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				<title>Maternidade nas mídias: entre a crítica, a romantização e a pressão social</title>
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				<pubDate>Fri, 06 May 2022 14:15:14 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Gênero]]></category>
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						<description><![CDATA[Em entrevista, a pesquisadora da comunicação Milena Freire fala sobre o estudo da maternidade nas redes sociais digitais]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p>Depois do nascimento da segunda filha, há cinco anos, Milena Freire se deparou com um dilema: a vontade de voltar ao trabalho e o sentimento de não se sentir preparada para o retorno. Ela é pesquisadora no campo da Comunicação, coordenadora no <b><a style="text-decoration: none" href="https://www.instagram.com/gp.comunicacaoegenero/">Grupo de Pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades (CNPq/UFSM)</a></b> e docente do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no curso de Publicidade e Propaganda. Diante do impasse, ela usou suas redes sociais digitais para compartilhar o misto de sentimentos: “Eu escrevi um post em que coloquei algo do tipo: ‘não tá tudo bem, não sei se quero voltar, eu não estou pronta, mas ao mesmo tempo eu quero’”, conta.</p>		
									<figure>
										<img width="550" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2022/05/image1-550x1024.jpg" alt="Captura de tela de post do Facebook em formato vertical. Na parte superior, fotografia circular ao lado do nome &quot;Milena Freire&quot; em azul. Abaixo, texto em preto: &quot;Eu não estou pronta. Amanhã é o meu último dia de licença maternidade (+ férias). Foram precisamente 228 dias que tive para me renovar como mãe e como mulher. Tenho consciência do meu privilégio em acompanhar integralmente os primeiros meses da Nina. Mas isso não me tira do pensamento a intranquilidade a que são submetidas as mães, sejam elas trabalhadoras do mercado ou do lar. A maternidade nos faz experimentar os sentimentos mais ambivalentes: força/cansaço; alegria/tristeza; companhia/solidão; coragem/insegurança. A licença, nesse contexto, parece o momento &quot;legal&quot; que lhe foi destinado a viver e ajustar todos os sentimentos, além dos cuidados objetivos que o bebê precisa. Como se todo o restante da vida ficasse parado nesse período ou como se ela voltasse ao &quot;normal&quot; após sua passagem. Nos primeiros meses da maternidade, cada demonstrava do desenvolvimento do bebê nos faz sentir alegria e orgulho, na mesma medida em que a soma de cada nova tarefa traz uma angústia que parece incompreensível aos olhos de quem vê de fora. Fralda, sono, peito, banho, mamadeira, roupa, remédio, médico, vacina, brinquedo, estímulo, choro, satisfação. Tudo se soma ao que já existia antes, mas não tem a mesma cara. Foi preciso administrar o que de alguma forma mudou com a chegada da Nina: a casa, a relação com o marido, com o próprio corpo, com o filho que virou &quot;mano&quot; (e que sentiu ciúmes). Quantas vezes achei que não conseguiria dar conta. Quantas efetivamente não dei. O que mais me inquieta, de fato, é saber que a maior parte destas preocupações e expectativas são criadas. Por mim e pelo entorno. E o que é mais intrigante: não se fala sobre isso. A maior parte das mães (para não dizer todas), vive estes sentimentos mas não se encoraja a falar do que lhes fragiliza. Somos estimuladas a sustentar a ideia de que tudo está maravilhoso e sob controle. Para mim, o momento de voltar ao trabalho, retomar a rotina sem que nada (nem eu mesma) seja como antes, faz abrir um abismo. Uma série de dúvidas, inseguranças, cobranças desorganizam (um pouco mais) a cabeça e o coração. É hora de saber dividir o tempo, a atenção, de fazer um encaixe entre as novas e as velhas tarefas e preocupações. O sentimento (e a certeza) de que será necessário estar em falta com algo/alguém por vezes me desconforta. Olho para Nina, tão doce e tranquila, e penso que ser mar de uma menina pode ser ainda mais desafiador. Talvez eu precise lhe mostrar ao longo da vida que não é possível nem necessário ser &quot;super&quot; ou &quot;dar conta de tudo&quot;. Mas que podemos ser &quot;o melhor possível&quot;, com todo o afeto e intensidade que desejarmos empenhar em cada relação, seja como mãe, como esposa, como filha, como amiga, como profissional ou como dona-de-casa. Que venha a segunda-feira. Eu não estou pronta. Mas talvez não precise mesmo estar." loading="lazy" />											<figcaption>Captura de tela de post de Milena Freire</figcaption>
										</figure>
		<p>Sobre a repercussão, Milena comenta que um dos pontos que chamou a atenção é que só as mulheres da sua rede comentaram a postagem. O outro ponto foi a ambivalência desses comentários: “algumas se identificaram e outras tinham o discurso de que ser mãe é padecer no paraíso”, relembra. A partir disso, a pesquisadora percebeu a necessidade de discussão da intersecção entre maternidades e mídias.</p>		
												<img width="1024" height="667" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2022/05/Capa-1024x667.jpg" alt="Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida em tons de azul e verde turquesa. No lado direito da imagem, tela vertical de seleção de foto do Instagram. No centro superior, fotografia de uma mulher com um bebê recém-nascido no colo. A mulher tem pele branca, tem cabelos escuros, ondulados e curtos; ela sorri amplamente; veste regata branca. O bebê veste roupa e touca verde turquesa, e uma chupeta da mesma cor. O fundo da imagem é verde turquesa. Na parte superior da foto, o texto &quot;Nova publicação&quot;. Na parte inferior, sobre fundo branco, o texto &quot;galeria&quot;, e, abaixo, oito fotografias de diferentes ângulos do bebê dispostos em duas fileiras. No centro esquerdo da ilustração, atrás da tela, a mesma mulher, de olhos arregalados, cabelos despenteados, com alguns fios para cima. O bebê está com a boca aberta. Acima e abaixo, recortes de seis comentários: &quot;Realidade de praticamente toda a mãe :)&quot;; &quot;Tá cansada? Ninguém pediu pra nascer?&quot;; &quot;Texto maravilhoso&quot;; &quot;Como eu amo esses textos&quot;; &quot;Tá reclamando por que? Não quis ser mãe?&quot;. O fundo é cinza escuro." loading="lazy" />														
		<p>No próximo domingo (08), ocorre o Dia das Mães, e, em referência à data, a Revista Arco entrevistou Milena Freire para falar sobre sua pesquisa e sua relação com a maternidade, e de que forma ela se intersecciona com as mídias. Confira:</p><p id="docs-internal-guid-da1ebe49-7fff-141f-4bf6-97da34e6cf34" dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: Por que a escolha da maternidade como temática de estudo?</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Milena: Essa motivação veio a partir da minha experiência pessoal. Mais do que a temática de estudo, acho que a maternidade implicou em uma posição mais afinada e em um reconhecimento da necessidade do estudo e do engajamento feminista. Foi a partir do reconhecimento das desigualdades que me eram postas - e do reconhecimento da existência dessas desigualdades na vida de outras mulheres - que, há treze anos, me coloquei de modo mais próximo e hoje me reconheço como uma mulher e uma pesquisadora feminista. Embora reconhecesse a necessidade de pensar e refletir sobre as desigualdades, foi a experiência da maternidade que me colocou nesse lugar. </p><p>No momento em que ingressei no Programa de Pós-Graduação (Poscom) como docente, apresentei o projeto para ingressar no PPG. Eu já tinha feito, na minha <b><a style="text-decoration: none" href="https://repositorio.ufsm.br/handle/1/3435">pesquisa de doutorado</a></b>, um trabalho que falava sobre gênero e desigualdade, mas a partir de uma perspectiva do trabalho feminino, interseccionado por questões de classe social e por questões que observam o trabalho desde o mercado até o trabalho doméstico. Conforme fui concluindo a tese, essas questões da maternidade se apresentaram entre as minhas entrevistadas que eram mulheres de classe popular. Aí eu parti para o reconhecimento da maternidade como um trabalho.</p>		
							<b>Acho que isso foi algo que conjugou meus interesses anteriores, de observar questões relacionadas ao trabalho, mas de entender que</b> a maternidade inclui uma série de demandas que são colocadas para as mulheres de modo cultural, histórico e social e que, como são atravessadas pela intermediação de questões como afeto, não são reconhecidas como um trabalho. São colocadas como um destino, um prazer, um desígnio de Deus, mas não são vistas como trabalho.
