{"id":4571,"date":"2025-11-22T13:19:54","date_gmt":"2025-11-22T16:19:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/?p=4571"},"modified":"2025-12-31T12:14:33","modified_gmt":"2025-12-31T15:14:33","slug":"rota-66-um-livro-para-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/poscom\/2025\/11\/22\/rota-66-um-livro-para-jornalistas","title":{"rendered":"Rota 66: um livro para jornalistas"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por:<\/em><\/strong><em> Natalie Pereira Soares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os livros-reportagens costumam se concentrar em narrar hist\u00f3rias de maneira mais aprofundada, por meio de uma escrita detalhada, densa e envolvente. Em alguns casos, tamb\u00e9m s\u00e3o utilizadas inspira\u00e7\u00f5es no g\u00eanero liter\u00e1rio, al\u00e9m do jornal\u00edstico, como \u00e9 o caso do famoso A Sangue Frio, de Truman Capote. Esse g\u00eanero possibilita sair do imediatismo das not\u00edcias di\u00e1rias. Uma reportagem \u201cnormal\u201d \u00e9 transformada em um livro, um lugar em que o autor pode contar todos os meandros do processo. Para os amantes do tema em quest\u00e3o, um livro-reportagem \u00e9 uma grande viagem de conhecimento. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Schwaab (2021): \u201ca&nbsp; reportagem&nbsp; \u00e9&nbsp; um&nbsp; fazer&nbsp; de&nbsp; interface,&nbsp; n\u00e3o&nbsp; est\u00e1&nbsp; pelos&nbsp; limites,&nbsp; mas&nbsp; surge na&nbsp; porosidade&nbsp; das&nbsp; fronteiras&nbsp; do&nbsp; jornalismo,&nbsp; da&nbsp; literatura&nbsp; e&nbsp; das&nbsp; ci\u00eancias&nbsp; sociais, quando ent\u00e3o logra ser relato jornal\u00edstico n\u00e3o condicionado sobre um tema\u201d (p. 14). O livro-reportagem \u201ctrata de acontecimentos ou de fen\u00f4menos reais e utiliza, para sua produ\u00e7\u00e3o, procedimentos metodol\u00f3gicos inerentes ao campo do jornalismo, sem, contudo, descartar certas nuances liter\u00e1rias\u201d (Rocha; Xavier, 2013, p. 144).<\/p>\n\n\n\n<p>A obra vencedora do Pr\u00eamio Jabuti em 1993, \u201cRota 66: A Hist\u00f3ria da Pol\u00edcia que Mata\u201d (1992), \u00e9 escrita pelo jornalista ga\u00facho Caco Barcellos. A dist\u00e2ncia temporal n\u00e3o impede que o leitor se envolva com o caso principal exposto na obra que aconteceu h\u00e1 ainda mais tempo de seu lan\u00e7amento: 1975. Como nascida ap\u00f3s os anos 2000, ao conhecer o nome da obra \u201cRota 66\u201d, s\u00f3 me foi remetida a rodovia norte-americana mais famosa do mundo. Por\u00e9m, aqui o tema \u00e9 brasileiro e exp\u00f5e a apura\u00e7\u00e3o do assassinato de tr\u00eas jovens pelas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), da Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste texto, vamos explorar como Caco Barcellos utilizou de seu tato jornal\u00edstico para denunciar, a partir desse crime, a viol\u00eancia policial latente na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O crime de Rota 66<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na madrugada de 23 de abril de 1975, Francisco Nogueira Noronha, 17 anos, Jos\u00e9 Augusto Diniz Junqueira, 19 anos, e Carlos Ign\u00e1cio Rodrigues Medeiros, 22 anos, estavam circulando em seu Fusca azul pelas ruas de S\u00e3o Paulo, quando come\u00e7aram a furtar o toca-fitas de um carro Puma. Nesse momento, a ROTA os avistou e suspeitou da a\u00e7\u00e3o dos jovens, iniciando uma persegui\u00e7\u00e3o que culminou na execu\u00e7\u00e3o deles. Vale dizer que o furto que os tr\u00eas estavam cometendo era uma \u201cbrincadeira\u201d com um amigo. Os matadores, &#8211; como chama Caco &#8211; o sargento Jos\u00e9, o cabo Roberto e os soldados Ant\u00f4nio, Claudio e Francisco, foram julgados e inocentados por um tribunal militar anos depois.