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				<title>Dossiê Mudanças Climáticas: Segurança alimentar em xeque</title>
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				<pubDate>Thu, 29 Feb 2024 13:02:11 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[13ª Edição]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê UFSM]]></category>
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		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[produção de alimentos]]></category>

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						<description><![CDATA[Eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos afetam a produção mundial de comida e intensificam a insegurança alimentar em comunidades locais]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  Milho, soja, feijão, arroz, leite, carne bovina e frango tiveram aumento significativo de preços em 2022. Além da crise econômica, os eventos climáticos extremos que atingiram o Brasil em 2021 e 2022 também são motivos do maior custo dos alimentos. Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro registraram enchentes com centenas de mortos, de acordo com o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Ministério do Desenvolvimento Regional (S2ID/MDR). Além disso, no sudeste e sul do país, principalmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a ausência de chuvas provocou uma estiagem severa que, no estado gaúcho, é a segunda maior já registrada, de acordo com o Monitor de Secas do Brasil, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Tanto o excesso quanto a falta de água afetam a produção de alimentos: a agricultura funciona por meio de ciclos e de cadeias de produtividade e, caso haja desequilíbrios em alguma etapa, a safra pode ser prejudicada. De acordo com o relatório de 2021 do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), com a intensificação dos fenômenos das mudanças climáticas, a produção de alimentos brasileira será menor, principalmente em função da maior frequência dos eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e incêndios.

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Para Dilson Bisognin, professor no Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o aumento da temperatura impacta todas as populações de plantas, inclusive no crescimento de patógenos - como bactérias, fungos e vírus - e plantas daninhas mais resistentes, além de afetar os animais.&nbsp;“Qualquer mudança no ambiente vai afetar a vida do planeta. Mínimas mudanças têm um enorme efeito nas populações. Por exemplo, em 2022, os meses de restrição hídrica tiveram um enorme impacto nas plantas e microorganismos”, explica o docente. Segundo o relatório "Mudanças Climáticas e Eventos Extremos no Brasil", da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), durante os últimos 50 anos, a América do Sul teve ampliação de intensidade e frequência dos eventos climáticos extremos. Isso aumenta os custos econômicos e sociais e impacta principalmente os setores da agricultura, da geração de hidroeletricidade, os centros urbanos e a biodiversidade.
<h3>4 pilares</h3>
A segurança alimentar se baseia em quatro pilares: disponibilidade, utilização, estabilidade e acesso.

<em>Com base em dados do relatório do IPCC 2020 - 2021.</em>
<h4>DISPONIBILIDADE</h4>
Resultado dos processos de produção, armazenamento, processamento, distribuição e troca de alimentos. Se a produção é afetada, as outras etapas também serão. Em uma estiagem, a ausência de água na produção pode acarretar, por exemplo, a falta de tomate na prateleira do supermercado.
<h4>UTILIZAÇÃO</h4>
Modo como se utilizam os alimentos (envolve a composição nutricional, a preparação e a qualidade). As mudanças climáticas influenciam o modo como os alimentos serão consumidos. Na safra de tomate prejudicada pela estiagem, a pouca disponibilidade eleva os preços, o que impacta a capacidade de compra das pessoas, que deixam de consumir o alimento.
<h4>ESTABILIDADE</h4>
Capacidade das pessoas em acessar e usar alimentos diariamente. Em um cenário de aumento do preço dos alimentos, que é intensificado pelos eventos climáticos extremos, uma família de média ou baixa renda pode não ter dinheiro para comprar comida de qualidade todos os dias.
<h4>ACESSO</h4>
Capacidade de obter comida com preços acessíveis. Os itens mais afetados com o aumento de preços costumam ser os cereais e produtos de origem animal. O acesso influencia a estabilidade alimentar.
<h3>Sistemas produtivos</h3>
Os últimos relatórios do IPCC, inclusive o de 2022, apontam que as mudanças climáticas podem afetar diferentes sistemas produtivos, como a pecuária, a polinização, a aquicultura e a agricultura familiar (veja detalhes na próxima página). Além disso, são os locais mais vulneráveis que têm maior possibilidade de serem atingidos pelos efeitos de eventos climáticos extremos. “Os alimentos, nos últimos tempos, têm sido encarados enquanto mercadoria e não são produzidos com a finalidade de consumo e de alimentar as pessoas”, argumenta Cleder Fontana, docente no Departamento de Geociências da UFSM e líder do Núcleo de Estudos em Geografia, Agricultura e Alimentação (NUGAAL). Ou seja, a produção de commodities - em grande escala, como os grãos - deve continuar crescendo globalmente e gerar riscos à segurança alimentar, devido à conversão de áreas produtoras de alimentos em áreas produtoras de matéria-prima para os agrocombustíveis.
<h3>Efeito cascata</h3>
De acordo com Juliano Barin, docente no Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da UFSM, elementos como os insumos, a água, o solo e o trabalho humano também são parte integrante dos sistemas produtivos alimentares. “São cadeias que estão interligadas. Por exemplo, o milho é muito usado para ração animal. Então, se tiver uma quebra na produção do milho, o preço da carne vai aumentar, especialmente a de frango. Qualquer alteração climática que tenha uma quebra na produção vai impactar em efeito cascata”, explica.

