{"id":4312,"date":"2025-08-20T21:19:02","date_gmt":"2025-08-21T00:19:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/?p=4312"},"modified":"2025-08-20T21:20:56","modified_gmt":"2025-08-21T00:20:56","slug":"memorias-sabores-e-saberes-entrevista-com-o-projeto-comer-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2025\/08\/20\/memorias-sabores-e-saberes-entrevista-com-o-projeto-comer-historia","title":{"rendered":"\u201cMem\u00f3rias, sabores e saberes\u201d: Entrevista com o projeto Comer Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta entrevista \u00e9 oriunda da disserta\u00e7\u00e3o \u201c<a href=\"https:\/\/repositorio.ufsm.br\/handle\/1\/31749\">Devorando a hist\u00f3ria: midiatiza\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias discursivas no canal <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em><\/a>\u201d, de Paulo Antonio St\u00f6lben Junior, orientada pela professora doutora Viviane Borelli. O objetivo da investiga\u00e7\u00e3o foi analisar as estrat\u00e9gias discursivas produzidas em torno do <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/comerhistoria\">canal <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em> no YouTube<\/a>. A defesa final ocorreu no dia 25 de mar\u00e7o de 2024, e contou com banca formada pela professora doutora Ana Paula da Rosa da UFRGS e pela professora doutora Renata Menasche da UFPel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a defesa, surgiu a sugest\u00e3o de uma entrevista com a equipe do canal <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em>, formado pelos professores doutores Gabriel Ferreira Gurian e Rafael Afonso Gon\u00e7alves e pela professora doutora Ana Carolina Viotti. A partir da supervis\u00e3o da professora Viviane Borelli, a entrevista foi realizada pelo autor no dia 18 de mar\u00e7o de 2025, por meio de perguntas encaminhadas por e-mail. Ela \u00e9 trazida a seguir como forma de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, preocupa\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/grupos\/circulacaoeestrategias\">Grupo de Pesquisa Circula\u00e7\u00e3o Midi\u00e1tica e Estrat\u00e9gias Comunicacionais (Cimid\/UFSM\/CNPq)<\/a>. O canal no YouTube foi criado em 31 de julho de 2020 pelos tr\u00eas acad\u00eamicos, e atualmente o projeto conta com perfis ativos no <a href=\"https:\/\/br.linkedin.com\/company\/comerhistoria\">LinkedIn<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/comerhistoria\/\">Instagram<\/a> e um <a href=\"https:\/\/www.comerhistoria.com\/\">site oficial<\/a>, de onde foi retirado o t\u00edtulo da entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">1 &#8211; Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o inicial para come\u00e7ar a produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em> nasceu do desejo de dialogar com um p\u00fablico mais amplo, divulgando resultados de nossas pesquisas e tamb\u00e9m informa\u00e7\u00f5es muito interessantes que encontramos em nosso dia a dia no trabalho com documentos hist\u00f3ricos para pessoas que n\u00e3o fazem parte necessariamente dos meios acad\u00eamicos \u2013 a que est\u00e1vamos mais familiarizados. Em 2020, com o surgimento da pandemia e das restri\u00e7\u00f5es ao contato com os alunos e colegas, essa vontade pareceu para a gente uma necessidade. Come\u00e7amos, em um primeiro momento, a produzir alguns conte\u00fados em iniciativas vinculadas aos grupos de pesquisa a que pertenc\u00edamos para auxiliar professores do Ensino B\u00e1sico, de assuntos variados do curr\u00edculo escolar. Pouco tempo depois, ap\u00f3s alguns meses desse trabalho, e um come\u00e7o de familiaridade com os meios de produ\u00e7\u00e3o, como ferramentas de edi\u00e7\u00e3o, resolvemos juntar nossas pesquisas acad\u00eamicas, que j\u00e1 tratavam de alimenta\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria, com um interesse pessoal de comer e falar de comida para unir Hist\u00f3ria e alimenta\u00e7\u00e3o. Para isso, nos valemos de um talento particular da Carol \u2013 que, al\u00e9m de historiadora, \u00e9 uma cozinheira de m\u00e3o cheia! Assim, come\u00e7amos a produzir conte\u00fados tendo em vista o p\u00fablico para al\u00e9m de