		<p>O meu projeto trabalha as representações da maternidade nas redes sociais. Desde a última década, nos vemos performando ou construindo uma parte importante da nossa sociabilidade a partir das redes sociais digitais. A maternidade, nesse caso, também está bastante implicada no processo, na medida em que se sugere ou se exige das mães que compartilhem essa experiência majoritariamente de modo positivo. Eu me vi pessoalmente demandada e implicada a refletir sobre isso.</p>		
									<figure>
										<img width="1013" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2022/05/Retrato-1013x1024.jpg" alt="Descrição da imagem: ilustração quadrada e em tons de azul e verde turquesa de uma mulher em primeiro plano. Ela tem pele branca, cabelos escuros, curtos e levemente ondulados, expressão facial tranquila, faixa etária em torno de quarenta anos. Tem olhos esverdeados, sobrancelha fina e escura. Sorri levemente. Usa camiseta azul marinho. O fundo é verde turquesa." loading="lazy" />											<figcaption>Milena Freire.</figcaption>
										</figure>
		<p id="docs-internal-guid-8c4a0704-7fff-f8be-d8f5-f90e7398cb61" dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: Qual é o maior desafio de pesquisar a maternidade?</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Milena: Eu acho que o primeiro desafio é sair do circuito materno, porque a maior parte das trocas que consigo estabelecer no campo de pesquisa são com outras pesquisadoras mães. A maternidade parece, mesmo dentro do campo do feminismo, um assunto menor, doméstico, relacionado ao afeto, ou seja, individual. Um dos pareceres sobre o meu projeto dizia para tomar cuidado para que o projeto não fosse uma questão pessoal, como se a pesquisa não pudesse ser política. Eu, particularmente, me vi envolvida e estimulada a pensar sobre esse tema a partir da minha experiência. Mas não quer dizer que somente pessoas que têm a experiência materna possam falar sobre. A maternidade é uma questão da sociedade.</p>		
							O principal desafio de pesquisar a maternidade é o tanto que esse tema é colocado como menor, como algo que é do interesse apenas de quem está vivendo. E não pode ser. A maternidade é uma questão política.
		<p>Nós como sociedade precisamos continuar existindo. Esse é um grande mérito do neoliberalismo: entregar para a mãe ou para a  mulher a ideia de que a maternidade é uma escolha, logo, é um problema da mulher. Isso tudo é uma falácia. Nós lidamos, na nossa sociedade machista e patriarcal, com uma maternidade que é compulsória. Muitas vezes, as mulheres não escolhem ser mães, nós vivemos em uma sociedade cujos preceitos religiosos e legais não nos permitem interromper uma gravidez. Então a maternidade não é uma escolha. Vivemos em uma sociedade em que a paternidade pode ser negligenciada, basta levantarmos dados estatísticos da quantidade de filhos que não têm o registro paterno [segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 34 milhões de mulheres são chefes de família no Brasil]  e tantos outros que não têm os seus pais próximos no processo de educação. Nesse contexto, quando falamos da pesquisa da maternidade, se diz que isso é coisa de mulherzinha, de mãezinha. Do ponto de vista da pesquisa, se vê que, mesmo dentro dos estudos feministas, não existe um espaço para discutir as questões de maternidade. A minha pesquisa, do ponto de vista teórico, é filiada ao feminismo matricêntrico, de uma pesquisadora canadense chamada Andrea O'Reilly, que diz que a maternidade é um elefante na sala do feminismo. </p><p id="docs-internal-guid-7f2f33cf-7fff-9084-4773-d15adfc13674" dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: Quais são as principais características da intersecção entre maternidades e mídias? </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Milena: Como uma pesquisadora do campo dos estudos culturais e que tem foco voltado ao que as pessoas fazem com aquilo que elas lêem, consomem, produzem e projetam nesse grande campo comunicacional, meu foco de pesquisa é voltado para entender como as mulheres se relacionam com essas representações de maternidade que elas consomem, mas que elas também produzem. Essas representações são distintas e por vezes antagônicas, às vezes falamos da romantização da maternidade, do que se fala e do que se espera de uma mãe, de que ela também reforce a perspectiva de uma experiência transformadora, de um amor incondicional e assim por diante. Mas, por outro lado, existem outros discursos que fazem esse questionamento. Nós, como partícipes desse grande processo que são as redes sociais digitais, construímos a nossa própria subjetividade materna à medida que partilhamos dessas experiências. Existem pesquisas muito interessantes que vão falar sobre as representações da maternidade na mídia específica e dirigida para as mães, que são os blogs maternos, as revistas, programas, documentários e séries específicos: são saberes quase disciplinares, que vão reportar o saber médico, os grandes especialistas que vão dizer para mãe o que e como se deve fazer alguma coisa. Podemos ver muitas representações da maternidade na publicidade, nas artes e em várias outras intersecções sobre as quais podemos pensar o modo a partir do qual entendemos o que é ser mãe e como ser mãe, que está, muitas vezes, sustentado ou reforçado pela mídia.</p><p> </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: No <a style="text-decoration: none" href="https://periodicos.ufpb.br/index.php/artemis/article/view/60139">artigo ‘Mãe é mãe, né pai?’</a>, usa-se a expressão ‘maternidade opressora’. É possível estabelecer, na sociedade de hoje, uma maternidade que não seja opressora?</p><p>Milena: Sim, é  para isso que a gente batalha, mas isso não quer dizer que seja fácil. A ideia da maternidade opressora é trabalhada pela Andrea O'Rilley no sentido de entendermos a maternidade como uma opressão adicional às mulheres. Por isso que ela reivindica que devemos observar, no estudo do feminismo, a maternidade no centro da discussão. Existem as opressões que são vividas pelas mulheres e existem as opressões que são vividas pelas mulheres que são mães. Quando eu falo de uma opressão adicional, trata-se de um atravessamento. Pensar nas interseccionalidades não significa pensar em quem é mais oprimido. Não é um concurso, não é um somatório que vai dizer quem é mais oprimido, mas são opressões que precisamos pensar de acordo com o contexto e a realidade. As mulheres mães de classe popular passam por opressões e dificuldades diferentes daquelas mulheres que são mães de classe média, entre outros exemplos. Eu acho que é possível a gente pensar em uma maternidade que não é opressora, mas dentro de um contexto bem específico. Em um contexto social amplo, infelizmente não.</p>		
							A maternidade é opressora porque restringe uma série de cuidados e expectativas à figura da mulher mãe. Mas por que a maternidade pode não ser opressora? Porque a maternagem não é uma condição específica da mulher.
		<p id="docs-internal-guid-1b05a634-7fff-2ff9-44a2-057476dc0591" dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">A maternagem é o conjunto de atividades culturalmente atribuídas à mulher, que são relacionados a uma criança para sua educação e para o seu desenvolvimento. Se a maternagem for compartilhada e reconhecida como uma questão social, a maternidade deixa de ser opressora.</p>
<p></p>
<p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: O que definiria a maternidade patriarcal?</p>
<p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Milena: A Andrea O'Reilly nos faz uma contribuição a partir de dez pressupostos construídos na sociedade patriarcal:: princípio da individualização, da biologização, da essencialização, da privatização, da naturalização, da normalização, da especialização, da intensificação, da idealização e da despolitização. São pressupostos que vão dizer que é a mulher que performa a maternidade e que a mulher que é mãe sabe fazer melhor. Isso é um conceito, mas eu posso observar a maternidade a partir de várias outras lentes. A construção da maternidade patriarcal se dá dentro do que é reconhecido como pressuposto básico da maternidade na nossa cultura. É interessante e é difícil enxergarmos uma maternidade que não seja patriarcal, porque isso está dentro da cultura, mas conseguimos observar como esses preceitos aprisionam a mulher. À medida que esses problemas se tornam evidentes, conseguimos desmistificar determinadas questões e dizer ‘olha, aqui está o momento em que eu me torno oprimida por esse patriarcado’.</p>
<p></p>
<p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: A maternidade é permeada de desigualdades de gênero, padrões e pressões sociais. De que forma essas questões que permeiam a maternidade reverberam nas redes sociais digitais?</p>
<p>Milena: A maternidade romantizada não aparece como uma opressão, muito pelo contrário. Ela aparece como uma dádiva, como a melhor experiência do mundo. Parece até um contrassenso. Cadê a opressão, se está sendo dado a ela a melhor experiência que se pode ter? Mas existe uma série de outros discursos que circulam na rede que tem demonstrado essas opressões, que é aquilo que vamos denominar de maternidade real. Existem perfis que precisam ser observados, o da<a style="text-decoration: none" href="https://www.instagram.com/andressareiis/"> Andressa Reis</a> é muito interessante: ela é uma mulher negra de classe popular, da periferia do Rio de Janeiro. Ela faz um questionamento muito interessante sobre as posições que são colocadas para as mulheres que são mães. Ela consegue criticar e fazer comparativos a partir de cenas do cotidiano. É um conteúdo que extrapola as redes e circula entre as mulheres, que começam a se identificar. É interessante esse movimento. Quanto mais damos visibilidade, mais as mulheres se veem identificadas. Em 2020, nós fizemos um questionário com mais de 2000 respostas para a pesquisa “Maternidade e uso das redes em tempos de pandemia”, do Grupo de Pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades (CNPq/UFSM): por um lado, 80% das mulheres que são mães afirmaram que leem e consomem esse material que critica e que questiona determinados aspectos da maternidade. No entanto, uma parte considerável delas afirmou que não se sente confortável para repostar ou produzir material com esse conteúdo. Isso é interessante porque demonstra a existência dessa engrenagem:</p>		
							&nbsp;Na mesma medida em que essas mulheres consomem, leem e se interessam por esse questionamento da maternidade, elas não se sentem à vontade para expôr a crítica nas suas páginas pessoais. Em alguma medida, elas sabem que, se colocarem essa crítica nas suas páginas, vão ter que enfrentar a opressão da maternidade patriarcal.