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1. Quando há estiagem, a safra de milho é prejudicada (tanto para a colheita do grão quanto para o corte da planta).

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2. Para o gado, a ração e a silagem (milho picado e fermentado) tem custo maior e menos qualidade. O frango também é afetado, a ração, que é a base da alimentação, é feita de milho, cujo custo fica maior.

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3. Com isso, os preços do leite, dos ovos, da carne de gado e de frango aumentam. Nos supermercados, nem todas as pessoas conseguem adquirir estes e outros itens básicos da alimentação.
<h3>Insegurança alimentar e fome</h3>
Somente no Brasil, são mais de 33 milhões de pessoas que passam fome, de acordo com dados do 2º inquérito sobre insegurança alimentar produzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). Conduzida em 2022,
a pesquisa mostra que só quatro a cada dez famílias têm acesso pleno à alimentação. Os números altos mostram um cenário preocupante. Os relatórios do IPCC alertam que a insegurança alimentar e a fome podem aumentar com o cenário de maior frequência
e intensidade dos eventos climáticos extremos. No entanto, para Cleder Fontana, é preciso cautela na análise, uma vez que a fome não é causada apenas pelas mudanças climáticas. “Temos que pensar que a fome é um problema, sobretudo, político. E quando fazemos a relação de mudanças climáticas, aquecimento global e fome, corremos o risco de dar uma explicação simplista, de que a fome é um problema que deriva de uma condição natural, apesar de que os dois problemas guardam similaridades, pois ambos são sociais”, alerta. O docente reforça que abordar outros aspectos que causam a fome e a insegurança alimentar não vão contra o consenso científico da existência das mudanças climáticas e seus efeitos.

Mesmo assim, de acordo com estudos da Organização&nbsp;das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura&nbsp;(FAO), as mudanças climáticas vão impactar,&nbsp;de forma negativa, os pilares da segurança alimentar.&nbsp;De acordo com o IPCC e a Convenção das Nações&nbsp;Unidas para o Combate à Desertificação (UNCDD),&nbsp;os mais afetados serão os produtores e consumidores&nbsp;de baixa renda, principalmente por conta da ausência&nbsp;de recursos que possibilitem o investimento em&nbsp;adaptações, tanto em sistemas produtivos quanto no&nbsp;consumo. “Com certeza pode afetar as populações&nbsp;e produções locais, que abastecem as pessoas com&nbsp;alimentos, especialmente no contexto em que as&nbsp;pessoas não têm recursos financeiros para comprar”,&nbsp;afirma Cleder.
<h3>Insegurança alimentar e fome</h3>
Com base em dados do relatório do IPCC 2020 - 2021.

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PECUÁRIA: impactado pela combinação de temperaturas mais altas, a variação da precipitação, a concentração de
dióxido de carbono atmosférico (CO₂) e a disponibilidade da água. Consequências são a diminuição da oferta e o aumento do preço de carnes, problemas na reprodução, na saúde animal e na qualidade das pastagens, além do aumento de doenças.

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AGRICULTURA FAMILIAR: eventos&nbsp;como estiagens e inundações, principalmente,&nbsp;impedem a produção de&nbsp;alimentos que, muitas vezes, são, além&nbsp;da única fonte de renda, também a&nbsp;fonte alimentar das famílias do campo.

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POLINIZAÇÃO: afetado, principalmente,&nbsp;pelo aumento de patógenos mais virulentos,&nbsp;como o fungo Nosema cerana,&nbsp;que se prolifera em temperaturas mais&nbsp;altas.