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Entenda a abordagem de Caco<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Embora o livro comece explorando o caso da Rota 66 e dos tr\u00eas jovens do fusca azul, a viol\u00eancia policial entre os anos 1970 e 1992 \u00e9 o principal tema da obra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>\u201cCap\u00edtulo 1: A Persegui\u00e7\u00e3o<\/em><br><em>A Veraneio cinza nunca esteve t\u00e3o perto. A 200, 300 metros, 15 segundos. A sirene parece o ru\u00eddo de um monstro enfurecido. Os far\u00f3is piscam sem parar. O farolete port\u00e1til de 5 mil watts lan\u00e7a luzes no retrovisor de todos os carros \u00e0 frente. Os motoristas, assustados, abrem caminho com dificuldade por causa do tr\u00e2nsito movimentado nesta madrugada de quarta-feira, no Jardim Am\u00e9rica\u201d (p. 11)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Caco dedica a primeira parte do livro para descrever o que aconteceu na madrugada de 23 de abril de 1975 e intercala os cap\u00edtulos do caso Rota 66 com sua vida, inicialmente em Porto Alegre, at\u00e9 se tornar rep\u00f3rter e investigar casos de viol\u00eancia policial.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>\u201cDesde 1967, os homens da Pol\u00edcia Civil desapareceram das ruas do nosso bairro. Tiveram suas a\u00e7\u00f5es limitadas a investiga\u00e7\u00f5es de crimes e forma\u00e7\u00e3o de inqu\u00e9ritos. A tarefa do patrulhamento se tornou exclusiva dos policiais militares. Na pr\u00e1tica, o novo esquema s\u00f3 come\u00e7ou a funcionar no come\u00e7o dos anos 70. Os suspeitos, antes perseguidos de forma injusta, agora muitas vezes eram mortos sem chance ou direito de defesa. N\u00e3o s\u00f3 no meu bairro pobre mas tamb\u00e9m na periferia de todas as grandes cidades do pa\u00eds. Por\u00e9m, depois de 73, eu j\u00e1 n\u00e3o sofria como antes. Tornei-me testemunha dos sofrimentos dos outros. J\u00e1 era rep\u00f3rter\u201d (p. 24)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como jornalista, observar esse in\u00edcio demonstra como as viv\u00eancias de ber\u00e7o podem influenciar na nossa profiss\u00e3o, da escolha das pautas \u00e0s fontes ouvidas. Muitos dedicam suas carreiras \u00e0 luta que os motivou a se tornarem jornalistas. Barcellos passou por situa\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s relatadas ao longo do livro, escapando da Radiopatrulha na periferia da capital ga\u00facha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse aspecto relaciona-se com o que afirma Schwaab (2021) sobre a narrativa jornal\u00edstica ser um projeto humano, ela est\u00e1&nbsp; \u201cno&nbsp; complexo&nbsp; universo de&nbsp; rela\u00e7\u00f5es&nbsp; entre&nbsp; os&nbsp; mundos&nbsp; do&nbsp; autor,&nbsp; do&nbsp; texto&nbsp; e&nbsp; do&nbsp; leitor,&nbsp; exigindo&nbsp; um&nbsp; princ\u00edpio dial\u00f3gico que permeie entendimentos sobre o jornalismo, os encontros e rupturas&nbsp; que&nbsp; sua&nbsp; escritura&nbsp; pode&nbsp; instalar,&nbsp; bem&nbsp; como&nbsp; ampliar&nbsp; o&nbsp; olhar&nbsp; sobre&nbsp; os modos de inscri\u00e7\u00e3o dos sujeitos no seu tempo\u201d (p. 15). Schwaab segue a linha de pensamento discutindo a individualidade da pessoa e o fazer reportagem, mas nos coloca no lugar do Outro no momento em que escolhemos abordar um tema e escrever sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso Rota 66 \u00e9 a principal linha que guia o leitor na hist\u00f3ria, mas encerrada sua explana\u00e7\u00e3o, o livro se dedica em contar outros acontecimentos que, invariavelmente, ter\u00e3o o <em>modus operandi<\/em> do primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma cr\u00edtica recorrente em outros casos policiais, geralmente com desfecho de execu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o alto custo de dinheiro p\u00fablico nas opera\u00e7\u00f5es da ROTA. No caso do fusca azul, essa preocupa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se faz presente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>\u201cAgora mais de cem policiais militares, pelas ruas e no comando, est\u00e3o envolvidos na repress\u00e3o ao suposto furto de um toca-fitas. Antes da primeira rajada de metralhadora, o gasto p\u00fablico desta opera\u00e7\u00e3o era no m\u00ednimo de 10 mil d\u00f3lares [&#8230;] Agora, a cada novo disparo de metralhadora, o gasto equivale ao preju\u00edzo do furto de noventa toca-fitas. Parece inacredit\u00e1vel, mas \u00e9 isto mesmo: para salvar um toca-fitas, os homens da Rota est\u00e3o gastando, por minuto, o equivalente ao pre\u00e7o de mais de noventa toca-fitas\u201d (p. 45)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A moeda no Brasil na data de lan\u00e7amento do livro, 1993, era o Cruzeiro Real (CR$). As oscila\u00e7\u00f5es da moeda brasileira parecem ser um dos motivos para o autor descrever os custos das opera\u00e7\u00f5es em d\u00f3lar, uma escolha jornal\u00edstica a ser observada.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de situa\u00e7\u00f5es como as que exp\u00f5em a inefici\u00eancia das opera\u00e7\u00f5es, a brutalidade presente nelas tamb\u00e9m est\u00e1 presente. \u00c9 um livro muito sens\u00edvel, pois relata o processo reconstitu\u00eddo por testemunhas e relatos posteriores de jovens que sofreram viol\u00eancia policial. H\u00e1 entrevistas com as fam\u00edlias, em que sentimos os resqu\u00edcios de sua dor, resultado do tato jornal\u00edstico caracter\u00edstico do rep\u00f3rter. O livro detalha as execu\u00e7\u00f5es, conta quantos tiros alguns jovens foram mortos &#8211; o que demonstra a impossibilidade de ser um tiroteio, visto que era muito raro policiais militares serem baleados &#8211; e \u00e9 uma ida e vinda do Instituto M\u00e9dico Legal (IML).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista de testemunho que o autor realiza, de acordo com Charaudeau (2006) pode ser ora relato de acontecimento, considerado interessante o suficiente para ser inclu\u00eddo no jornalismo, ora uma breve opini\u00e3o. Portanto, o entrevistado \u00e9 testemunha por ter observado o acontecimento ou ser v\u00edtima e, espera-se que ele testemunhe \u201csem julgamento de valor e se poss\u00edvel com emo\u00e7\u00e3o\u201d (p. 216). \u201cA entrevista de testemunho \u00e9 um g\u00eanero que se presume confirmar a exist\u00eancia de fatos e despertar a emo\u00e7\u00e3o, trazendo uma prova de autenticidade pelo \u2018visto-ouvido-declarado\u2019\u201d (Charaudeau, 2006, p. 216).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>\u201c\u2026 Tem mano que te aponta uma pistola e fala s\u00e9rio<\/em><br><em>Explode sua cara por um toca-fita velho<\/em><br><em>Click, plau, plau, plau e acabou<\/em><br><em>Sem d\u00f3 e sem dor, foda-se sua cor\u201d<\/em><br><em>Cap\u00edtulo 4, Vers\u00edculo 3 &#8211; Racionais MC\u2019s<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um passeio nos n\u00fameros<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Assim como os n\u00fameros em d\u00f3lares e os preju\u00edzos financeiros s\u00e3o destacados, as mortes por execu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m recebem a devida exposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>\u201cPela regra da propor\u00e7\u00e3o de quatro por um, significa que o n\u00famero de feridos deve ter