		<p>Mas, ainda assim, consumir esse material já é um movimento importante. A&nbsp; crítica está circulando e as mulheres, em alguma medida, podem se sentir aptas a construir o discurso e a crítica nas suas rotinas. Isso tem um valor significativo e precisamos reconhecer como uma prática desse movimento.</p>		
									<figure>
										<img width="1024" height="790" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2022/05/Foto-1024x790.jpg" alt="Descrição da imagem: fotografia horizontal e colorida de uma mulher e duas crianças. No centro, mulher de pele branca, cabelos castanho claros, curtos e lisos levemente ondulados, tem olhos escuros, algumas rugas e sorri amplamente; veste casaco escuro e lenço xadrez em tons terrosos. Na esquerda, menina de cinco anos, de pele branca, cabelos loiro escuros e lisos, olhos escuros; ela veste um moletom cinza claro com uma borboleta dourada. No lado direito, menino de em torno de dez anos, tem pele branca, cabelos loiro escuros e ondulados, olhos escuros; veste moletom preto. Ao fundo, estante com livros." loading="lazy" />											<figcaption>Milena Freire e os filhos, Nina e Tomás.</figcaption>
										</figure>
		<p id="docs-internal-guid-1dbfb88e-7fff-56bf-53a2-6aeac740d2b1" dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: De que forma os perfis em redes sociais digitais que contestam  os papéis de gênero e a maternidade enquanto instituição podem contribuir no debate além de fazer circular a crítica?</p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Milena: A pandemia elucidou e demonstrou que estamos atravessando uma crise do cuidado, e ela se intensificou a partir da pandemia. Naquele momento em que estávamos em isolamento, em que a casa se tornou o principal espaço de sociabilidade e de cuidado, foram as mulheres que mais foram sobrecarregadas, tanto no cuidado com os filhos como com o cuidado com o ambiente doméstico e com os próprios familiares. A ideia do cuidado ultrapassa o cuidado com os filhos e ela vai até o cuidado com toda a família. A crise do cuidado fez eclodir coletivos maternos, que se constituem e se fortalecem a partir das redes. Eles se consolidam e se juntam para reivindicar políticas públicas de combate a essas desigualdades. Dentro do ambiente universitário, as mães que mais sofreram com a pandemia são as estudantes que precisaram manter sua rotina de estudos e, por muitas vezes, perderam os seus benefícios socioeconômicos e não tinham onde deixar os seus filhos em creche ou em escola. Além disso,  há algo que eu acho que é interessante pensarmos no que diz respeito aos leitores da Arco: nós não temos um respaldo substancial que dê conta das demandas das mães estudantes. Para mães estudantes, não há licença maternidade - é um período de afastamento tal como uma licença de exercícios domiciliares. Mas esse filho continua adoecendo, precisa ir ao médico. Quando essa estudante mãe precisa faltar, ela precisa contar com a boa vontade dos professores. Nós precisamos de espaços em que essas mães possam deixar seus filhos quando precisam fazer um trabalho coletivo. É a partir desses coletivos maternos que as mães se juntam para falar sobre suas questões e para reivindicar a maior parte dos seus direitos. </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: Como se constitui a representação da maternidade pela mídia hegemônica? </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Milena: A mídia hegemônica tende a não fazer maiores questionamentos. Não é ela que propõe desestruturar o que está posto. Só acontece quando já é questionado na sociedade. A mídia hegemônica vai dar conta de determinadas pautas, e a telenovela é uma excelente representação para isso. Não estou dizendo que não é importante que a mídia hegemônica faça esse questionamento, mas ela amplia um movimento que já está fundado na própria sociedade.  A publicidade não consegue fazer isso, nunca conseguiu e não sei se ela está interessada em fazer. O máximo que ela vai fazer é colocar a dupla maternidade, colocar mulheres negras no comercial, mas o pai continua aparecendo como um sujeito coadjuvante, como aquele que brinca ou como desastrado. Ele não aparece como alguém que exerce a maternagem. O humor é usado como um elemento sofisticado para dizer e reiterar isso, e acaba por favorecer uma lógica que é nociva. Existem representações de desconstrução dessa mídia hegemônica, mas elas são tímidas. Eu vejo como um movimento que já é pulsante na própria sociedade. A mídia especializada e o cinema conseguem questionar mais. Mas, se olhar para o jornalismo, para a publicidade e para a telenovela como discursos hegemônicos, o que mais vemos é o reforço do padrão que oprime as mulheres. </p><p dir="ltr" style="line-height: 1.575;text-align: justify;margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt">Arco: Qual o espaço que ocupa a romantização da maternidade nessas diferentes mídias? </p><p>Milena: É o maior espaço. Eu acho que o que a gente tem visto nos últimos anos é uma quebra. Quando entrevistamos as mulheres, elas reproduzem isso, elas dizem que o laço entre a mãe e o filho é diferente porque a mãe é que gera desde a barriga. O espaço é predominante e o questionamento é mínimo. Precisamos pensar sobre isso, inclusive como esse questionamento aparece. Na nossa configuração social e política, o jornalismo às vezes traz o discurso de protagonismo de famílias monoparentais e das mulheres chefes de família como se elas estivessem protagonizando uma revolução. Isso aparece como positivo, mas não se descortina. É um grande problema social que está posto. Ou temos um discurso absolutamente nocivo da mídia, ou um discurso que é sustentado e que circula na sociedade e que se o jornalismo não tomar conta e não cuidar com o que fala, acaba por reforçar e reproduzir como uma verdade.</p>		
							<p dir="ltr" style="line-height:1.575;text-align: justify;margin-top:0pt;margin-bottom:0pt" id="docs-internal-guid-2ac886fd-7fff-adcc-3f4a-941914765475">Falar sobre maternidade é também falar sobre uma estrutura social mais ampla que condiciona ou que coloca a mulher em um espaço difícil.&nbsp;</p>
		<p><strong><em>Expediente: </em></strong></p><p><em><strong>Entrevista:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;</em></p><p><em><strong>Design gráfico:</strong> Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;</em></p><p><em><strong>Mídia social:</strong> Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;</em></p><p><em><strong>Relações Públicas:</strong> Carla Isa Costa;</em></p><p><em><strong>Edição de Produção:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;</em></p><p><em><strong>Edição geral:</strong> Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.</em></p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Os usos sociais das mídias por migrantes senegaleses no Brasil</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/midias-sociais-migrantes-senegaleses</link>
				<pubDate>Wed, 13 Oct 2021 13:34:35 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[ciências sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[destaque arco]]></category>
		<category><![CDATA[destaque ufsm]]></category>
		<category><![CDATA[migrações]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/arco/?p=8700</guid>
						<description><![CDATA[Estudo da Comunicação investiga o papel das mídias na trajetória migrante]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p>Participação social, construção de narrativas de si e manutenção de vínculos. Esses são alguns dos elementos que os usos sociais das mídias proporcionam na experiência migratória de senegaleses no Brasil. </p><p>É o que evidenciou uma pesquisa realizada no Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM e coordenada pela professora Liliane Dutra Brignol. O estudo é fruto de um amplo projeto de pesquisa chamado “Comunicação em rede, diferença e interculturalidade em redes sociais de migrantes senegaleses no Rio Grande do Sul”, que, de 2014 a 2018, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), buscou investigar as dinâmicas de comunicação em rede e as lógicas de redes sociais articuladas pelos migrantes senegaleses no estado do Rio Grande do Sul.</p><p>Em um <a href="https://www.scielo.br/j/dados/a/gNWykz9bKLJh79zCVYbJZkz/?format=pdf&amp;lang=pt">artigo</a> publicado neste ano, a professora expõe os resultados desse trabalho e busca discutir qual o papel que as mídias digitais e em rede assumem na organização das redes migratórias. Isto é, como a comunicação em mídias sociais e aplicativos de mensagens, por meio do uso de aparatos tecnológicos, como computadores e celulares, afetam a experiência migrante. O intuito foi conhecer como se articulavam as relações sociais tanto entre os migrantes, quanto entre os migrantes e a população local.</p>		
												<img width="1024" height="668" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/10/imigrantes-1024x668.jpg" alt="" loading="lazy" />														
		<p>A metodologia da pesquisa reuniu um conjunto de técnicas, dentre elas a observação simples e a observação participante. A observação simples consistiu no acompanhamento de redes sociais online, páginas, comunidades e perfis no Facebook. Já a observação participante, aquela que possibilita a inserção dos pesquisadores nas vivências dos grupos em estudo, os aproximou de entidades de apoio à migração, associações e até de festividades e reuniões promovidas pelos migrantes. Além das conversas informais, o estudo também contou com entrevistas estruturadas com os sujeitos pesquisados.</p><p>O encontro com esses migrantes contou com a parceria do <a href="https://www.ufsm.br/grupos/migraidh/" target="_blank" rel="noopener">MIGRAIDH</a>, Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão Direitos Humanos e Mobilidade Humana Internacional da UFSM, no qual Liliane integra uma das linhas de pesquisa. Desde 2013, o grupo desenvolve ações na área de direitos humanos e de integração local da população migrante e refugiada, o que permitiu a entrada no campo dos estudos migratórios com a presença dos senegaleses. </p><p>Todo esse percurso levou tempo, segundo a professora Liliane, mas foi essencial para a inserção na vivência dos migrantes e trouxe percepções importantes acerca dos usos sociais das mídias por eles. Conforme a pesquisadora, as tecnologias se mostraram essenciais tanto no processo de deslocamento, quanto em toda a trajetória migratória. “Percebemos o papel da mídia e da internet na mediação da construção dessas narrativas migrantes, de outras formas de visibilidade e reconhecimento da experiência migratória”, destaca.</p>		
