Os estudantes do Curso Técnico em Agricultura do Colégio Politécnico da UFSM participaram, nas noites de 9 e 23 de setembro, de duas visitas técnicas promovidas pela disciplina de Sistematização de Experiências em Agricultura, conduzida pelos professores Ezequiel Redin e Róberson Macedo de Oliveira. Os destinos foram a Vinícola Velho Amâncio, em Itaara, e a Cervejaria Bartzen Bier, em Santa Maria.
A proposta das Noites de Campo é colocar os estudantes em contato direto com diferentes realidades das cadeias produtivas, permitindo compreender a complexidade das experiências que se estendem da produção à agroindustrialização, à distribuição, à comercialização e ao consumo. Mais do que observar, a turma é desafiada a ler cada experiência a partir de três eixos previstos no programa da disciplina: o produtivo (tecnológico), o social (organizacional) e o de comercialização (mercados).
Da vinha à taça
Na primeira noite, a turma foi recebida na Vinícola Velho Amâncio pela proprietária Aline Fogaça. O empreendimento está situado no limite entre Itaara e Santa Maria, com acesso pela Estrada do Perau, e é conduzido em regime de administração familiar, com vinhedos e vinícola supervisionados por Aline, engenheira agrônoma, doutora em Ciência e Tecnologia dos Alimentos e representante da quarta geração da família na produção de bebidas.
Os estudantes conheceram uma trajetória que atravessa mais de um século. A história começa no século XIX, com a chegada de Amâncio Pires de Arruda, de origem portuguesa, às terras onde hoje estão os vinhedos. Por duas gerações, a família manteve uma destilaria dedicada à cachaça, e a elaboração de vinhos teve início em 1986, com o neto Rubens Arruda Fogaça. A partir de 2008 vieram os espumantes em pequena escala, e em 2016 foi lançada a linha Vivelam, elaborada pelo método tradicional.
Ao longo da visita, foram abordados o processo produtivo, a gestão e as estratégias de comercialização que fizeram da vinícola uma referência regional. Entre os aspectos destacados está a opção por uma produção de pequena escala e alto controle de qualidade: os vinhedos são exclusivamente de uvas viníferas, conduzidos em espaldeira, e a colheita é 100% manual, com seleção dos cachos ainda no vinhedo. No campo da comercialização, a turma pôde discutir a articulação entre venda direta, degustações guiadas, visitas às caves e cursos de degustação, que aproximam o enoturismo da geração de valor para o empreendimento.
Além do sucesso produtivo, a visita abriu espaço para um debate técnico crucial para o setor: os prejuízos causados pela deriva de herbicidas hormonais (como o 2,4-D). Aline relatou que a contaminação frequente vinda de lavouras vizinhas provoca danos fisiológicos severos e cumulativos às videiras, reduzindo a produtividade ao longo dos anos. O estresse fitotóxico forçou o abandono e a erradicação de áreas de vinhedos que se tornaram economicamente inviáveis. O ponto trouxe reflexões para a turma sobre a sensibilidade das culturas perenes, territorialidade, legislação e a responsabilidade técnica na aplicação de defensivos.

Do malte ao chope
Na noite de 23 de setembro, o destino foi a Cervejaria Bartzen Bier, em Santa Maria, onde a turma foi recebida pelos proprietários Daniel Ribeiro e Denise Ribeiro. Os estudantes conheceram a história de um empreendimento que começou com receitas caseiras em Cruz Alta, criadas por Daniel, mestre cervejeiro, e se transformou em um negócio familiar conduzido ao lado da esposa e sócia, Denise.
Durante a atividade, a turma analisou a conexão entre a produção agrícola do campo e o processamento na agroindústria urbana. A conversa deu destaque à cevada — cereal de inverno que constitui a base agrícola da cerveja e que, após o processo industrial de maltagem, dá origem aos diferentes tipos de malte. O momento permitiu contextualizar a relevância do Rio Grande do Sul no cenário nacional: o estado é o principal produtor de cevada cervejeira do país, apresentando mais de 90% da sua safra dentro dos padrões de alta qualidade exigidos pelas maltarias. Os alunos acompanharam o processo de fabricação da bebida, desde a escolha e moagem do malte de cevada até a brassagem, fermentação, maturação e envase. Também foram discutidas as estratégias de distribuição da cervejaria, com ênfase no fornecimento de chope artesanal para festas e eventos em Santa Maria e região.

Santa Maria – 23/09 – Créditos: Ezequiel Redin
Sistematizar para aprender
As duas vivências integram o percurso formativo da disciplina, que tem como objetivos desenvolver a capacidade de analisar, interpretar criticamente e comunicar, por meio de sistematizações, as diferentes situações vividas na agricultura da região. A partir das visitas, os estudantes aplicam ferramentas de levantamento de informações, organizam os dados coletados e redigem suas sistematizações de experiências, que serão socializadas em seminários ao final do semestre.
“Sistematizar uma experiência é aprender a enxergar o que está por trás do produto. Cada garrafa de vinho ou de cerveja carrega decisões técnicas, escolhas de gestão e estratégias de mercado. É isso que queremos que o futuro técnico em agricultura consiga ler no campo”, destaca o professor Ezequiel Redin. O Colégio Politécnico da UFSM agradece à Vinícola Velho Amâncio e à Cervejaria Bartzen Bier pela acolhida e pela disponibilidade em compartilhar suas trajetórias com os estudantes.
Texto: Ezequiel Redin e Róberson Macedo de Oliveira