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9 mitos e verdades sobre a toxoplasmose



Neste Mitômetro, a Arco verifica comentários relacionados à doença que se desenvolveu em Santa Maria e provocou o maior surto mundial da infecção

A toxoplasmose é um assunto que preocupa os moradores de Santa Maria. O principal motivo é que em 2018 a cidade enfrentou o maior surto mundial da doença, com 902 casos confirmados pela Secretaria Estadual de Vigilância Sanitária. Dos 41 bairros que compõem o município, 38 tiveram ao menos uma ocorrência. Na época, água e hortaliças contaminadas foram apontadas como possíveis causas.

O medo de um novo surto surge toda vez que um boletim de monitoramento da água é apresentado. Conforme a última análise, realizada em julho de 2019, das 26 amostras de água verificadas, seis indicaram a presença de fragmentos do DNA do Toxoplasma gondii, protozoário causador da doença. “Isso não representa nada, porque não existe um ser vivo ali, apenas um fragmento de DNA”, explica a professora Silvia Gonzalez Monteiro, responsável pelo Laboratório de Parasitologia Veterinária da UFSM (Lapavet).

Além dessa dúvida, outros questionamentos sobre a origem da doença, os cuidados com a água e o possível papel do gato como vetor ainda permanecem. A Arco conversou com especialistas para responder os comentários relacionados à toxoplasmose, alguns verdadeiros e outros mitos. Com esta reportagem, retomamos o Mitômetro

Gatos domésticos podem transmitir a toxoplasmose para seus os donos.

De acordo com a professora Silvia Monteiro, parasitologista e responsável pelo Lapavet da UFSM, o Toxoplasma gondii é um protozoário da classe Coccidia. Os protozoários são seres unicelulares, ou seja, formados por apenas uma célula e, alguns deles, para sobreviver no meio ambiente, se transformam em formas mais resistentes. No caso do Toxoplasma, essa proteção acontece pelo oocisto, única maneira de encontrar o parasito no ambiente.

Os únicos seres capazes de eliminar os oocistos no ambiente pelas fezes são os felídeos, ou seja, animais como tigres, leões, onças e gatos. “Como o gato é o nosso felídeo doméstico, acredita-se que ele é o único capaz de fazer a eliminação do parasito em áreas urbanas”, explica Silvia. A professora chama a atenção para o fato de que, quando o oocisto é eliminado nas fezes dos gatos, ele não tem capacidade de infectar outros seres. Para se tornar infectante, o oocisto precisa esporular, isto é, desenvolver-se internamente até chegar na forma de esporozoíto. Para que esse processo ocorra, o oocisto presente nas fezes de gatos precisa de pelo menos três dias de contato com o ambiente, sofrendo a ação da temperatura e da umidade.  “O gato não é problema. Se a pessoa faz a limpeza da caixinha de areia todos os dias, a chance da infecção é praticamente zero, porque não ocorreu a esporulação”, comenta.

Se ocorrer a esporulação, o parasito se torna infectante. Ou seja, a partir desse momento, se o ser humano ou qualquer outro animal ingerir na água ou na alimentação essas formas microscópicas do protozoário, os esporozoítos, podem penetrar em qualquer célula do organismo e se multiplicar. Nessa situação, a doença pode ocorrer. “Se, por acaso, a pessoa ingerir o oocisto esporulado, seja mexendo na terra onde algum gato tenha defecado, brincando na areia de parques, comendo verdura mal lavada ou tomando água contaminada, as chances de ter a infecção aumentam”, ressalta Silvia. 

A professora acrescenta que, para eliminar oocistos nas fezes, os gatos precisam estar doentes. Nesse caso, é preciso estar atento à saúde dos animais recém nascidos e idosos, que têm o sistema imune mais frágil e podem desenvolver uma infecção semelhante a do humano.

É possível notar que o gato está com a toxoplasmose.

A principal suspeita é a diarreia. “Se o gatinho estiver com a imunidade muito baixa e entrar em contato com o Toxoplasma, ele vai ter uma enterite e vai começar a eliminar fezes moles”, explica a professora Silvia. A especialista destaca ainda que para contrair a toxoplasmose os felinos precisam ingerir oocistos esporulados ou carne parasitada – o que pode ocorrer quando se alimentam de roedores ou aves portadoras do parasito. “Aquele gato que só come ração industrial dificilmente vai contrair a doença. Os gatos de rua têm mais possibilidade de se contaminar”, comenta.