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AQUICULTURA: inundações trazem&nbsp;perda na produção, mais risco de doenças,&nbsp;algas tóxicas e parasitas, aumenta&nbsp;o risco de eutrofização (ausência de&nbsp;oxigênio na água, que leva à morte de&nbsp;plantas e animais) e pode provocar a&nbsp;escassez das sementes silvestres.

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<h3>Insegurança alimentar e fome</h3>
Em documento de 2021, o IPCC alerta que ao menos um terço da produção de alimentos está em risco como resultado do aquecimento
global. Apesar de a agricultura familiar figurar como a mais afetada pelas mudanças climáticas, o agronegócio não fica de fora. Dilson Bisognin concorda com essa afirmação e alerta que, uma vez que há alterações em pragas e doenças de plantas, que se tornam mais resistentes, cultivares mais adequadas devem ser desenvolvidas, tanto para cenários de temperaturas mais altas quanto para o enfrentamento dos patógenos. O docente ainda afirma que o cenário brasileiro é preocupante, uma vez que houve redução e restrição de recursos para a ciência e o desenvolvimento tecnológico. “Nós vamos ter que ter uma preparação a longo prazo, e nós não temos uma preocupação a longo prazo. Vamos ter muita dificuldade em ter pessoas qualificadas, tecnologia e ciência para dar resposta a isso. A partir
do momento que se tira recurso da ciência e da tecnologia, está atrasando toda a resposta”, evidencia Dilson.

Um exemplo de como os eventos climáticos extremos afetam&nbsp;o agronegócio está na estimativa feita pela Associação das Empresas&nbsp;Cerealistas do Estado do Rio Grande do Sul (Acergs) em maio&nbsp;de 2022: 65% da safra de milho do ano foi comprometida, o que&nbsp;corresponde a uma perda de quatro milhões de toneladas e R$ 6,3&nbsp;bilhões. Na soja, a redução da produção no mesmo período é de&nbsp;48,7% (10,2 milhões de toneladas ou R$ 32,4 bilhões), de acordo&nbsp;com a Rede Técnica Cooperativa (RTC), filiada à Cooperativa&nbsp;Central Gaúcha Ltda (CCGL). No entanto, o setor do agronegócio&nbsp;tem mais recursos para lidar com o cenário, principalmente&nbsp;por meio do uso e desenvolvimento de tecnologias. Para Dilson,&nbsp;apesar de ser fundamental, a tecnologia não pode ser a única&nbsp;solução para a problemática. “A tecnologia é excludente, e as&nbsp;mudanças climáticas vão favorecer e justificar novas tecnologias”,&nbsp;afirma. Para o docente, a agricultura familiar é mais afetada&nbsp;pelos eventos climáticos extremos já que tem menos recursos&nbsp;financeiros para investir em tecnologia.&nbsp;

Em 2010, Dilson coordenou um estudo no Departamento de&nbsp;Fitotecnia sobre os efeitos da evolução das temperaturas no cultivo&nbsp;de batatas. Na época, a conclusão da pesquisa já apontava que&nbsp;o aumento do CO₂ e de temperatura resulta em consequências&nbsp;para este cultivo, como o menor crescimento da planta, redução&nbsp;do ciclo de desenvolvimento, menor produtividade&nbsp;e mais risco de doenças. “A grande resposta desses&nbsp;estudos é mostrar qual é o impacto que pode ter&nbsp;uma alteração muito pequena de temperatura, que&nbsp;vai causar grandes consequências, porque ela afeta&nbsp;todas as populações de seres vivos. Vão surgir novos&nbsp;patógenos, cada vez mais difíceis de serem controlados&nbsp;porque eles vão chegar em um ambiente que está&nbsp;em desequilíbrio”, destaca Dilson. O docente também&nbsp;afirma que hoje, mais de dez anos depois, o cenário&nbsp;é diferente e que, na época em que desenvolveu a&nbsp;pesquisa, havia mais possibilidades e condições de&nbsp;remediação das consequências. “Estamos muito atrasados”,&nbsp;pontua.

Outro estudo que mede esses impactos foi desenvolvido no campus da UFSM de Cachoeira do Sul. Com as estimativas de crescimento de temperatura de 1º a 1,5º, a produção leiteira no Rio Grande do Sul pode diminuir até cinco litros por dia. “À medida que aumenta a temperatura, vai aumentar o calor e o estresse calórico e, no verão, vai ter muito prejuízo na produção de leite”, afirma Zanandra Boff de Oliveira, docente do curso de Engenharia Agrícola na UFSM Cachoeira do Sul.