			<h3>O uso das mídias na construção de identidades migrantes</h3>		
		<p>A investigação mostrou que são assumidos sentidos de <b>participação social</b> quando as tecnologias em rede são utilizadas, por exemplo, para o aprendizado formal e informal de português. Conteúdos em formato de vídeo são produzidos e compartilhados em redes sociais para o ensino do idioma, algo essencial tanto para integração dos sujeitos na cultura brasileira, mas também para que possam se inserir no mercado de trabalho. Esse tipo de ação é realizada por projetos como o “<a href="https://www.facebook.com/Senegal-Ser-Neg%C3%A3o-Ser-Legal-758150887628188/" target="_blank" rel="noopener">Senegal, ser negão, ser legal</a>”.</p><p>Também foi observado o local central que os usos sociais da mídia ocupam na construção de <b>narrativas migrantes</b> - muitas vezes, como uma forma alternativa às narrativas construídas pela mídia tradicional. Na pesquisa, são apresentados projetos de produção de conteúdos para canais de TV voltados à cultura senegalesa, mas que buscam também estabelecer diálogos com outras nacionalidades. É o caso do <a href="https://www.facebook.com/senebrasiltv/" target="_blank" rel="noopener">Sene Brasil TV</a> e o <a href="https://www.facebook.com/profile.php?id=100010155188464&amp;fref=ts" target="_blank" rel="noopener">Touba Brasil TV Rio Grande do Sul</a>. A apropriação das redes sociais online também permite que os próprios sujeitos contem suas histórias e coloquem em circulação questões referentes às suas identidades. </p><p>A <b>manutenção de vínculos</b> com familiares e amigos que permanecem no Senegal também se dá, principalmente, por aplicativos de mensagens, como <i>Whatsapp, Viber e Emo</i>. Tendo em vista o caráter transnacional desse tipo de migração, a tecnologia é essencial para manter conexões e interações que transcendem os limites territoriais. </p><p>A comunicação pela internet é importante para garantir o contato com conhecidos, amigos e parentes que já migraram, estabelecendo uma <b>rede de apoio</b> na organização e na dinâmica migratória. Há ainda uma relação presencial, mas também mediada pelas tecnologias, principalmente para troca de informações sobre o contexto local, como ofertas de emprego e moradia.</p>		
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										<img width="521" height="457" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/10/coletivo_ser_legal.PNG.jpg" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Publicação com divulgação de live que promove a integração entre membros de um dos coletivos observados pela pesquisa. Print tirado na página do Facebook "Senegal, Ser Negão, Ser Legal".</figcaption>
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		<p>Mas, para além disso, as redes de apoio também se constituem nas associações, movimentos, clubes, vivências religiosas e outros espaços que são construídos pelos migrantes e que também funcionam a partir da mediação de contato pelas mídias sociais e em rede. </p><p>De acordo com o estudo, o processo de migração acompanhado da apropriação das tecnologias da mídia é capaz de <b>ressignificar a experiência diaspórica</b> e de <b>cidadania migrante</b><b>. </b>A docente explica que o conceito de diáspora, neste caso, é entendido como identidades em deslocamento, que passam a ser construídas em uma relação de identificação com a nova cultura, mas também de diferença pelo pertencimento à terra de origem.</p><p>Ao considerar a migração não apenas um deslocamento físico, mas cultural, Liliane destaca a importância de se estudar o tema pelo olhar da comunicação. “Um migrante não migra sozinho, ele já faz parte de uma rede. Ele traz esses laços familiares, culturais, suas vivências, bagagens, histórias e vai dinamizar também essas relações sociais e culturais nos locais para onde ele migra”, ressalta. </p>		
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										<img width="543" height="546" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/10/image-1.png" alt="" loading="lazy" />											<figcaption>Publicação com mensagem antirracista de uma das páginas que compõem a pesquisa. Print tirado na página no Facebook "Senegal, Ser Negão, Ser Legal".</figcaption>
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		<p>Diante disso, o uso das tecnologias da mídia se tornam fundamentais, pois os indivíduos passam a se valer da conexão para ampliar interações e colocar em contato suas identidades, diversidades e diferenças de maneira mais dinâmica. As mídias também são apropriadas no sentido de tematizar os preconceitos sofridos pela população migrante, como racismo e xenofobia. As questões são abordadas tanto nos perfis pessoais, quanto nas páginas dos projetos e coletivos formados por eles. Ao perceberem essas condições passam a reivindicar e construir novas formas de representação. </p><section data-id="98ed197" data-element_type="section"><section data-id="5f882e8" data-element_type="section"><p><em><strong>Expediente</strong></em></p><p><i><strong>Reportagem:</strong> Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária</i></p><p><strong>Ilustração: </strong><em>Noam Wurzel</em><i>, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista</i></p><p><i><strong>Mídia Social:</strong> Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista<br /></i></p><p><i><strong>Edição de Produção:</strong> Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><i><strong>Edição Geral:</strong> Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas</i></p></section></section>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Narciso acha feio o que não é espelho?</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/narciso</link>
				<pubDate>Wed, 18 Aug 2021 11:53:29 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[humanidades]]></category>
		<category><![CDATA[destaque arco]]></category>
		<category><![CDATA[destaque ufsm]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[internet]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIOLOGIA]]></category>

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						<description><![CDATA[Entenda o que o aumento do uso das redes sociais durante a pandemia pode representar para o “Eu” e para a sociedade
]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p>“Redes” são interligações. Quando falamos em redes sociais, estamos considerando um espaço de “entrelaçamento” de uma sociedade. Em um período marcado pelo aumento do uso dessas ferramentas, entender essa sociedade e a si enquanto pertencente a ela é essencial. Afinal, hoje, devido à proeminência desses meios, pensar sobre a vida real também implica pensar sobre a vida virtual – e vice-versa.</p><p>No total, existem mais de 4,3 bilhões de usuários de mídias sociais em todo o mundo. Esse dado é disponibilizado pelo <a href="https://wearesocial.com/digital-2021" target="_blank" rel="noopener">Relatório Digital 2021</a>, publicado em parceria entre a We Are Social e a Hootsuite, agências globais de marketing digital especializadas nessas plataformas. O material também revela que, do ano de 2020 para 2021, durante a pandemia de Covid-19, as redes ganharam cerca de 490 milhões de novos usuários.</p><p>Além da quantidade de pessoas que as utilizam, também cresce o tempo de uso desses meios. O relatório calcula que o usuário típico passa cerca de 2 horas e 25 minutos nas redes sociais todos os dias, o que corresponde a aproximadamente 17 horas de sua vida por semana. Somados, os usuários de mídia social do mundo inteiro passarão um total de 3,7 trilhões de horas nessas plataformas em 2021, o que equivale a mais de 420 milhões de anos de existência humana combinada, estima a pesquisa. Ao que tudo indica, vivencia-se o ápice das redes sociais, que recebem cada vez mais usuários, tempo e atenção.</p>		
												<img width="1024" height="668" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/08/download-1024x668.jpg" alt="" loading="lazy" />														
