{"id":3437,"date":"2024-05-28T17:38:12","date_gmt":"2024-05-28T20:38:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/?p=3437"},"modified":"2024-05-28T19:29:54","modified_gmt":"2024-05-28T22:29:54","slug":"entrevista-professores-do-poscom-abordam-o-desastre-ambiental-no-rio-grande-do-sul-pela-perspectiva-do-jornalismo-e-da-pesquisa-em-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2024\/05\/28\/entrevista-professores-do-poscom-abordam-o-desastre-ambiental-no-rio-grande-do-sul-pela-perspectiva-do-jornalismo-e-da-pesquisa-em-comunicacao","title":{"rendered":"ENTREVISTA: Professores do Poscom abordam o desastre ambiental no Rio Grande do Sul pela perspectiva do jornalismo e da pesquisa em comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"3437\" class=\"elementor elementor-3437\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4971ae1 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4971ae1\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-38f2bbd\" data-id=\"38f2bbd\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6c7531b elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6c7531b\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p><span style=\"font-weight: 400\">O Rio Grande do Sul (RS) atravessa o maior desastre ambiental de sua hist\u00f3ria, completando, nesta semana, um m\u00eas de consequ\u00eancias devastadoras relativas \u00e0s chuvas fortes, alagamentos e inunda\u00e7\u00f5es. Segundo <\/span><a href=\"https:\/\/defesacivil.rs.gov.br\/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-28-5-9h\"><span style=\"font-weight: 400\">dados atualizados da Defesa Civil do RS<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, at\u00e9 o momento foram contabilizados 469 munic\u00edpios afetados, resultando em 169 \u00f3bitos, 53 desaparecimentos, 806 feridos, 48.789 pessoas em abrigos, 581.638 desalojados e 2.345.400 afetados. Nesse cen\u00e1rio, est\u00e3o atuando um efetivo de 28.181 pessoas, 4.046 viaturas, 208 embarca\u00e7\u00f5es e 14 aeronaves. Este mega acontecimento estadual, que toma propor\u00e7\u00f5es de discuss\u00e3o nacionais e, no contexto acad\u00eamico e comunicacional, internacionais, denuncia a necessidade inadi\u00e1vel de colocar a tem\u00e1tica socioambiental em evid\u00eancia.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">No Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o (Poscom) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), h\u00e1 docentes cuja trajet\u00f3ria de pesquisa \u00e9 atravessada por esse tema h\u00e1 cerca de 20 anos. A fim de discutir o papel do jornalismo e da comunica\u00e7\u00e3o diante da conjuntura atual, bem como as possibilidades de trabalho conjunto entre jornalistas, comunicadores e cientistas, os convites de pesquisa que emergem nesse contexto e os principais desafios projetados aos pesquisadores ao tratar do assunto, foram entrevistados <\/span><b>M\u00e1rcia Franz Amaral<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><b>Reges Schwaab<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/media-gru2-2.cdn.whatsapp.net\/v\/t61.24694-24\/251073246_1754393111398232_7038662724275717288_n.jpg?ccb=11-4&amp;oh=01_Q5AaIOvvLXh1PlrT3W-IW6JSzHpY-lPc6BOyzaArV7FriTH-&amp;oe=66636336&amp;_nc_sid=e6ed6c&amp;_nc_cat=105\" width=\"135\" height=\"135\" \/><\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">M\u00e1rcia \u00e9 professora do Departamento de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Maria. \u00c9 vice-l\u00edder do<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> EJOR &#8211; Grupo de Estudos em Jornalismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (CNPq\/UFSM). Foi professora visitante da Universidad Rey Juan Carlos, na Espanha, e realizou p\u00f3s-doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o na Universitat Pompeu Fabra, tamb\u00e9m na Espanha. Atua na \u00e1rea de Comunica\u00e7\u00e3o, com \u00eanfase em discurso jornal\u00edstico, jornalismo popular, sensacionalismo, jornalismo e emo\u00e7\u00e3o, e cobertura de cat\u00e1strofes e desastres.