historiadores e acad\u00eamicos. Inicialmente com o Rafael e a Carol, que s\u00e3o casados, e logo em seguida incluindo o Gabriel, que tinha j\u00e1 uma pesquisa consistente sobre bebidas alco\u00f3licas no Brasil \u2013 desenvolvida no mesmo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em que os dois haviam defendido a tese de doutorado, e o time foi formado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">2 &#8211; No que pensaram ao escolher determinadas plataformas para iniciar o trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia inicial foi produzir v\u00eddeos apenas para o YouTube, contando a hist\u00f3ria de alguns pratos e prepara\u00e7\u00f5es e relacionando-os com o contexto em que foram elaborados e as formas como se disseminaram entre diferentes lugares ou camadas sociais. A escolha do YouTube se deu pela possibilidade de produzir v\u00eddeos mais longos, o que nos permitiria desenvolver com mais profundidade os assuntos abordados. Esse era uma particularidade que antes era mais restrita a essa plataforma. Logo percebemos que era poss\u00edvel tamb\u00e9m explorar esse verdadeiro universo que \u00e9 a alimenta\u00e7\u00e3o por outras plataformas, como o Instagram \u2013 e at\u00e9 pelo TikTok \u2013, adaptando o conte\u00fado para cada uma delas. Assim, al\u00e9m das imagens e documentos que encontramos em arquivos, museus, hemerotecas e outros acervos que j\u00e1 conhec\u00edamos ou que acabamos descobrindo, desenvolvemos tamb\u00e9m um trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o de receitas dos passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">3 &#8211; Como pensaram para n\u00e3o usar mais as plataformas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma quest\u00e3o de viabilidade do retorno que o conte\u00fado tem em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho para produzi-lo. Literalmente, o que nos afastou do YouTube foi o n\u00edvel de esfor\u00e7o n\u00e3o recompensado com a visibilidade dos v\u00eddeos. Da\u00ed focamos no Instagram, que j\u00e1 existia em paralelo, por ter um fluxo de produ\u00e7\u00e3o diferente e por ter apresentado resultados de repercuss\u00e3o e engajamento com cada vez mais pessoas numa janela de tempo relativamente curta. Mas isso nem sempre \u00e9 a regra. Depois de adaptarmos o formato de produ\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos maiores para os Reels, tamb\u00e9m come\u00e7amos uma conta no TikTok, que foi muito bem. Mas, por quest\u00f5es alheias ao <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em>, n\u00e3o pudemos continuar no mesmo ritmo de produ\u00e7\u00e3o desses v\u00eddeos, sobretudo os com receitas, inviabilizando postagens por l\u00e1 e \u201cgelando\u201d nossa presen\u00e7a na plataforma. Enquanto, no Instagram, a maior variedade de formatos permite adapta\u00e7\u00f5es, diante de outras demandas, para manter certa const\u00e2ncia. E \u00e9 onde permanecemos, principalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">4 &#8211; Podem citar vantagens e desvantagens ao optar por uma plataforma em detrimento de outra?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esfor\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o versus recompensa na forma de visibilidade. Essa \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o que sempre acabamos fazendo. Mas, ao estabelecer a presen\u00e7a numa plataforma e n\u00e3o em outra, acaba-se sempre perdendo alguma exposi\u00e7\u00e3o \u2013 que, em alguns casos, acaba sendo recompensada numa escala multiplataforma, como algumas influencers divulgadoras cient\u00edficas, que, do alcance no TikTok, tamb\u00e9m acabam engajando pessoas no Instagram e no YouTube, al\u00e9m de empresas e outros entes, que as procuram para servi\u00e7os e parcerias. Ao final de tudo, \u00e9 preciso reconhecer que temos limites e termos claras as prioridades, para n\u00e3o tentar abrir demais o raio de atua\u00e7\u00e3o e acabar deixando \u201co cobertor curto\u201d, n\u00e3o transmitindo da forma que acreditamos e com a qualidade que prezamos a boa informa\u00e7\u00e3o que pretendemos divulgar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">5 &#8211; Quais