		<p>Não é difícil visualizar esse contexto, afinal, para muitos, as mídias sociais se tornaram preferência na hora de se <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-05/aumenta-numero-dos-que-buscam-informacao-sobre-covid-nas-redes-sociais" target="_blank" rel="noopener">informar</a>, se comunicar e se entreter. Além da <a href="https://istoe.com.br/a-explosao-do-tiktok/" target="_blank" rel="noopener">explosão do Tik Tok</a>, redes sociais que já estavam em expansão há mais tempo receberam maior atenção. Segundo <a href="https://www.kantar.com/Inspiration/Coronavirus/COVID-19-Barometer-Consumer-attitudes-media-habits-and-expectations">dados divulgados pela Kantar</a>, empresa especializada em pesquisa de mercado, o uso do Instagram, Facebook e WhatsApp cresceu mais de 40% durante a pandemia.</p><p>O significado do aumento desses números varia, tendo potencial positivo ou negativo. As redes sociais podem representar uma forma de encontrar abertura em meio a um mundo temporariamente fechado, possibilitando manter algumas relações e rotinas apesar do distanciamento social ocasionado por este período. Contudo, essas ferramentas também podem representar o oposto: uma maneira de provocar ainda mais fechamento – em si e em seus próprios ideais.</p><p>Na perspectiva da virtualidade, poderíamos pensar tal processo pela existência dos <a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/algoritmo-atento-como-a-tecnologia-organiza-e-direciona-informacoes-dos-usuarios-da-web-em-perfis-comerciais/" target="_blank" rel="noopener">algoritmos</a>. Esses mecanismos automáticos buscam, por meio de critérios e cálculos, serem assertivos quanto ao nosso consumo. Há uma interpretação de nossos comportamentos nos meios virtuais e, a partir disso, a sugestão de publicações alinhadas a eles. Complexo, o processo envolve informações de inúmeras redes, que acabam por se interligar entre si. Desse modo, tentam nos aproximar de conteúdos que se relacionem conosco e com nossa realidade e, consequentemente, nos afasta do que é diferente disso. Porém, na perspectiva da “realidade”, podemos encontrar formas mais profundas de pensarmos o social das redes.</p><p>É isso que propõe André Oliveira Costa, ao compreender a importância de debater o que este momento ápice das mídias sociais representa para o “Eu” e para a sociedade. Professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM, ele sugere o seguinte ponto de vista: pensar a sociedade contemporânea e virtual, através da relação existente com a sociedade antiga e “real”.</p>		
			<h3>A história se repete</h3>		
		<p>No artigo “<a href="https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/comunicacoes/article/view/3594" target="_blank" rel="noopener">A construção do Eu nas narrativas de vida</a>”, com participação de Karen Worcman, André faz referência à obra do sociólogo Norbert Elias intitulada “A Sociedade de Corte”. O livro, em síntese, defende que a formação do Eu acontece em conjunto com a formação da sociedade. Para explicar isso, o autor descreve a construção da sociedade de corte, do Absolutismo Monárquico de cerca de cinco séculos atrás. A organização social desse grupo pode ser caracterizada por um aspecto que não parece ser tão obsoleto: na época, as pessoas estavam o tempo todo observando e controlando a si mesmas e às outras.</p><p>Essa organização não foge muito da realidade contemporânea. Com a expansão das redes sociais, lidamos com um espaço de entrelaçamento de uma sociedade que se “segue”, como registra a própria nomenclatura comum dos aplicativos. Em contato diário com a maioria dos usuários que optamos por acompanhar, observamos constantemente o nosso próprio perfil e os dos demais. Por vezes, isso se estende ao controle: além de haver regras de uso elencadas pelos serviços, se buscarmos entre os usuários, encontramos regras de “etiqueta” e de visibilidade.</p><p>Sobre o Eu nas redes sociais, André afirma: “É como fazer parte da sociedade de corte”. Segundo ele, no antigo grupo, os olhares representavam uma forma de as pessoas se reconhecerem como idênticas e pertencentes a uma certa camada social - de modo que uma funcionava como reguladora da outra, possibilitando, como um espelho, identificação. Isso se relaciona com as redes, na medida em que a vida virtual também traz a necessidade de buscar o olhar do outro para garantir certo reconhecimento. “É vida de corte, em que as pessoas se confirmam e se reconhecem. Se uma delas não gosta de algo, por exemplo, tem toda uma classe que vai fazer com que a pessoa seja excluída, afastada, pois há uma regulação”, descreve André.</p><p>Esse tipo de identificação é percebido por André como uma forma de gerar um fechamento em um certo grupo social. Há uma diferenciação entre os que fazem parte e os que não fazem. “Quem consegue construir para si certos comportamentos que fazem parte de um grupo, acaba se diferenciando daqueles que não conseguiram se submeter a essas regras do olhar, essas exigências sociais. Tudo isso é para poder encontrar um certo lugar de diferença, de destaque, de privilégio”, explica. Nas redes sociais, aqueles que reconhecem e acompanham as regras de “etiqueta” e visibilidade, conseguem construir comportamentos que agradam as exigências sociais e, assim, encontram um lugar de diferença – recebendo um retorno que não é toda a sociedade que recebe, simbolizado por um maior número de seguidores, comentários e curtidas.</p><p>Para compreender melhor a relação entre a sociedade das redes e a sociedade de corte, podemos relacioná-las a uma expressão contemporânea: bolha social. O termo sugere divisões, que ocorrem através da formação de grupos que se distanciam uns dos outros por enrijecerem determinados posicionamentos. Segundo <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1920816-cada-macaco-no-seu-galho---zuckerman.shtml?origin=folha" target="_blank" rel="noopener">matéria publicada na Folha de S. Paulo</a>, um estudo conduzido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostra que as redes sociais reforçam a propensão humana a buscar informações que se alinhem a ideias preconcebidas. Isso significa, portanto, o distanciamento de ideias diferentes.</p><p>Assim, as bolhas representam segregações de pessoas e de ideais. A fim de aprofundar a questão, André explica: “As pessoas se unem em um traço único e comum e, assim, se forma uma massa. Ou, na etimologia atual, uma bolha. A ideia é que todos são uniformes, indiferenciados, constituídos pelo mesmo traço e se identificam com o mesmo ideal. A massa representa quase que como um único indivíduo, porque essas pessoas acabam reproduzindo certos comportamentos. E qualquer diferença que tente se introduzir é eliminada”. Um exemplo do caso nas redes é que, muitas vezes, para não lidar com opiniões divergentes, a alternativa frequente é a opção de bloquear os usuários que as trazem para o espaço virtual.</p><p>Contudo, a ‘diferença’ que André menciona é eliminada não só no sentido de, muitas vezes, não haver aceitação de perspectivas diferentes, mas também ao tentarmos suprimir aspectos que fogem do tal “padrão” em nós mesmos. Isso porque estar preso em uma bolha significa internalizar e reproduzir que se deve ser igual às pessoas que fazem parte dela. Nas palavras de André, “o indivíduo se fecha em uma bolha e a reproduz mesmo sem saber. Isso ocorre muito facilmente, e vemos, inclusive, em discursos hegemônicos, que dizem de algo ‘estrutural’, em que as pessoas não se dão conta de que estão participando. Está na estrutura da formação da sociedade e do sujeito, que é constituído por isso, mesmo sem saber. ‘Você tem que gostar disso’, ‘Você tem que ser assim’.  Os grupos se constroem nessa lógica de identificações e diferenciações”. </p><p>Logo, para o pesquisador, é como se as redes sociais explicitassem uma repetição dessa vida longínqua, de cerca de 500 anos atrás, em que carregamos secularmente a necessidade do olhar do outro para poder nos reconhecermos como alguém, para poder dizer “eu sou” ou “eu faço parte”. O que nos atrai, é a sensação de pertencimento, que faz com que, por vezes, nos adaptemos às exigências sociais desses meios. André acrescenta: “Esse sentimento nos satisfaz narcisicamente, em que se pode pensar ‘como eu pertenço a essa classe, eu sou privilegiado de estar ali, eu tenho capacidade, qualidade e virtude para fazer parte de um determinado grupo’. É como pertencer à sociedade de corte”.</p>		
			<h3>Para além do espelho</h3>		
		<p>O psicanalista e doutor em Filosofia pela PUCRS, Luciano Mattuella, traz uma perspectiva semelhante. Segundo ele, a supervalorização do Eu faz parte da cultura contemporânea. Mas, embora isso seja explicitado através das redes sociais, é algo que sempre existiu. “Sempre precisamos, em toda a história da humanidade, do olhar de um outro que nos constituísse e dissesse de alguma forma quem nós somos. Os outros são os nossos espelhos, nos quais a gente vê a nossa imagem refletida”, explica.&nbsp;</p>
<p>Luciano aponta que, devido a essa supervalorização agora conectada às redes sociais, por vezes cremos que, através dessas ferramentas, somos protagonistas o tempo todo, como se estivéssemos em uma condição de privilégio. “Mas, na verdade, somos todos figurantes. E essa promessa de protagonismo que a rede social produz pode gerar sofrimento, pois faz com que muitas pessoas se sintam como se não estivessem sendo reconhecidas como deveriam ser”, observa. Nesse sentido, ele relata que uma das sensações que surgem para o sujeito é a de estar sempre endividado – não com a própria história ou com a ética, mas com o outro, como se devesse a ele algo que possa ver e reconhecer.&nbsp;</p>
<p>O psicanalista descreve que, apesar da perspectiva de fechamento em si, o fundo histórico e constitutivo da necessidade do olhar do outro prova que, sem ele, não vivemos. Fundamental, ele faz parte do Eu. O almejado é conseguir atravessar essa ideia para se colocar disponível a algumas aberturas: “Com o tempo, o que se espera é que a gente possa lançar esse narcisismo investido na gente para o mundo. Se interessar pelo mundo, mesmo que do nosso ponto de vista, mas pelas outras coisas do mundo”.</p>
<p>Reconhecer a diferença é uma maneira de se distanciar da ideia de que somente o que é igual ao Eu – apenas o que é espelho – é digno de escuta. Isso não implica necessariamente concordar com perspectivas diferentes, mas estar disponível para ouvi-las e conhecê-las. Além desse movimento de escuta do novo e do diverso expandir as percepções para ajudar a “sair da bolha”, também pode trazer menos sofrimento.</p>
<p>Fabio Silva, professor de Jornalismo da UFSM, expressa que o sujeito que se dispõe à interlocução é um sujeito talvez mais preparado e menos sofredor do que o que se indispõe: “Aquele que se dispõe a falar e a ouvir de uma maneira realmente disponível, potencialmente sofre menos do que o sujeito que não se dispõe. Porque o sujeito que não se dispõe não consegue evitar totalmente esbarrar em uma opinião divergente. E se isso traz sofrimento, ele será vítima desse sofrimento”.</p>