sido de 16 mil e o de mortos perto de 4 mil, bem menos portanto dos que os policiais militares j\u00e1 mataram em S\u00e3o Paulo. Nem as invas\u00f5es estrangeiras dominadoras mataram tantos brasileiros. Os PMs mataram mais que os invasores ingleses, franceses e holandeses juntos, que fizeram 23 mil baixas, cerca de 5 mil mortos, 18 mil feridos. Sem ter um inimigo declarado [&#8230;]\u201d (p. 130)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O livro traz n\u00fameros a todo momento, o que demonstra a clareza da metodologia da sua pesquisa. No exemplo acima, h\u00e1 uma assemelha\u00e7\u00e3o desses n\u00fameros a outros combates no Brasil, o que acentua a gravidade da viol\u00eancia cometida pelos policiais. O leitor recebe n\u00fameros e percentuais contextualizados, entende como os dados foram alcan\u00e7ados e trabalhados por Caco e os pesquisadores que o auxiliaram. Assim, temos um passo a passo que n\u00e3o \u00e9 exposto de uma vez s\u00f3 ao leitor, mas com a evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o uso de fontes documentais na pesquisa que gerou o livro-reportagem, trazemos o trabalho de Gehrke (2018): O uso de fontes documentais no jornalismo guiado por dados. A autora pesquisa diversos autores para poder conceituar essas fontes, chegando a conclus\u00e3o que fontes documentais podem ser de tr\u00eas tipos: <strong>arquivo<\/strong> <strong>documental<\/strong>, <strong>estat\u00edstica <\/strong>ou <strong>reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong>. Barcellos usa essas ferramentas cruzando dados das v\u00edtimas e servindo-se de boletins de ocorr\u00eancia e normas policiais, como caracterizados por Gehrke: estudos, notas, memorandos, cartilhas, legisla\u00e7\u00e3o, planos, projetos, programas, rankings, publica\u00e7\u00f5es oficiais, resolu\u00e7\u00f5es, publica\u00e7\u00f5es editoriais e materiais digitalizados (<strong>arquivo documental<\/strong>, p. 107); publica\u00e7\u00f5es que levam conte\u00fado num\u00e9rico, estat\u00edstica descritiva, s\u00e9ries hist\u00f3ricas, indicadores, taxas, relat\u00f3rios, cartas de conjuntura e an\u00e1lises (<strong>estat\u00edstica<\/strong>, p. 108); e ainda explora mat\u00e9rias de r\u00e1dio e jornal sobre os crimes, ativando a fonte do tipo <strong>reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong> (p. 108).<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator recorrente \u00e9 que muitas v\u00edtimas de execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam antecedentes criminais: \u201cExatamente quinze jovens mortos eram prim\u00e1rios, ou seja, nunca praticaram nenhum crime\u201d (p. 152). Sem consultar os documentos e com a entrada no IML como indigentes, torna-se evidente que os policiais n\u00e3o checaram os antecedentes criminais, embora afirmem nos inqu\u00e9ritos que eram \u201ccriminosos conhecidos\u201d. O trabalho de Caco Barcellos chegou a uma infeliz conclus\u00e3o: de 3.846 mortes registradas entre 1970 e 1992, 65% dos mortos pela ROTA eram inocentes. No livro, h\u00e1 tamb\u00e9m o levantamento de dados por segmenta\u00e7\u00f5es sociais, por pesquisa pr\u00f3pria e por meio de dados da Funda\u00e7\u00e3o Seade. Por exemplo, 51% das v\u00edtimas em que foi poss\u00edvel identificar a cor de pele, eram negras e pardas. Numa S\u00e3o Paulo em que negros e pardos eram 22% da popula\u00e7\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda, a maioria quase absoluta \u00e9 de pessoas de baixa renda. A pesquisa descobriu a profiss\u00e3o de 3.812 v\u00edtimas, os oper\u00e1rios e ajudantes de obras da constru\u00e7\u00e3o civil somaram 20% das v\u00edtimas &#8211; ou 877 civis. Por fim, 735 mortos residiam nos