{"id":397,"date":"2015-05-04T18:09:58","date_gmt":"2015-05-04T21:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2015\/05\/04\/quando-eu-nao-e-outro-uma-conversa-com-fernando-resende\/"},"modified":"2015-05-04T18:09:58","modified_gmt":"2015-05-04T21:09:58","slug":"quando-eu-nao-e-outro-uma-conversa-com-fernando-resende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2015\/05\/04\/quando-eu-nao-e-outro-uma-conversa-com-fernando-resende","title":{"rendered":"Quando eu (n\u00e3o) \u00e9 outro: uma conversa com Fernando Resende"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\">Docente do Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor doutor <strong>Fernando Resende<\/strong> ser&aacute; o palestrante da Aula Magna do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal de Santa Maria, na pr&oacute;xima sexta-feira, dia 8 de maio. O evento ser&aacute; realizado no Audit&oacute;rio do CCSH, no campus da UFSM, em Santa Maria, a partir das 9h30.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\">Pesquisador com &ecirc;nfase nos estudos sobre comunica&ccedil;&atilde;o, narrativas de conflito e movimentos diasp&oacute;ricos, Resende vai abordar em sua fala com alunos e docentes da UFSM o tema &ldquo;Quando eu (n&atilde;o) &eacute; outro: uma conversa sobre cortes e travessias&rdquo;. Antecipando a pauta de debates, o professor concedeu entrevista ao POSCOM, comentando quest&otilde;es sobre alteridade, a representa&ccedil;&atilde;o do outro, comunica&ccedil;&atilde;o e jornalismo. Confira:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>O tema de sua fala na Aula Magna do Poscom tem a alteridade e a representa&ccedil;&atilde;o do outro na enuncia&ccedil;&atilde;o como quest&atilde;o central. Em um contexto como o que estamos vivendo hoje, em que conflitos militares e religiosos se espalham pelo mundo, quest&otilde;es de g&ecirc;nero provocam debates nos mais diferentes campos e, no cen&aacute;rio nacional, disputas ideol&oacute;gicas e pol&iacute;ticas polarizam a popula&ccedil;&atilde;o, qual a import&acirc;ncia da comunica&ccedil;&atilde;o refletir sobre este tema?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\">A comunica&ccedil;&atilde;o, como sempre, &eacute; crucial no seu papel mediador. Vivemos hoje cen&aacute;rios de conflitos de diversas naturezas (geopol&iacute;ticas, religiosas, territoriais, etc). Sabemos, claro, que sempre foi assim, no entanto, esses conflitos, dado o avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico e o fluxo global de informa&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o hoje experimentados com tanta contund&ecirc;ncia e imediatez que parece inevit&aacute;vel repensar o papel da comunica&ccedil;&atilde;o, seja como campo de conhecimento ou pr&aacute;tica. Al&eacute;m disso, &eacute; cada vez mais &oacute;bvio o quanto experimentamos esses conflitos nas suas formas complexas, por exemplo, quest&otilde;es religiosas est&atilde;o absolutamente imbricadas em quest&otilde;es territoriais, o que inevitavelmente faz com que tenhamos que lidar com os entrela&ccedil;amentos e os hibridismos que esses conflitos evocam. Neste contexto, talvez dev&ecirc;ssemos pensar que o car&aacute;ter &ldquo;mediador&rdquo; da comunica&ccedil;&atilde;o assuma nuances muito particulares. N&atilde;o se trata de mediar para &ldquo;dar a ver&rdquo;, no sentido iluminista ou did&aacute;tico-explicativo do termo, pelo menos n&atilde;o t&atilde;o-somente, mas de colocar em cena o pr&oacute;prio conflito, aquilo que nele se apresenta como paradoxal. Esses conflitos, muitos deles inclusive j&aacute; de longa dura&ccedil;&atilde;o, acionam v&aacute;rios protagonistas, e por este vi&eacute;s, entre a diferen&ccedil;a e o comum, h&aacute; muitos desejos e muitos poderes em contraposi&ccedil;&atilde;o. &Agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, do meu ponto de vista, caberia coloc&aacute;-los em rela&ccedil;&atilde;o, de modo a deixar exacerbar o que no pr&oacute;prio conflito &eacute; da ordem do indecifr&aacute;vel. Isso altera o entendimento da comunica&ccedil;&atilde;o como espa&ccedil;o de elucida&ccedil;&atilde;o, pois o ideal da produ&ccedil;&atilde;o de uma &ldquo;comunica&ccedil;&atilde;o eficaz&rdquo; teria que ser substitu&iacute;do pela valora&ccedil;&atilde;o do ru&iacute;do ou, no m&iacute;nimo, pelo esfor&ccedil;o de colocar em cena o atrito &ndash; ou a fric&ccedil;&atilde;o &ndash; que os conflitos evocam.