Para a pesquisadora, apesar de ter uma cadeia mais&nbsp;desafiadora, a produção não vai diminuir: “Vamos&nbsp;conseguir avançar para encontrar a melhor forma de&nbsp;produzir diante desse contexto. Talvez com aumento&nbsp;de custo, mas não um desequilíbrio. Não acredito que&nbsp;vai faltar produto. Vamos evoluir junto com o problema”.&nbsp;Soluções possíveis seriam sistemas de pastoreio&nbsp;com mais sombras ou galpões de alimentação com&nbsp;ventilação para a redução do estresse corporal, tipo&nbsp;de construção que demanda investimento.

<strong>Reportagem: </strong>Samara Wobetto
<strong>Diagramação:</strong> Evandro Bertol
<strong>Ilustrração:</strong> Noam Wurzel.]]></content:encoded>
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				<title>Comida que chega à mesa</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/comida-que-chega-a-mesa</link>
				<pubDate>Thu, 08 Oct 2015 18:26:09 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Dossiê Produção de Alimentos]]></category>
		<category><![CDATA[alimentação]]></category>
		<category><![CDATA[Nutrição]]></category>
		<category><![CDATA[produção de alimentos]]></category>

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						<description><![CDATA[Produção em larga escala ou ligada à agricultura familiar: dois modos distintos que são responsáveis pelo abastecimento dos alimentos que chegam até nós]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <img width="1024" height="668" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2017/08/5ª-edição-10-dossiê-comida-1024x668.png" alt="" loading="lazy">

Condições naturais, fatores cambiais e mesmo um longo processo histórico dão conta de definir, com o passar do tempo e também com o avanço tecnológico específico de cada lugar, que tipos de produtos um país é capaz de produzir e em que escala, segundo o que considera a Associação Brasileira de Consultoria e Assessoria em Comércio Exterior (Abracomex). O que acontece é que nem sempre cada território consegue produzir toda a diversidade de produtos de que necessita e, principalmente, em quantidade suficiente. É a partir daí que surge um processo do qual ouvimos falar constantemente no noticiário, mas que nem sempre compreendemos por completo: o comércio exterior, ou, como também é conhecido, comércio internacional.

São índices que sobem e descem, taxas específicas e expressões que nem sempre são de fácil entendimento. Apesar das complicações que parecem rodear o assunto, a explicação dada pela Abracomex pode tornar mais fácil a sua compreensão: os países não são capazes de produzir todos os produtos de que necessitam e, inseridas na lógica de mercado, as empresas buscam especialização nas atividades em que são mais competitivas. Por conta disso, gera-se um “intercâmbio” de mercadorias entre empresas de diferentes países a que denominamos “comércio exterior”.

Como a própria definição já sugere, a competitividade é fator importante a ser considerado quando falamos sobre o comércio internacional. Tratam-se, afinal, de disputas de ordem econômica – embora, não raro, somem-se também fatores políticos e mesmo culturais. Ainda que possa parecer um tema distante, as decisões tomadas nesse âmbito podem ter implicações diretas em nosso cotidiano. Falar sobre ele é, por exemplo, pensar a produção de alimentos no mundo – e as consequências que dela decorrem.
<h4>&nbsp;</h4>
<h3><strong>UMA PRODUÇÃO VOLTADA AO MERCADO EXTERNO</strong></h3>
No comércio exterior brasileiro, os alimentos se colocam como um componente fundamental. Não é à toa que soja, café e carne bovina, por exemplo, costumam figurar entre os produtos mais exportados pelo país. Embora ao longo das últimas décadas esse processo tenha se intensificado, ele não é uma novidade, como aponta o professor do Departamento de Economia da UFSM Paulo Feistel, que tem desenvolvido seus estudos nessa área, focando, sobretudo, nas especificidades do nosso país.

Para explicar a relação comercial do Brasil com outros países, Feistel recorre ao passado. Ele explica que, historicamente, as nossas exportações foram feitas a partir de commodities, ou seja, bens que ainda estão em estado bruto ou ainda produtos primários. É o caso, por exemplo, de legumes, cereais e alguns metais. O que as torna tão importantes é que, apesar de se tratarem de mercadorias primárias ou com baixo nível de industrialização, suas possibilidades de negociação são variadas, considerando justamente sua característica de serem pouco industrializadas. Além disso, como costuma seguir um padrão, o preço das commodities é, em geral, negociado na Bolsa de Valores Internacionais, e está sujeito a fatores que determinam sua valorização ou queda, como é o caso da oferta e da demanda. Olhar para o passado brasileiro nos ajuda a entender essa colocação do professor Feistel. São os casos do ciclo do café, da borracha ou mesmo do açúcar, que mostram uma tendência de, historicamente, basearmo-nos em uma economia extrativista.

