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				<title>Fotografia com técnica de <em>colódio </em>úmido é usada em projeto que visa construir memória sobre a tragédia da Boate Kiss</title>
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				<pubDate>Thu, 26 Jan 2023 12:01:28 +0000</pubDate>
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						<description><![CDATA[O incêndio completa 10 anos neste mês e é temática de projeto do curso de Desenho Industrial]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p>A busca pela memória da tragédia da Boate Kiss é uma das mais fortes bandeiras de luta de sobreviventes, pais, amigos e familiares de vítimas. A pergunta “Onde você estava no dia 27 de janeiro de 2013?”, cuja campanha marca os dez anos do incêndio, busca acionar as memórias coletivas da tragédia. E esse também é o objetivo do projeto “<b><u><a href="https://ricardoravanello.com.br/kiss/" target="_blank" rel="noopener">Fotografar para lembrar</a></u></b>”, coordenado por Ricardo Ravanello, professor de fotografia do curso de Desenho Industrial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).</p>		
									<figure>
										<img width="1024" height="667" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/IMG-20230119-WA0039-1024x667.jpg" alt="Descrição da imagem: Mosaico de fotografias antigas, feitas com a técnica de colódio úmido. São seis retratos divididos em duas linhas. Na parte superior esquerda, retrato de uma mulher de meia idade de pele branca, olhos escuros, cabelos loiros, lisos e curtos, tem a expressão facial séria. Ao lado, mulher de pele escura, rosto sério. Tem olhos pequenos e escuros, sobrancelhas demarcadas. Os cabelos são ondulados, escuros e na altura do ombro. Veste camisa social clara, e tem as mãos apoiadas no queixo. Ao lado, mulher jovem de pele clara, tem olhos grandes e claros, nariz e boca em tamanho médio. Tem cabelos escuros, lisos e compridos. Está com a expressão facial séria e veste a camiseta branca da AVTSM. Na segunda linha, da esquerda para a direita: homem jovem de pele escura, tem expressão facial séria e está levemente de lado. Tem olhos pequenos e escuros, sobrancelhas finas, nariz e boca grandes. Os cabelos são cacheados, escuros e na altura do ombro e estão presos para trás. Veste camisa social escura. Ao lado, mulher de meia idade de pele clara, rosto sério. Tem olhos escuros, sobrancelhas arqueadas e escuras. Tem os cabelos curtos, lisos e escuros. Veste regata branca, usa colar de contas e argola prata. Está com os braços cruzados. Por fim, fotografia de um homem de meia idade, de pele clara, com a expressão facial séria. Tem olhos pequenos e claros, cabelos curtos, lisos e escuros, nariz e boca pequenos. Veste camisa social escura. Na frente dele, há um microfone grande em formato de bala. O fundo das fotografias é escuro." loading="lazy" />											<figcaption>Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Aurea Viegas Flores (mãe de vítima), Mirian Schalemberg (sobrevivente), Luiza Bissacott Mathias (sobrevivente), Maike Adriel dos Santos (sobrevivente), Carina Correa (mãe de vítima) e Marcelo Canellas (jornalista). Fotografias e montagem: Ricardo Ravanello.</figcaption>
										</figure>
		<p>O projeto fotográfico surgiu, no final de 2019, com o objetivo de contribuir para a criação de memórias. “Eu sempre digo que é uma espécie de obrigação, dentro do ofício dos fotógrafos, se interessar e documentar esses fatos que são muito importantes para a humanidade”, destaca Ricardo. O docente explica que queria fazer algo para contribuir com o registro da tragédia que marcou Santa Maria, que também é sua cidade. Mas ele não queria um modo comum de fotografar, como é o processo digital.</p><table style="border-collapse: collapse;width: 100%"><tbody><tr><td style="width: 100%"><p id="docs-internal-guid-aa86c9a2-7fff-af4b-e826-59144e0d923a" dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">O processo da fotografia</p><p> </p><ol style="margin-top: 0;margin-bottom: 0;padding-inline-start: 48px"><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">É feito um contato prévio com as pessoas que serão fotografadas e a sessão é agendada;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">O vidro em que a fotografia será feita é preparado e limpo;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">Aplica-se um produto chamado colódio salgado, e então a placa é mergulhada em uma solução de prata, que torna o material fotossensível;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">No laboratório escuro e fechado, a placa de vidro é retirada da solução de prata e inserida em um chassi, espécie de moldura fechada;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">O foco da câmera e as luzes são ajustados;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">O processo é explicado para a pessoa que será fotografada, e a pose da foto é treinada;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">O chassi é inserido na câmera;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">A câmera é aberta e está exposta à luz. É neste momento que a fotografia é feita;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">No laboratório, o revelador é jogado no vidro: a imagem leva de dez segundo a um minuto para aparecer;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">Com a imagem revelada, o processo é interrompido com água;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">O fixador é aplicado e os resíduos são lavados;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">A imagem passa pelo processo de secagem;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: decimal;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">Por fim, o verniz é aplicado e a imagem é finalizada.</p></li></ol></td></tr></tbody></table>		
									<figure>
										<img width="1024" height="506" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/WhatsApp-Image-2023-01-25-at-11.20.102-1024x506.jpeg" alt="Descrição da imagem: Placa de madeira em tom de marrom caramelo. A placa está fechada e tem detalhes em prata nas extremidades." loading="lazy" />											<figcaption>Chassi da câmera fechado. Esta placa é encaixada na câmera para a captura da imagem. Fotografia: Ricardo Ravanello.</figcaption>
										</figure>
									<figure>
										<img width="1024" height="534" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/WhatsApp-Image-2023-01-25-at-11.20.10-1024x534.jpeg" alt="Descrição da imagem: Placa de madeira pequena e retangular aberta. As bordas são de madeira em tom de marrom caramelo, e a parte interna é preta. O fundo é branco." loading="lazy" />											<figcaption>Chassi da câmera aberto. Sobre a parte preta, é acomodada a placa de vidro. Fotografia: Ricardo Ravanello.</figcaption>
										</figure>
									<figure>
										<img width="1024" height="604" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/WhatsApp-Image-2023-01-25-at-11.20.101-1024x604.jpeg" alt="Descrição da imagem: Placa de madeira retangular aberta. As bordas são em tom caramelo e a parte interna em preto. No lado direito, a parte interna é removível, e pode ser puxada por um puxador para o lado direito, o que abre a placa. O fundo é branco." loading="lazy" />											<figcaption>Chassi da câmera aberto. Engrenagem que abre a placa permite a entrada de luz, quando o chassi já está instalado na câmera. Fotografia: Ricardo Ravanello. </figcaption>
										</figure>
		<p>Para compreender mais sobre o processo, assista esse vídeo:</p>https://www.youtube.com/watch?v=fV4zZKXda80<p>No vídeo acima, o fotógrafo usa placas de metal, elemento que se diferencia das placas de vidro usadas por Ricardo.</p>		
									<figure>
										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/IMG_2145-1024x683.jpg" alt="Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de um estúdio fotográfico. Em primeiro plano, parte externa de um refletor de led. No lado direito, em segundo plano, câmera antiga com estrutura de madeira. Em terceiro plano, cadeira de madeira com estaca de madeira que sustenta um encosto para pescoço. Atrás, tecido laranja suspenso. Ao fundo, parede branca." loading="lazy" />											<figcaption>Estúdio fotográfico. Na cadeira, em segundo plano, haste de madeira com encosto para a cabeça ajuda a manter a imobilidade da pose na hora da fotografia Fotografia: Samara Wobeto.</figcaption>
										</figure>
			<h3>As experiências</h3>		
		<p>Gabriel Rovadoschi Barros foi uma das pessoas fotografadas. Ele é sobrevivente da Kiss e o atual presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). “Ver o resultado da fotografia foi muito impactante e foi muito interessante o misto de sentimentos. Dava para ver a fotografia sendo revelada na hora, a imagem vai aparecendo naquela placa de vidro, aos poucos se revelando, e com uma nitidez que eu não esperava”, descreve Gabriel.</p>		
									<figure>
										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/IMG_2141-1024x683.jpg" alt="Descrição da imagem: Fotografia horizontal e em tons escuros de um retrato feito com a técnica de colódio úmido. O retrato é vertical, feito em uma placa de vidro, e é segurado por duas mãos contra fundo preto, que dá o contraste. No retrato, homem jovem de pele clara, tem os olhos grandes e escuros, bigode escuro, cabelos escuros e cortados rente ao couro cabeludo. Está sério e apoia as mãos no queixo. Veste suéter escuro." loading="lazy" />											<figcaption>Retrato de Gabriel Rovadoschi Barros com a técnica de colódio úmido. Fotografia: Samara Wobeto.</figcaption>
										</figure>
		<p>Maike Adriel dos Santos é sobrevivente da Kiss e formado em Desenho Industrial pela UFSM. Em 2019, participou do início do projeto e fazia os contatos com as pessoas. Também auxiliava Ricardo com a montagem das luzes e calibragem dos equipamentos. Além disso, foi um dos fotografados, e conta sobre a emoção em ver a sua imagem revelada: “Ver a tradução de uma coisa que eu sinto dentro de mim, no mental, no psicológico, foi emocionante. Essa transposição no vidro eu achei muito legal, essa visão que a fotografia, que a técnica passam, de contar, de maneira mais artística, a minha história e de outras pessoas”, reflete.</p>		
									<figure>
										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/IMG_2143-1024x683.jpg" alt="Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de um suporte de madeira clara no qual estão encaixadas dezenas de placas de vidro. O suporte está sobre uma mesa clara. O fundo é uma parede branca." loading="lazy" />											<figcaption>Fotografias em placas de vidro prontas. Fotografia: Samara Wobeto</figcaption>
										</figure>
			<h3>A técnica do colódio</h3>		
		<p>A técnica escolhida para o projeto foi a do colódio úmido. De acordo com Ricardo, seu surgimento remonta aos anos de 1850, uma década após a invenção da fotografia. A lente da câmera com que a fotografia é feita também é dessa época, o que, para o fotógrafo, acrescenta ao projeto uma camada de informação e de profundidade que a fotografia digital não possibilita. A câmera usada tem cerca de 100 anos e foi adquirida em um leilão em São Paulo.</p>		
									<figure>
										<img width="683" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/IMG_2152-683x1024.jpg" alt="Descrição da imagem: Fotografia vertical e colorida de uma câmera antiga. Ela tem bastante altura, e tem um suporte de madeira escura. A parte principal do suporte é uma caixa de madeira, na qual está instalada uma lente com grande abertura. Ao redor da caixa, espécie de moldura em forma de arco. Na parte inferior, pés com rodinhas para locomoção. Ao lado direito da câmera, dois refletores de luz em formato redondo. O fundo é uma parede branca." loading="lazy" />											<figcaption>Câmera fotográfica usada no projeto. Fotografia: Samara Wobeto.</figcaption>