s\u00e3o os desafios para produzir conte\u00fado para diferentes plataformas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O raio de novas habilidades que \u00e9 preciso desenvolver, do aspecto t\u00e9cnico de capta\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o de imagem e som \u00e0 adaptabilidade de linguagem e \u00e0 otimiza\u00e7\u00e3o do tempo de pesquisa e produ\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m temos o desafio de, individualmente, n\u00e3o trabalharmos apenas com o <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em>, ent\u00e3o o multitasking \u00e9 uma realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">6 &#8211; Como avaliam as mudan\u00e7as na estrutura e funcionamento das plataformas e como impacta na produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a quest\u00e3o disser respeito \u00e0 vari\u00e2ncia de operacionalidade e de formatos de cada plataforma, o modelo de conte\u00fado vai de acordo com a rede com a qual priorizamos trabalhar, o que tamb\u00e9m se relaciona com a nossa organiza\u00e7\u00e3o e possibilidade de dedica\u00e7\u00e3o para conte\u00fado de tipo A e n\u00e3o de tipo B. Se a pergunta se refere \u00e0 constante muta\u00e7\u00e3o dos algoritmos e outros detalhes operacionais de cada plataforma, \u00e9 um eterno tentativa-e-erro, sempre em busca do acerto. Os n\u00fameros nos d\u00e3o um panorama do que acontece com cada conte\u00fado, mas n\u00e3o s\u00e3o claros em rela\u00e7\u00e3o aos porqu\u00eas. N\u00f3s reagimos \u00e0 boa recep\u00e7\u00e3o manifestada pelos seguidores nas intera\u00e7\u00f5es, al\u00e9m desses n\u00fameros. Um exemplo disso \u00e9 termos dado prioridade \u2013 mas n\u00e3o exclusividade \u2013 a temas relativos ao Brasil, isso j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo, por ser um terreno mais f\u00e9rtil, que parece interessar mais gente, do nosso p\u00fablico predominantemente brasileiro; ainda que os conte\u00fados em si nem sempre tenham a melhor entrega poss\u00edvel pelas plataformas simplesmente por tratarem de temas \u201cquentes\u201d do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">7 \u2013 Poderiam detalhar como s\u00e3o os processos de escolha de materiais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os temas, em geral, ditam os materiais necess\u00e1rios: se \u00e9 uma pesquisa sobre o alimento X, procuramos por bibliografia especializada, saber de onde ele \u00e9, o que diz a arqueobot\u00e2nica, quais os primeiros relatos escritos, redigidos por quem, qual a disponibilidade para que consigamos acess\u00e1-los etc. Mas tamb\u00e9m, por vezes, partimos de materiais espec\u00edficos, que podem ser o objeto em si, a partir dos quais derivamos uma pesquisa maior, como livros de receitas em particular, objetos e utens\u00edlios ligados ao universo da alimenta\u00e7\u00e3o etc. Em resumo, depende. Mas temos m\u00e9todos de sele\u00e7\u00e3o de materiais ideais enquanto realizamos as pesquisas; a prioridade, sempre que poss\u00edvel, \u00e9 a fonte hist\u00f3rica prim\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">8 &#8211; Poderiam detalhar como s\u00e3o os processos de escolhas de receitas a serem realizadas no canal?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das leituras cotidianas que fazemos, para as respectivas atividades de pesquisa e tamb\u00e9m com o Comer Hist\u00f3ria em vista, a experi\u00eancia de manejo que temos com documentos ricos em informa\u00e7\u00f5es interessantes \u00e0 nossa proposta de trabalho \u2013 manuais e livros de cozinha, tratados m\u00e9dicos e de naturalistas, relatos de viajantes, jornais e outros peri\u00f3dicos, s\u00f3 para citar alguns exemplos \u2013 facilita a sele\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias a serem contadas e receitas a serem testadas e reproduzidas. \u00c0s vezes privilegiamos nossos interesses individuais em ler mais e escrever sobre determinado assunto, \u00e0s vezes o calend\u00e1rio nos d\u00e1 pistas sobre pratos, acontecimentos ou figuras a serem explorados, mas tamb\u00e9m temos uma organiza\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de publica\u00e7\u00f5es, cujos formatos (texto, imagem ou v\u00eddeo) determinam o tipo de informa\u00e7\u00f5es que precisamos selecionar, aprofundar e elaborar. \u00c9 comum tamb\u00e9m que um assunto que, por um motivo qualquer, se torne objeto de debate p\u00fablico acabe nos incitando a procurar uma abordagem hist\u00f3rica ao tema. Concebemos isso tamb\u00e9m como uma forma de intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, j\u00e1 que s\u00e3o problem\u00e1ticas nascidas no seio da sociedade que, por meio da imprensa ou mesmo das discuss\u00f5es em redes sociais, chegam a n\u00f3s e nos levam a elaborar ou a divulgar \u2013 se houver pesquisas j\u00e1 feitas \u2013 um olhar a partir da Hist\u00f3ria da Alimenta\u00e7\u00e3o. No caso da divulga\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e pesquisas j\u00e1 realizadas, sempre prezamos em dar os devidos cr\u00e9ditos e indicar as leituras que fizemos para chegar ao tema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">9 &#8211; Como percebem as peculiaridades de cada plataforma j\u00e1 trabalhada para a realiza\u00e7\u00e3o da postagem de conte\u00fado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada uma tem suas peculiaridades de formato, de linguagem e de p\u00fablico predominante, que pode n\u00e3o ser o p\u00fablico mais recept\u00edvel para o conte\u00fado que pretendemos criar. S\u00e3o essas peculiaridades desafiadoras que tamb\u00e9m colaboram para que privilegiemos algumas em detrimento de outras. N\u00e3o nos rendemos \u00e0s \u201cdancinhas\u201d ou aos Get Ready With Me (GRWM), em que s\u00e3o contadas anedotas enquanto a pessoa retratada se maquia ou se arruma \u2013 e sim, existem criadores de conte\u00fado em Hist\u00f3ria que fazem isso \u2013, em prol de alguma repercuss\u00e3o no TikTok, ou mesmo no Instagram. Essas modas \u00e0s vezes tamb\u00e9m fazem parecer que as formas de comunica\u00e7\u00e3o de amplo alcance s\u00e3o limitadas. Mas prosseguimos com nossos princ\u00edpios, dinamizando os formatos quando necess\u00e1rio, mas sem perder a ess\u00eancia da mensagem. E seguimos \u201cfi\u00e9is\u201d ao Instagram, nossa grande constante nesses 5 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">10 &#8211; E especialmente no YouTube, como foram as pesquisas e influ\u00eancias do canal?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o foco de nossos v\u00eddeos produzidos para o YouTube s\u00e3o contar uma hist\u00f3ria a partir de uma receita, o ponto de partida de nossas pesquisas \u00e9 eleger um receita e um fio condutor da narrativa. A partir disso, procuramos os registros da receita em diferentes livros e jornais para detectar poss\u00edveis altera\u00e7\u00f5es e reformula\u00e7\u00f5es dos ingredientes, t\u00e9cnicas, nomes e defini\u00e7\u00f5es, contextos em que s\u00e3o consumidos etc. O pressuposto desse procedimento \u00e9 que a receita culin\u00e1ria \u00e9 uma express\u00e3o da sociedade que a registrou, executou e colocou em circula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao fazer essa serializa\u00e7\u00e3o dos diversos registros da receita em quest\u00e3o, e com leituras de estudos sobre contextos vinculados a ele, tentamos definir um fio condutor que possa ser extra\u00eddo dele. Definido o fio condutor, avan\u00e7amos pesquisas e leituras de t\u00f3picos espec\u00edficos, separando imagens e material com car\u00e1ter mais visual para melhor traduzir a ideia para a linguagem do v\u00eddeo. Em nosso v\u00eddeo sobre o estrogonofe, por exemplo, o recorte foi contar como um prato nascido da aristocracia russa chegou ao Brasil. No meio da pesquisa, detectamos a import\u00e2ncia da Revolu\u00e7\u00e3o Russa para isso, e sua reelabora\u00e7\u00e3o aqui no Brasil feita em um momento de contesta\u00e7\u00e3o social liderado por mulheres. Assim, o foco foi pensar como, na R\u00fassia e no Brasil, a receita se vinculou a movimentos contestat\u00f3rios e revolucion\u00e1rios, e como isso modificou a receita. Tr\u00eas tipos de linguagem influenciaram muito nossos v\u00eddeos: entre eles, s\u00e3o grandes influ\u00eancias certamente os programas televisivos de receitas, e s\u00e3o v\u00e1rios. Destacamos aqui \u201cA cozinha pr\u00e1tica\u201d, da