<p>Quando a interlocução se dá por meio das redes sociais, é importante estar ainda mais atento. Afinal, segundo Fabio, as interações sociais que se estabelecem por meio da linguagem praticada nessas mídias tendem a ser mais fluidas, menos comprometidas e menos interessadas na existência e até no bem-estar do outro. Como cientista da linguagem e analista do discurso, ele acrescenta: “é uma forma de linguagem mais fragmentada - uma vez que, na maioria das vezes, costuma desprezar o contexto e, consequentemente, perde uma parte significativa e importante da possibilidade de compreensão do que o outro está dizendo”.</p>
<p>Refletir, questionar e dialogar aparecem como importantes caminhos para desviar o possível “fechamento” propiciado pelo maior contato com as redes sociais em um período em que tais meios tanto se expandem. Assim, fica mais fácil encontrar a abertura desejada e desejável através de um bom uso. Afinal, essas três ações permitem a entrada de novas perspectivas e da aceitação da diversidade, de modo que contribuem para que consigamos olhar para o que é diferente do Eu, ao invés de buscarmos apenas o que é igual. Considerar a diferença consiste, inclusive, em reconhecer épocas distintas, movimento importante que fica claro através das contribuições do professor André. Como exprime a significativa frase de Heródoto, historiador grego da Antiguidade, “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”.&nbsp;</p>
<p>As mídias sociais possuem um número de usuários que equivale a mais do que a metade da população total do mundo. Daí a importância de ter novas compreensões sobre elas e sobre o que, consequentemente, elas podem representar para os indivíduos e a coletividade a curto e longo prazo. Ao fim e ao cabo, é consenso entre os entrevistados: diante de um período tão produtor de sofrimento como o de isolamento social, as redes sociais são importantes ferramentas para a manutenção de rotinas de estudo, trabalho e entretenimento, e para a construção e o fortalecimento de laços sociais. Isto é, em seus fins de abertura. Por meio deles, fica mais fácil reconhecer como se caracteriza o bom uso das redes para cada sujeito e compreendê-las em seu verdadeiro significado: de interligar.</p>
<p>***</p>
<p><i>*Narciso acha feio o que não é espelho" é um verso da música "Sampa", de Caetano Veloso e Gilberto Gil.</i></p><section data-id="ec2bfff" data-element_type="section"><section data-id="6c53c41" data-element_type="section"><p><em><strong>Expediente</strong></em></p><p><i><strong>Repórter</strong>: Anna Júlia da Silva, acadêmica de Jornalismo (UFSM campus Frederico Westphalen) e estagiária<br /></i></p><p><i><strong>Ilustrador</strong>: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista</i></p><p><i><strong>Mídia Social</strong>:</i> <i>Samara Wobeto e Eloíze Moraes, acadêmicas de Jornalismo e bolsistas</i></p><p><i><b>Edição de Produção</b>: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><i><b>Edição Geral</b>: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas</i></p></section></section>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Como redes sociais hackeiam sua mente</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/como-redes-sociais-hackeiam-sua-mente</link>
				<pubDate>Thu, 28 Jan 2021 12:35:03 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[algoritmos]]></category>
		<category><![CDATA[dilema das redes]]></category>
		<category><![CDATA[mídias sociais]]></category>
		<category><![CDATA[neuropsicologia]]></category>
		<category><![CDATA[nomofobia]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[vício tecnológico]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/midias/arco/?p=6374</guid>
						<description><![CDATA[A senha para sua atenção é: neurociência e psicologia comportamental]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <h2><b>A senha para sua atenção é: neurociência e psicologia comportamental</b></h2><p>Se antes celulares e computadores já eram considerados uma extensão de nossos corpos, agora podemos considerá-los  uma extensão de nosso mundo. Uma pesquisa realizada pelo<a href="http://www.institutodelete.com/home" target="_blank" rel="noopener"> <u>Laboratório Delete</u></a><b><u> </u></b>ajuda a entender esse fenômeno. Entre os meses de maio e junho do ano passado, marcado pelo surgimento do novo coronavírus, o laboratório que faz parte do Instituto de Psiquiatria da Universidade do  Rio de Janeiro (UFRJ) realizou uma pesquisa com 870 pessoas, das quais 52,6% instalaram novos aplicativos para realizar mais atividades digitais e 43,8% passaram a fazer compras e operações bancárias online.</p><p>As medidas de isolamento social impostas pelo novo coronavírus fizeram com que as ferramentas digitais também dominassem as formas de interação e diversão. O estudante de Engenharia de Controle e Automação, Guilherme Basso, 24 anos, conta que com a pandemia, seu consumo de redes sociais aumentou significativamente e começou a afetá-lo. “O consumo desse conteúdo começou a me fazer mal, pois o que as pessoas mostravam nas redes sociais não era a realidade em que vivo”, relata.</p><p>Mesmo antes da pandemia, o uso mais saudável das mídias digitais, em especial das redes sociais, já era uma preocupação presente em inúmeros textos e vídeos pela Internet com dicas sobre como diminuir o tempo gasto online e ter uma rotina mais produtiva. Se você também se pergunta por que é tão difícil largar as redes sociais, a resposta está em “apenas” uma palavra: dopamina. Este neurotransmissor produzido pelo cérebro no sistema mesolímbico (conhecido também como “circuito de recompensa”), atua sobre o humor, o prazer, o aprendizado, a motivação, a coordenação motora, entre outras. </p><p>Sua liberação ocorre sempre que um estímulo externo é interpretado pelo cérebro como algo prazeroso. Esse estímulo pode vir ao se realizar atividades físicas, fazer sexo, comer chocolate, jogar videogame ou até no consumo de drogas lícitas e ilícitas. “O cérebro precisa de substâncias como a dopamina e serotonina para se sentir bem e ele aprende rapidamente quais atividades dão a ele as maiores quantidades”, explica a psicóloga clínica e fundadora do Laboratório Delete, Anna Lucia Spear King, também professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Entre essas atividades está o uso das redes sociais.</p>		
										<img width="1024" height="668" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/01/revista_arco_vicio_tecnologico-1024x668.jpg" alt="Ilustração, na horizontal, colorida e com a cor predominante em azul. Na ilustração há um jovem que tem a parte do seu corpo para dentro de uma tela do celular, o telefone e o jovem possuem quase a mesma altura. O jovem enxerga dentro do celular um espaço onde aparecem telas de aplicativos, ícones de redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram e vários emojis de carinha feliz, carinha triste e corações." loading="lazy" />											
		<h2>A psicologia por trás dos algoritmos</h2><p>Redes sociais são grandes fontes de dopamina não só porque a conexão com nossos amigos é divertida. Elas foram projetadas para sentirmos prazer, para que cada usuário fique imerso por horas naquela “realidade”. Jeff Orlowski, em seu documentário<u><a href="https://www.netflix.com/br/title/81254224" target="_blank" rel="noopener">“O Dilema das Redes”</a>,</u> mostra como desenvolvedores de sites e redes sociais como Facebook, Instagram, Pinterest e Gmail, projetaram o design desses produtos com base em estudos sobre psicologia comportamental. </p><p>O ponto de encontro entre programação e psicologia é o Laboratório de Tecnologia Persuasiva da Universidade de Stanford. Com o objetivo autodeclarado de ensinar os programadores do Vale do Silício - região da Califórnia, conhecida por ser o lar de algumas das principais empresas de tecnologia do mundo como Google, Facebook e Netflix - a transformar o comportamento dos usuários de seus produtos.  Para cumprir esse objetivo, o laboratório recorreu à obra de um dos maiores especialistas em comportamento do século XX, Burrhus Frederick Skinner.</p><p>Ele ficou conhecido pelo seu estudo na área comportamental da psicologia, em especial sobre esquemas de reforçamento. O psicólogo, por meio do Condicionamento Operante, buscava modificar comportamentos por meio dos “esquemas de reforço”. O esquema de reforço ensina o cérebro pela consequência após a ação. Se determinada ação é classificada como “boa”, há um estímulo positivo para que o cérebro repita essa ação no futuro. Quando uma ação é classificada como “ruim”, acontece o contrário: por meio de um estímulo negativo, busca-se ensinar o cérebro a não repeti-la.</p><p>Nas redes sociais os reforços positivos são constantes: curtidas, comentários em publicações e atualização dos feeds. Esses elementos são chamados de  reforçadores de razão variável, porque nunca se sabe quando ou em que quantidade  essa recompensa virá, como se fosse em uma máquina caça-níquel. Por meio dos esquemas de reforçamento, gradualmente o usuário das redes sociais passa a agir como um apostador: toda vez que olha para o celular, sente vontade de checar seus perfis para ver se há algum prêmio reservado para ele.</p><p>Quando esse prêmio está lá, ocorre a liberação de dopamina. Isso ocorre diversas vezes ao dia e exige pouco esforço do usuário, que deve apenas se manter conectado e ativo.  “Eu estou sempre com o meu celular por perto, por mais que eu não esteja usando, o celular está ali”, afirma a estudante de Publicidade e Propaganda e Influencer Digital, <a style="text-align: justify" href="https://www.instagram.com/luisajuleite/">Luísa Jurack Leite</a>, de 19 anos.</p><p>Luísa usa o Instagram como sua ferramenta de trabalho, seu perfil fala principalmente sobre moda e possui mais de 16 mil seguidores. Pela satisfação e retorno financeiro, a estudante avalia positivamente seu uso da rede social para trabalho, mas admite que poderia melhorar o seu uso como forma de lazer. Com a pandemia, o Instagram tornou-se a sua principal fonte de entretenimento e informação. Mesmo fora do trabalho, ela continua boa parte do seu dia conectada. "É uma relação de trabalho, mas, ao mesmo tempo, uma relação de dependência porque eu passo quase 70% do meu dia no Instagram”, afirma. </p><p>Para o cérebro é muito mais fácil passar um grande período de tempo nas redes sociais ao invés de realizar outras atividades como exercícios ou estudos - isso ocorre devido ao pouco esforço que essas práticas exigem para se obter dopamina. Afinal, o que parece melhor: sair em pleno verão e correr um quilômetro ou ficar uma hora observando o feed?</p><p>Mas esse estímulo fácil tem um preço. As cargas extras de dopamina ao longo do tempo levam o cérebro a entender que não precisa mais produzir o neurotransmissor nas quantidades habituais. Assim, é preciso gastar cada vez mais tempo nessas atividades para se obter o mesmo nível de prazer. “Sem notar, passaremos a jogar mais, fazer mais sexo, comer mais, fumar mais e etc. em troca da felicidade, da liberação de dopamina”, adverte King.</p>		