										</figure>
									<figure>
										<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2023/01/IMG_2146-1024x683.jpg" alt="Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida do visor da câmera. Nele, a imagem de um homem aparece de ponta cabeça. O visor tem moldura de madeira escura. No fundo, tecido laranja." loading="lazy" />											<figcaption>Visor da câmera. Nas técnicas antigas de fotografia, as imagens aparecem invertidas. Nas câmeras digitais, por conta de uma estrutura de espelhos, a visualização se assemelha à visão humana. Fotografia: Samara Wobeto.</figcaption>
										</figure>
		<p id="docs-internal-guid-4699c350-7fff-9c31-75b5-8966947ed569" dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">A escolha pela técnica teve algumas motivações que, segundo Ricardo, foram descobertas na medida em que ele pesquisava e estudava sobre processos antigos de fotografia. A primeira característica é que a técnica de fotografar com colódio úmido é um processo lento de execução. Ricardo relata que, enquanto prepara o equipamento e explica como a fotografia será feita, é comum que sobreviventes, pais, familiares e amigos de vítimas e profissionais que trabalharam envolvidos com o incêndio ou com suas consequências contem suas histórias. “Essa lentidão da foto cria uma espécie de espaço para ter esses encontros, para ter essas conversas. É oportunizar para as pessoas uma experiência com a fotografia para construir algum tipo de memória positiva ”, reflete Ricardo.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Como o processo de fotografia é artesanal, feito sobre um vidro, não há possibilidade de fazer dois retratos iguais. “Cada fotografia é absolutamente única, como era a vida das pessoas que se foram. Tem o espelhamento dessa característica”, explica Ricardo. </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Outro ponto que ele destaca é que, por conta de a fotografia levar mais tempo para ser feita - pode variar de 2 a 10 segundos - e da necessidade de muita luz, a pessoa fotografada precisa encarar a câmera e não se mexer. Para Ricardo, essas características trazem uma responsabilidade para quem é fotografado. “Eu acho que cria uma relação bacana, me parece que as pessoas se revelam mais, se colocam mais na foto”, descreve. Para Gabriel, a experiência de ser fotografado foi marcante. “Eu pude levar minha família para acompanhar e envolvê-los nesse processo de aceitar essa parte da minha história, aceitar que eu sou sobrevivente”, relata Gabriel. </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 12pt;margin-bottom: 12pt">A quarta característica é composta pelos elementos de textura que podem aparecer no resultado final: como o processo compreende o uso e a manipulação de líquidos sobre o vidro para a revelação e fixação, há possibilidade de as bordas ficarem irregulares. “Conforme o corte da câmera, às vezes pega aqui no braço, por exemplo, e aí tu não sabe se ali tem uma queimadura da pessoa ou é uma borda do processo, elas se fundem, elas se misturam”, descreve Ricardo. Além disso, por usar prata como material para a preparação do vidro, é uma imagem formada por um metal nobre, o que a torna especial.</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 12pt;margin-bottom: 12pt">Para Ricardo, contudo, foi um elemento histórico que deu a certeza de que esse era o processo adequado para registrar a história da Kiss. A nitrocelulose, base da criação do colódio, foi inventada em 1848 como uma tecnologia militar, usada como explosivo. Em 1849, um médico descobriu que, ao diluir a substância com álcool e éter, criava-se uma emulsão - o colódio - que pode ser usada para curar ferimentos de guerra. Em 1851, o colódio foi misturado com sais, o que permitiu a invenção do processo fotográfico. “Tem isso no processo: uma tecnologia militar que vira uma tecnologia de cura e que vira uma tecnologia artística. Nenhum outro processo tem isso”, descreve o docente.  </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 12pt;margin-bottom: 12pt">Além disso, quando as fotografias são digitalizadas e ampliadas, outro elemento significativo se torna visível: “Quando tu olha para ela ampliada, em que perde a noção das feições do rosto, de claro e escuro, parece uma fuligem, parece aquela fuligem quase do resto do incêndio”, conta Ricardo. Para ele, as imagens também são resultados da tragédia: “A expressão das pessoas e todas as histórias que têm atrás delas, são todas frutos desse incêndio”.</p>		
			<h3>Construção da memória</h3>		
		<p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Marcelo Canellas, jornalista santa-mariense que cobriu a tragédia e suas repercussões a nível nacional, conta que o convite para ser fotografado foi feito durante uma entrevista. Diretor da <b><u><a href="https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2023/01/23/boate-kiss-10-anos-depois-do-incendio-serie-documental-do-globoplay-relembra-tragedia.ghtml" target="_blank" rel="noopener">série documental</a></u></b> ‘Boate Kiss - a tragédia de Santa Maria’, da Globo Play, o jornalista voltou à cidade após a anulação do julgamento para ouvir os protagonistas do documentário. Entre eles, estava Gabriel, e a entrevista aconteceu no estúdio de Ricardo. Lá, Canellas conheceu o projeto e foi fotografado. “É inegável que, de certa forma, eu faço parte dessa história construída coletivamente. Me sinto como um tijolinho na construção do imaginário iconográfico da trajetória da Kiss”, pondera.</p><p dir="ltr"> </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Para o jornalista, as palavras-chave da história da Kiss são memória e justiça. “A construção da memória se contrapõe àquilo que é quase uma doença brasileira, que é a ideia de que esquecer faz superar”, destaca. Ele recorda exemplos como a ditadura militar no Brasil, em que a elite política e econômica apostou no esquecimento como forma de superação. “A memória é importante porque combate o esquecimento, e o esquecimento é primo e irmão da injustiça. Quando você insiste na preservação da memória, está apontando para a  possibilidade de justiça, que também é não repetir os erros. E você não repete os erros quando lembra deles e por que aconteceram”, reflete Canellas.</p><p dir="ltr"> </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Segundo Gabriel, este tipo de projeto tem papel importante no registro da história e na consolidação da memória. “A fotografia é uma forma de narrar e pode contribuir muito para revelar essa importância. O esquecimento é perigoso”, pontua. Para Maike, a fotografia em forma de lembrança também é uma forma de prevenção. Ele destaca que este é um ponto-chave, repetido pelas pessoas envolvidas na tragédia. “Projetos como esse são importantes para que a tragédia não se repita”, enfatiza.</p>		
			<h3>Produção de conhecimento na UFSM</h3>		
		<p id="docs-internal-guid-24f70397-7fff-1d6a-4a70-4f177b8f06f7" dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Além do “Fotografar para lembrar”, na UFSM já foram desenvolvidos outros projetos e pesquisas que buscam construir saberes acerca da tragédia. Confira alguns deles: </p><ul style="margin-top: 0;margin-bottom: 0;padding-inline-start: 48px"><li dir="ltr" style="list-style-type: disc;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">a construção de um <b><u><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/a-kiss-antes-do-incendio" target="_blank" rel="noopener">dispositivo interativo virtual que remonta o interior da boate antes do incêndio</a></u></b> e que foi utilizado no julgamento, em dezembro de 2021;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: disc;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">a criação do Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes (CIAVA) que, durante a pandemia, <u><b><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/da-kiss-a-covid" target="_blank" rel="noopener">utilizou os conhecimentos provenientes da experiência da tragédia para o tratamento de sobreviventes da covid-19</a>;</b></u></p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: disc;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation"><b><u><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/quando-a-dor-inspira-conhecimento" target="_blank" rel="noopener">Quando a dor inspira conhecimento: </a></u></b>diversos estudos e pesquisas provenientes de reflexões sobre a tragédia;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: disc;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation"><b><u><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/arco-entrevista-psiquiatra-vitor-calegaro" target="_blank" rel="noopener">Pesquisa</a></u></b> sobre a relação entre personalidade, psicopatologia e resiliência nos sobreviventes da Kiss;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: disc;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation"><b><u><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/prevencao_incendio" target="_blank" rel="noopener">Avanços na prevenção e proteção contra incêndios</a></u></b>;</p></li><li dir="ltr" style="list-style-type: disc;font-size: 12pt;font-family: Arial;color: #000000;background-color: transparent;font-weight: 400;font-style: normal;font-variant: normal;text-decoration: none;vertical-align: baseline"><p dir="ltr" style="line-height: 1.38;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt" role="presentation">Reflexões sobre a construção de<b><u> </u></b><b><u><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/post418" target="_blank" rel="noopener">memória</a></u></b>;</p></li></ul>		
			<h3>Próximos passos</h3>		
		<p>Até o momento, já foram feitas cerca de 47 fotografias. A meta inicial, segundo Ricardo, é chegar a 50. O acervo será doado à AVTSM e será destinado à composição de um mural no futuro memorial. Para quem quiser saber mais sobre o projeto, pode acessar o <a href="https://ricardoravanello.com.br/kiss/" target="_blank" rel="noopener"><b><u>site</u></b></a>.</p>		
			<h3>10 anos</h3>		
		<p>Na data que marca o aniversário de 10 anos do incêndio da Boate Kiss, a AVTSM preparou uma programação que conta com rodas de conversa, palestras, caminhada, soltura de balões e outras atividades, que podem ser acompanhadas pelo <b><u><a href="https://www.instagram.com/avtsm27/" target="_blank" rel="noopener">instagram</a></u></b>.</p><p><strong><em>Expediente:</em></strong></p><p><em><strong>Reportagem:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;</em></p><p><em><strong>Capa:</strong> Ricardo Ravanello;</em></p><p><em><strong>Fotografias:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Ricardo Ravanello;</em></p><p><em><strong>Tratamento de imagem:</strong> Júlia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;</em></p><p><em><strong>Mídia social:</strong> Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;</em></p><p><em><strong>Edição de Produção:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;</em></p><p><em><strong>Edição geral:</strong> Luciane Treulieb, jornalista.</em></p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>A Kiss antes do incêndio</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/a-kiss-antes-do-incendio</link>
				<pubDate>Mon, 06 Dec 2021 16:56:44 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[boate kiss]]></category>
		<category><![CDATA[destaque arco]]></category>
		<category><![CDATA[destaque ufsm]]></category>
		<category><![CDATA[dispositivo interativo digital kiss]]></category>
		<category><![CDATA[julgamento kiss]]></category>
		<category><![CDATA[Realidade Virtual]]></category>
		<category><![CDATA[Santa Maria]]></category>
		<category><![CDATA[tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[tragédia da Kiss]]></category>