Rita Lobo, mas poder\u00edamos citar outros; al\u00e9m disso, os document\u00e1rios de cunho hist\u00f3rico, com suas formas de apresentar documentos e imagens da Hist\u00f3ria da Arte. Do ponto de vista da linguagem audiovisual, esses dois g\u00eaneros de produ\u00e7\u00e3o foram os que mais nos influenciaram. Mas, em terceiro lugar, est\u00e1 a pr\u00f3pria sala de aula, afinal, somos tamb\u00e9m professores e temos como refer\u00eancia em nossa forma de abordar certos assuntos t\u00e9cnicas pr\u00f3prias da doc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">11 &#8211; Pela experi\u00eancia de voc\u00eas, como a mem\u00f3ria circula entre quem assiste o v\u00eddeo de voc\u00eas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acreditamos que a mem\u00f3ria, ou melhor, as mem\u00f3rias se articulam de diversas maneiras com a alimenta\u00e7\u00e3o, e, mais especificamente, com os v\u00eddeos e os conte\u00fados que produzimos. H\u00e1, por exemplo, aspectos relacionados ao que podemos chamar de mem\u00f3ria individual, isto \u00e9, lembran\u00e7as de momentos que algu\u00e9m do p\u00fablico viveu e que vem \u00e0 tona ao ter contato com nosso conte\u00fado, a partir de um prato espec\u00edfico, um nome ou um utens\u00edlio que conheceu quando era crian\u00e7a, por exemplo. H\u00e1 outro aspecto que est\u00e1 vinculado \u00e0 chamada mem\u00f3ria coletiva, que s\u00e3o formas de lembran\u00e7a de momentos ou situa\u00e7\u00f5es de natureza coletiva ou que o pr\u00f3prio coletivo define que devem ser lembrados. \u00c9 o que o conhecido pensador franc\u00eas Maurice Halbwachs chama de \u201cquadros sociais da mem\u00f3ria\u201d. Trata-se, entre outras, de comidas que possuem rela\u00e7\u00e3o com festividades, celebra\u00e7\u00f5es, rituais, esta\u00e7\u00f5es, per\u00edodos da vida e fun\u00e7\u00f5es sociais. Vale ainda destacar, como j\u00e1 fizeram alguns historiadores, como Pierre Nora e outros, que, nas sociedades p\u00f3s-industriais, em que as mudan\u00e7as acontecem de maneira cada vez mais r\u00e1pida, as coisas se tornam \u201cpassado\u201d de uma maneira fren\u00e9tica. Assim, as mem\u00f3rias acabam ocupando lugares espec\u00edficos, como museus, arquivos, monumentos, isso considerando o espa\u00e7o f\u00edsico. Mas tamb\u00e9m podem ocupar espa\u00e7os virtuais, como s\u00e3o as plataformas de v\u00eddeos e redes sociais, que se tornam tamb\u00e9m esses poss\u00edveis lugares de mem\u00f3rias alimentares. Destacamos aqui que essa reflex\u00e3o sobre mem\u00f3ria nos acompanhou em diversos momentos em nossa forma\u00e7\u00e3o como historiadores, e foi muito importante para conseguirmos conceber as redes sociais e plataformas em que atuamos como esse lugar. A reflex\u00e3o e a atua\u00e7\u00e3o caminham juntas nessa nossa trajet\u00f3ria, tentando sempre dar sentido e concretude a nossas reflex\u00f5es sobre essa rela\u00e7\u00e3o entre Hist\u00f3ria e mem\u00f3ria em di\u00e1logo com nosso p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">12 &#8211; Como voc\u00eas fazem a modera\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rios? E como se organizam para responder os coment\u00e1rios?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vedamos ningu\u00e9m e temos um grupo de seguidores predominantemente respeitoso. Por vezes, algu\u00e9m mais grosseiro ou que quer bagun\u00e7ar aparece, mas j\u00e1 que s\u00e3o intera\u00e7\u00f5es de engajamento com o conte\u00fado, e pelo fato de existir uma cultura muito forte de pessoas que avidamente leem coment\u00e1rios nas redes, n\u00f3s \u201cdeixamos rolar\u201d, respondendo sem perder o respeito. Quanto \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, o principal respons\u00e1vel pela pesquisa e elabora\u00e7\u00e3o do conte\u00fado fica respons\u00e1vel tamb\u00e9m pelas respostas, por ser a pessoa mais inteirada no assunto tratado para responder a d\u00favidas, curiosidades etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">13 &#8211; Durante o processo da pesquisa, foram identificadas cinco estrat\u00e9gias discursivas. Gostaria que voc\u00eas compartilhassem suas percep\u00e7\u00f5es sobre elas, come\u00e7ando com a Estrat\u00e9gia