A partir dos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, até o final da década de 1980, o Brasil passou por um importante processo de industrialização. Isso fez com que os produtos manufaturados surgissem na pauta de exportação com mais força. Hoje, no entanto, a situação é outra. O cenário brasileiro de exportações passa a se voltar, uma vez mais, às commodities. O professor Feistel cita alguns fatores centrais para essa mudança, dentre os quais destaca: “A abertura comercial que ocorreu no país fez com que a nossa estrutura industrial fosse posta em xeque, pois não era tão desenvolvida. Isso que fez com que perdêssemos competitividade com o resto do mundo, em termos de indústria”. Aliado a isso, há também o grande crescimento da China no mercado internacional, em especial a partir dos anos 2000.
<h3><strong>A AGRICULTURA FAMILIAR COMO POSSIBILIDADE</strong></h3>
<blockquote><em>A carne bovina, a soja e a cana estão entre os produtos mais exportados pelo Brasil. Apesar disso, o modelo de produção do agronegócio sofre críticas devido aos impactos que pode causar ao meio ambiente</em></blockquote>
Por estar diretamente ligada a grandes volumes de alimentos, a produção voltada ao comércio exterior está vinculada também à lógica do agronegócio, um conceito entendido por envolver todo o processo de produção, armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas. Em geral, ele costuma ser associado também à ideia de produção em larga escala.

No caso brasileiro, como apontam dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o setor responde por sete dos dez produtos mais exportados pelo país. Nessa lista estão o café, a carne bovina e a soja, por exemplo. Os dados refletem a potencialidade brasileira para a produção agropecuária e justificam por que, muitas vezes, somos vistos como o celeiro do mundo.

Entretanto, essa não é a única realidade que se torna destaque ao se tratar do agronegócio. Se na economia o setor é abordado como aquele capaz de equilibrar as finanças do país, ambientalistas não poupam críticas ao modelo de produção no qual se estrutura o agronegócio. Tendo como uma de suas características a produção de monoculturas em larga escala, modelo que exige a exploração de vastas extensões de terra, os impactos no meio ambiente podem ser severos.
<blockquote><em>A agricultura familiar afeta menos o meio ambiente e se caracteriza pela produção diversificada de alimentos. No entanto, com o processo de modernização da agricultura brasileira, ocorreu também um estímulo à especialização do pequeno agricultor em um determinado tipo de cultura</em></blockquote>
Outra crítica que se faz é ao modo como esse tipo de produção afeta o pequeno agricultor. Para o professor do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural da UFSM, Paulo Roberto Silveira, junto com o processo de modernização da agricultura brasileira, ocorreu também um estímulo à especialização do agricultor em um determinado tipo de cultura, em detrimento de uma produção diversificada. Ele salienta que são duas as principais consequências desenvolvidas: uma ambiental e outra que afeta a lógica de produção e vivência do agricultor familiar.

No caso do meio ambiente, o professor considera que a produção intensiva e repetitiva de uma mesma atividade agrícola provoca a degradação do solo, reduzindo também seu potencial de fertilidade. Além disso, pontua que, para conseguir manter uma produção satisfatória, os agricultores acabam optando por utilizar uma grande quantidade de insumos, fertilizantes e herbicidas, influenciando também na qualidade da água e do alimento. Isso ocorre por conta da contaminação que esses produtos podem gerar nos rios próximos ao local em que são aplicados e mesmo fazer com que o consumidor acabe por ingerir um alimento que já recebeu grande carga de substâncias.

Para o pequeno agricultor, as mudanças são até mesmo estruturais. Com a tendência de abandonar a diversidade de culturas, o produtor perde flexibilidade em relação ao mercado. “Quanto mais produtos ele produzisse, mais possibilidades ele teria de, em um eventual fracasso de uma dessas culturas ou de uma queda dos preços, ele se manter com a renda mínima necessária para a família”, explica Silveira. Ele considera, ainda, outro ponto que tem sido foco de suas pesquisas: a produção de alimentos para o consumo da própria família, que perde espaço com a opção pela monocultura. A consequência é o empobrecimento da dieta.