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						<description><![CDATA[Dispositivo interativo digital resultante da reconstrução 3D da boate foi coordenado por professora da UFSM e é utilizado como ferramenta no julgamento da tragédia
]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <img width="150" height="150" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/trigger-warning-150x150-1.png" alt="" loading="lazy" />														
		<p><b>AVISO DE GATILHO</b></p><p>Em percurso por um dispositivo virtual, é possível conhecer o interior da Boate Kiss antes do incêndio. Da rua, se vê a entrada - e também saída - do local que ficou marcado por ser uma das maiores tragédias no Brasil. Assistir ao vídeo* permite ampliar a compreensão da tragédia.</p>		
			<h3>O percurso </h3>		
		https://youtu.be/edoqfbo-Bmw<p>Este vídeo mostra o caminho pelo interior da Kiss antes do incêndio e só foi possível por meio da reconstrução do ambiente em imagens 3D. A estrutura da boate é complexa, o que dificultou que pessoas encontrassem a saída na noite de 27 de janeiro de 2013. O local foi descrito como labirinto mais de uma vez.</p><p>O Dispositivo Interativo Digital resulta de um projeto da Universidade Federal de Santa Maria  (UFSM), em parceria com o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, a Fundação Escola Superior do Ministério Público e a Associação do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Coordenado pela antropóloga e docente da UFSM, Virgínia Vecchioli, o dispositivo foi criado com o objetivo de ser utilizado durante o júri do caso, que iniciou dia 1º de dezembro em Porto Alegre e tem previsão de durar 15 dias. A ideia é que os sobreviventes possam identificar, a partir do percurso virtual, o local em que estavam quando perceberam o incêndio.</p>		
			<h3>A tragédia
</h3>		
		<p>O incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria - RS, aconteceu na madrugada de 27 de janeiro de 2013 e matou 242 pessoas, em sua maioria jovens. Além disso, outras 636 vítimas ficaram feridas e precisaram de atendimento e <a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/da-kiss-a-covid/">acompanhamento a longo prazo</a>. O fogo começou durante o show da banda Gurizada Fandangueira, que usava artefatos pirotécnicos.  A casa noturna, que estava lotada e não tinha ventilação, saídas de emergência nem controle de incêndio, foi tomada pela fumaça tóxica proveniente da queima da espuma acústica. Os extintores não funcionaram, não havia chuveiros automáticos - também chamados de <i>sprinklers</i> - nem indicação da rota de fuga. Além disso, obstáculos como degraus, barras de ferro e muretas agravaram a dimensão da tragédia, uma vez que muitas pessoas tropeçaram, caíram ou ficaram presas ao tentar cruzar por elas.</p><p>Gabriel Rovadoschi Barros, 27 anos, é psicólogo e não foi chamado como testemunha do júri, mas com o dispositivo conseguiu mostrar para a família o local em que estava quando começou o incêndio. Ele presenciou a <a href="https://www.youtube.com/watch?v=9LPLYCegUcc" target="_blank" rel="noopener">coletiva de imprensa sobre o julgamento</a>, em que a ferramenta foi entregue ao Ministério Público, no dia 17 de novembro. Durante a apresentação na coletiva, o percurso virtual foi pausado para mostrar um exemplo de local em que havia sinalização, mas o extintor de incêndio estava ausente. No salão menor, ao lado de uma cabine de madeira, Gabriel estava parado quando percebeu a movimentação de pessoas correndo. De lá, ele não viu o início do incêndio.</p>		
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										<img width="1024" height="576" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/Foto-Samara-1024x576.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Cabine de madeira, local onde Gabriel Rovadoschi Barros estava quando começou o incêndio. </figcaption>
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		<p>Primeiramente, ele achou que fosse uma briga, mas, quando percebeu a fumaça, colocou a camiseta na frente do nariz e correu; não gritou para poupar energias; e tropeçou nos degraus que separavam os ambientes. Para Gabriel, elementos como barras de ferro, mesas e degraus que estavam no caminho dificultaram a saída de muitas pessoas. “Não tinha outra saída. Não tinha uma porta nos fundos. Não tinha uma janela para quebrar. Não tinha nada”, relembra.</p><p>Gabriel não conhecia muito bem a boate. Na época com 18 anos e estudante de Jornalismo na UFSM, era a segunda vez que ia até a Kiss. A primeira foi na noite anterior, em que conheceu uma menina do curso de Zootecnia que o convidou a ir à festa Agromerados. Segundo ele, a fila do dia 26 estava maior que a do dia anterior. Gabriel não teve sequelas físicas e pulmonares: apenas um hematoma roxo na perna, em formato de dedos, marcou a pele. Dos quatro amigos, dois faleceram e dois ficaram internados. A culpa por ter saído sem sequelas o acompanhou durante muito tempo. “Uma das coisas que mais me afeta até hoje é que no início do tumulto eu senti que peguei o lugar de alguém”. Entre silêncios, suspiros e voz afetada, ele afirma que hoje consegue reconhecer que essa não deve ser uma culpa dele. “Teve responsáveis por isso. Foi uma emboscada, um crime, acho que não tem outra palavra para definir”, diz.</p><p>Para Gabriel, o dispositivo é importante porque deu respostas de coisas que estavam só na lembrança. “Ao mesmo tempo que dói [rever], alivia, porque eu me dou conta de que não estava louco, que eu não aumentei a dificuldade da coisa, que ela foi mais difícil ainda do que eu imaginava”, desabafa. Ele acredita que o recurso é potente, mas não só como ferramenta para ser usada no júri: “Vai ajudar, para servir como recurso, para entender, para dar lugar, para tirar esse peso que eu tenho em ser a memória da tragédia. Acho que desloca e dá outras funções além de comprovar o absurdo que foi”.</p><p>Na busca por memória e justiça, a atuação de uma ONG quer conscientizar a população para que outras tragédias não aconteçam. A <a href="https://www.instagram.com/kissquenaoserepita/">“Kiss: Que não se repita”</a> (KQNSR) é ativa nas redes sociais e luta para que a tragédia não caia no esquecimento. Bel Bonotto, 33 anos, é do Rio de Janeiro e faz parte da equipe de comunicação da KQNSR. No incêndio, ela perdeu um amigo. A publicitária afirma que o dispositivo é uma maneira didática de evidenciar, para quem nunca esteve na boate como ela era um labirinto e tinha vários pontos cegos. “Através do dispositivo, é possível mostrar com clareza como era difícil ter noção de onde era a saída, ainda mais com a fumaça tomando conta do espaço no escuro, e também das debilidades - como a ausência do extintor de incêndio e do quanto a espuma tóxica dominava a área onde o artefato pirotécnico foi aceso”. No corredor que levava ao exterior, acima da porta deveria ter um aviso de “saída”; no entanto, a placa indicava o “caixa”.</p>https://youtu.be/0m1wJrKaS-w		
			<h3>O dispositivo</h3>		
		<p>O projeto é fruto de uma pesquisa coordenada pela antropóloga argentina e professora na UFSM, Virgínia Vecchioli. A docente já esteve à frente de outros trabalhos de reconstrução virtual de ambientes destruídos, como é o caso do <a href="https://huelladigital.com.ar/V6/campito/" target="_blank" rel="noopener">“El Campito”</a>, de 2018, que retratou um campo de concentração na Argentina e também foi usado em júri. A partir de 2016, ao assumir o cargo na UFSM, Virgínia entrou em contato com os familiares das vítimas e conheceu a luta pela justiça. A partir desse encontro, surgiu a ideia da criação de um dispositivo que auxiliasse no júri do caso Kiss, que acontece em Porto Alegre. Com a mudança de cidade - inicialmente o julgamento estava previsto para ocorrer em Santa Maria -, as dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19 e as condições deterioradas da boate atualmente, que a tornam pouco segura, a visitação se tornaria inviável. A partir do uso do dispositivo como ferramenta do júri, é possível conhecer as condições e o interior da boate antes do incêndio.</p>		
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/1-INST-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Fachada da Boate Kiss: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/1-NOVA-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Fachada da Kiss: imagem gerada no Dispositivo Interativo Digital.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/1-REAL-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Fachada da Kiss: imagem real, após o incêndio.</figcaption>
										</figure>
		<p>O projeto foi elaborado em quatro meses e a equipe era composta por sete pessoas. O trabalho técnico de desenvolvimento foi feito por Lucas Kolton, arquiteto especializado em design gráfico. Ele usou duas ferramentas: <i>Unreal Engine - </i>plataforma de criação de jogos usada na arquitetura para geração de imagens em realidade virtual - e o <i>SketchUp</i> - <i>software </i>que possibilita aplicar volumetria 3D. A construção da plataforma teve como base o escaneamento do local realizado pelo Instituto de Criminalística do Distrito Federal (DF) em fevereiro de 2013. Depois, com a planta da boate obtida a partir do escaneamento, os ambientes foram categorizados por meio de códigos. Cada uma das peças tinha uma pasta em que eram reunidas as referências, formadas por cerca de 200 fotografias coletadas dos volumes do processo. A pesquisa e a catalogação envolveram material fotográfico, audiovisual e escrito. Lucas explica que a simulação em realidade virtual foi um processo evolutivo, em que, a partir de reuniões semanais, havia discussão e acréscimo de elementos que faltavam. Virgínia conta que não foram necessárias visitas ao local, uma vez que os principais documentos utilizados já tinham detalhamento suficiente. </p>		
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/2-INST-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Hall: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/2-NOVA-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Hall: imagem do Dispositivo Interativo Digital.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/2-REAL-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Hall: imagem real, após o incêndio.</figcaption>
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		<p>A equipe se atentou aos detalhes da arquitetura da boate, inclusive para representar desníveis no chão. No processo de construção do dispositivo virtual do projeto anterior, o El Campito, utilizaram-se relatos de testemunhas. Na reconstrução da Kiss, no entanto, não foi possível. Como o dispositivo é ferramenta de júri, deve apresentar isenção.</p>		
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/3-INST-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Salão menor: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/3-NOVA-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Salão menor: imagem gerada pelo Dispositivo Interativo Digital.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/3-REAL-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Salão menor: imagem real, após o incêndio.</figcaption>
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		<p>Marcelo Mendes Arigony, hoje delegado na 2ª Delegacia de Polícia de Santa Maria, era delegado de Polícia Regional na época da tragédia, e aponta que o dispositivo é importante para auxiliar os jurados no entendimento do caso. Arigony afirma que, por meio dele, é possível estabelecer rumos justos quanto à sentença que será proferida.  “É um instrumento disponibilizado para que aquelas pessoas possam produzir um julgamento mais justo, que é o que se espera de justiça que possa vir nesse caso”, completa. O delegado ainda salienta a validade jurídica do dispositivo virtual, uma vez que o juiz utiliza a prática de íntima convicção - em que tem o direito de apreciar o fato de maneira livre e de acordo com seu entendimento, por isso, pode usar de várias ferramentas a fim da maior compreensão possível.</p><p>Virgínia destaca a importância do dispositivo, que é pioneiro no Brasil. A distância entre o Foro Central de Porto Alegre (local da audiência) e a boate, em Santa Maria, torna mais difícil uma visita ao local do crime. “[Os jurados] não têm que se deslocar para fora da sala de audiências. A cena do crime entra na sala de audiências. E isso é uma grande inovação”, evidencia a pesquisadora. </p><p>Flávio Silva é presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), e perdeu sua filha, Andrieli Righi da Silva, no incêndio. Para ele, o dispositivo é fundamental no júri, uma vez que mostra como era a casa noturna. “Com todos aqueles obstáculos pela frente, mostra-se claramente que eles não tiveram praticamente nenhuma chance de escapar com vida lá de dentro”, afirma.</p>		
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/4-INST-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Salão maior, com a visão do palco:  imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.</figcaption>
										</figure>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/4-NOVA-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Salão maior, com a visão do palco: imagem gerada pelo Dispositivo Interativo Digital.</figcaption>
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										<img width="1024" height="682" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/12/4-REAL-1024x682.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Salão maior, com visão do palco: imagem real, após o incêndio.</figcaption>
										</figure>