										<img width="800" height="800" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2021/01/revista_arco_vicio_tecnologico_redes_sociais.png" alt="Ilustração, na vertical, colorida e com a cor predominante em azul. Na ilustração há um caça níquel, onde tem cinco botões com ícones das redes sociais Whatsapp, Instagram, Twitter, Youtube e Facebook. A tela do caça níquel está parada na combinação de três corações na horizontal em três colunas divididas. O prêmio da combinação dos três corações são cápsulas de remédio simulando a dopamina ao receber estímulos felizes das redes sociais. A ilustração contém as seguintes frases: “dopamina” e “ganhe recompensa sem esforço”." loading="lazy" />											
		<h3><strong>Dependência digital X dependência patológica</strong></h3><p>Segundo Anna King, todos nós somos dependentes digitais. Mas antes de procurar a primeira clínica de reabilitação disponível, calma. Isso não significa que você tenha um problema grave. Dependência digital é o uso da tecnologia em nosso dia a dia, para crescimento pessoal, lazer ou trabalho, como o <u><a style="color: #0000ff" href="https://www.ufsm.br/midias/arco/teletrabalho-ead-pandemia/" target="_blank" rel="noopener"><em>home office</em></a></u><b><u>.</u></b> “Você é dependente da tecnologia, como se você dependesse da sua agenda de papel, mas isso não quer dizer que você está doente”, argumenta a psicóloga.</p><p>A dependência patológica, chamada nomofobia, atinge cerca de 15% da população. Anna King explica que a doença geralmente está relacionada com outros transtornos psicológicos como ansiedade, depressão, fobia social, síndrome do pânico e dismorfia corporal. Por esse motivo é importante a quem considera excessivamente dependente da tecnologia buscar ajuda profissional, pois o problema pode estar além de passar muitas horas na internet ou em videogames. O grande período de tempo imerso no mundo virtual se torna um refúgio do mundo real. "Geralmente quem busca muito acessar tecnologias em busca de prazer procura preencher algo que falta nele", afirma.</p><p>A psicóloga pondera que o principal motivo para o uso excessivo das tecnologias é a falta de conscientização sobre o tema e não algum distúrbio mental. “Isso não é vício patológico, isso é uma falta de educação digital”. Por isso é importante consumir vídeos, matérias, livros e outros tipos de conteúdos que falam sobre o funcionamento das redes sociais. Entender como e porquê elas nos afetam é o primeiro passo para impor limites e usá-las de forma mais saudável.</p><p><strong><i>Expediente</i></strong></p><p><i><strong>Repórter:</strong> Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e bolsista</i></p><p><i><strong>Ilustradora:</strong> Amanda Pinho, acadêmica de Produção Editorial e bolsista</i></p><p><i><strong>Mídia Social:</strong> Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista</i></p><p><i><strong>Edição de Produção:</strong> Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista</i></p><p><i><strong>Edição Geral:</strong> Maurício Dias, jornalista</i></p>]]></content:encoded>
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				<title>Isso é fake news</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/isso-e-fake-news</link>
				<pubDate>Thu, 16 Jul 2020 13:07:02 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Dossiê Mídias Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[checagem de fatos]]></category>
		<category><![CDATA[destaque ufsm]]></category>
		<category><![CDATA[dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[dossiê mídias sociais]]></category>
		<category><![CDATA[fake news]]></category>
		<category><![CDATA[Mitômetro]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>

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						<description><![CDATA[Em pesquisa realizada pelo Centro para a Inovação em Governança Internacional, 86% das pessoas consultadas admitiram ter acreditado em notícias falsas Elas estão por toda a parte: na publicação no Facebook, na mensagem encaminhada pelo grupo do Whatsapp, no boca-a-boca. Não há quem não tenha recebido ou compartilhado &#8211; mesmo sem intenção &#8211; alguma fake [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <h2>Em pesquisa realizada pelo Centro para a Inovação em Governança Internacional, 86% das pessoas consultadas admitiram ter acreditado em notícias falsas </h2>		
												<img width="1024" height="668" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2020/07/capa-1024x668.jpg" alt="" loading="lazy" />														
		<p style="color: #000000;font-size: 16px">Elas estão por toda a parte: na publicação no Facebook, na mensagem encaminhada pelo grupo do Whatsapp, no boca-a-boca. Não há quem não tenha recebido ou compartilhado - mesmo sem intenção - alguma fake news. </p><p style="color: #000000;font-size: 16px">Uma pesquisa publicada pelo Centro para a Inovação em Governança Internacional, em junho de 2019, mostrou que as notícias falsas já foram ditas como verdadeiras por 86% dos usuários de internet entrevistados. Além disso, têm 70% mais chance de serem compartilhadas do que as verdadeiras. A comprovação veio nas eleições presidenciais brasileiras de 2018: boatos foram compartilhados pelo menos 3,84 milhões de vezes nos quatro meses que antecederam a votação, conforme a agência de checagem Aos Fatos. </p><p style="color: #000000;font-size: 16px">Apesar de ser corriqueiramente entendida como notícia falsa, a definição de <i>fake news</i> é incompleta e ambígua. “Se analisarmos a noção de fake news que a mídia e a sociedade em geral costumam utilizar, encontramos ali um caldeirão de diversos fenômenos sociais e comunicativos diferentes”, pontua o professor de Jornalismo na Universidade Franciscana (UFN), Iuri Lammel, mestre em Comunicação Midiática pela UFSM. Para ele, a explicação mais adequada é a do dicionário inglês Cambridge, que entende as <i>fake news</i> como "histórias falsas que parecem ser notícias e são difundidas na internet ou em outros meios, criadas para influenciar opiniões políticas ou como piada".</p><p style="color: #000000;font-size: 16px">As informações falsas existem desde que os humanos passaram a usar a linguagem formal para se comunicar. Já as notícias deliberadamente falsas, difundidas para fins de influência política e manipulação, são mais recentes - ainda que datem de séculos atrás. Entretanto, foi com a expansão da internet e, em especial, com redes sociais, que as fake news passaram a se disseminar com velocidade e tomaram proporções mundiais. </p><p style="color: #000000;font-size: 16px">Segundo o professor Iuri, aliado à ascensão das redes sociais, existe um fator que motiva a disseminação de fake news: o fenômeno global da polarização política, que “serve como combustível para fazer essa infraestrutura toda funcionar a todo o vapor, principalmente em período eleitoral, em que eleitores tentam vencer as disputas ideológicas travadas nas redes sociais e nos aplicativos de mensagem”.</p>		
