{"id":760,"date":"2013-07-04T00:03:47","date_gmt":"2013-07-04T03:03:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/laboratorios\/corpus\/2013\/07\/04\/1863-entrevista-com-a-professora-larissa-m-cervo\/"},"modified":"2013-07-04T00:03:47","modified_gmt":"2013-07-04T03:03:47","slug":"1863-entrevista-com-a-professora-larissa-m-cervo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/laboratorios\/corpus\/2013\/07\/04\/1863-entrevista-com-a-professora-larissa-m-cervo","title":{"rendered":"Entrevista com a professora Larissa M. Cervo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Senale-Pelotas-2007-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1868\" title=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Senale-Pelotas-2007-2-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a>Foi em uma correspond\u00eancia (e-mail) exultante que a professora Amanda E. Scherer fez <em>dividir com todos a imensa alegria e satisfa\u00e7\u00e3o de saber que a tese da nossa<strong>\u00a0<\/strong><strong>Larissa M. Cervo<\/strong>, \u00a0<strong>L\u00edngua: patrim\u00f4nio nosso<\/strong>, \u00e9 a indicada para representar o Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras da UFSM para concorrer ao Pr\u00eamio CAPES de TESE de 2012<\/em>. Singularidade que torna absolutamente compreens\u00edvel a vibra\u00e7\u00e3o nas linhas seguintes: <em>Brav\u00f4 Lari ! Valeu o esfor\u00e7o! O trabalho! E todo a tua compet\u00eancia intelectual em tamanho empreendimento. Estamos todos felizes por ti enquanto grupo de colegas!<\/em>  &nbsp;  Ent\u00e3o, pensamos em como registrar o feito, a produ\u00e7\u00e3o, a refer\u00eancia, a indica\u00e7\u00e3o que, indiretamente, alcan\u00e7a a todos n\u00f3s, enquanto grupo. A ideia de uma entrevista est\u00e1 sendo completada com \u00eaxito agora gra\u00e7as a contribui\u00e7\u00e3o generosa e inspirada com que a professora Larissa nos brindou em suas respostas que s\u00e3o, a meu ver, j\u00e1 dignas de uma orienta\u00e7\u00e3o que identifica muito bem o compromisso com seu tempo, com os seus colegas, com os que est\u00e3o embrenhados na tarefa\/miss\u00e3o de dar novos rumos a pesquisa no Brasil.  &nbsp;  <a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Giros-na-Cidade-Campinas-2004-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1867\" title=\"Giros na Cidade - Campinas 2004 (1)\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Giros-na-Cidade-Campinas-2004-1-300x193.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" \/><\/a>O trabalho de Larissa Montagner Cervo, <strong>L\u00cdNGUA, PATRIM\u00d4NIO NOSSO, <\/strong>foi defendido no PPGL\/UFSM em 02 de abril de 2012<strong> <\/strong>e versa sobre a significa\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como patrim\u00f4nio, a partir de um lugar espec\u00edfico, o Museu da L\u00edngua Portuguesa (S\u00e3o Paulo, 2006), escolhido por se constituir como espa\u00e7o de salvaguarda e comemora\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio, dando visibilidade \u00e0 l\u00edngua nessa condi\u00e7\u00e3o de objeto simb\u00f3lico. A l\u00edngua nesta perspectiva \u00e9 tamb\u00e9m valorada no entremeio das pr\u00e1ticas dos sujeitos e daquilo que \u00e9 manifestado como representativo dessa rela\u00e7\u00e3o, devendo, por isso, fazer parte ou mesmo permanecer nas narrativas da hist\u00f3ria. Caminho a ser percorrido envolve a desconstru\u00e7\u00e3o do arquivo e da mem\u00f3ria de arquivo deste museu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como patrim\u00f4nio, com valor de mem\u00f3ria hist\u00f3rica e em sua significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, alusiva \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o significada no conceito de patrim\u00f4nio e no slogan do museu, \u0091a l\u00edngua \u00e9 o que nos une\u0092.  &nbsp;  Com voc\u00eas, uma entrevista prazerosa de ler e extremamente proveitosa ao nosso cotidiano de pesquisa.  &nbsp;  <strong><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/defesa-tese_2012-8.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1866\" title=\"defesa tese_2012 (8)\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/defesa-tese_2012-8-300x224.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"224\" \/><\/a>Apropriadamente, voc\u00ea j\u00e1 dividiu e atribuiu o m\u00e9rito a sua orientadora, Prof.\u00aa Amanda Scherer. Fale um pouco dessa rela\u00e7\u00e3o\/orienta\u00e7\u00e3o com uma professora que tem j\u00e1 uma hist\u00f3ria\/contribui\u00e7\u00e3o volumosa e proeminente na UFSM.