		<p>Depois do júri, o dispositivo será disponibilizado ao público e o intuito é que se torne um memorial virtual. O projeto também terá continuidade. Com o encerramento do processo, o objetivo é ouvir as vítimas e testemunhas para aprimorar o dispositivo. A ideia é que ele ultrapasse a plataforma virtual. O plano da AVTSM é que a boate física seja demolida após o júri, e que no local seja construído um memorial, que vai ao encontro da luta das organizações na busca por memória e justiça, para que tragédias como a da Kiss não se repitam. No projeto do dispositivo, o próximo passo idealizado pela pesquisadora e sua equipe é trabalhar com a realidade aumentada, a fim de oportunizar aos futuros visitantes conhecer a Kiss antes da tragédia e, dessa forma, permitir maior compreensão sobre sua dimensão. Lucas menciona que é possível inserir pessoas no dispositivo, de forma simulada e virtual. Dentro dessa proposta, está a ideia de usar relatos e depoimentos autorizados das vítimas e testemunhas para reconstruir o percurso de saída da Kiss após o início do incêndio.</p><p><i>*O vídeo mencionado foi fornecido à Revista Arco pela equipe responsável pelo trajeto e simula o percurso dentro da Boate Kiss, desde a entrada até a saída.</i></p><p><b><i>Expediente</i></b></p><p><b><i>Repórter: </i></b><i>Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Tayline Alves Manganeli, acadêmica de Jornalismo e voluntária</i></p><p><b><i>Créditos das imagens e vídeos: </i></b><i>Dispositivo Interativo Digital</i></p><p><b><i>Tratamento de imagem: </i></b><i>Noam Wurzel,</i><i> acadêmico de Desenho Industrial e bolsista</i></p><p><b><i>Mídia Social: </i></b><i>Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária</i></p><p><b><i>Edição de Produção: </i></b><i>Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><b><i>Edição Geral: </i></b><i>Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas</i></p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Da Kiss à Covid: como o conhecimento científico e a experiência na tragédia de 2013 ajudam no tratamento de sobreviventes da pandemia</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/da-kiss-a-covid</link>
				<pubDate>Wed, 10 Nov 2021 14:37:08 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[boate kiss]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[destaque arco]]></category>
		<category><![CDATA[destaque ufsm]]></category>
		<category><![CDATA[HUSM]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[tragédia da Kiss]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/arco/?p=8744</guid>
						<description><![CDATA[Desde o último trimestre de 2020, o Hospital Universitário de Santa Maria atua no acompanhamento e tratamento de pacientes por meio do Ambulatório Pós-Covid.]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p>Em 2013, um incêndio de grandes proporções na boate Kiss, em Santa Maria, matou 242 pessoas e deixou 630 feridas. Em 2020 e 2021, uma pandemia já vitimou mais de 5 milhões de pessoas ao redor do mundo. Só na principal cidade do Centro-Oeste gaúcho, até o fechamento desta reportagem, mais de 45 mil pessoas foram infectadas e 830 morreram.</p>
<p>No Hospital Universitário de Santa Maria - HUSM, as duas tragédias ganham uma intersecção: o uso do conhecimento científico e da estrutura ambulatorial para o acompanhamento de sobreviventes. Após o incêndio, criou-se o Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes, o CIAVA. Sete anos depois, a demanda mudou, mas a ideia segue na mesma direção: para atender e acompanhar os recuperados da Covid-19, surgiu o Ambulatório Pós-Covid a partir do aproveitamento da estrutura física e intelectual provenientes da experiência anterior.&nbsp;</p>		
												<img width="1024" height="683" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/11/foto_3_tratada-1024x683.png" alt="" loading="lazy" />														
			<h3>O CIAVA</h3>		
		<p>“O que houve aqui em Santa Maria, dentro da dimensão e do impacto, foi um evento único até então”, diz Isabella Albuquerque, professora associada do Departamento de Fisioterapia e Reabilitação da Universidade Federal de Santa Maria. Ela ingressou na instituição em junho de 2012. Em janeiro do ano seguinte, ocorreu o incêndio na boate Kiss. Após o momento agudo dos atendimentos posteriores à tragédia, os professores do Departamento de Fisioterapia, que também atuavam no HUSM, perceberam a necessidade de acompanhamento a médio e longo prazo para as pessoas que recebiam alta hospitalar. </p><p>Eram pessoas com queimaduras de segundo, terceiro e quarto graus e que tinham sequelas por conta disso. Também havia quem tivesse complicações cardiorrespiratórias devido à inalação da fumaça tóxica. A percepção dessa necessidade levou o grupo a montar um ambulatório para atender à população. Ao mesmo tempo, realizavam-se acordos entre o HUSM, a Secretaria Municipal de Saúde de Santa Maria e o Ministério da Saúde. Destas negociações e da iniciativa dos profissionais da fisioterapia, surgiu a afiliação do Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes - CIAVA. O objetivo inicial era que o acompanhamento durasse ao menos cinco anos. </p><p>Vitor Calegaro, professor adjunto do Departamento de Neuropsiquiatria da UFSM e atual coordenador do Ambulatório de Psiquiatria do CIAVA, conta que, na época do incêndio, tinha terminado a residência e começou a atuar como voluntário no local. Em maio do mesmo ano, houve o primeiro concurso, pelo qual foi contratado e passou a atuar no atendimento psiquiátrico.</p><p>Além da fisioterapia, da psicologia e da psiquiatria, o ambulatório engloba outras especialidades em saúde e cuidado, como a pneumologia, a cirurgia plástica, a enfermagem, a assistência social, a terapia ocupacional, a nutrição e a fonoaudiologia. São várias áreas que atuam em seus espaços específicos, e que fazem parte do conjunto do Centro. Isabella destaca que os pacientes apresentavam especificidades clínicas e que, por isso, era necessário que o atendimento fosse a partir do olhar multiprofissional.</p><p>Alessandra Bertolazzi, pneumologista do HUSM e professora adjunta do Departamento de Clínica Médica da UFSM, recorda que a criação do Ambulatório de Pneumologia do CIAVA ocorreu em fevereiro de 2013. Primeiro, o atendimento era focado nos pacientes que recebiam alta hospitalar e, depois, nos ambulatoriais, ou seja, aqueles que não necessariamente tenham passado por uma internação prolongada, mas que mesmo assim tiveram sequelas da inalação da fumaça tóxica.</p><p>No primeiro ano, havia um plantão vespertino que começava às 17h e terminava às 21h, e que reunia várias especialidades para o atendimento de pacientes que chegavam por demanda espontânea. A partir da avaliação inicial, os pacientes eram encaminhados para consultas e tratamento nos ambulatórios especializados, a depender das necessidades individuais. No início, dois mutirões de atendimentos foram realizados. </p><p>Houve ampla divulgação midiática para que todas as pessoas que estiveram na boate na noite do incêndio, mas que não tivessem sofrido queimaduras e que não foram atendidas nas primeiras horas, buscassem uma avaliação. O psiquiatra recorda que os dois mutirões reuniram mais de 600 pacientes (esse número engloba também aqueles que já haviam recebido alguma espécie de atendimento). Além disso, o CIAVA realizava ‘buscas ativas’, a fim de retomar o contato com pacientes que deixavam de acompanhar o tratamento e faltavam às consultas marcadas. A assistência social era responsável por telefonar e trazer o/a paciente de volta ao atendimento.</p><p>Para a professora Isabella Albuquerque, a criação do Centro somente foi possível pela concepção de conhecimento de Sistema Único de Saúde - SUS, aliado ao papel da universidade na produção de ciência: “O conhecimento da área de saúde possibilitou isso, pelas estruturas de ensino, de pesquisa, de pós-graduação, do conhecimento do Hospital Universitário. Cada núcleo colaborou em um sentido, e isso viabilizou a criação do CIAVA dentro das premissas do SUS”. De acordo com a Assessoria do HUSM, até 2021, o Ambulatório atendeu a 602 pacientes nas diversas áreas e ainda há pacientes sobreviventes da Kiss em acompanhamento - principalmente nas áreas de pneumologia e psiquiatria. Além disso, atualmente também recebe pacientes que sofreram queimaduras, e que vêm encaminhados pela rede de saúde. </p>		
			<h3>O Ambulatório Pós-Covid</h3>		
		<p>Com o decreto da pandemia pela Organização Mundial da Saúde em 11 de março de 2020, os profissionais de saúde do HUSM começaram a atentar para os estudos e demandas que surgiam em nível hospitalar. O entendimento de que a experiência com o CIAVA poderia ser utilizada no enfrentamento da pandemia foi percebida por Vitor Calegaro desde o início. Os modelos estatísticos, os conhecimentos históricos de outras pandemias e a própria experiência dos estudos com trauma deram a ele a certeza de que alguma hora eles precisariam entrar em cena. “Se a gente trabalha com trauma, trabalha com desastre”. </p><p>Ele destaca que, no início, era um momento delicado de muita incerteza em que os esforços de saúde eram voltados para as emergências nos serviços hospitalares. Havia cautela com relação aos atendimentos ambulatoriais uma vez que faltava conhecimento sobre a própria doença: “Conforme fomos entendendo mais a dinâmica do vírus e as funções de prevenção, adotando os protocolos, começamos a pensar em como estruturar o serviço para atender essa demanda específica”. </p><p>A necessidade de acompanhamento pós-Covid surge aos poucos, de modo gradativo, conforme as pessoas infectadas sobrevivem à doença. Vitor lembra que, da mesma forma que aconteceu com a Kiss, os atendimentos começaram dentro das estruturas setoriais existentes, na segunda metade de 2020. No entanto, a estruturação do Ambulatório Pós-Covid veio um pouco depois, no último trimestre do ano passado, a partir da organização do grupo e das conversas para unir as diversas especialidades em um único local. A intersecção com o atendimento aos sobreviventes da boate Kiss é o aproveitamento da estrutura do CIAVA, dos conhecimentos científicos provenientes do atendimento aos sobreviventes da tragédia e da experiência com situações extremas para a atuação no tratamento de pacientes sobreviventes da Covid-19. Muitos dos profissionais que atuaram desde o início no CIAVA, como Isabella, Alessandra e Vitor, estão na frente da concepção do Ambulatório Pós-Covid também.</p><p>Para Isabella Albuquerque, da mesma forma que o CIAVA, a sua criação também surge da necessidade de olhar para a saúde a partir das premissas do SUS. “Com o passar do tempo, a gente percebeu que a Covid é uma doença única de efeitos sistêmicos, e com um comportamento que até então a gente não tinha visto em outras doenças, com essa característica desse impacto na saúde”. A partir de 2020, a leitura e estudos de pesquisas que detectaram o alto tempo de internação hospitalar chamaram a atenção dos profissionais. O olhar para a população pós-alta hospitalar mostrou que estes carecem de mais cuidados em saúde. Isabella explica: “É uma população que ainda apresentava muitas sequelas, e sequelas sistêmicas. A gente não imaginava que ia encontrar algum paciente com essa magnitude em termos de impacto de saúde”. </p><p>O Ambulatório Pós-Covid só recebe pacientes que estiveram internados no HUSM e passaram por uma triagem inicial. Em um primeiro momento, é feito o acolhimento e as avaliações do paciente, que duram dois dias. Iaçana Martins, assistente social e chefe da Unidade de Reabilitação, explica que o acolhimento é o processo de fazer uma escuta sensível e entender as demandas do paciente.  “Por isso que a gente tem que ter esse olhar diferenciado para o paciente a partir da ferramenta da clínica ampliada e compartilhada, que traz bem isso, de tirar o foco da doença e focar no sujeito, no que ele tem de particular, no que ele tá trazendo pra nós”. </p><p>Com base nesse processo, é elaborado um plano de atendimento com base nas demandas específicas. A frequência normal dos atendimentos é de duas vezes na semana. A avaliação funciona como uma espécie de rastreio das necessidades daquele indivíduo. A partir disso, este é encaminhado para as áreas específicas nas quais é acompanhado e reavaliado durante o tratamento. Iaçana expõe que, tanto no CIAVA quanto no Ambulatório Pós-Covid, a política de humanização é basilar, uma vez que traz a importância do acolhimento, de ter um projeto terapêutico singular em vez de um protocolo fixo, a questão da clínica ampliada e compartilhada. </p><p>De acordo com pesquisa interna do Setor de Reabilitação do HUSM, estiveram internados 622 pacientes. Foram 381 altas hospitalares, 34 transferências e 207 óbitos. Destes números, o Ambulatório Pós-Covid atende, atualmente, 67 pessoas, sendo a maioria homens (52%). São as pessoas entre 40 e 50 anos (56%) que mais aparecem no levantamento, seguidas de idosos acima de 60 anos (29%) e adultos abaixo dos 40 anos (17%).</p>		
			<h3>Os pacientes</h3>		
		<p>Entre o perfil dos atendidos nos dois ambulatórios, há uma diferença importante: enquanto os pacientes do CIAVA eram, em sua maioria, jovens sem comorbidades e sem doenças pregressas, os pacientes do Pós-Covid são idosos com comorbidades prévias cujas circunstâncias se agravaram com a Covid-19 e que têm 'baixa taxa de controle' - ou seja, não são "controladas" e tratadas de forma ideal, um exemplo é a hipertensão sistêmica. “A gente tem uma doença que está influenciando na outra, a sequela da Covid influencia na doença de base que o paciente tinha”, explica Isabella. Para a professora, é um paciente com uma complexidade distinta que justifica o olhar multiprofissional.</p>		