Depois que a pessoa tem toxoplasmose uma vez, ela não terá outras vezes.

A professora Silvia explica que as respostas positivas ou negativas em relação a doença dependem do sistema imune do indivíduo e, principalmente, da quantidade de oocistos esporulados que a pessoa ingere. “É difícil, mas não é impossível”, comenta.

De acordo com o imunologista Paulo Saraiva, professor da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 75% da população do estado tem anticorpos para o Toxoplasma gondii, ou seja, já teve contato com o parasito. Nesses casos, mesmo com o Toxoplasma no organismo, as pessoas continuam saudáveis. “O Toxoplasma, além de ser um parasito intracelular obrigatório, é um oportunista. Ou seja, quando ele contamina uma pessoa não necessariamente ela tem o desenvolvimento da doença rapidamente, justamente porque já possui o sistema imunitário de defesa. Entretanto, no caso de a pessoa entrar em depressão, por exemplo, o sistema imunológico ficará mais frágil, abrindo portas para infecções e aí os parasitos podem começar a agir”. explica. 

A toxoplasmose pode ser contraída pela ingestão de água.

De acordo com a professora Silvia, a chance da doença ser transmitida pela água é muito pequena. Para que isso ocorresse, seria necessário que uma grande quantidade de gatos liberassem fezes contendo oocistos em rios, lagos ou barragens, por exemplo. “Muitos trabalhos e pesquisas apontam que a maior fonte de infecção é a comida, a carne crua ou mal cozida. Isso porque o  processo infeccioso da toxoplasmose que acontece em humanos, também ocorre em vários animais, como aves, suínos, bovinos, equinos, cachorros ou gatos. Ou seja, o consumo de carne mal passada ou de embutidos não suficientemente salgados ou maturados é o que vai manter os parasitos vivos na carne que o ser humano ingere”, explica.

Além disso, tendo em vista as últimas informações sobre as amostras de água coletadas nas barragens e estações de tratamento de Santa Maria, a professora ressalta que os fragmentos de DNA encontrados não apresentam problemas para população. “É como se partíssemos os oocistos em milhares de pedacinhos e eles ficassem na água. Isso não representa nada porque não existe um ser vivo ali, apenas um fragmento de DNA. A única maneira de existir a doença é encontrando o oocisto esporulado contendo esporozoítos no seu interior. Essa seria a única forma de oocisto encontrada livre no ambiente que, ao ser ingerida, teria a capacidade de invadir uma célula e se multiplicar causando a doença”, argumenta.

A doença pode ser contraída pela ingestão de água tratada.

No caso da água tratada, a possibilidade de transmissão da toxoplasmose diminui ainda mais. Isso porque as empresas de saneamento público precisam seguir diretrizes legais, estabelecidas pelo Ministério da Saúde, que determina padrões de monitoramento e análise das águas para garantir níveis de potabilidade para o consumo humano.  

Em Santa Maria, de acordo com o superintendente regional central da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), José Epstein, são feitas as análises exigidas em lei. Depois do surto de toxoplasmose, a Corsan passou a realizar, a pedido do Ministério, o monitoramento específico de Toxoplasma gondii. “Hoje, no Brasil, o único sistema de abastecimento de água que faz monitoramento de Toxoplasma é o da Corsan de Santa Maria. A gente fez durante 18 meses, mesmo que a recomendação fosse apenas de 12 meses. Durante esse período, nunca houve resultados positivo em relação à presença do parasito”, ressalta Epstein.

De acordo com Silvia Monteiro, da UFSM, durante o processo de tratamento da água, na etapa de sedimentação, o parasito já ficaria retido no sedimento e nem passaria pelo processo de filtração. Neste sentido, a gestora da Unidade de Saneamento Especial (USE) da Corsan de Santa Maria, Andreia Zanini, explica que, embora a portaria estabelecida pelo Ministério da Saúde não exija análises específicas do Toxoplasma gondii, a legislação prevê o monitoramento de outros organismos menores que esse protozoário. 

Nesses casos, o processo de filtração funciona como uma barreira física para os organismos. Assim, os filtros, monitorados pela Corsan estão adaptados para barrar protozoários menores que os oocistos causadores da toxoplasmose. “Se os protozoários menores são barrados, qualquer organismo maior também não pode passar. Essa é a lógica científica da legislação”, explica Andréia.