Espacial, relacionada ao espa\u00e7o onde s\u00e3o gravados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o em que os v\u00eddeos foram gravados, a ideia foi se aproximar de uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 sempre t\u00e3o comum entre n\u00f3s, conversar sobre Hist\u00f3ria enquanto cozinhamos. Entre n\u00f3s, e por termos muitos amigos historiadores \u2013 e tamb\u00e9m por amarmos falar de Hist\u00f3ria para amigos e familiares \u2013 \u00e9 algo que sempre acontece aqui em casa. Ent\u00e3o, achamos que o ideal foi ter como cen\u00e1rio a cozinha da nossa casa (no caso, do Rafael e da Carol). Fizemos algumas adapta\u00e7\u00f5es para ter uma bancada com o fog\u00e3o, em que fosse poss\u00edvel garantir uma boa ilumina\u00e7\u00e3o para gravar a execu\u00e7\u00e3o das receitas. A presen\u00e7a de livros nesse cen\u00e1rio tamb\u00e9m para n\u00f3s foi importante, j\u00e1 que em nossas casas qualquer visitante encontra livro espalhado por todo lado. A ideia foi, em suma, expressar essa ideia de estar na casa de um historiador enquanto ele cozinha um prato para voc\u00ea e conta hist\u00f3rias sobre sua origem e dissemina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">14 &#8211; E a Estrat\u00e9gia Descritiva, que consiste na descri\u00e7\u00e3o detalhada dos sabores dos pratos pela professora, considerando que os espectadores n\u00e3o podem prov\u00e1-los?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As descri\u00e7\u00f5es sensoriais dos alimentos s\u00e3o tamb\u00e9m um t\u00f3pico que aparecem em nossos roteiros de maneira sistem\u00e1tica. A ideia \u00e9 aproximar o telespectador ao m\u00e1ximo dessa experi\u00eancia de estar compartilhando o conhecimento e o prato conosco. Isso \u00e9 muito comum nos programas de culin\u00e1ria que consumimos, e, como dito anteriormente, nos influenciou. Um dos nossos desafios foi traduzir esses aspectos sensoriais de modo consistente e de uma maneira que fosse al\u00e9m dos adjetivos (gostoso, del\u00edcia, bom etc.). \u00c9 algo que ainda estudamos e tentamos oferecer express\u00f5es que comuniquem os sabores de modo claro, mas sem cair propriamente em uma linguagem t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">16 &#8211; Comentem sobre a Did\u00e1tica, que consiste em complementar as receitas apresentadas com aspectos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abordagem hist\u00f3rica \u00e9 o ponto central de nossa produ\u00e7\u00e3o e de nossa forma\u00e7\u00e3o como profissionais. Os campos e as rela\u00e7\u00f5es entre Did\u00e1tica, ensino de Hist\u00f3ria e a chamada Hist\u00f3ria P\u00fablica s\u00e3o largamente discutidos nos debates acad\u00eamicos da Hist\u00f3ria e h\u00e1 uma longa bibliografia sobre os temas. O nosso desafio maior foi traduzir essas discuss\u00f5es que t\u00eam como cen\u00e1rio, na maior parte das vezes, a sala de aula para uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual. T\u00ednhamos j\u00e1 dominadas t\u00e9cnicas de ensino como professores, mas foi preciso aprender \u2013 e sempre estamos tentando aprender mais \u2013 as ferramentas e t\u00e9cnicas do audiovisual e da linguagem da internet, como memes, para, no fim das contas, ensinar Hist\u00f3ria e promover conhecimentos sobre culturas alimentares e escolhas saud\u00e1veis de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">17 &#8211; E sobre a Estrat\u00e9gia de Troca, onde percep\u00e7\u00f5es, hist\u00f3rias e at\u00e9 lembran\u00e7as dos pratos s\u00e3o compartilhadas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa atua\u00e7\u00e3o nas redes passa quase que incontornavelmente por nossa forma\u00e7\u00e3o como historiadores. E, nesse sentido, nossas estrat\u00e9gias de intera\u00e7\u00e3o e trocas com o p\u00fablico s\u00e3o mediadas por algumas concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e debates acad\u00eamicos. Quando come\u00e7amos o <em>Comer Hist\u00f3ria<\/em>, como mencionado anteriormente, nossa ideia era evitar academicismos com o objetivo de falar para um p\u00fablico mais amplo. Acontece que, com um certo amadurecimento do nosso trabalho e o aprofundamento em certas discuss\u00f5es \u2013 sobretudo no campo