			<h3>A estrutura</h3>		
		<p>A Revista Arco visitou o Ambulatório Pós-Covid/Fisioterapia para a produção desta reportagem. A sala ampla e clara tem vários equipamentos para a realização de exercícios, desde os elétricos - como a esteira - até outros, como bolas, pesos e elásticos. Clênio Antônio Dotto, 67 anos, é residente do bairro Camobi e é atendido pelo ambulatório desde o final de julho. Em final de maio, foi internado com Covid-19 no Hospital Universitário. Depois de nove dias, foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva do hospital. Depois de mais nove dias, recebeu alta, em 08 de junho. Ele conta que, com o acompanhamento no ambulatório, sente uma grande diferença: “É do dia pra noite, eu não me sentia bem e agora tô me movimentando melhor”. De acordo com o aposentado, o exercício que mais ajudou foi o da bicicleta.</p>		
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			<h3>Mobilidade</h3>		
		<p>Uma das maiores características do paciente Covid é o grande período de internação, destaca Isabella Albuquerque. Por isso, muitos apresentam fraqueza muscular, fraqueza respiratória, equilíbrio alterado,  dores na lombar, nas pernas, nas costas, entre outros. Estas sequelas são tratadas no Ambulatório de Fisioterapia do Pós-Covid. Algumas, como a perda de peso e de massa, são tratadas pela nutrição. E a perda de voz e a deglutição pelo setor de fonoaudiologia.</p><p>Para o tratamento fisioterápico e de treinamento físico, são feitos exercícios aeróbicos, resistidos, de equilíbrio e funcionalidade. Alguns destes são o ciclo ergonômico de pernas, a bicicleta estacionária, a esteira, o exercício resistido que é feito com pesos, a eletroestimulação, os exercícios de equilíbrio, a estimulação de propriocepção para pacientes com parestesia, o agachamento com bola, as atividades contra a gravidade e os exercícios de resistência. Viviane Bohrer, fisioterapeuta do HUSM, explica: “Tem que fazer esse paciente ter função de novo, para ter as atividades da vida diária de novo, buscar a volta e o retorno para casa e a melhor qualidade de vida”. Ela destaca que o tratamento é personalizado e que não há como evoluir para a melhora se não houver uma equipe multidisciplinar.</p><p>Eduarda Ganzer é estudante do oitavo semestre de Fisioterapia e bolsista do Ambulatório Pós-Covid desde maio deste ano. Suas funções são a avaliação dos pacientes, o protocolo inicial, o acompanhamento dos atendimentos e a intermediação com outras especialidades. Conforme destaca Viviana, há, para além do atendimento, um processo de ensino-aprendizagem, com colaboração de estudantes da graduação, mestrado e doutorado que auxiliam no tratamento dos pacientes, mas também na pesquisa. Há a união da assistência, do ensino e da pesquisa. Para Eduarda, a bolsa é uma experiência nova uma vez que os pacientes têm características distintas e complexas: “Eu acho que isso traz muito do pensamento de tratar o paciente como um todo, então é uma nova abordagem”.</p><p>Antonio Fernando Pereira da Silva, 67 anos, é do bairro João Goulart, em Santa Maria. Antes de se aposentar, Antônio era motorista socorrista de ambulância na emergência médica da SATIE. Teve Covid-19 em março deste ano e ficou 40 dias internado no HUSM. Destes, passou dez entubado na UTI. A alta hospitalar ocorreu em 20 de abril, e o início do tratamento no ambulatório aconteceu em agosto. Algumas das sequelas foram a perda da sensibilidade das mãos, uma dificuldade muito grande em se movimentar e um peso na perna esquerda. Antonio relata que ainda não recuperou totalmente a sensibilidade das mãos, mas que o tratamento ajudou muito e acredita que, sem ele, a demora na melhoria da condição física seria bem maior. Durante a conversa com a reportagem, Antonio ficou sabendo que receberia alta ambulatorial em breve. </p>		
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			<h3>Pulmão</h3>		
		<p>Uma característica que aproxima os pacientes sobreviventes da tragédia da Kiss e dos que  tiveram Covid-19 são as sequelas no pulmão. No entanto, Alessandra Bertolazzi alerta que são tipos de lesões diferentes. No caso da Kiss, houve um evento agudo com inalação e exposição, em local fechado, a uma alta temperatura e gás tóxico. Ela detalha que, por conta da exposição aguda, os primeiros pacientes que internaram tinham quadros de muita inflamação. Além disso, ocorreram lesões como queimaduras e queimaduras em via aérea: “a pessoa respira e a alta temperatura vai fazer uma lesão, uma queimadura mesmo, na parte de dentro do nariz, na mucosa, desce na garganta até a região dos brônquios”.</p><p>Já no caso da Covid-19, a infecção viral é que causa o processo inflamatório pulmonar, que pode estar aliado à questão vascular, sistêmica e respiratória. Existe o período inicial de infecção, em que os sintomas são gripais, e há uma piora que pode culminar em insuficiência respiratória por conta do processo inflamatório pulmonar.  “Existe um tempo de evolução, e depois que ocorre a piora pulmonar, tem toda a questão de ficar internado, medicações, outras infecções que podem ocorrer quando se está internado, por exemplo, em ventilação mecânica, então tem muitos fatores que podem levar à piora desse quadro pulmonar”, destaca. Alessandra ainda complementa que os pacientes que sobrevivem podem ter consequências da internação e que, por isso, a recuperação pode ser demorada. Essa demora é chamada de Covid longa, em que as sequelas da doença permanecem até seis meses depois da alta. Algumas das sequelas são as alterações musculares, a perda de força, alterações respiratórias, a falta de ar e o chiado no peito.</p><p>Segundo Alessandra, não há como prever como as sequelas irão se desenvolver a longo prazo. A partir da observação, a maioria acaba tendo melhora no quadro pulmonar. No entanto, há a previsão de que em alguns casos haja dano permanente no pulmão: “É como se fossem sequelas ou cicatrizes pulmonares”, explicita.</p><p>Alessandra comenta que a experiência do atendimento às vítimas da Kiss teve um peso emocional maior. Para ela, foi uma experiência difícil pelas características das vítimas, pelo acontecimento ser repentino e por ter o envolvimento de toda a equipe de saúde. No entanto, para a pneumologista, a experiência da Kiss, apesar de difícil, ajudou no enfrentamento da pandemia, uma vez que ensinou a lidar com múltiplas vítimas.</p>		
			<h3>Saúde mental</h3>		
		<p>O Transtorno de Estresse Pós-Traumático - TEPT, é uma das consequências em pacientes sobreviventes da Kiss, e também em pacientes sobreviventes da Covid-19. Vitor Calegaro explica que o TEPT ocorre após um evento traumático, que, além dos citados, pode ser um trauma proveniente de violência física, sexual, acidentes, doenças súbitas com potencial de morte, entre outros. Os sintomas se dividem em quatro núcleos:</p><p><b>1- Revivências:</b> são memórias intrusivas e angustiantes que a pessoa tem mesmo sem querer. As memórias são repetitivas e podem vir na forma de lembrança, de <i>flashback</i>, de pesadelos, de sentimentos e sensações fisiológicas angustiantes. Estes momentos fazem com que a pessoa relembre o trauma.</p><p><b>2- Evitação:</b> são sintomas fórmicos, em que a pessoa evita pensar no assunto, em cenas do evento, lembretes externos, pessoas, situações, lugares e memórias que podem fazer com que ela relembre do evento traumático.</p><p><b>3- Alterações negativas no humor, nos pensamentos e nas crenças:</b> humor mais deprimido, dificuldade de sentir emoções positivas como alegria, felicidade, amor e carinho; tendência a sentimentos e emoções negativas como tristeza, ansiedade, irritabilidade e angústia; pensamentos distorcidos, pensamentos de culpa e alteração de visão de mundo.</p><p><b>4- Sintomas ansiosos e hiperexcitabilidade</b>: a pessoa em estado de alerta e de hipervigilância, costuma ficar ansiosa, tem insônia, facilidade de ter explosões de humor, raiva imprudente e colocar-se em situação de risco.</p><p>Vitor destaca que uma das semelhanças entre os dois eventos traumáticos, do ponto de vista psíquico, é que os dois são desastres coletivos e evitáveis. “O caso da Kiss é um tanto quanto óbvio, e o da Covid-19, claro, é um desastre biológico, mas a questão é a condução da pandemia”. O médico psiquiatra destaca que há uma insegurança grande na população, em particular para quem se vê mal em função da doença: “A pessoa traumatizada pode tender a ficar extremamente irritada e a apontar responsáveis por isso, nesse país dividido”, complementa.</p><p>No Ambulatório Psiquiatria Pós-Covid, que ele coordena, o atendimento começa com uma avaliação pormenorizada, baseada na individualidade. O paciente passa pelo processo de psicoeducação, em que é informado sobre o que tem, para que possa entender a doença e os sintomas. A partir disso, se pensa nas intervenções e qual o melhor tratamento para cada pessoa, além da avaliação da necessidade ou não de medicação. Vitor comenta que é possível observar uma melhora rápida na maioria dos pacientes, em que os primeiros resultados surgem a partir de quinze a vinte dias do início. No entanto, ele alerta que quanto mais próximo do trauma for iniciado o tratamento, maiores as chances de uma melhora mais rápida. Na psiquiatria, há capacidade de atendimento de dezesseis pacientes semanais.</p>		
			<h3>
‘Recuperados’ e ‘Curados’</h3>		
		<p>“Uma questão importante que a gente observou aqui é o paciente voltar, retornar pro local onde ele quase perdeu a vida”, sublinha Isabella. A professora destaca que essa é uma característica nova em pacientes de UTI, aliada a uma certa ansiedade e a um temor no olhar. “Foi muito importante, enquanto profissional da saúde, ter essa sensibilidade de acolher o paciente, da escuta, de criar o vínculo, isso é Sistema Único de Saúde, isso é política de Sistema Único de Saúde, isso é o SUS”, evidencia. </p><p>Um <a href="https://www.nature.com/articles/s41586-021-03553-9" target="_blank" rel="noopener">estudo estadunidense</a> publicado na Revista Nature em abril mostrou que a Covid-19 aumentou o risco de morte em 60% para pacientes pós-covid em comparação com os que não tiveram a doença e não foram hospitalizados. Além disso, estes têm 20% mais chances de precisar de cuidados ambulatoriais, ou seja, consumo de medicamentos. Para Isabella Albuquerque, é necessário olhar para estes números e o que eles significam. Mesmo que seja uma pesquisa dos Estados Unidos, para ela, em algum momento este cenário vai se traduzir no Brasil. “O Ministério da Saúde fala em recuperados. Eu não considero paciente recuperado, porque é um paciente que vai ter sequela e que vai ter que ter um olhar de política pública da saúde”, enfatiza Isabella. Para ela, neste ponto, também há semelhança com os pacientes sobreviventes da Kiss, uma vez que a maioria era de classe socioeconômica mais baixa e possuía consumo de saúde em acompanhamento, uso de medicação, de cirurgias reparadoras, entre outros. “O paciente pós-covid também tem esse impacto, porque é um paciente que consome mais, que gasta mais em saúde e que vai exigir mais do SUS”. Para ela, não há, por parte dos órgãos de saúde, uma atenção e política de acompanhamento desses pacientes a médio e longo prazo. “Vai ser um contingente muito grande de pacientes associado à questão da crise econômica, a gente sabe que muitos pacientes estão deixando de pagar o plano de saúde. E isso vai sobrecarregar cada vez mais a SUS”, complementa.</p><section data-id="8605efb" data-element_type="section"><section data-id="cb499fa" data-element_type="section"><section data-id="98ed197" data-element_type="section"><section data-id="5f882e8" data-element_type="section"><p><em><strong>Expediente</strong></em></p><p><i><strong>Reportagem e fotografias:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><strong><em>Produção Gráfica:</em> </strong><i>Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e </i><i>voluntário</i></p><p><i><strong>Mídia Social:</strong> Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária<br /></i></p><p><i><strong>Edição de Produção:</strong> Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><i><strong>Edição Geral:</strong> Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas</i></p></section></section></section></section>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Arco entrevista psiquiatra Vitor Calegaro</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/arco-entrevista-psiquiatra-vitor-calegaro</link>
				<pubDate>Mon, 27 Jan 2020 19:20:53 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[arco entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[boate kiss]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[destaque ufsm]]></category>
		<category><![CDATA[psiquiatria]]></category>
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		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[trauma]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/arco/?p=6164</guid>
						<description><![CDATA[Pesquisador comenta a relação entre personalidade, psicopatologia e resiliência nos sobreviventes da boate Kiss]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p style="text-align: left"><em>Pesquisador comenta a relação entre personalidade, psicopatologia e resiliência nos sobreviventes da boate Kiss</em></p>
										<img width="1024" height="668" src="https://www.ufsm.br/midias/arco/wp-content/uploads/sites/601/2020/01/resiliencia_capa-1024x668.jpg" alt="">

