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Animais domésticos podem contrair Covid-19?

Com estudos em andamento, a infecção de pets com novo coronavírus ainda é um enigma para a ciência



Desde o último ano, quando decretado o estado de pandemia de Covid-19, a população mundial se encontra cada vez mais ávida por descobrir informações sobre essa nova doença que afeta diretamente a convivência social. Diversas áreas da ciência estudam os seus impactos na saúde e na sociedade e, mesmo a prioridade ser estudos que permeiam a saúde humana, a Medicina Veterinária também segue na pesquisa sobre as consequências do novo vírus para os animais domésticos.

No início da pandemia, existia o consenso entre os estudiosos da área de que era possível a contaminação do novo coronavírus em animais, porém acreditava-se que ela não seria desenvolvida a partir do contato com o mesmo vírus que acomete a Covid-19 nos humanos. Isso porque a Sars-CoV-2 (nome oficial definido para a Covid-19 que causou a pandemia, que significa “síndrome respiratória aguda grave – coronavírus 2″) faz parte de uma vasta família de vírus, a Coronaviridae. Esta se divide em duas subfamílias, sendo a Orthocoronavirinae a que engloba os gêneros de vírus Betacoronavirus, o causador da pandemia,  e o Alphacoronavirus – que afeta animais domésticos, como cães e gatos.

Enquanto o Betacoronavirus causa febre, tosse seca, dores, desconfortos e os demais sintomas relacionados à Covid-19, o Alphacoronavirus causa diarréia em cães e gatos, especialmente em filhotes, mas se cura naturalmente. Os pontos de atenção referentes a ele seriam, no caso dos cães, o vírus vir acompanhado por uma parvovirose; e, nos gatos, a existência de alguma mutação, o que poderia causar uma peritonite infecciosa felina.

Naquela época, não havia respostas sobre o contágio dos animais com o Betacoronavirus (“nosso” Covid-19). Contudo, o assunto voltou à tona após a divulgação dos primeiros casos de animais positivados no Rio Grande do Sul em março deste ano. A auxiliar administrativa Rossana Siega se familiarizou com o acontecimento divulgado. Após pessoas do seu convívio diário terem testado positivo para o novo coronavírus, suas gatas começaram a apresentar os mesmos sintomas da doença. “Todos meus quatro gatos ficaram gripados e precisaram tomar remédios, eles tinham coriza, sintoma febril e muito espirro”, conta.

Com os avanços dos estudos na área, a Arco apurou: afinal, foi comprovado que animais são contaminados pelo “nosso” coronavírus (Betacoronavirus)?

A resposta é: talvez. Essa incerteza se deve ao fato de a Covid-19 ser considerada uma doença “recente”, e de os estudos, os quais levam tempo para obterem respostas conclusivas, estarem ocorrendo simultaneamente ao avanço da pandemia. Segundo uma notícia da Fiocruz, a partir de estudos publicados pela revista científica internacional Plos One, já foram encontrados resquícios do vírus em animais a partir de pesquisas por teste RT-PCR (o que utiliza o swab nasal), bem como alguns animais apresentaram testes clínicos compatíveis com a doença. Ainda assim, não se pode confirmar que estes sejam vítimas da doença causada pelo novo coronavírus, porque o fato de eles possuírem o vírus não significa que desenvolvam a doença. Outro caso possível é do vírus encontrado no organismo estar fragmentado, o que significa que apenas parte do vírus é encontrada,  não tendo a capacidade de desenvolver a doença.

Saulo Tadeu Lemos Pinto Filho é professor do Departamento da Clínica de Pequenos Animais na UFSM e responsável pelo canal de atendimento de dúvidas Disk Pet Covid-19. Ele explica que são necessárias mais pesquisas para realmente afirmar que os animais que possuem sintomas compatíveis com a infecção por Covid-19 são afetados pelo Betacoronavirus como nós humanos – visto que doenças respiratórias, que causam sintomas semelhantes ao vírus, são muito comuns em cães.

“Coronavírus não é a primeira coisa que pensamos quando vemos esses sinais, mesmo se o animal fizer o teste e tiver o vírus, ainda não se pode dizer com certeza que é por conta da Covid-19, que ele tem a doença”, aponta o docente.