<\/strong>  &nbsp;  A Professora Amanda \u00e9 minha orientadora desde sempre. Foi minha orientadora na especializa\u00e7\u00e3o, no mestrado e no doutorado. Nessas tr\u00eas etapas, o processo de orienta\u00e7\u00e3o foi o mesmo: v\u00e1 a eventos; publique; assista \u00e0s defesas de teses e disserta\u00e7\u00f5es; leia outras teses e disserta\u00e7\u00f5es da \u00e1rea para aprender a fazer a sua (ela dizia: \u0091N\u00e3o se faz tese sem ter lido pelo menos tr\u00eas outras teses que abordam o tema\u0092); cite os seus colegas, como mostra de respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o deles e a do grupo como um todo; leia tudo o que for necess\u00e1rio; crie uma rotina de estudo; e cumpra o prazo. Foi dif\u00edcil para eu entrar nesse ritmo, porque eu resistia demais \u00e0 escrita, principalmente no in\u00edcio do meu percurso de pesquisa, quando comecei a trabalhar com a An\u00e1lise de Discurso. Eu achava o aparato te\u00f3rico muito complexo, fazer an\u00e1lise era sofrido para mim, ent\u00e3o eu n\u00e3o acompanhava o calend\u00e1rio de atividades com o rigor que era exigido. Nesse percurso, tenho certeza de que a Professora Amanda foi fundamental para o meu amadurecimento, por v\u00e1rias raz\u00f5es. Uma delas, marcante, era a ida a eventos. \u00c0s vezes, quando a gente achava que ela estava preocupada com outras coisas porque n\u00e3o havia nos cobrado texto, ela insistia muito para irmos a eventos e para publicarmos. Por um lado, isso era \u00f3timo porque ela tem muitos contatos e \u00e9 muito bem recebida em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es, o que favorecia o contato e as trocas com outras pesquisas e outros pesquisadores. Por outro, afora o benef\u00edcio da escuta, em eventos voc\u00ea \u00e9 obrigado a pensar sobre o seu pr\u00f3prio trabalho para se fazer entender frente aos outros, e sempre h\u00e1 contribui\u00e7\u00e3o, sempre h\u00e1 algu\u00e9m que instiga voc\u00ea a reorganizar, a repensar, a reordenar e redefinir o seu pr\u00f3prio trabalho. Incomodava-me um pouco essa hist\u00f3ria de falar em p\u00fablico falando de uma pesquisa da qual eu mesma n\u00e3o tinha clareza, mas, hoje, entendo a l\u00f3gica: tendo de falar em p\u00fablico, voc\u00ea se obriga a tocar em quest\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o bem pontuadas, que s\u00e3o dif\u00edceis, e isso vai se somando ao processo de orienta\u00e7\u00e3o at\u00e9 que, aos poucos, o trabalho vai se redesenhando e voc\u00ea encontra um objetivo. Outra coisa que sempre achei bacana \u00e9 que ela sempre nos encorajou a ler o que fosse preciso. Isso \u00e9 uma caracter\u00edstica dela enquanto sujeito: querer conhecer, querer saber, e ler, ler, ler. Ela adora ler e jamais disse que n\u00e3o dever\u00edamos ler um autor ou outro. Pelo contr\u00e1rio, \u0091leiam para saberem do que se trata\u0092. \u0091Ou\u00e7am a fala dos colegas, mesmo que eles n\u00e3o tratem do que voc\u00eas tratam, porque \u00e9 falta de respeito n\u00e3o saber o que o colega faz\u0092. A \u00fanica coisa que ela cobrava era que pontu\u00e1ssemos bem as rela\u00e7\u00f5es e que trat\u00e1ssemos de todas com o devido fundamento. Essa liberdade, indiretamente, acaba ensinando a pessoa a se responsabilizar pela sua pr\u00f3pria autoria, pelo que diz, pelo modo como refere o trabalho do outro. Isso ensina o sujeito a tecer rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sendo alheio ao que est\u00e1 sendo produzido na sua volta, o que, para mim, \u00e9 primordial ao pesquisador. Enfim, eu s\u00f3 aprendi, s\u00f3 beneficiei com a experi\u00eancia e a sabedoria da minha orientadora. Tenho v\u00e1rias lembran\u00e7as, at\u00e9 de reuni\u00e3o para sabermos como dever\u00edamos nos comportar em eventos e defesas! Hoje, sinto que ainda preciso do aval dela para muita coisa. Tenho certeza que ela continua tendo expectativas quanto a mim e que vai me orientar sempre que eu precisar.  &nbsp;  &nbsp;  <strong><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Defesa-Mestrado-2008.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1865\" title=\"Defesa Mestrado 2008\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Defesa-Mestrado-2008-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a>Como se d\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica e te\u00f3rica de um trabalho desse porte? Penso em dizer para aqueles acad\u00eamicos que est\u00e3o no come\u00e7o ou para os que querem entrar no c\u00edrculo da \u0093pesquisa\u0094&#8230;<\/strong><strong><\/strong>  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Bom, n\u00e3o vou me posicionar quanto ao \u0091porte\u0092. Isso quem est\u00e1 autorizado a fazer s\u00e3o os outros, n\u00e3o eu. Mas, repetindo o que a Professora Amanda sempre fala, eu constru\u00ed a teoria a partir do meu objeto. No in\u00edcio, a \u00fanica coisa que eu tinha certeza era de que n\u00e3o queria de modo algum uma tese com uma revis\u00e3o de literatura exaustiva, do tipo em que se reexplica tudo aquilo que os outros j\u00e1 sabem, inclusive aquilo que n\u00e3o vai ser mobilizado analiticamente depois. Acho at\u00e9 que isso se deve \u00e0 quantidade de trabalhos acad\u00eamicos que j\u00e1 corrigi e formatei. Com isso posto, fui me deixando levar pelo Museu. Ele que foi me dizendo como teorizar, o que era importante de aparecer na revis\u00e3o te\u00f3rica, o que deveria ser mobilizado, os recortes que eu podia fazer. Isso leva tempo, claro. Eu s\u00f3 escrevi a tese nos meses finais. Antes, eu passei muito tempo me