Sete anos se passaram desde a noite que mudou Santa Maria. Dia 27 de Janeiro de 2013, 2h30min. A data e hora que marcaram a vida de inúmeras pessoas e famílias. O incêndio da boate Kiss deixou 242 vítimas, a maioria delas jovens. Dos sobreviventes, 623 precisaram receber atendimento médico.&nbsp;

O maior desastre da história do Rio Grande do Sul ocorreu devido a uma série de falhas e irregularidades. Um artefato pirotécnico que não deveria ser aceso; um extintor de incêndio que não funcionou; um alvará que estava vencido; uma boate superlotada; uma única porta de saída; uma espuma tóxica e altamente inflamável e janelas de banheiros lacradas com madeira. A Rua dos Andradas, 1925, tornou-se o endereço do terceiro incêndio mais mortal do mundo ocorrido em boate.&nbsp;

Desde a tragédia, o professor do Departamento de Neuropsiquiatria, Vitor Crestani Calegaro, atende sobreviventes e familiares. Atualmente ele também atua como supervisor no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) e coordena o ambulatório de psiquiatria do Centro Integrado de Atenção às Vítimas de Acidentes (CIAVA), criado após o ocorrido. Em dezembro de 2019 o psiquiatra defendeu sua <a href="https://lume.ufrgs.br/handle/10183/204283">tese de doutorado</a>, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nela, investigou, de 2015 a 2017, a relação entre personalidade, psicopatologia e resiliência nos sobreviventes da boate Kiss.&nbsp;