Em abril de 2021, novos dados foram descobertos: em uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em conjunto com a Universidade Texas A&M, foram identificados anticorpos neutralizantes do novo coronavírus em um gato e um cachorro de rua do Rio de Janeiro. Significa uma comprovação: eles têm contato com o vírus e desenvolvem os anticorpos. Mas, da mesma forma que explicado anteriormente, não diz respeito à questão de contrair a infecção.

Transmissão e abandono

Sobre a questão da transmissão, o que se sabe até então é que os animais podem ser contaminados por humanos da mesma forma que nós transmitimos o vírus para objetos. Humanos contaminados podem, por exemplo, espirrar próximo de seus animais e ocasionar a fixação do vírus na superfície corporal destes. Em consequência, outros humanos que encostam na superfície contaminada do animal e seguem com as mãos para vias oronasais, podem contrair o vírus também. 

Mas os animais podem transmitir para humanos a infecção, como nós humanos nos transmitimos entre si? Não há indícios. De fato, ainda não se tem certeza, visto que os estudos estão em andamento, mas não há nenhuma comprovação ou casos que demonstraram tal afirmação. Este é um assunto delicado, visto as consequências que podem causar. “A divulgação de confirmações de animais com Covid-19 gera muita revolta da comunidade científica, porque não se tem certeza. E quando se difunde isso na mídia, muitas pessoas vão acreditar e isso gera polêmica, desespero, causando consequências, como o abandono”, ressalta Saulo.

Ou seja, até então, é apenas comprovado que os animais podem transmitir o novo coronavírus pela superfície do corpo. É necessário muito cuidado em relação à veracidade das informações ao se lidar com novas informações sobre a transmissão do vírus por animais, pois o medo que a suposta maior exposição da família ao vírus gera na população pode ter como consequência que mais pessoas cometam o crime do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais: o abandono e maus tratos de animais. O pesquisador da UFSM ressalta: “O animal pode ser veículo como qualquer outra coisa, como algum objeto que compro, por exemplo.”

Como manter a segurança do animal na pandemia

Rossana Siega relata que, quando suspeitou que seus animais estavam com Covid-19,  leu sobre o tema e entrou em contato com uma médica veterinária antes de tomar qualquer medida. A profissional a orientou sobre as medicações que deveriam ser dadas aos gatos. Pensando que muitas pessoas não têm a consciência do que fazer nessas situações que envolvem o possível contato do animal com o novo coronavírus (Betacoronavirus), pedimos para o professor Saulo Tadeu Lemos Pinto Filho indicar alguns cuidados que se pode ter para garantir a segurança de cães e gatos:

  • Caso o animal só faça as necessidades fora de casa, leve-o para um lugar isolado e, ao chegar em casa, higienize as suas patinhas e o pelo com um pano úmido, com água e sabão (sem necessidade de encharcar). Dar banho todo dia após voltar da rua não é indicado, pois pode causar outra série de problemas de pele;

 

  • Se alguém da família estiver com suspeita ou tenha positivado o novo coronavírus, é importante que se isole também do animal de estimação, seguindo as mesmas medidas de segurança social, para garantir que ele estará seguro contra uma possível infecção ou contágio na superfície de pelos;

 

  • Para o caso de desconfiança que o animal esteja com o Betacoronavirus, é necessário levá-lo ao veterinário (ou pedir para alguém, caso esteja em isolamento). Ele dará os encaminhamentos necessários, além de investigar se outras doenças possam estar afetando e causando os sintomas no animal.

A novidade para a segurança animal é que na Rússia já está em desenvolvimento uma vacina para pets, a Carnivak-Cov, elaborada pelo Centro Federal de Saúde Animal. Segundo o site Isto É Dinheiro, o imunizante foi registrado em março, depois de testes que comprovaram a eficácia na produção de anticorpos em animais. O primeiro lote será ofertado apenas dentro das regiões da Rússia, porém, vários países já demonstraram interesse.

Veredito final: É possível! 

É possível que animais domésticos possam contrair Covid-19 na mesma versão que assola os humanos. Porém, são necessárias mais pesquisas para realmente afirmar com alguma certeza.

Expediente

Repórter: Paula Appolinario, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Ilustradora: Yasmin Faccin, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes e Martina Pozzebon, estagiárias de Jornalismo

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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