extremos das zonas leste e sul, local em que se concentrava a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa caracter\u00edstica da escrita de Caco Barcellos se aproxima do <strong>Jornalismo de Precis\u00e3o<\/strong>, o qual envolve uso de dados, fontes confi\u00e1veis e metodologias espec\u00edficas com objetivo de garantir informa\u00e7\u00f5es precisas. Esse tipo de jornalismo \u00e9 comumente usado em reportagens investigativas, com foco nos detalhes e no contexto envolvido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Li\u00e7\u00f5es de Caco<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7a-se justi\u00e7a aos bons policiais: embora o livro fa\u00e7a cr\u00edticas \u00e0s opera\u00e7\u00f5es policiais, Caco exp\u00f5e que os matadores s\u00e3o minoria dentro da Pol\u00edcia. A prioridade da maioria \u00e9 a pris\u00e3o do suspeito para lev\u00e1-lo a julgamento da Justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este livro \u00e9 uma excelente oportunidade para se aprofundar no jornalismo investigativo, compreendendo o m\u00e9todo de pesquisa que deu origem ao livro-reportagem e a s\u00e9rie. Mais do que isso, \u00e9 uma chance de refletir sobre o impacto do jornalismo, uma ferramenta vasta e corajosa, capaz de adentrar o universo das fam\u00edlias perpetuamente atingidas, cujos direitos deveriam ser defendidos por aqueles que feriram suas fam\u00edlias. A obra livro ensina sobre jornalismo investigativo, jornalismo de dados, narrativa, fontes e rigor metodol\u00f3gico. Ela narra o preconceito &#8211; sobretudo atrav\u00e9s do racismo &#8211; descarado. Raros foram os que sobreviveram a essas investidas, pois como disse Racionais MC\u2019s <em>\u201c\u2026 Enfim, o filme acabou pra voc\u00ea, a bala n\u00e3o \u00e9 de festim, aqui n\u00e3o tem dubl\u00ea\u201d<\/em> (1997).<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c<\/em><em>Rota 66: A Hist\u00f3ria da Pol\u00edcia que Mata<\/em><em>\u201d est\u00e1 dispon\u00edvel na Biblioteca Central da UFSM. A s\u00e9rie dram\u00e1tica voc\u00ea encontra na Globoplay.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>BARCELLOS, Caco. <strong>Rota 66:<\/strong><em> a hist\u00f3ria da pol\u00edcia que mata<\/em>. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 1992.<br>CHARAUDEAU, Patrick. <strong>Discurso das m\u00eddias<\/strong>. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2006. 285 p.<br>F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. <strong>18\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<em>:<\/em><\/strong><em> 2024<\/em>. S\u00e3o Paulo: F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2024. Dispon\u00edvel em:<a href=\"https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/items\/f62c4196-561d-452d-a2a8-9d33d1163af0\"> https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/items\/f62c4196-561d-452d-a2a8-9d33d1163af0<\/a>. Acesso em: 17 fev. 2025.<br>GEHRKE, Mar\u00edlia. <strong>O uso de fontes documentais no jornalismo guiado por dados<\/strong>. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/172614. Acesso em: 25 fev. 2025.<br>ROCHA, Paula Melani; XAVIER, Cintia. O livro-reportagem e suas especificidades no campo jornal\u00edstico. <strong>RuMoRes<\/strong>, v. 7, n. 14, p. 138-157, 2013.<br>SCHWAAB, R. Reportagem e reconhecimento: a alteridade como projeto. <strong>Estudos de Jornalismo e M\u00eddia<\/strong>, v. 18, p. 9-21, 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Natalie Pereira Soares Os livros-reportagens costumam se concentrar em narrar hist\u00f3rias de maneira mais aprofundada, por meio de uma escrita detalhada, densa e envolvente. 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