repetindo sobre o museu e esgotando o que eu poderia saber e o que eu poderia falar sobre ele, pra depois tentar achar uma pergunta de pesquisa. O que mais me incomodava era o patrim\u00f4nio, porque eu lia muita coisa de outras \u00e1reas e n\u00e3o entendia como ligar aquilo com a An\u00e1lise de Discurso. N\u00e3o tinha jeito&#8230; Ent\u00e3o, num belo dia resolvi apelar para a l\u00f3gica: se a minha pergunta de pesquisa era como significa a l\u00edngua como patrim\u00f4nio, em face do Museu da L\u00edngua Portuguesa, eu teria que trabalhar com tr\u00eas grandes inst\u00e2ncias \u0096 museu, l\u00edngua e patrim\u00f4nio. O patrim\u00f4nio nada mais \u00e9 do que um artefato de valora\u00e7\u00e3o assentado no nosso imagin\u00e1rio social, o museu \u00e9 o aquilo que guarda o patrim\u00f4nio, e a l\u00edngua era o objeto de valor guardado com o qual eu iria trabalhar e que \u00e9 \u0091guardado\u0092 pelo museu. Foi assim que ordenei a tese: do patrim\u00f4nio ao museu, do museu \u00e0 l\u00edngua, da l\u00edngua como patrim\u00f4nio pelo museu. Uma inst\u00e2ncia levando diretamente \u00e0 outra. Foi a\u00ed que eu literalmente me obriguei a refletir sobre o patrim\u00f4nio, come\u00e7ando a tese pelo que mais me assustava. Depois disso, tudo fluiu.  Fora isso, acho que ler \u00e9 fundamental, mas, principalmente, ter foco no objetivo, n\u00e3o perder ele de vista, e ter bom senso, no sentido de saber quem \u00e9 o seu leitor, explicar a ele o que \u00e9 necess\u00e1rio, e saber, tamb\u00e9m, quando \u00e9 poss\u00edvel passar adiante, para n\u00e3o produzir um texto cansativo. Na hora da escrita, cada um tem seu m\u00e9todo. O meu era ler previamente tudo sobre a tem\u00e1tica da parte, quantas vezes fossem necess\u00e1rias, fazer anota\u00e7\u00f5es esquem\u00e1ticas de como eu ia dar andamento \u00e0 escrita, marcar tudo que fosse citado. S\u00f3 parava pra reler quando eu tinha d\u00favida. Nunca escrevia sem j\u00e1 ter lido tudo o que poderia entrar naquela parte, e acho que isso me ajudou a economizar tempo.  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0<\/strong><strong><\/strong>  &nbsp;  <strong><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Ciad-2009-S\u00e3o-Carlos.SP-9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1864\" title=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Ciad-2009-S\u00e3o-Carlos.SP-9-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a>De onde vem o ponto de partida, o objeto da quest\u00e3o, o problema que mobiliza a teoriza\u00e7\u00e3o, no teu caso, a \u0093l\u00edngua como patrim\u00f4nio, nesse lugar espec\u00edfico, que \u00e9 o Museu da L\u00edngua Portuguesa\u0094? Li que voc\u00ea at\u00e9 escreveu algo como \u0093resist\u00eancia\u0094&#8230;<\/strong><strong><\/strong>  A resist\u00eancia entra no meu trabalho pela dificuldade que tive em tratar de museu e de patrim\u00f4nio teoricamente, sob o vi\u00e9s da An\u00e1lise de Discurso. Inclusive, o primeiro cap\u00edtulo da tese come\u00e7a com um depoimento em que falo dessa resist\u00eancia, o que at\u00e9 hoje, pra mim, significa como um pedido de desculpas ao leitor, principalmente \u00e0queles de outras \u00e1reas, que trabalham diretamente com o conceito. A ideia de trabalhar com o Museu vem da Professora Amanda. O Museu foi inaugurado ainda quando eu fazia o mestrado, e como eu trabalhava com discurso de vulgariza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, ela acreditava que valia a pena eu refletir sobre o museu. No entanto, n\u00e3o foi esse lado da divulga\u00e7\u00e3o que pesou quando eu decidi trabalhar com assunto no doutorado. Numa disciplina da professora Eliana, come\u00e7amos a falar em patrim\u00f4nio imaterial, e eu fiquei sabendo que a l\u00edngua \u00e9 considerada o vetor dos bens dessa categoria. Fiquei \u0091doida\u0092 com isso e por muito tempo escrevi sobre, mas isso n\u00e3o era suficiente pra fazer uma tese, porque qualquer um sabe que, na An\u00e1lise de Discurso, a l\u00edngua tem materialidade. De qualquer modo, eu queria tratar sobre l\u00edngua como patrim\u00f4nio, por causa da quest\u00e3o pol\u00edtica atravessada a\u00ed, do que isso poderia significar. E, junto a esta quest\u00e3o, estava o meu inc\u00f4modo com a possibilidade de guardar a l\u00edngua em um museu. Eu ficava me perguntando como isso era poss\u00edvel, por que um museu para a l\u00edngua, de onde saiu \u0091esta ideia louca\u0092. Ent\u00e3o, fiquei me aventurando meio sem rumo por esses caminhos, sem muita precis\u00e3o, at\u00e9 que, um dia, a professora Carme Schons, em uma reuni\u00e3o de pesquisa no Corpus, falou uma palavrinha m\u00e1gica: imagin\u00e1rio. A \u0091ficha caiu\u0092. Pela quest\u00e3o do imagin\u00e1rio, eu conseguiria desconstruir a ideia de representa\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria e hist\u00f3ria colada ao objeto e entraria pela quest\u00e3o discursiva, porque o patrim\u00f4nio \u00e9 um artefato do nosso imagin\u00e1rio social e significa por um processo discursivo, de efeito de repetibilidade e de estabilidade, sim, mas discursivo. Consequentemente, tamb\u00e9m era preciso desconstruir o arquivo do museu, para poder observar a l\u00edngua tamb\u00e9m enquanto inst\u00e2ncia discursiva. Foi assim que me encorajei. Esta reflex\u00e3o sobre o patrim\u00f4nio est\u00e1 no primeiro cap\u00edtulo da tese. Diz a Professora Amanda que a tese, ali\u00e1s, est\u00e1 ali.  &nbsp;  &nbsp;  <strong>Seu trabalho foi muito elogiado na sess\u00e3o de defesa pela qualidade da escritura, fluidez e conex\u00e3o de argumenta\u00e7\u00f5es. S\u00e3o 200 p\u00e1ginas nas quais voc\u00ea, notadamente, dialoga com o leitor.\u00a0\u00a0O que voc\u00ea diria aos acad\u00eamicos para quem escrever ainda \u00e9 o maior desafio?<\/strong><strong><\/strong>  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Que aceitem as exig\u00eancias da pesquisa e que se organizem para n\u00e3o serem negligentes nem com o processo nem consigo mesmos, com a sua sa\u00fade, com a suas necessidades. Que n\u00e3o tenham medo de escrever o que pensam, temendo que esteja errado. Que comecem por reflex\u00f5es simples, aquelas primeiras, que parecem bobas. Que sejam leitores do pr\u00f3prio texto. \u00c9 dif\u00edcil, mas temos que revisar nosso pr\u00f3prio texto, sempre em atitude de \u0091gentileza ao leitor\u0092, como diz a Professora Verli. Eu criei uma rotina, praticamente um hor\u00e1rio comercial em que eu tinha que me dedicar a escrever. Nunca escrevia nada sem ler o que vinha antes e em voz alta. Escutar a mim mesma era importante para perceber se o que eu escrevia estava claro ou n\u00e3o, e eu s\u00f3 seguia adiante depois de resolver os problemas. No final, lia tudo de novo, do mesmo jeito. \u00c9 um exerc\u00edcio de algu\u00e9m mani\u00e1tico, obviamente, e cansativo, mas n\u00e3o soube fazer de outro jeito. Sempre fui perfeccionista.  &nbsp;  <strong>Comente sobre o que voc\u00ea viu durante o seu percurso de pesquisa, acerca da institui\u00e7\u00e3o UFSM, do PPGL, do Corpus e, principalmente, da pol\u00edtica de concess\u00e3o de bolsas via Capes, isso que de uma maneira geral queremos traduzir entre evoluir, crescer, ampliar ou estagnar, perder, retroceder, enfim&#8230;\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><strong><\/strong>  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Eu s\u00f3 recebi coisas boas da institui\u00e7\u00e3o. Sempre pude contar com aux\u00edlio para participar de eventos e sempre tive bolsa Capes, o que me possibilitou a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa e a cria\u00e7\u00e3o de uma rotina de leitura e escrita. J\u00e1 ouvi muitos se referirem \u00e0 universidade como de interior, e geograficamente talvez sejamos, mas, mesmo assim, considero que temos uma estrutura muito boa, principalmente no nosso Programa (PPGL). Temos muitos eventos na casa. O Corpus, por exemplo, est\u00e1 sempre convidando pesquisadores, e isso \u00e9 muito legal, porque temos a oportunidade de ouvir e de sermos ouvidos, conhecer pessoas sem sair de casa, al\u00e9m, \u00e9 claro, da experi\u00eancia de trabalho em laborat\u00f3rio, da organiza\u00e7\u00e3o de eventos. S\u00f3 n\u00e3o gostava, na minha \u00e9poca de aluna, desde o mestrado, da pol\u00edtica de publica\u00e7\u00e3o que acabava gerando uma competitividade entre os estudantes. N\u00e3o gostava de ver as pessoas publicando qualquer coisa ou sempre a mesma coisa s\u00f3 para fazer mais n\u00famero que o outro, s\u00f3 para aumentar o curr\u00edculo. Isso, me parece, era uma pol\u00edtica geral, mas que n\u00e3o representa a pesquisa. \u00c9 preciso publicar, mas coisas interessantes, que contribuam, que sejam lidas. Hoje, percebo que isso est\u00e1 mudando, e espero que realmente mude.  &nbsp;  &nbsp;  <strong>E, hoje, o lugar que voc\u00ea ocupa&#8230;<\/strong><strong><\/strong>  \u00c9 muito bom ser professora na institui\u00e7\u00e3o em que me formei, ser colega dos meus professores. Eu sequer consigo n\u00e3o cham\u00e1-los de professores, porque a minha forma\u00e7\u00e3o foi responsabilidade deles. A todo momento eles me chamam a aten\u00e7\u00e3o a respeito disso, mas n\u00e3o consigo mudar, acho que vai levar um tempo ainda para eu fazer esta passagem. E estou adorando ser professora. J\u00e1 ministrei muita aula, desde o tempo de estudante de gradua\u00e7\u00e3o. Fui, inclusive, professora substituta aqui da UFSM. Mas, pela primeira vez, estou dando aula sem que essa atividade seja algo secund\u00e1rio, sem que eu tenha que realizar as coisas correndo. Agora, estou fazendo tudo no meu tempo. Estou achando \u0091um barato\u0092 preparar aula, refletir sobre o que vai ser importante para os alunos, sobre como posso auxili\u00e1-los. E estou sem pressa. Quero que a pesquisa, a partir de agora, seja tamb\u00e9m decorrente disso. Quero tentar sair um pouco da tese, ent\u00e3o preciso amadurecer novas ideias. Estou estudando, fa\u00e7o parte de grupo de estudos, continuo no Corpus, e quero que os novos projetos decorram dessas novas rela\u00e7\u00f5es.  &nbsp; <!