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/media-gru2-2.cdn.whatsapp.net\/v\/t61.24694-24\/422523814_771032454872007_1331548210715243720_n.jpg?ccb=11-4&amp;oh=01_Q5AaIKQ2d-8rMdrREbqKjIFgXr1ihS5K7Y8fxcUByaAvCqO6&amp;oe=666335BF&amp;_nc_sid=e6ed6c&amp;_nc_cat=101\" width=\"135\" height=\"135\" \/><\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Reges \u00e9 professor do Departamento de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Maria, atuando no campus de Frederico Westphalen (RS). \u00c9 l\u00edder do<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> milpa &#8211; laborat\u00f3rio de jornalismo <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(CNPq\/UFSM). Dirige o podcast <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Palavra Terra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Realizou p\u00f3s-doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o na Universidad de Antioquia, na Col\u00f4mbia. Atua na \u00e1rea de Comunica\u00e7\u00e3o, com \u00eanfase em jornalismo, antropoceno, problem\u00e1ticas socioambientais, m\u00e9todo de reportagem, narrativa e discurso midi\u00e1tico.<\/span><\/p><p>\u00a0<\/p><p><b>ANNA J\u00daLIA: Como voc\u00ea descreve o papel do jornalismo\/da comunica\u00e7\u00e3o diante da trag\u00e9dia clim\u00e1tica que observamos no RS?<\/b><\/p><p><b>M\u00c1RCIA: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Eu prefiro trabalhar com esta sucess\u00e3o de acontecimentos que vivemos no RS na chave do termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">desastre<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, numa dimens\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 clim\u00e1tica, mas tamb\u00e9m socioambiental. Me embaso em alguns aportes da Sociologia dos Desastres, pois o termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">trag\u00e9dia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">est\u00e1 muito associado com uma dimens\u00e3o do inevit\u00e1vel. Entretanto, \u00e9 preciso dizer que o termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">desastre <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00e9 tamb\u00e9m bastante limitado, porque ele se denomina epicentro de um entorno complexo e deve ser tratado no escopo de largos processos sociais.<\/span><\/p><p><b>Podemos afirmar que um desastre \u00e9 sempre multicausal. O desastre que vivemos \u00e9 o encontro de eventos extremos com vulnerabilidades e abriga uma sucess\u00e3o de crises agravadas por\u00a0 problemas sociais cronificados. Assim, um desastre surge sempre pelos seus impactos, mas ele nunca come\u00e7a quando eclode. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0S\u00e3o v\u00e1rias camadas de quest\u00f5es de diferentes ordens que requerem abordagens m\u00faltiplas. E, ademais, outras\u00a0 crises vir\u00e3o ap\u00f3s o \u00e1pice do desastre, evidenciando o quanto nossa sociedade \u00e9 fr\u00e1gil e o quanto tem fracassado em diferentes aspectos.<\/span><b> O desastre \u00e9 clim\u00e1tico, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma crise de modelos de desenvolvimento.<\/b> <b>Neste mega acontecimento, a sociedade, de costas para a ci\u00eancia, foi empurrada a entender subitamente que h\u00e1 extremos de clima e de tempo intensificados e mais frequentes que, ao se encontrarem com extremos de outras ordens, eclodem crises imensas.\u00a0<\/b><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Neste momento avassalador, o jornalismo \u00e9 ref\u00e9m dos acontecimentos e das fontes que j\u00e1 est\u00e3o previamente organizadas e treinadas para reproduzir suas vis\u00f5es de mundo. A informa\u00e7\u00e3o ao vivo e as imagens cinematogr\u00e1ficas que podem salvar vidas s\u00e3o as mesmas que geram como\u00e7\u00e3o e espet\u00e1culo. Compassada com a emerg\u00eancia, a apura\u00e7\u00e3o da cobertura em tempo real \u00e9 sempre um tanto deficiente, pois \u00e9 sincr\u00f4nica, ou seja, realizada a partir de informa\u00e7\u00f5es que chegam muito fragmentadas. Num segundo momento ap\u00f3s o estalido da crise, temos a cobertura das a\u00e7\u00f5es de solidariedade que s\u00e3o fundamentais, mas de alguma maneira tamb\u00e9m s\u00e3o cat\u00e1rticas e paralisam a crise no tempo. Muitas coberturas de desastres tradicionalmente se encerram neste momento. N\u00e3o ser\u00e1 o caso do desastre no RS, em fun\u00e7\u00e3o de ser um mega acontecimento. <\/span><b>Assim, o jornalismo precisa manter esta discuss\u00e3o viva.