O que ocorre, diferentemente do modo produtivo centrado na família, é a adoção de uma agricultura intensiva, própria do agronegócio, que vem seduzindo o agricultor. O professor Silveira considera que isso acontece porque o modelo atual conta com grande mecanização do processo, e a disponibilidade da mão de obra familiar não é mais, em muitos casos, suficiente. Além disso, produtos como a soja e o fumo, para citar dois exemplos, dão maior certeza de espaço no mercado econômico, pois têm comercialização garantida. Quando a safra não é boa ou o preço de mercado está em queda, porém, as dívidas pesam no bolso, sobretudo do pequeno agricultor.
<h4>&nbsp;</h4>
<h3><strong>POLÍTICAS PÚBLICAS E INVESTIMENTOS: UMA SOLUÇÃO&nbsp;</strong></h3>
Apesar dos problemas e processo de mudanças pelos quais passa a agricultura familiar, sua importância para o país não pode ser deixada de lado. Embora os maiores volumes de alimento sejam produzidos pelo agronegócio, o mercado externo é o seu principal destino. E é nesse contexto que a agricultura familiar ganha espaço, pois, como aponta Silveira, “em todos os tipos de alimentos, inclusive nos grãos, a produção do pequeno produtor é bastante significativa. Quando ela não corresponde por mais de 50% do volume total do abastecimento, é algo próximo a isso ou, até mesmo, superior à metade”.

Na prática, esse dado, somado a outros, resulta em um fato histórico: a saída do Brasil do Mapa Mundial da Fome. O dado foi anunciado em setembro de 2014 pelas Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Conforme pontuou a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, esse é um resultado que surge a partir da união de vários fatores e políticas públicas. Dentre eles estão o aumento da oferta de alimentos no país. Ainda, segundo dados da FAO, ao longo dos últimos dez anos, houve um aumento de 10% na oferta de calorias no país. Desses números já estão descontadas as exportações e contabilizadas as importações realizadas. Mas esse não é o único fator decisivo. Também foram fundamentais investimentos de geração de renda e, ainda, os feitos diretamente na agricultura familiar. Diferente do que mesmo os estudiosos da área costumavam entender, hoje sabemos que o problema da fome está mais ligado à desigualdade que existe nas políticas de distribuição e no modo como a produção está concentrada.

O professor Silveira considera que o sucesso relativo em combater a fome é uma decisão política de viabilizar condições de acesso ao alimento para aqueles que, historicamente, não tiveram essa disponibilidade. “Isso significa dizer que já tínhamos grande produção de alimentos, mas que eles não chegavam a todas as pessoas. Esse é um processo que se viabiliza a partir da criação de políticas públicas, como tem ocorrido”. Apesar da notícia de que o país saiu do Mapa Mundial da Fome, ele alerta para alguns desafios que ainda precisam ser considerados nesse cenário. O professor entende que a política de abastecimento que temos é extremamente fragilizada. “Por exemplo, muitas vezes o ideal seria que tivéssemos uma produção local ou regional que conseguisse abastecer as demandas daquela população e que se trouxesse de fora dela o mínimo necessário”, explica. Porém, não é isso que acontece. Não existe uma estrutura de planejamento capaz de operar regionalmente; por isso os alimentos acabam, muitas vezes, circulando por longas distâncias. O professor considera que essa é uma lacuna que os municípios poderiam suprir.

Outro problema apontado pelo professor Silveira é que, de forma cada vez mais progressiva, a produção de cana para fazer álcool e a de soja para fazer biodiesel, por exemplo, irão concorrer com a produção de alimentos para o consumo humano. Sua sugestão é uma política governamental decisiva para estimular a produção de alimentos, uma vez que a tendência é que ela diminua. “A não ser que consideremos alimentos somente os grãos, porque nos outros tipos a tendência é um decréscimo. Ambos os modos de produção [agronegócio e agricultura familiar] podem coexistir, mas é preciso que haja um equilíbrio entre ambos”, destaca. Talvez esse seja um dos grandes desafios do abastecimento de alimentos no Brasil.

<em><strong>Repórter</strong>: Daniela Pin Menegazzo</em>
<em><strong>Ilustradora</strong>: Carolina Delavy Chagas</em>]]></content:encoded>
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