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A Política Externa do Governo Bolsonaro e o desempenho das exportações do agronegócio brasileiro: uma reflexão necessária



No último dia de janeiro/2019, em comunicado oficial, o órgão responsável pela defesa fitossanitária da Rússia informou ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil (MAPA) “numerosos casos de detecção de altos níveis de glifosato na soja do Brasil” (http://www.fsvps.ru/fsvps/news/29282.html). Por parte do MAPA, alega-se que os níveis de tolerância no mercado russo são bem mais rígidos, em comparação aos níveis praticados no mercado interno brasileiro e nos demais países importadores, em especial, na China.

Como é de conhecimento dos agricultores, a utilização do glifosato ocorre há vários anos, sem nenhuma ocorrência deste gênero por parte da Rússia ou de qualquer outro importador. Por considerar que o herbicida continua a ser utilizado nas fases iniciais do pós-emergência da semente e que o glifosato não é eficiente para dessecar a soja transgênica nos períodos finais de maturação, o comunicado do Rosselkhoznadzor (defesa fitossanitária da Rússia) causa estranheza.

O objetivo desta reflexão não é o de colocar em dúvida a eficiência da vigilância fitossanitária de nosso parceiro comercial, mas no contexto atual, não é possível precisar se o comunicado serve a propósitos de segurança alimentar ou está sendo utilizado como instrumento de pressão para o atual governo refletir sobre suas opções de Política Externa. O fato é que o novo direcionamento do Itamaraty colocou o Brasil em polo oposto ao da Rússia, no campo das relações internacionais, seja nas questões que envolvem a instabilidade política na Venezuela ou no simples alinhamento ao Governo de Donald Trump, que coleciona vários pontos de atrito com o governo de Vladimir Putin.

Objetivamente, em 2018 a participação da Rússia foi de 1,4% nas exportações brasileiras de soja em grãos, 0,0047% nas exportações de farelo de soja e 0,00001% nas exportações de óleo de soja.

Embora não importe uma quantidade de soja considerada relevante, a Rússia é um país com sólidas relações comerciais internacionais e central no atual contexto geopolítico global. Em função disto, a maior preocupação é sobre os efeitos que este posicionamento pode gerar em outros mercados, como o Chinês, aliado de primeira ordem o governo Putin. Se, de fato, existe um componente político na decisão Russa, isto é preocupante, dado o seu alinhamento com os principais compradores da soja brasileira (notadamente a China) e sua história de confronto com os EUA, país visto como prioritário para a Política Externa do Governo Bolsonaro.

Um simples questionamento nesta linha, vindo da China, que em 2018 foi o destino de 82% das exportações brasileiras de soja em grãos, 0,53% das exportações brasileiras de farelo de soja e 16,19% das exportações de óleo de soja, pode resultar em prejuízos para o produtor de soja no Brasil (queda nos preços). Portanto, este é um momento propício para avaliar os rumos da Política Externa Brasileira e a atual conjuntura geopolítica internacional.

Parece existir um alinhamento tácito entre China, Rússia, Venezuela e demais países com clara independência em relação aos interesses dos estadunidenses e europeus. Também se observa a aproximação de Estados Unidos, Brasil, Israel e demais países liderados por governos de direita e centro-direita com caráter nacionalista.

Onde situa-se o Brasil, no atual contexto geopolítico? São notórios os elogios e a aproximação de nosso país com os Estados Unidos, mas podemos considerar que a Política Externa do Brasil está alinhada com a Política Externa norte americana? O tempo e os gestos de ambos os países vão trazer respostas.

Com isso, encerramos o presente artigo com uma conclusão simples e objetiva: não temos elementos para afirmar que o posicionamento do governo Russo atende a interesses geopolíticos, mas é importante lembrar que o produtor estadunidense está pagando um preço alto pelas ações do governo Trump na área de Política Internacional. Neste contexto, uma Política Externa alinhada automaticamente com interesses dos Estados Unidos e em confronto com interesses geopolíticos da Rússia, China e Oriente Médio pode reduzir o crescimento das exportações brasileiras do complexo soja (grão, farelo e óleo) e do complexo carnes (bovina, suína e de aves), pois dificilmente Estados Unidos e Europa vão importar soja e carnes do Brasil, nas mesmas quantidades praticadas pelos mercados emergentes, asiáticos e africanos.

Esperamos que a ministra Tereza Cristina tenha força política e persuasão suficiente para convencer o Presidente Jair Bolsonaro da importância de nossas relações com China e Rússia e que o Ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, coloque em prática uma Política Externa Independente, pragmática e que sirva aos interesses da coletividade brasileira.

 

Nilson Luiz Costa

Docente do Curso de Graduação em Ciências Econômicas e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios (PPGAGR) – Mestrado Acadêmico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: nilson.costa@ufsm.br. Web: www.ufsm.br/grupos-de-pesquisa/npea



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