<\/b><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 com muita dificuldade que o jornalismo consegue operar em outras dimens\u00f5es, mais especificamente, no \u201cantes\u201d e no \u201cdepois\u201d do acontecido. E \u00e9 justamente a\u00ed que est\u00e1 sua pot\u00eancia. Comunicar riscos que s\u00e3o invis\u00edveis, identificar vulnerabilidades sem \u201cganchos\u201d aparentes e acompanhar o desenrolar da vida das pessoas afetadas por um largo per\u00edodo de tempo e, mais, fazer um jornalismo de precau\u00e7\u00e3o, buscando evitar o pr\u00f3ximo desastre, s\u00e3o grandes desafios. O problema \u00e9 que essas necessidades subvertem as l\u00f3gicas jornal\u00edsticas a que estamos acostumados, pois o jornalismo \u00e9 pautado pelo factual e por crit\u00e9rios de noticiabilidade que precisam ser superados. <\/span><b>Precisamos desnaturalizar os problemas sociais cr\u00f4nicos e considerarmos que a as quest\u00f5es ambientais e a vis\u00e3o antecipada dos riscos clim\u00e1ticos integram as exig\u00eancias de um jornalismo que fa\u00e7a a diferen\u00e7a.\u00a0<\/b><\/p><p><b>REGES: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Um primeiro papel \u00e9 a cobertura imediata, com \u00e9tica e com a perspectiva de orienta\u00e7\u00e3o e de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. O trabalho jornal\u00edstico bem feito tem a capacidade de ajudar nas a\u00e7\u00f5es imediatas e dar a correta dimens\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo. Gradativamente, vemos a necessidade de come\u00e7ar a buscar o contexto e as explica\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 um papel fundamental, o cora\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica jornal\u00edstica, ou seja, a apura\u00e7\u00e3o precisa, completa e capaz de oferecer interpreta\u00e7\u00f5es sem simplificar as quest\u00f5es ou negar as suas complexidades.<\/span><b> Um acontecimento como o que temos presenciado no RS, que ter\u00e1 duras consequ\u00eancias, requer uma leitura que articule o social, o pol\u00edtico, o econ\u00f4mico, o cultural, todos, inevitavelmente, atravessados pelo ambiental. No atual cen\u00e1rio, o jornalismo precisa ser interpretativo, precisa mostrar conex\u00f5es e ser plural.<\/b><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Talvez a gente acabe percebendo, em um acontecimento como este \u2013 que \u00e9 dif\u00edcil classificar como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">desastre<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">trag\u00e9dia<\/span><\/i>, ou qualquer um desses nomes \u2013, que estamos diante de algo que n\u00e3o se esgota, que talvez n\u00e3o passe, no sentido de que volte a se repetir em diferentes intensidades. Ou seja, estamos diante de um tipo de acontecimento, nesse contexto clim\u00e1tico, que \u00e9 multifacetado, com muitas camadas e diversos fatores que o desencadeiam. Ao mesmo tempo, ele tem consequ\u00eancias dif\u00edceis de mensurar, pois parte delas est\u00e1 relacionada a s\u00e9rias quest\u00f5es sociais que j\u00e1 enfrentamos h\u00e1 muito tempo.\u00a0\u00c9 algo que inclusive se mostra mais complexo e at\u00e9 transcende a ideia de uma leitura socioambiental. Isto \u00e9, estamos diante de m\u00faltiplos fatores que, com intensidades vari\u00e1veis, v\u00e3o fazer com que esse tipo de fen\u00f4meno se replique e chegue nesses pontos extremos. <b>Ent\u00e3o, estamos sendo lembrados, quando olhamos para um acontecimento t\u00e3o dif\u00edcil, t\u00e3o duro nas suas consequ\u00eancias, que precisamos passar a operar dentro de outro tipo de paradigma.<\/b><\/p><p>\u00a0<\/p><p><b>ANNA J\u00daLIA: Como jornalistas\/comunicadores e cientistas podem trabalhar juntos para melhorar a comunica\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es ambientais emergentes?<\/b><\/p><p><b>REGES:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> No jornalismo, especialmente, a gente precisa de uma forma\u00e7\u00e3o que incorpore uma vis\u00e3o transversal atravessada pelas quest\u00f5es sociais e ambientais que trazem a necessidade de compreens\u00e3o de campos como os direitos humanos, os direitos da terra, os direitos dos animais, a justi\u00e7a clim\u00e1tica e os elementos das chaves de leitura interseccional.