--more--> <a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Senale-Pelotas-2007-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1868\" title=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Senale-Pelotas-2007-2-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/><\/a>Foi em uma correspond\u00eancia (e-mail) exultante que a professora Amanda E. Scherer fez <em>dividir com todos a imensa alegria e satisfa\u00e7\u00e3o de saber que a tese da nossa<strong>\u00a0<\/strong><strong>Larissa M. Cervo<\/strong>, \u00a0<strong>L\u00edngua: patrim\u00f4nio nosso<\/strong>, \u00e9 a indicada para representar o Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras da UFSM para concorrer ao Pr\u00eamio CAPES de TESE de 2012<\/em>. Singularidade que torna absolutamente compreens\u00edvel a vibra\u00e7\u00e3o nas linhas seguintes: <em>Brav\u00f4 Lari ! Valeu o esfor\u00e7o! O trabalho! E todo a tua compet\u00eancia intelectual em tamanho empreendimento. Estamos todos felizes por ti enquanto grupo de colegas!<\/em>  &nbsp;  Ent\u00e3o, pensamos em como registrar o feito, a produ\u00e7\u00e3o, a refer\u00eancia, a indica\u00e7\u00e3o que, indiretamente, alcan\u00e7a a todos n\u00f3s, enquanto grupo. A ideia de uma entrevista est\u00e1 sendo completada com \u00eaxito agora gra\u00e7as a contribui\u00e7\u00e3o generosa e inspirada com que a professora Larissa nos brindou em suas respostas que s\u00e3o, a meu ver, j\u00e1 dignas de uma orienta\u00e7\u00e3o que identifica muito bem o compromisso com seu tempo, com os seus colegas, com os que est\u00e3o embrenhados na tarefa\/miss\u00e3o de dar novos rumos a pesquisa no Brasil.  &nbsp;  <a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Giros-na-Cidade-Campinas-2004-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1867\" title=\"Giros na Cidade - Campinas 2004 (1)\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Giros-na-Cidade-Campinas-2004-1-300x193.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" \/><\/a>O trabalho de Larissa Montagner Cervo, <strong>L\u00cdNGUA, PATRIM\u00d4NIO NOSSO, <\/strong>foi defendido no PPGL\/UFSM em 02 de abril de 2012<strong> <\/strong>e versa sobre a significa\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como patrim\u00f4nio, a partir de um lugar espec\u00edfico, o Museu da L\u00edngua Portuguesa (S\u00e3o Paulo, 2006), escolhido por se constituir como espa\u00e7o de salvaguarda e comemora\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio, dando visibilidade \u00e0 l\u00edngua nessa condi\u00e7\u00e3o de objeto simb\u00f3lico. A l\u00edngua nesta perspectiva \u00e9 tamb\u00e9m valorada no entremeio das pr\u00e1ticas dos sujeitos e daquilo que \u00e9 manifestado como representativo dessa rela\u00e7\u00e3o, devendo, por isso, fazer parte ou mesmo permanecer nas narrativas da hist\u00f3ria. Caminho a ser percorrido envolve a desconstru\u00e7\u00e3o do arquivo e da mem\u00f3ria de arquivo deste museu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como patrim\u00f4nio, com valor de mem\u00f3ria hist\u00f3rica e em sua significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, alusiva \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o significada no conceito de patrim\u00f4nio e no slogan do museu, \u0091a l\u00edngua \u00e9 o que nos une\u0092.  &nbsp;  Com voc\u00eas, uma entrevista prazerosa de ler e extremamente proveitosa ao nosso cotidiano de pesquisa.  &nbsp;  <strong><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/defesa-tese_2012-8.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1866\" title=\"defesa tese_2012 (8)\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/defesa-tese_2012-8-300x224.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"224\" \/><\/a>Apropriadamente, voc\u00ea j\u00e1 dividiu e atribuiu o m\u00e9rito a sua orientadora, Prof.\u00aa Amanda Scherer. Fale um pouco dessa rela\u00e7\u00e3o\/orienta\u00e7\u00e3o com uma professora que tem j\u00e1 uma hist\u00f3ria\/contribui\u00e7\u00e3o volumosa e proeminente na UFSM.<\/strong>  &nbsp;  A Professora Amanda \u00e9 minha orientadora desde sempre. Foi minha orientadora na especializa\u00e7\u00e3o, no mestrado e no doutorado. Nessas tr\u00eas etapas, o processo de orienta\u00e7\u00e3o foi o mesmo: v\u00e1 a eventos; publique; assista \u00e0s defesas de teses e disserta\u00e7\u00f5es; leia outras teses e disserta\u00e7\u00f5es da \u00e1rea para aprender a fazer a sua (ela dizia: \u0091N\u00e3o se faz tese sem ter lido pelo menos tr\u00eas outras teses que abordam o tema\u0092); cite os seus colegas, como mostra de respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o deles e a do grupo como um todo; leia tudo o que for necess\u00e1rio; crie uma rotina de estudo; e cumpra o prazo. Foi dif\u00edcil para eu entrar nesse ritmo, porque eu resistia demais \u00e0 escrita, principalmente no in\u00edcio do meu percurso de pesquisa, quando comecei a trabalhar com a An\u00e1lise de Discurso. Eu achava o aparato te\u00f3rico muito complexo, fazer an\u00e1lise era sofrido para mim, ent\u00e3o eu n\u00e3o acompanhava