Neste mês se aborda a campanha Janeiro Branco, destinada à conscientização e cuidado da saúde mental e emocional. Transtornos que englobam a saúde psicológica são tão graves quanto os que se referem à saúde física e precisam ser cuidados com seriedade. A Revista Arco conversou com o pesquisador Vitor Calegaro, que detalhou um pouco seus estudos em relação às consequências do trauma causado em pessoas diretamente expostas à Kiss e também sobre como esta pesquisa é relevante para o avanço científico na área.&nbsp;

<b>Arco </b><b>–</b><b> Você esteve envolvido com o incêndio da boate Kiss desde o início, através da realização de atendimentos aos sobreviventes. Como após alguns anos esse veio a ser o assunto de sua pesquisa no doutorado e como ela foi desenvolvida?</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Houve uma motivação acadêmica, justamente por estarmos num ambiente universitário. Nós já atendíamos diversos sobreviventes e sentíamos um dever de utilizar esta situação de catástrofe para a construção de conhecimento, onde pudéssemos dar um retorno para a sociedade, aprendermos algo com esta tragédia e fazermos o aprendizado retornar para as pessoas. Começamos com um projeto guarda-chuva em janeiro de 2015: um estudo de acompanhamento dos pacientes do ambulatório de psiquiatria. Um braço dessa pesquisa foi minha tese, que é um estudo transversal, o qual compara pessoas diretamente expostas à boate Kiss (que foram e tiveram contato com o local), e desenvolveram alguma psicopatologia (doença mental), com outras que estavam bem naquela época (dois anos depois do ocorrido). Ela foi realizada dentro do HUSM, no ambulatório de psiquiatria e no ambulatório de pneumologia, que era onde a gente encontrava muitas das pessoas que não faziam acompanhamento psiquiátrico, que estavam lá para uma consulta de rotina, sendo que várias não tinham transtornos mentais. A amostra final contou com 198 pacientes, divididos em subgrupos: 120 sobreviventes; 68 policiais e bombeiros e 10 familiares.&nbsp;

<b>Arco </b><b>–</b><b> A partir das suas observações, que consequências foram constatadas&nbsp; nos indivíduos diretamente expostos à Kiss no que se refere à saúde mental?</b>

As consequências na saúde mental são diversas. Normalmente, quando se fala em catástrofe, tragédia ou trauma, como um primeiro diagnóstico se pensa o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT), que é algo mais especificamente relacionado ao trauma. No TEPT, depois que a pessoa vive uma situação de ameaça de morte, por mais de um mês persiste com sintomas intrusivos (pensamentos e lembranças recorrentes e angustiantes). Depois passa a evitar as lembranças internamente, evita pessoas, lugares, situações e também desenvolve uma série de reações cognitivas (como sentimento de culpa) e no humor (fica deprimida), além do sintoma de ativação, quando passa a estar sempre preparada para reagir a alguma situação futura. Nós, a partir da revisão da literatura existente no assunto, percebemos que esse é só um dos diagnósticos e só recentemente isso vem sendo tratado na literatura, uma coisa de vanguarda.&nbsp; Então, dentro de um dos artigos da tese, analisamos os diagnósticos como um todo. Quando conversávamos com os pacientes aplicamos uma série de questionários. Um deles dá diagnósticos em psiquiatria. Fizemos uma análise de classe latente e conseguimos distinguir três grupos de pessoas. Com os primeiros dois anos, qualquer diagnóstico é crônico, então identificamos que: 50% das pessoas não tinham nenhum diagnóstico de transtorno mental, que era um grupo resiliente; um grupo intermediário, de 25%, tinha uma forma de TEPT que passamos a chamar de TEPT parcial, quando a pessoa tem alguns sintomas, mas não todos; e um grupo de 25% com TEPT completo. Mas, das pessoas com TEPT completo, pelo menos metade tinha também depressão e algum transtorno de ansiedade. Ali chegamos a uma das conclusões: o trauma não desencadeia somente o TEPT. Essa é uma maneira como a psicopatologia se expressa, mas existem diversas outras, como depressão e transtornos de ansiedade (transtorno do pânico, fobia social, transtorno de ansiedade generalizada). Para nós isso ficou muito claro com essa amostra, já que a maioria dos sobreviventes não possuía nenhum transtorno antes da Kiss e passou a ter diversos problemas após.&nbsp;