Mulheres grávidas e imunodeprimidos precisam ter cuidado redobrado.

Conforme o professor Paulo Saraiva, da UFRGS, existem grupos mais preocupantes, entre eles as gestantes, os recém-nascidos e os imunodeprimidos. “Essas pessoas têm uma porta aberta para infecção muito maior que outras. Por isso, precisam de atenção”, observa. Entretanto, qualquer população pode ser considerada de risco em relação à contaminação por toxoplasmose. 

O primeiro contato com o parasito por grávidas, transplantados e portadores de doenças pré-existentes, quando há depressão do sistema imune, pode tornar a doença grave. Como explica a professora Sílvia, o organismo não tem anticorpos contra o protozoário e não está preparado para combatê-lo, o que possibilita a multiplicação do Toxoplasma pelo corpo. 

Sobre as gestantes, Paulo destaca a importância de realizar o pré-natal, justamente porque, a partir dos exames, é possível detectar se a mulher tem ou não anticorpos para combater a doença. Em caso negativo, é necessário redobrar a atenção, evitar a ingestão de carnes mal passadas, vegetais mal lavados e tomar cuidado em relação ao contato com a terra e fezes de gatos que possam conter o parasito. 

Caso o feto contraia toxoplasmose, pode desenvolver microcefalia ou hidrocefalia. Em outras situações preocupantes, o parasito pode causar alterações no globo ocular, provocar cegueira; infecções no cérebro, causar problemas neurológicos e aborto.

Algumas pessoas são mais propensas a adquirir a toxoplasmose.

De acordo com a parasitologista Silvia Monteiro, a toxoplasmose é uma doença endêmica, ou seja, acontece no mundo inteiro. Entretanto, conforme explica o imunologista Paulo Saraiva, a doença pode acometer determinadas regiões com maior intensidade. “Existe uma figura na imunologia chamada Complexo Principal de Histocompatibilidade, que leva o indivíduo a ser suscetível ou resistente a determinados tipos de doenças. Essas questões de resistência imunitária têm relação com a transmissão vertical de cromossomos de pais para filhos, tem relação com a genética”, elucida o professor.

Dessa forma, em determinados locais é possível encontrar populações mais resistentes a determinados tipos de doença ou mais suscetíveis a outras infecções. Em relação à toxoplasmose, Paulo salienta que as infecções também estão associadas a hábitos diários, como a ingestão de carnes cruas ou vegetais mal lavados, além dos cuidados em relação ao saneamento básico das regiões. “O saneamento básico é fundamental. É o primeiro passo para evitar doenças, sejam elas doenças de pele ou infecciosas”, ressalta.

Seres humanos podem transmitir a toxoplasmose.

As formas da transmissão podem ocorrer pela gestação, da mãe para o feto, ou durante a amamentação. Caso a lactante doe seu leite, a infecção pode atingir outras crianças. Outra possibilidade de transmissão da doença é pelo transplante de órgãos ou pela transfusão de sangue.

Os sintomas da toxoplasmose podem ser facilmente detectados.

 A toxoplasmose não tem sintomas específicos, o que dificulta o diagnóstico. Nos seres humanos, os sintomas podem ser leves, como mal estar, dor de cabeça e cansaço; ou mais intensos, na forma de virose, gripes severas ou linfonodos aumentados. O professor Paulo Saraiva explica que, de uma maneira geral, somente 10% dos pacientes apresentam sintomas clínicos de toxoplasmose adquirida, o que reforça a importância dos exames laboratoriais para detectar a doença.

Como prevenir

Água – Recomenda-se a utilização de filtros tipo A e B, capazes de capturar pequenas partículas. Também é recomendado o aquecimento da água em até 60º C.

Verduras, legumes e frutas – Lave bem os hortifruti com água filtrada.

Carne  – Cozinhe bem os alimentos. Evite comer carnes cruas ou mal passadas. Cuidado com embutidos que não foram bem salgados e maturados.

Leite – Utilize o leite pasteurizado.

Terra e areia –  Use luvas para cuidar do jardim e lave bem as mãos das crianças, após brincarem na areia.

Repórter: Bárbara Marmor, jornalista, especial para a Arco

Ilustrações: Giovana Marion, designer

Editora de Produção: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Editor Chefe e Mídia Social: Maurício Dias, jornalista


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