o calend\u00e1rio de atividades com o rigor que era exigido. Nesse percurso, tenho certeza de que a Professora Amanda foi fundamental para o meu amadurecimento, por v\u00e1rias raz\u00f5es. Uma delas, marcante, era a ida a eventos. \u00c0s vezes, quando a gente achava que ela estava preocupada com outras coisas porque n\u00e3o havia nos cobrado texto, ela insistia muito para irmos a eventos e para publicarmos. Por um lado, isso era \u00f3timo porque ela tem muitos contatos e \u00e9 muito bem recebida em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es, o que favorecia o contato e as trocas com outras pesquisas e outros pesquisadores. Por outro, afora o benef\u00edcio da escuta, em eventos voc\u00ea \u00e9 obrigado a pensar sobre o seu pr\u00f3prio trabalho para se fazer entender frente aos outros, e sempre h\u00e1 contribui\u00e7\u00e3o, sempre h\u00e1 algu\u00e9m que instiga voc\u00ea a reorganizar, a repensar, a reordenar e redefinir o seu pr\u00f3prio trabalho. Incomodava-me um pouco essa hist\u00f3ria de falar em p\u00fablico falando de uma pesquisa da qual eu mesma n\u00e3o tinha clareza, mas, hoje, entendo a l\u00f3gica: tendo de falar em p\u00fablico, voc\u00ea se obriga a tocar em quest\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o bem pontuadas, que s\u00e3o dif\u00edceis, e isso vai se somando ao processo de orienta\u00e7\u00e3o at\u00e9 que, aos poucos, o trabalho vai se redesenhando e voc\u00ea encontra um objetivo. Outra coisa que sempre achei bacana \u00e9 que ela sempre nos encorajou a ler o que fosse preciso. Isso \u00e9 uma caracter\u00edstica dela enquanto sujeito: querer conhecer, querer saber, e ler, ler, ler. Ela adora ler e jamais disse que n\u00e3o dever\u00edamos ler um autor ou outro. Pelo contr\u00e1rio, \u0091leiam para saberem do que se trata\u0092. \u0091Ou\u00e7am a fala dos colegas, mesmo que eles n\u00e3o tratem do que voc\u00eas tratam, porque \u00e9 falta de respeito n\u00e3o saber o que o colega faz\u0092. A \u00fanica coisa que ela cobrava era que pontu\u00e1ssemos bem as rela\u00e7\u00f5es e que trat\u00e1ssemos de todas com o devido fundamento. Essa liberdade, indiretamente, acaba ensinando a pessoa a se responsabilizar pela sua pr\u00f3pria autoria, pelo que diz, pelo modo como refere o trabalho do outro. Isso ensina o sujeito a tecer rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sendo alheio ao que est\u00e1 sendo produzido na sua volta, o que, para mim, \u00e9 primordial ao pesquisador. Enfim, eu s\u00f3 aprendi, s\u00f3 beneficiei com a experi\u00eancia e a sabedoria da minha orientadora. Tenho v\u00e1rias lembran\u00e7as, at\u00e9 de reuni\u00e3o para sabermos como dever\u00edamos nos comportar em eventos e defesas! Hoje, sinto que ainda preciso do aval dela para muita coisa. Tenho certeza que ela continua tendo expectativas quanto a mim e que vai me orientar sempre que eu precisar.  &nbsp;  &nbsp;  <strong><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Defesa-Mestrado-2008.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1865\" title=\"Defesa Mestrado 2008\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Defesa-Mestrado-2008-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a>Como se d\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica e te\u00f3rica de um trabalho desse porte? Penso em dizer para aqueles acad\u00eamicos que est\u00e3o no come\u00e7o ou para os que querem entrar no c\u00edrculo da \u0093pesquisa\u0094&#8230;<\/strong><strong><\/strong>  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Bom, n\u00e3o vou me posicionar quanto ao \u0091porte\u0092. Isso quem est\u00e1 autorizado a fazer s\u00e3o os outros, n\u00e3o eu. Mas, repetindo o que a Professora Amanda sempre fala, eu constru\u00ed a teoria a partir do meu objeto. No in\u00edcio, a \u00fanica coisa que eu tinha certeza era de que n\u00e3o queria de modo algum uma tese com uma revis\u00e3o de literatura exaustiva, do tipo em que se reexplica tudo aquilo que os outros j\u00e1 sabem, inclusive aquilo que n\u00e3o vai ser mobilizado analiticamente depois. Acho at\u00e9 que isso se deve \u00e0 quantidade de trabalhos acad\u00eamicos que j\u00e1 corrigi e formatei. Com isso posto, fui me deixando levar pelo Museu. Ele que foi me dizendo como teorizar, o que era importante de aparecer na revis\u00e3o te\u00f3rica, o que deveria ser mobilizado, os recortes que eu podia fazer. Isso leva tempo, claro. Eu s\u00f3 escrevi a tese nos meses finais. Antes, eu passei muito tempo me repetindo sobre o museu e esgotando o que eu poderia saber e o que eu poderia falar sobre ele, pra depois tentar achar uma pergunta de pesquisa. O que mais me incomodava era o patrim\u00f4nio, porque eu lia muita coisa de outras \u00e1reas e n\u00e3o entendia como ligar aquilo com a An\u00e1lise de Discurso. N\u00e3o tinha jeito&#8230; Ent\u00e3o, num belo dia resolvi apelar para a l\u00f3gica: se a minha pergunta de pesquisa era como significa a l\u00edngua como patrim\u00f4nio, em face do Museu da L\u00edngua Portuguesa, eu teria que trabalhar com tr\u00eas grandes inst\u00e2ncias \u0096 museu, l\u00edngua e patrim\u00f4nio. O patrim\u00f4nio nada mais \u00e9 do que um artefato de valora\u00e7\u00e3o assentado no nosso imagin\u00e1rio social, o museu \u00e9 o aquilo que guarda o patrim\u00f4nio, e a l\u00edngua era o objeto de valor guardado com o qual eu iria trabalhar e que \u00e9 \u0091guardado\u0092 pelo museu. Foi assim que ordenei a tese: do patrim\u00f4nio ao museu, do museu \u00e0 l\u00edngua, da l\u00edngua como patrim\u00f4nio pelo museu. Uma inst\u00e2ncia levando diretamente \u00e0 outra. Foi a\u00ed que eu literalmente me obriguei a refletir sobre o patrim\u00f4nio, come\u00e7ando a tese pelo que mais me assustava. Depois disso, tudo fluiu.  