moldam de forma proposital as experi\u00eancias e est\u00edmulos de usu\u00e1rios. A grande constela\u00e7\u00e3o das Big Five (DIJCK , 2018)&nbsp; moldam os seus algoritmos a favor da personaliza\u00e7\u00e3o para criar um mundo \u00fanico onde nossas prefer\u00eancias s\u00e3o exaltadas e model\u00e1veis, elas agem de forma ativa na nossa psique fazendo est\u00edmulos de dopamina constantes, transformando nossa pr\u00f3pria identidade. A vida desconectada \u00e9 quase imposs\u00edvel para grande parte da sociedade, tornando as plataformas sociais indispens\u00e1veis e predominantes. E o perigo est\u00e1 no fato de que n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o nos enxergamos sem elas, e elas sabem o poder que tem sobre n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, ainda estamos longe da compreens\u00e3o sobre os efeitos do consumo de plataformas na vida humana. Conseguimos notar as primeiras consequ\u00eancias nos mais variados \u00e2mbitos da vida social. Desde a prolifera\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o, desaparecimento de profiss\u00f5es, teorias da conspira\u00e7\u00e3o, ascens\u00e3o de grupos extremistas, consumo desenfreado, tend\u00eancias de curto prazo e in\u00fameras consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas. Como mencionado no livro &#8220;A M\u00e1quina do Caos\u201d, do jornalista Max Fisher.:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA tecnologia das redes sociais exerce uma for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o t\u00e3o poderosa na nossa psicologia e na nossa identidade, e \u00e9 t\u00e3o predominante na nossa vida, que transforma o jeito como pensamos, como nos comportamos e como nos relacionamos uns com os outros. O efeito, multiplicado por bilh\u00f5es de usu\u00e1rios, tem sido a transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O regime de v\u00edcios que a sociedade vivencia por meio das plataformas de m\u00eddia social est\u00e1 atribu\u00eddo \u00e0s suas interfaces criadas para gerar depend\u00eancia instant\u00e2nea.&nbsp; De forma que se crie um eterno ciclo vicioso, onde n\u00f3s somos condicionados pelo ciclo de dopamina que nos adestra a consumirmos novamente. E assim, encontramos uma sociedade de consumidores de plataforma, passivos e adestrados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00f3s consumidores, n\u00e3o \u00e9 permitida a reflex\u00e3o. Devemos aceitar todas as diretrizes das plataformas para podermos pertencer e assim tudo volta a se repetir. A valida\u00e7\u00e3o social est\u00e1 vinculada ao pertencimento, e as plataformas de m\u00eddia social o permitem de forma r\u00e1pida e eficaz. Dentro delas entramos no ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o da valida\u00e7\u00e3o social, e com seus algoritmos de personaliza\u00e7\u00e3o somos cada vez mais validados no mundo virtual. Nossa conformidade com as plataformas e nossa confian\u00e7a a elas da nossa identidade, prejudica nossa emancipa\u00e7\u00e3o e autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>As tecnologias persuasivas operam para monitorar e oferecer aos usu\u00e1rios meios para permanecerem em constante engajamento dentro das plataformas. Assim configura-se a base para o Capitalismo de Vigil\u00e2ncia, que se molda juntamente a ideia da \u201ceconomia da aten\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo James Willians a economia da aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o marco do s\u00e9culo XXI, onde \u201ca persuas\u00e3o sofisticada aliada \u00e0 tecnologia sofisticada de modo a tornar prioridade em nossas vidas os mais mesquinhos objetivos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias de maneira relevante dentro dessas estruturas representa, sem d\u00favida, um dos maiores desafios do jornalismo na atualidade. Portanto, \u00e9 importante refletir sobre como o jornalismo opera no contexto dessas m\u00faltiplas influ\u00eancias. N\u00e3o s\u00f3 devemos considerar a gest\u00e3o dos est\u00edmulos relacionados \u00e0 compreens\u00e3o da psicologia humana, mas tamb\u00e9m dentro desse universo influenciado e dirigido por algoritmos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental abordar o jornalismo que \u00e9, de certa forma, orientado pelas plataformas com um olhar cr\u00edtico. N\u00e3o podemos permitir que o n\u00edvel de engajamento prevale\u00e7a sobre a qualidade da informa\u00e7\u00e3o veiculada. Conforme discutido no texto &#8220;At Work in the Digital Newsroom&#8221; do pesquisador canadense Nicoles Cohen:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando pedi que descrevessem seu trabalho, os jornalistas digitais falaram sobre a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado que ser\u00e1 compartilhado, lido e amplamente divulgado. Embora n\u00e3o tenham sido questionados especificamente sobre valores jornal\u00edsticos, ao longo das entrevistas poucos jornalistas falaram de qualquer conjunto particular de valores jornal\u00edsticos, ou de produzir jornalismo como servi\u00e7o p\u00fablico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O jornalismo enfrenta desafios significativos em sua busca por sobreviv\u00eancia, especialmente durante a complexa reestrutura\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para alcan\u00e7ar e manter a aten\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia. Contudo, quando a pr\u00f3pria ess\u00eancia do jornalismo, ou seja, a informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 subjugada para garantir sua sobreviv\u00eancia, \u00e9 crucial questionar o que exatamente estamos preservando.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos preservando jornalismo ou apenas um simulacro? \u00c0 medida que jornalistas se v\u00eaem sobrecarregados produzindo not\u00edcias voltadas exclusivamente para um p\u00fablico sedento por est\u00edmulos imediatos e algoritmos, surge a preocupa\u00e7\u00e3o sobre se isso ainda pode ser chamado de jornalismo. Em meio a essa transforma\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sendo gerado um ambiente onde, ironicamente, o pr\u00f3prio jornalismo come\u00e7a a criar um mundo sem jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Encerro essa reflex\u00e3o voltando para o in\u00edcio desse texto, falando com a esfera de audi\u00eancia presente em cada um de n\u00f3s. Pensando que num mundo onde nosso tempo \u00e9 t\u00e3o cobi\u00e7ado dever\u00edamos buscar compreender de forma mais enf\u00e1tica como essas tecnologias o utilizam como moeda de troca, e principalmente se essa troca est\u00e1 sendo de fato vantajosa. Afinal, de certa forma, o poder de escolha est\u00e1 bem nas nossas m\u00e3os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS:<\/p>\n\n\n\n<p>FISHER, Max. <strong>A M\u00e1quina do Caos<\/strong>: Como as redes sociais reprogramaram nossa mente. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2023. ISBN 9786556924007.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>DIJCK , Jos\u00e9 Van; POELL, Thomas; MARTJIN, Waal . <strong>The Plataform Society<\/strong>: Puclic Values in a connective world. 1. ed. Nova York: Oxford University Press, 2018. ISBN 9780190889791.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>WILLIAMS, James. <strong>Stand Out of Our Light<\/strong>: Freedom and Resistance in the Attention Economy. 1. ed. New York: Cambridge University Press, 2018. ISBN 978-1-108-42909-2.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ana Luiza Dutra L. M. Ribeiro\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":6970,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[71,162],"class_list":["post-2851","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-ejor","tag-pesquisasejor"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6970"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2851"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2851\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}