<\/span><b> Ent\u00e3o, as quest\u00f5es de ra\u00e7a, de g\u00eanero e de classe, a perspectiva da vulnerabilidade, das pessoas e de outras formas de vida, s\u00e3o elementos aos quais a gente n\u00e3o pode negar o protagonismo para que seja poss\u00edvel produzir algo relevante narrativamente<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Ou seja, n\u00f3s precisamos atuar muito fortemente no di\u00e1logo, na media\u00e7\u00e3o dessas distintas maneiras de habitar o mundo. N\u00f3s precisamos ser abertos a diferentes narrativas e para isso precisamos reorientar o nosso olhar e a nossa escuta na considera\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para entender qual \u00e9 esta Terra que a gente habita hoje, o que est\u00e1 acontecendo efetivamente, compreendendo que esse cen\u00e1rio de extremos talvez n\u00e3o possibilite que haja um tipo de solu\u00e7\u00e3o \u00fanica.\u00a0<\/span><\/p><p><b>Atuar no sentido de uma l\u00f3gica de di\u00e1logo social, de media\u00e7\u00e3o dessa conversa, \u00e9 algo que vai exigir muito do jornalismo, ainda mais dentro de outros cen\u00e1rios que hoje se colocam, como grandes disputas em rela\u00e7\u00e3o a entendimentos pol\u00edticos e discursivos sobre o que estamos vivendo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Ent\u00e3o, incorporar outros vocabul\u00e1rios, entender o que significa um planeta em emerg\u00eancia clim\u00e1tica e que h\u00e1 um atravessamento muito s\u00e9rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias do que tem acontecido quando a gente olha pela l\u00f3gica da vulnerabilidade de parte da vida humana e de parte tamb\u00e9m dos n\u00e3o humanos, significa compreender que \u00e9 necess\u00e1rio uma atitude realmente muito pensada e que \u00e9 preciso ter clareza em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o de porque n\u00f3s fazemos jornalismo e de porque n\u00f3s fazemos comunica\u00e7\u00e3o num mundo como esse.<\/span><\/p><p><b>M\u00c1RCIA:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> A precariza\u00e7\u00e3o do trabalho jornal\u00edstico \u00e9 um ponto que n\u00e3o pode ser esquecido, visto que muitas vezes sabemos o que \u00e9 preciso ser feito, mas uma cobertura mais sistem\u00e1tica e profunda \u00e9 invi\u00e1vel nas condi\u00e7\u00f5es atuais de trabalho.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">E durante um desastre, os jornalistas tamb\u00e9m s\u00e3o afetados individualmente ou a comunica\u00e7\u00e3o como um todo pode sofrer um apag\u00e3o. Neste caso do RS, tivemos jornalistas do interior que atuaram como resgatistas, jornalistas que perderam suas casas, ficaram ilhados ou ficaram sem internet. As sedes de grupos de comunica\u00e7\u00e3o e setores de informa\u00e7\u00e3o do governo ficaram alagados. Neste vazio de informa\u00e7\u00f5es, crescem iniciativas comunit\u00e1rias de informa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m atuam as informa\u00e7\u00f5es falsas.<\/span><\/p><p><b>Tamb\u00e9m h\u00e1 uma baixa autonomia dos jornalistas nestas coberturas que, ao n\u00e3o conseguirem se especializar ou aprofundar suas mat\u00e9rias, acabam dependendo muito de fontes detentoras de poder ou de alguns especialistas j\u00e1 \u201cconhecidos\/tarimbados\u201d<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, os \u201cintelectuais midi\u00e1ticos\u201d que circulam repetidamente na m\u00eddia, muitas vezes falando de quest\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o suas expertises e, em outras vezes, pessoas sem conex\u00e3o com as realidades e saberes locais. <\/span><b>Ap\u00f3s a pandemia, houve um reencontro entre cientistas e jornalistas que n\u00e3o pode se perder. Por mais que sejam campos de l\u00f3gica completamente diferentes, h\u00e1 um lugar tanto na ci\u00eancia quanto no jornalismo que exige que a informa\u00e7\u00e3o aprofundada, mesmo pass\u00edvel de incertezas, deve ser democratizada.<\/b><\/p><p>\u00a0<\/p><p><b>ANNA J\u00daLIA: Quais convites de pesquisa emergem a partir deste cen\u00e1rio?<\/b><\/p><p><b>M\u00c1RCIA: Na minha avalia\u00e7\u00e3o, as zonas de sombra do ponto de vista comunicacional mais amplo s\u00e3o ainda visibilizar as vulnerabilidades sociais e comunicar as necessidades de cidades reprogramadas para outros patamares de riscos clim\u00e1ticos, ambientais e sociais. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">De maneira mais espec\u00edfica, ao abordar o momento de um desastre , o que me deixa mais assustada \u00e9 o fato de que nem as defesas civis, nem os gestores e muito menos a popula\u00e7\u00e3o sabem como proceder na hora de um alerta de chuvas extremas ou de deslizamentos. Este \u00e9 um caminho complexo que precisamos rever. O que \u00e9 de fato um alerta de risco hidrol\u00f3gico ou de movimento de massa, como ler sua gravidade, o quanto ele est\u00e1 pr\u00f3ximo de A ou B, o que pode e deve a Defesa Civil fazer, como deve o comunicador agir e em que medida a popula\u00e7\u00e3o consegue dar aten\u00e7\u00e3o a ele.\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o a\u00e7\u00f5es que dependem de a\u00e7\u00f5es comunicacionais sobretudo locais.<\/span><b> A ideia de que o alerta meteorol\u00f3gico por si funciona precisa ser revista.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> H\u00e1 um per\u00edodo de sensibiliza\u00e7\u00e3o e de cria\u00e7\u00e3o de redes de confian\u00e7a e credibilidade que precisa ser constru\u00eddo antes deste alerta poder funcionar.<\/span><\/p><p><b>REGES: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Pensando o cen\u00e1rio que temos hoje na pesquisa em comunica\u00e7\u00e3o, est\u00e1 colocado um certo compromisso ou um convite inescap\u00e1vel, digamos assim, para que a gente intensifique o di\u00e1logo com outros campos de conhecimento, trazendo esse di\u00e1logo abertamente e de uma forma org\u00e2nica<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">\u2013 n\u00e3o \u00e9 meramente incorporar conceitos, mas realmente fazer com que haja uma conversa para complexifica\u00e7\u00e3o do modo como a gente vai ler os fen\u00f4menos sociais. <\/span><b>Dentro desta chamada nova \u00e9poca da terra, dentro do Antropoceno, o que a gente tem \u00e9 a necessidade de conviv\u00eancia com distintos saberes e a necessidade de incorpora\u00e7\u00e3o de elementos que t\u00eam aparecido dentro de chaves como a interseccionalidade, a decolonialidade e tamb\u00e9m a aproxima\u00e7\u00e3o com campos das ci\u00eancias da terra e do clima.\u00a0<\/b><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Hoje, fazer Ci\u00eancias Sociais e Humanas, fazer pesquisa em comunica\u00e7\u00e3o, requer a associa\u00e7\u00e3o, a conviv\u00eancia, o di\u00e1logo, no sentido de uma reconstru\u00e7\u00e3o do nosso olhar para essa multiplicidade de mundos e para a necessidade de realmente contribuir para desarmar essa impossibilidade da vida, esse anunciado fim da vida, j\u00e1 que temos somente um planeta e que precisamos achar uma maneira de continuar habitando ele sem que isso signifique a aniquila\u00e7\u00e3o de mundos com os quais a gente deve conviver. <\/span><b>Ent\u00e3o, temos a necessidade real de abrir o fazer cient\u00edfico para uma atitude essencialmente de di\u00e1logo, de conviv\u00eancia e de incorpora\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e respeitosa com outras l\u00f3gicas de pensamento, modos de habitar e modos de pensar a terra.<\/b><\/p><p>\u00a0<\/p><p><b>ANNA J\u00daLIA: Quais s\u00e3o os principais desafios enfrentados pelos pesquisadores da \u00e1rea ao tratar destas quest\u00f5es ambientais emergentes?<\/b><\/p><p><b>REGES: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Talvez, por muito tempo as pesquisas que alertaram para essas quest\u00f5es, as pesquisas que discutiram as quest\u00f5es clim\u00e1ticas dentro da comunica\u00e7\u00e3o, entraram nesse espa\u00e7o, que socialmente a gente acabou desenvolvendo, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de uma disson\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao tempo que a gente vive, um descr\u00e9dito de parte da sociedade em rela\u00e7\u00e3o a real possibilidade de tantas cat\u00e1strofes acontecerem. Uma procrastina\u00e7\u00e3o, uma n\u00e3o aten\u00e7\u00e3o \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica como algo real, concreto e localizado em todos os espa\u00e7os geogr\u00e1ficos que a gente conhece, sendo que em alguns deles j\u00e1 a vemos de maneira muito contundente. <\/span><b>Ent\u00e3o, assim como os alertas que midiaticamente circulavam, partes dessas pesquisas, talvez na avalia\u00e7\u00e3o de algumas pessoas, pudessem soar um tanto alarmistas<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">O que acontece tamb\u00e9m \u00e9 que parte das nossas pesquisas de alguma forma tentaram ver qual era a presen\u00e7a e de que modo essa narrativa ou esse discurso da emerg\u00eancia clim\u00e1tica aparecia nos produtos midi\u00e1ticos ou nos produtos jornal\u00edsticos. Essa foi uma perspectiva bastante grande de abordagem desse tema, e aos poucos, para al\u00e9m disso,<\/span><b> a gente passou a ver que o campo precisava atuar no sentido de reorientar o que era necess\u00e1rio para que a gente pudesse transcender algo, mais no sentido de recomenda\u00e7\u00e3o ou prescri\u00e7\u00e3o, mas achar o caminho para que a gente incorporasse de fato a transversalidade do tema ambiental naquilo que a gente faz<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. E esse continua sendo um desafio.