Fora isso, acho que ler \u00e9 fundamental, mas, principalmente, ter foco no objetivo, n\u00e3o perder ele de vista, e ter bom senso, no sentido de saber quem \u00e9 o seu leitor, explicar a ele o que \u00e9 necess\u00e1rio, e saber, tamb\u00e9m, quando \u00e9 poss\u00edvel passar adiante, para n\u00e3o produzir um texto cansativo. Na hora da escrita, cada um tem seu m\u00e9todo. O meu era ler previamente tudo sobre a tem\u00e1tica da parte, quantas vezes fossem necess\u00e1rias, fazer anota\u00e7\u00f5es esquem\u00e1ticas de como eu ia dar andamento \u00e0 escrita, marcar tudo que fosse citado. S\u00f3 parava pra reler quando eu tinha d\u00favida. Nunca escrevia sem j\u00e1 ter lido tudo o que poderia entrar naquela parte, e acho que isso me ajudou a economizar tempo.  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0<\/strong><strong><\/strong>  &nbsp;  <strong><a href=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Ciad-2009-S\u00e3o-Carlos.SP-9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-1864\" title=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" src=\"http:\/\/corpus.ufsm.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Ciad-2009-S\u00e3o-Carlos.SP-9-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a>De onde vem o ponto de partida, o objeto da quest\u00e3o, o problema que mobiliza a teoriza\u00e7\u00e3o, no teu caso, a \u0093l\u00edngua como patrim\u00f4nio, nesse lugar espec\u00edfico, que \u00e9 o Museu da L\u00edngua Portuguesa\u0094? Li que voc\u00ea at\u00e9 escreveu algo como \u0093resist\u00eancia\u0094&#8230;<\/strong><strong><\/strong>  A resist\u00eancia entra no meu trabalho pela dificuldade que tive em tratar de museu e de patrim\u00f4nio teoricamente, sob o vi\u00e9s da An\u00e1lise de Discurso. Inclusive, o primeiro cap\u00edtulo da tese come\u00e7a com um depoimento em que falo dessa resist\u00eancia, o que at\u00e9 hoje, pra mim, significa como um pedido de desculpas ao leitor, principalmente \u00e0queles de outras \u00e1reas, que trabalham diretamente com o conceito. A ideia de trabalhar com o Museu vem da Professora Amanda. O Museu foi inaugurado ainda quando eu fazia o mestrado, e como eu trabalhava com discurso de vulgariza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, ela acreditava que valia a pena eu refletir sobre o museu. No entanto, n\u00e3o foi esse lado da divulga\u00e7\u00e3o que pesou quando eu decidi trabalhar com assunto no doutorado. Numa disciplina da professora Eliana, come\u00e7amos a falar em patrim\u00f4nio imaterial, e eu fiquei sabendo que a l\u00edngua \u00e9 considerada o vetor dos bens dessa categoria. Fiquei \u0091doida\u0092 com isso e por muito tempo escrevi sobre, mas isso n\u00e3o era suficiente pra fazer uma tese, porque qualquer um sabe que, na An\u00e1lise de Discurso, a l\u00edngua tem materialidade. De qualquer modo, eu queria tratar sobre l\u00edngua como patrim\u00f4nio, por causa da quest\u00e3o pol\u00edtica atravessada a\u00ed, do que isso poderia significar. E, junto a esta quest\u00e3o, estava o meu inc\u00f4modo com a possibilidade de guardar a l\u00edngua em um museu. Eu ficava me perguntando como isso era poss\u00edvel, por que um museu para a l\u00edngua, de onde saiu \u0091esta ideia louca\u0092. Ent\u00e3o, fiquei me aventurando meio sem rumo por esses caminhos, sem muita precis\u00e3o, at\u00e9 que, um dia, a professora Carme Schons, em uma reuni\u00e3o de pesquisa no Corpus, falou uma palavrinha m\u00e1gica: imagin\u00e1rio. A \u0091ficha caiu\u0092. Pela quest\u00e3o do imagin\u00e1rio, eu conseguiria desconstruir a ideia de representa\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria e hist\u00f3ria colada ao objeto e entraria pela quest\u00e3o discursiva, porque o patrim\u00f4nio \u00e9 um artefato do nosso imagin\u00e1rio social e significa por um processo discursivo, de efeito de repetibilidade e de estabilidade, sim, mas discursivo. Consequentemente, tamb\u00e9m era preciso desconstruir o arquivo do museu, para poder observar a l\u00edngua tamb\u00e9m enquanto inst\u00e2ncia discursiva. Foi assim que me encorajei. Esta reflex\u00e3o sobre o patrim\u00f4nio est\u00e1 no primeiro cap\u00edtulo da tese. Diz a Professora Amanda que a tese, ali\u00e1s, est\u00e1 ali.  &nbsp;  &nbsp;  <strong>Seu trabalho foi muito elogiado na sess\u00e3o de defesa pela qualidade da escritura, fluidez e conex\u00e3o de argumenta\u00e7\u00f5es. S\u00e3o 200 p\u00e1ginas nas quais voc\u00ea, notadamente, dialoga com o leitor.\u00a0\u00a0O que voc\u00ea diria aos acad\u00eamicos para quem escrever ainda \u00e9 o maior desafio?<\/strong><strong><\/strong>  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Que aceitem as exig\u00eancias da pesquisa e que se organizem para n\u00e3o serem negligentes nem com o processo nem consigo mesmos, com a sua sa\u00fade, com a suas necessidades. Que n\u00e3o tenham medo de escrever o que pensam, temendo que esteja errado. Que comecem por reflex\u00f5es simples, aquelas primeiras, que parecem bobas. Que sejam leitores do pr\u00f3prio texto. \u00c9 dif\u00edcil, mas temos que revisar nosso pr\u00f3prio texto, sempre em atitude de \u0091gentileza ao leitor\u0092, como diz a Professora Verli. Eu criei uma rotina, praticamente um hor\u00e1rio comercial em que eu tinha que me dedicar a escrever. Nunca escrevia nada sem ler o que vinha antes e em voz alta. Escutar a mim mesma era importante para perceber se o que eu escrevia estava claro ou n\u00e3o, e eu s\u00f3 seguia adiante depois de resolver os problemas. No final, lia tudo de novo, do mesmo jeito. \u00c9 um exerc\u00edcio de algu\u00e9m mani\u00e1tico, obviamente, e cansativo, mas n\u00e3o soube fazer de outro jeito. Sempre fui perfeccionista.  &nbsp;  <strong>Comente sobre o que voc\u00ea viu durante o seu percurso de pesquisa, acerca da institui\u00e7\u00e3o UFSM, do PPGL, do Corpus e, principalmente, da pol\u00edtica de concess\u00e3o de bolsas via Capes, isso que de uma maneira geral queremos traduzir entre evoluir, crescer, ampliar ou estagnar, perder, retroceder, enfim&#8230;\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><strong><\/strong>  <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Eu s\u00f3 recebi coisas boas da institui\u00e7\u00e3o. Sempre pude contar com aux\u00edlio para participar de eventos e sempre tive bolsa Capes, o que me possibilitou a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa e a cria\u00e7\u00e3o de uma rotina de leitura e escrita. J\u00e1 ouvi muitos se referirem \u00e0 universidade como de interior, e geograficamente talvez sejamos, mas, mesmo assim, considero que temos uma estrutura muito boa, principalmente no nosso Programa (PPGL). Temos muitos eventos na casa. O Corpus, por exemplo, est\u00e1 sempre convidando pesquisadores, e isso \u00e9 muito legal, porque temos a oportunidade de ouvir e de sermos ouvidos, conhecer pessoas sem sair de casa, al\u00e9m, \u00e9 claro, da experi\u00eancia de trabalho em laborat\u00f3rio, da organiza\u00e7\u00e3o de eventos. S\u00f3 n\u00e3o gostava, na minha \u00e9poca de aluna, desde o mestrado, da pol\u00edtica de publica\u00e7\u00e3o que acabava gerando uma competitividade entre os estudantes. N\u00e3o gostava de ver as pessoas publicando qualquer coisa ou sempre a mesma coisa s\u00f3 para fazer mais n\u00famero que o outro, s\u00f3 para aumentar o curr\u00edculo. Isso, me parece, era uma pol\u00edtica geral, mas que n\u00e3o representa a pesquisa. \u00c9 preciso publicar, mas coisas interessantes, que contribuam, que sejam lidas. Hoje, percebo que isso est\u00e1 mudando, e espero que realmente mude.  &nbsp;  &nbsp;  <strong>E, hoje, o lugar que voc\u00ea ocupa&#8230;<\/strong><strong><\/strong>  \u00c9 muito bom ser professora na institui\u00e7\u00e3o em que me formei, ser colega dos meus professores. Eu sequer consigo n\u00e3o cham\u00e1-los de professores, porque a minha forma\u00e7\u00e3o foi responsabilidade deles. A todo momento eles me chamam a aten\u00e7\u00e3o a respeito disso, mas n\u00e3o consigo mudar, acho que vai levar um tempo ainda para eu fazer esta passagem. E estou adorando ser professora. J\u00e1 ministrei muita aula, desde o tempo de estudante de gradua\u00e7\u00e3o. Fui, inclusive, professora substituta aqui da UFSM. Mas, pela primeira vez, estou dando aula sem que essa atividade seja algo secund\u00e1rio, sem que eu tenha que realizar as coisas correndo. Agora, estou fazendo tudo no meu tempo. Estou achando \u0091um barato\u0092 preparar aula, refletir sobre o que vai ser importante para os alunos, sobre como posso auxili\u00e1-los. E estou sem pressa. Quero que a pesquisa, a partir de agora, seja tamb\u00e9m decorrente disso. Quero tentar sair um pouco da tese, ent\u00e3o preciso amadurecer novas ideias. Estou estudando, fa\u00e7o parte de grupo de estudos, continuo no Corpus, e quero que os novos projetos decorram dessas novas rela\u00e7\u00f5es.  &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi em uma correspond\u00eancia (e-mail) exultante que a professora Amanda E. Scherer fez dividir com todos a imensa alegria e satisfa\u00e7\u00e3o de saber que a tese da nossa\u00a0Larissa M. Cervo, \u00a0L\u00edngua: patrim\u00f4nio nosso, \u00e9 a indicada para representar o Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras da UFSM para concorrer ao Pr\u00eamio CAPES de TESE de 2012. 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