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>Durante a SBPJor do ano passado, o senhor enfatizou a import&acirc;ncia do jornalismo falar <\/strong><em>com<\/em><strong> o outro e n&atilde;o apenas <\/strong><em>para<\/em><strong> o outro e <\/strong><em>pelo<\/em><strong> outro. De que forma o jornalista pode produzir uma narrativa atenta &agrave; quest&atilde;o da alteridade? Qual o principal desafio na representa&ccedil;&atilde;o do outro no discurso jornal&iacute;stico?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\">S&atilde;o muitos os desafios. Pensemos, por exemplo, nos de natureza &eacute;tica, quest&atilde;o sobre a qual o jornalismo sempre se debru&ccedil;ou, n&atilde;o resta d&uacute;vida, mas exclusivamente, no meu entender, por um vi&eacute;s conteud&iacute;stico. &Agrave; luz de uma epistemologia condutista, &ldquo;o que falar&rdquo; sempre me pareceu uma quest&atilde;o central em se tratando de pensar o cuidado do jornalismo em rela&ccedil;&atilde;o ao outro, a este de quem e para quem se fala. Este vi&eacute;s, obviamente, segue sendo crucial (mesmo que cada vez aparentemente menos relevante do ponto de vista das pr&aacute;ticas jornal&iacute;sticas que temos acompanhado na atualidade). Por&eacute;m, minhas reflex&otilde;es e pesquisas t&ecirc;m me mostrado que a este vi&eacute;s do problema precisamos somar aquilo que diz respeito mais exclusivamente aos modos de representa&ccedil;&atilde;o do outro. Em termos mais amplos, e no caso espec&iacute;fico do jornalismo, estou dizendo que a &ldquo;forma&rdquo;, sempre equivocadamente separada do conte&uacute;do, passa a ser efetivamente um aspecto relevante. Se partirmos do princ&iacute;pio de que o jornalismo &eacute; antes de tudo &ldquo;um problema de escrita&rdquo;, havemos de reconhecer (e assumir como problema a ideia de) que a ele cabe representar e mediar os fatos do cotidiano, sendo que representar &eacute; aqui uma palavra fundamental que jamais pode ser confundida com &ldquo;apresentar&rdquo;. Por este vi&eacute;s ter&iacute;amos que repensar o pr&oacute;prio exerc&iacute;cio da linguagem, ou da escrita no jornalismo. Michel de Certeau, ao tratar do problema da alteridade, nos faz lembrar que o outro se apresenta na escrita pelo vi&eacute;s de &ldquo;um resto&rdquo;, ou poder&iacute;amos dizer de um rastro, um vest&iacute;gio. Por esta perspectiva, ele &eacute; quase sempre o que a escrita subtrai, aquilo que se d&aacute; no limite de uma irrepresentabilidade. &Eacute;, portanto, a partir deste problema que eu tenho pensado que a sustenta&ccedil;&atilde;o da ideia de objetividade como um dos princ&iacute;pios da escrita jornal&iacute;stica est&aacute; em quest&atilde;o. Se a objetividade sempre foi um ritual estrat&eacute;gico, como h&aacute; muito tempo nos disse Tuchman, havemos de pensar a que e a quem esta estrat&eacute;gia tem servido. Ao que me parece, nos modos como apreendemos este princ&iacute;pio, a objetividade tem sido bastante eficaz ao reiterar os autoritarismos e os sistemas de poder, seja do pr&oacute;prio jornalismo, do jornalista, ou mesmo das fontes, principalmente as ditas &ldquo;oficiais&rdquo;. Por este vi&eacute;s, este &eacute; um princ&iacute;pio que exclui o outro, tira de cena aquele que no cen&aacute;rio dos conflitos, por exemplo, &eacute; o &ldquo;menor&rdquo;, o &ldquo;diferente&rdquo;, o &ldquo;estranho&rdquo;. Este me parece um problema crucial, de dif&iacute;cil apreens&atilde;o, mas fundamental para minimamente nos aproximarmos de um &ldquo;falar com o outro&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>Suas pesquisas atuais t&ecirc;m como principal foco os conflitos no mundo &aacute;rabe. De que forma a m&iacute;dia t&ecirc;m representado estes povos e seus conflitos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\">Em aspectos generalistas, temos uma m&iacute;dia de vi&eacute;s &ldquo;orientalista&rdquo;, um termo importante para pensarmos os princ&iacute;pios, valores e saberes que t&ecirc;m regido as m&iacute;dias que tradicionalmente conhecemos. Ela fala a partir de uma vis&atilde;o muito reduzida, muito pouco aberta ao espa&ccedil;o e aos mundos que n&atilde;o fazem parte do seu escopo de entendimento. Os conflitos do mundo &aacute;rabe, incrivelmente diversos nas suas formas e conte&uacute;dos, conforme tenho podido ver, s&atilde;o claramente alvos de representa&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas preconceituosas, tomadas por estereotipias, por vis&otilde;es lacunares a respeito da geografia nas quais se inscrevem e dos povos que os experimentam de modo mais imediato. Para o Ocidente, o Oriente parece ter sido sempre o outro, o estranho, o diferente, o inacess&iacute;vel. Do ponto de vista da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e da legitima&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas &ldquo;civilizat&oacute;rias&rdquo;, as sociedades ocidentais, para que pudessem existir, ativaram o processo de &ldquo;inven&ccedil;&atilde;o do Oriente&rdquo;, o &ldquo;outro lado do mundo&rdquo;, que ent&atilde;o para n&oacute;s se tornou &ldquo;eles&rdquo;. &Eacute;, de certa forma, com este Oriente &ldquo;inventado&rdquo; que hoje lidamos, &eacute; ele que as m&iacute;dias representam, &eacute; por eles, e n&atilde;o com eles que nossas m&iacute;dias falam. Sabemos que o outro, desconhecido e deslegitimado, facilmente se torna o b&aacute;rbaro. E sob a perspectiva da divis&atilde;o n&oacute;s\/eles, sabemos tamb&eacute;m, quem vence s&atilde;o sempre os mesmos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>Qual sua expectativa em rela&ccedil;&atilde;o ao encontro com alunos e docentes do POSCOM? Como voc&ecirc; v&ecirc; estes momentos de interc&acirc;mbio de experi&ecirc;ncias e conhecimentos entre os programas de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;\">Gosto muito da possibilidade da conversa; este &eacute; tamb&eacute;m um dos princ&iacute;pios b&aacute;sicos quando queremos pensar e quando acreditamos na co-exist&ecirc;ncia do diverso. Al&eacute;m de tudo, levo muito a s&eacute;rio a ideia de que o espa&ccedil;o da sala de aula, no seu sentido mais amplo poss&iacute;vel, seja por excel&ecirc;ncia um espa&ccedil;o pol&iacute;tico, micro, sem d&uacute;vida, mas essencial por ser espa&ccedil;o de produ&ccedil;&atilde;o de saberes e reinven&ccedil;&atilde;o de imagin&aacute;rios. Esses encontros, pra mim, significam a possibilidade de ocuparmos juntos este espa&ccedil;o, produzindo, quem sabe, o ideal de um fazer pol&iacute;tico e est&eacute;tico.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Docente do Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor doutor Fernando Resende ser&aacute; o palestrante da Aula Magna do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal de Santa Maria, na pr&oacute;xima sexta-feira, dia 8 de maio. O evento ser&aacute; realizado no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":124,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-397","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/124"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=397"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/397\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}