<\/span><\/p><p><b>M\u00c1RCIA: O principal desafio \u00e9 uma cobertura aprofundada das quest\u00f5es ambientais e clim\u00e1ticas\u00a0 de forma cont\u00ednua, persistente e transversal, com a revela\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es e conflitos que est\u00e3o envolvidos neste tema e a amplia\u00e7\u00e3o de fontes jornal\u00edsticas que possam dar outros enquadramentos e angula\u00e7\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Precisamos ouvir cientistas em outras dimens\u00f5es, como a Sociologia e a Antropologia, e tamb\u00e9m ouvir as pessoas afetadas e permitir que elas n\u00e3o apenas ilustrem um drama, mas portem-se como cidad\u00e3s reivindicadoras de seus direitos.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m citaria a necessidade de desenvolvermos modos de inteligibilidade em que todos se sentissem respons\u00e1veis pelas quest\u00f5es ambientais e n\u00e3o apenas fiz\u00e9ssemos o movimento de apontar como culpados os gestores p\u00fablicos ou os interesses econ\u00f4micos.<\/span><b> Seriam necess\u00e1rios enquadramentos jornal\u00edsticos que provocassem maior afeta\u00e7\u00e3o nos cidad\u00e3os, no sentido de se sentirem implicados<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. E nem estou me referindo somente \u00e0 necessidade de uma vida mais sustent\u00e1vel, mas de os cidad\u00e3os entenderem que seu voto, por exemplo, tem repercuss\u00e3o direta nos desastres que vai ou n\u00e3o viver. Pesquisas mostram que a maioria da popula\u00e7\u00e3o reconhece as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas boa parte do Legislativo eleito no pa\u00eds pela mesma popula\u00e7\u00e3o flexibilizou a legisla\u00e7\u00e3o ambiental ou trabalha para isso.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Um terceiro desafio seria a constru\u00e7\u00e3o de uma rede de comunicadores das principais institui\u00e7\u00f5es, da m\u00eddia e das comunidades para entrar em a\u00e7\u00e3o em momentos de crises e\/ou emerg\u00eancias espec\u00edficas. <\/span><b>A \u00fanica viabilidade de uma comunica\u00e7\u00e3o efetiva numa crise \u00e9 dispor de uma rede preexistente para ser acionada quando o problema desponta<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Concordo com a colega Cilene Victor (UMESP) que classifica a comunica\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o de riscos em quatro dimens\u00f5es: a comunica\u00e7\u00e3o no interior das institui\u00e7\u00f5es, entre as institui\u00e7\u00f5es, a midi\u00e1tica e a comunit\u00e1ria.\u00a0<\/span><\/p><p>\u00a0<\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Esta entrevista foi editada para fins de concis\u00e3o.<\/span><\/p><p><span style=\"font-weight: 400\">Texto: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Anna J\u00falia C. da Silva<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> | Doutoranda (Poscom\/UFSM) e pesquisadora discente do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">milpa &#8211; laborat\u00f3rio de jornalismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (CNPq\/UFSM)<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcia Franz Amaral e Reges Schwaab discutem os pap\u00e9is, as possibilidades, os convites e os desafios de pesquisa diante da conjuntura atual<\/p>\n","protected":false},"author":5698,"featured_media":3438,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[71,67,294],"class_list":["post-3437","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-ejor","tag-grupos","tag-milpa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5698"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3437\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3438"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}