<b>Arco </b><b>–</b><b> E como algumas dessas pessoas adoeceram tanto após o trauma enquanto outras, além de se recuperarem, se tornaram resilientes?&nbsp;</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Em primeiro lugar, quando a gente fala de resiliência precisamos ver de que estamos falando. A resiliência hoje é um termo que está muito no senso comum e as pessoas atribuem muitas coisas diferentes a ela. Resiliência, a rigor, deve ser entendida como um conceito dinâmico. A pessoa sofreu um trauma, quando é que ela diz que é resiliente? Resiliência não é não ter sofrimento. A pessoa tem um sofrimento e depois de um tempo breve ela retoma o seu funcionamento normal e segue a sua vida, vai reduzindo os sintomas e ficando bem. Na tese, quando falamos de resiliência estamos falando de outro conceito, que é traço de resiliência. É a ideia de que há pessoas com certas características associadas à personalidade que as tornam mais resilientes, mais capazes de enfrentarem os estressores na vida. Comparamos as pessoas que tinham esse traço de resiliência com as que tinham sintomas de estresse pós-traumático e outras doenças mentais. Vimos que quem tem mais desse traço de resiliência realmente têm menos sintomas. Elas têm um enfrentamento da situação traumática de uma forma mais adaptativa ao estresse e conseguem seguir a vida com menos sofrimento. A resiliência envolve também sofrimento, mas é algo momentâneo, o indivíduo consegue retomar sua vida, crescer com a experiência. Aqui entra a força de ego, que, em termos médicos, é quando a pessoa é otimista, consegue virar a página, sabe procurar ajuda mas sem ficar dependente de alguém. Porém, uma boa parte dessa resiliência também é biológica, há coisas na sua genética que a tornam mais adaptável aos estressores, enquanto quem tende a desenvolver transtornos mentais já possui uma genética de vulnerabilidade. E é dependendo dessa genética que a psicopatologia se expressará no futuro, se será TEPT, transtorno de personalidade, esquizofrenia, transtorno de ansiedade, uso de drogas…

<b>Arco </b><b>–</b><b> É possível alguém desenvolver esse traço de resiliência, mesmo que não o tenha em sua genética?</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Essa é a pergunta que todos os pesquisadores da área estão tentando responder. Na tese, a gente percebeu que o traço de resiliência é associado a características da personalidade e, dentro delas, conseguimos inferir que uma parte dessa resiliência é biológica e se refere a uma tendência inata que temos de sentir medo, que é a esquiva do dano. Outra parte se refere a características psicológicas, que é o autodirecionamento, como a capacidade da pessoa ir em direção ao objetivo, ser criativa em relação à resolução de problemas, ser flexível, não ficar se culpando, ter um senso de responsabilidade de que ela pode possuir a própria vida. Além disso, tem um outro traço que é de autotranscendência, a expansão de limites pessoais. Do ponto de vista mais biológico, geneticamente herdado, há uma grande tendência familiar para a pessoa ter esse traço esquiva do dano e podemos observá-lo desde os dois ou três anos de idade. Mas isso pode ser moldado desde a infância,&nbsp; através do condicionamento. Hoje não há uma terapia, uma intervenção preventiva, ou então de promoção da saúde, mas tecnicamente isso poderia ser feito sim. Essa é justamente uma grande contribuição do nosso estudo: se a gente pode rastrear esses traços precocemente, antes de desenvolver o trauma, a gente pode intervir em pessoas mais vulneráveis para que elas se tornem mais resilientes. Por exemplo, sob esse aspecto do medo, seria através do condicionamento desde a infância e adolescência. Com relação à parte mais psicológica, que é do autodirecionamento, também, através de estratégias de enfrentamento voltadas à resolução dos problemas sem ficar muito preso a uma emocionalidade negativa. Já no traço de autotranscendência isso poderia ser trabalhado através de meditação e relaxamento.

<b>Arco </b><b>–</b><b> Sobre o transtorno de estresse pós-traumático e outras psicopatologias, elas surgem logo após o acontecimento ou pode demorar algum tempo até se manifestarem?&nbsp;</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Na maioria das vezes elas já começam nas primeiras horas, sendo que, dentro dos três primeiros dias, isso é normal. É chamada de reação aguda ao estresse e cada transtorno desses tem um tempo específico para ser diagnosticado. A maioria das pessoas que irão desenvolver já tem sintomas desde o início e persiste com eles por mais tempo que o que seria esperado. Mas existem pessoas que contrariam essa regra. Que no início não têm muitos sintomas e vão piorando gradualmente, de forma que podem fazer o diagnóstico depois dos seis meses. E essa é uma preocupação que nós temos. Os estudos de acompanhamento de vítimas de outros desastres mostram que algumas pessoas vão desenvolver muito gradualmente, ao longo de anos, só que vão piorando com o passar do tempo. É uma minoria que tem essa característica, mas é possível sim e, quando isso acontece, em geral os transtornos são graves e têm muitas outras consequências em termos de saúde.

<b>Arco </b><b>–</b><b> E é possível curar esses transtornos com o decorrer do tempo?&nbsp;</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Alguns sim, outros não. Algumas pessoas conseguem, de fato, obter uma recuperação concreta, falando especificamente do TEPT. Outros não conseguem, apesar dos melhores tratamentos disponíveis, tanto em termos de psicoterapia, quanto de medicação. No caso da resolução completa dos sintomas, a probabilidade disso acontecer é quando o transtorno não é tão crônico assim. Quando passam-se anos que a pessoa tem um transtorno, a tendência é que ela siga com esses sintomas por um tempo indeterminado e aí vai depender de muitas coisas: como foi para ela esse trauma, as perdas que teve… é muito variável, pode durar alguns poucos anos ou até a vida inteira. Isso motiva muito os pesquisadores a irem em busca de novos tratamentos, porque o TEPT crônico impacta demais na saúde da pessoa e na vida dela. Tanto em termos de trabalho, estudo, relacionamentos interpessoais, como também na saúde física. Ela tende a ter mais doenças físicas, doenças cardíacas, metabólicas, uma série de coisas.

<b>Arco </b><b>–</b><b> Você falou inicialmente que as amostras foram divididas em três grupos. Os resultados observados foram diferentes entre os sobreviventes, os policiais e bombeiros e os familiares?&nbsp;</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Sim. Tirando os familiares, toda a amostra foi exposta diretamente ao acidente e teve contato com a fumaça. Sobre bombeiros e sobreviventes, no que estudamos com relação à personalidade, nesses traços que falei, não houve muita diferença. O que encontramos numa amostra encontramos em outra. O que torna este achado mais robusto. Não é porque era personalidade dos estudantes, não. Mesmo em bombeiros, que possuem outro tipo de vida, esses traços foram encontrados associados. Em um dos artigos separamos por idade e sexo, e mostrou que os resultados são os mesmos, independente disso. Em outro incluímos os familiares e mais doenças, as psicopatologias. Ali houve diferença. Quem é sobrevivente ou familiar tem mais probabilidade de ter uma doença mental do que os bombeiros. Ser bombeiro, no caso, é um fator protetor e isso está coerente com o que vimos na literatura e pode ter muito a ver com o treinamento que recebem e com a pessoa estar mais habituada a situações de estresse. Mas eu diria que, mesmo pra eles, essa situação foi muito peculiar. Nos relatos eles nos disseram que a tragédia impactou de maneira muito grande suas vidas.&nbsp;

<b>Arco </b><b>–</b><b> Por fim, com relação ao trabalho desenvolvido, existem outros estudos semelhantes na área?&nbsp;</b>

<b>Vitor Calegaro </b><b>–</b> Existem. Referem-se, em geral, a situações de terrorismo ou de catástrofes ambientais. Sobre o World Trade Center é o que mais estudos existem, já que morreram muitas pessoas. O diferencial do nosso e que o torna muito raro é que a amostra é muito homogênea. A maioria é um grupo de estudantes universitários, de 20 a 30 anos, que não possuía nenhum transtorno mental prévio. Isso torna-o uma grande contribuição para a comunidade científica.&nbsp;&nbsp;

<b><i>Repórter e Mídia Social</i></b><i>: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo</i>

<b><i>Ilustradora</i></b><i>: Lidiane Castagna, acadêmica de Desenho Industrial</i>

<b><i>Editor:</i></b><i> João Ricardo Gazzaneo, jornalista</i>]]></content:encoded>
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