da chamada Hist\u00f3ria P\u00fablica \u2013, cada vez mais tentamos realizar nosso trabalho n\u00e3o apenas para o p\u00fablico, mas tamb\u00e9m com o p\u00fablico. Nossas estrat\u00e9gias t\u00eam se direcionado para essa pluralidade de formas de intera\u00e7\u00e3o e troca. H\u00e1 uma forma mais clara, que s\u00e3o as conversas que acontecem no campo dos coment\u00e1rios. Ali, diversas pessoas se sentem a vontade para compartilhar suas mem\u00f3rias, impress\u00f5es e o que j\u00e1 ouviram dizer sobre o assunto tratado nos posts\/v\u00eddeos. Pela abrang\u00eancia regional do nosso p\u00fablico, assim como pela diversidade et\u00e1ria, esses coment\u00e1rios s\u00e3o muito ricos e jogam luz, muitas vezes, sobre aspectos que n\u00e3o conhecemos ou trazem perspectivas diferentes. Em geral, procuramos incitar tais tipos de interven\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, e isso por motivos diferentes: por tamb\u00e9m aprendermos com o que as pessoas compartilham; por termos feedbacks sobre o conte\u00fado, entendendo melhor quais conte\u00fados as pessoas apreciam mais; mas, tamb\u00e9m, e isso n\u00e3o \u00e9 irrelevante para quem quer atuar nas redes\/plataformas, porque isso aumenta a distribui\u00e7\u00e3o. Tentamos, a partir da\u00ed, ir al\u00e9m do \u201ccomenta aqui o que achou\u201d procurando fazer perguntas espec\u00edficas para o p\u00fablico, ainda que deixando o espa\u00e7o aberto para todo tipo de coment\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">18 &#8211; Comentem a Estrat\u00e9gia de Aflu\u00eancia para outras plataformas, principalmente o Instagram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossas estrat\u00e9gias de aflu\u00eancia entre o YouTube e o Instagram foram se alterando ao longo do tempo. Inicialmente, a ideia era ter o conte\u00fado principal no YouTube e fazer conte\u00fados complementares no Instagram, fragmentando a pesquisa principal apresentada de modo mais aprofundado. Ent\u00e3o, um tempero utilizado, uma obra ou personagem citado no v\u00eddeo feito para o YouTube seriam melhor trabalhados no Instagram. Acontece que, durante esse tempo de atua\u00e7\u00e3o, o Instagram passou cada vez mais de uma rede social de imagem para uma rede social de v\u00eddeos curtos e m\u00e9dios. E o YouTube, por sua vez, passou tamb\u00e9m a investir em v\u00eddeos curtos (no formato vertical \u2013 modelo Shorts). Assim, e pelos motivos j\u00e1 citados anteriormente, acabamos por inverter as coisas. Nosso principal foco passou a ser o conte\u00fado publicado no Instagram, com v\u00eddeos curtos gravados na horizontal, para al\u00e9m das publica\u00e7\u00f5es com imagens e texto, e repostagem no YouTube. O que aconteceu, com essa op\u00e7\u00e3o, \u00e9 que o YouTube passou a ser um meio secund\u00e1rio para nossa atua\u00e7\u00e3o, que passou a privilegiar o Instagram. O desafio \u2013 pensamos que para todos os produtores de conte\u00fado \u2013 \u00e9 acompanhar e adequar a linguagem e produ\u00e7\u00e3o para essas mudan\u00e7as nas pol\u00edticas e focos das plataformas, que est\u00e3o em constante transforma\u00e7\u00e3o e impactam na linguagem utilizada e nas formas como o conte\u00fado \u00e9 divulgado. Para quem \u00e9 acostumado com a dissemina\u00e7\u00e3o do trabalho por uma tecnologia t\u00e3o antiga como \u00e9 a escrita, essa experi\u00eancia de atuar nas redes sociais com produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado hist\u00f3rico n\u00e3o deixa de ser uma aventura e tanto!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Entrevista realizada por: Paulo Antonio St\u00f6lben Junior<br>Supervis\u00e3o: Viviane Borelli<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta entrevista \u00e9 oriunda da disserta\u00e7\u00e3o \u201cDevorando a hist\u00f3ria: midiatiza\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias discursivas no canal Comer Hist\u00f3ria\u201d, de Paulo Antonio St\u00f6lben Junior, orientada pela professora doutora Viviane Borelli. O objetivo da investiga\u00e7\u00e3o foi analisar as estrat\u00e9gias discursivas produzidas em torno do canal Comer Hist\u00f3ria no YouTube. 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