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		<h3>Direita ou esquerda?</h3><p>A discussão sobre <i>fake news</i> também é política. Um estudo realizado pela Universidade de Oxford mostrou um aumento exponencial no número de nações cuja estratégia para governar passa pela divulgação de informações falsas. Foram 70 países que fizeram uso das informações falsas para obter vantagem frente à oposição. No Vietnã, por exemplo, cidadãos foram alistados para fazer postagens pró-governo em suas páginas pessoais de <i>Facebook</i>. Já o governo da Guatemala usou contas roubadas e hackeadas para silenciar opiniões dissidentes. E o partido no comando da Etiópia contratou pessoas para influenciar, a seu favor, conversas em redes sociais. Assim, é comum que as <i>fake news</i> sejam associadas como uma característica de algum dos espectros políticos: direita ou esquerda.</p><p>Para o professor Iuri Lammel, o fenômeno das informações falsas tem um lado político. “Na história, percebo que ambos os lados do espectro político utilizaram da estratégia de produção e divulgação de informações distorcidas e falsas com o intuito de atacar desafetos políticos e de manipular a opinião pública”, conta.</p><p>No Brasil, ele lembra da época dos governos Lula e Dilma, onde observou o surgimento de diversos <i>sites </i>e <i>blogs </i>especializados em reeditar matérias publicadas na imprensa, com o objetivo de reforçar um dos lados. Geralmente, não era realizado o trabalho de apuração jornalística esperado. “Atualmente, eu não tenho nenhuma dúvida de que a enorme maioria dos produtores e propagadores de notícias falsas são ligados a movimentos de direita, tanto no Brasil quanto no resto dos países. É um fenômeno global”, explica o professor.</p><p>Assim, Iuri apresenta uma das hipóteses que desenvolveu. Para ele, a recente eclosão das forças e movimentos de direita no mundo coincidiu com o aumento da estrutura de produção e propagação automatizada de informações, tais como os robôs e serviços de inteligência artificial que, ao se associarem a financiamentos privados de organizações da direita, que possuem interesses também privados e não compromissados com o público, tornaram a máquina de<i> fake news</i> mais eficiente e "profissional". Ou seja, cada vez mais parecidas com notícias verdadeiras. Porém, o professor reforça que a estratégia das informações falsas não é monopólio de nenhum dos dois lados. </p><h3>Culpa do jornalismo?</h3><p>Em 2016, a Eleição presidencial nos Estados Unidos foi pauta constante no jornalismo. Durante a campanha, o então candidato - e hoje presidente - Donald Trump acusou o <i>The New York Times</i> de produzir notícias falsas para prejudicá-lo. <i>“You´re fake news”</i>, foi a expressão utilizada. </p><p>De lá para cá, segundo a jornalista e mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFSM Kauane Müller, o termo foi extremamente popularizado e trouxe implicações para o jornalismo. “Essa declaração deu a entender que a imprensa é quem produz notícias falsas e, mais, não só produz mas ela em si é a mentira”, declara. Para ela, assim, se intensifica o problema da credibilidade já enfrentado pelo jornalismo, pois, desde 2008, a imprensa é afetada pela crise mundial do capitalismo financeiro. “Em um contexto mais amplo, as pessoas já vinham diminuindo a confiança no jornalismo ao longo do tempo, como apontam pesquisas do LatinoBarómetro, medidor de opinião da América Latina, e isso tem outras implicações”, postula.</p><p> Para Kauane, apesar do cenário da desinformação não ser responsabilidade somente do jornalismo, existem questões problemáticas, como a qualidade da informação que, devido à crise financeira vivida por diversos veículos, pode ser questionada. Um exemplo, são as famosas “barrigadas”, termo jornalístico de quando o veículo oferece uma informação com erros graves.</p><p>O professor Iuri Lammel diz não ser possível afirmar de maneira categórica que a alta disseminação de<i> fake news</i> acontece devido a falhas no jornalismo. Mas, acredita que, nas últimas duas décadas, com o surgimento desse ecossistema da informação digital, os profissionais que trabalham com a mediação das informações na sociedade perderam muita força, poder e influência.</p><p>“Entre as consequências está o enfraquecimento do próprio jornalismo. Quando os cidadãos diminuem drasticamente a rotina de consumo de informações elaboradas por profissionais guiados por uma deontologia, esses cidadãos ficam mais suscetíveis à desinformação”, postula Iuri. Logo, é arriscado atribuir a culpa apenas ao jornalismo, visto que o crescimento drástico de <i>fake news</i> é um fenômeno complexo, com várias causas, principalmente devido ao cenário de polarização política. </p><p>Também é a partir das <i>fake news</i> que uma série de ataques à imprensa tem acontecido. O intuito é de desacreditar no trabalho profissional da imprensa, assim, Iuri afirma a importância dos comunicadores deixarem explícito o processo de apuração. “Podemos indicar, por exemplo, as fontes entrevistadas, a origem dos documentos consultados, as condições do trabalho realizado, a fim de trazer mais clareza e minimizar ataques de descrédito”. Além disso, o jornalista defende que os comunicadores trabalhem ativamente na luta contra a desinformação ao apurarem <i>fake news</i> ostensivamente propagasse.</p><h3>Checagem de fatos</h3><p>O cenário de popularização das <i>fake news</i> e da crescente desinformação fez com que, dentro do jornalismo, alternativas fossem pensadas para transformar a situação. Assim, começaram a surgir agências e plataformas de checagem. No contexto brasileiro, são três as organizações signatárias do <a href="https://www.poynter.org/ifcn/" target="_blank" rel="noopener">Internacional Fact-checking Network (IFCN)</a>, rede internacional de checadores: Aos Fatos, Lupa e Estadão Verifica.  </p><p>Devido às notícias falsas estarem diretamente relacionada à política, algumas plataformas de checagem, como <a href="https://www.aosfatos.org/" target="_blank" rel="noopener">Aos Fatos</a>, destinam seus esforços à checagem de discursos de políticos. Com bases no Rio de Janeiro e em São Paulo, a agência existe desde 2015 e tem como missão a “busca da verdade, checamos o que há de mais controverso no mundo da política”. </p>		
												<img width="1024" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2020/07/post_1_2-1024x1024.gif" alt="" loading="lazy" />														
		<p>O repórter de Aos Fatos, Luiz Fernando Menezes, começou a atuar na organização a partir da checagem de falas de políticos, como Michel Temer, e, em 2018, intensificou a checagem devido à eleição presidencial. Para Luiz Fernando, o trabalho que desenvolve como checador é bastante importante: “com essa ferramenta conseguimos levar a checagem para as pessoas que compartilharam a notícia falsa, por exemplo, e oferecemos a possibilidade dela rever o que naquela informação não é verdadeiro”, conta. Além disso, reforça a importância de trabalhar no sentido de combater as&nbsp;<i style="font-size: 16px">fake news</i>. “A checagem se torna importante até para o debate público, que acaba muito prejudicado com as notícias falsas. Em um debate democrático não se pode e não se deve usar dados lidos em uma&nbsp;<i style="font-size: 16px">fake news</i>, por exemplo”.</p><p>A mestranda Kauane Müller pesquisa sobre as três plataformas brasileiras de checagem que são certificadas pela IFCN. Na dissertação, a jornalista trabalha a partir de dois eixos: primeiro, busca entender a prática dos jornalistas nessas plataformas de checagem, as relações de trabalho, as especificidades, o contrato de trabalho e a rotina produtiva; segundo, eixo central da pesquisa, estuda as estratégias que as organizações de checagem usam para manter o jornalismo como uma instituição relevante para a sociedade, a partir da ideia de crise do jornalismo, sem deixar de lado o contexto maior de crise do capitalismo. Assim, ela procura responder como, a partir das plataformas de checagem, o jornalismo busca resolver e se legitimar frente à desinformação.&nbsp;</p>
<p>No&nbsp;<a href="https://www.ufsm.br/laboratorios/lex/" target="_blank" rel="noopener">Laboratório de Experimentação em Jornalismo (LEx)</a>, o combate às&nbsp;<i>fake news</i>&nbsp;também passou a ser discutido. O trabalho começou a ser testado em 2016, a partir de um método de checagem de informações. Para o jornalista e técnico-administrativo em educação do Laboratório, Lucas Durr Missau, o modelo proposto tem um objetivo pedagógico ao possibilitar a experiência da checagem aos alunos do curso de Jornalismo da UFSM e, ao mesmo tempo, suscitar reflexões teóricas sobre os métodos praticados pelas agências de checagem no Brasil e no mundo.</p>
<p>Antes de pôr em prática a metodologia de checagem, foi necessário discutir o que, afinal, seria o&nbsp;<i>fact checking</i>. Para Lucas,&nbsp;<i>a</i>&nbsp;checagem de informações é um desdobramento da apuração, que é a base da prática jornalística. Depois, elaboraram um modelo que consistia em um passo a passo da prática de&nbsp;<i>fact-checking</i>. Em seguida, analisaram os métodos utilizados pelas plataformas e agências brasileiras de checagem, como Lupa, Aos Fatos, Pública e&nbsp; a argentina Chequeado, e identificaram padrões entre elas. Assim, os padrões foram usados como parâmetros para a elaboração de um modelo que foi adotado como ferramenta de ensino nas atividades do laboratório.</p>
<p>Finalmente, o funcionamento do método de checagem se deu em cinco etapas: (1) a escolha do discurso a ser analisado; (2) a busca das fontes com informações referentes ao tema tratado; (3) a reconstrução do contexto do discurso contrastado ou corroborado pelas informações obtidas junto às fontes; (4) a classificação do discurso de acordo com as categorias elaboradas – por exemplo, verdadeiro, falso, impreciso, exagerado, entre outras – e (5) a representação gráfica da checagem. Vale lembrar que cada uma dessas etapas exige uma atividade específica a ser desempenhada e o manuseio de determinados materiais que servem de embasamento para essas atividades.</p>		
			<h2><u>Passo a passo da checagem</u></h2>		
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		<h4><b>Mitômetro</b></h4>		
												<img width="655" height="1024" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2020/02/mitometro-nvl-1-655x1024.jpg" alt="" loading="lazy" />														
		<p>O trabalho metodológico realizado pelo LEx foi posto em prática em uma parceria junto à Revista Arco. Assim surgiu o Mitômetro: método de checagem voltado à divulgação científica. “Nesse caso, acreditamos que é um tipo de conteúdo com um apelo distinto, que sensibiliza o leitor pelo caráter inusitado dado à informação, muitas vezes brincando com o senso comum”, afirma Lucas. No caso da Arco, o tratamento gráfico dado ao material também contribui para isso.</p><p>No entanto, é preciso ressaltar que é inviável checar todo e qualquer tipo de informação. Isso porque o fact-checking se restringe a verificar partes de discursos públicos. Ou seja, que circulam em jornais, revistas, redes sociais e outros meios de comunicação, nos mais distintos formatos, como áudio, texto, foto, imagem e vídeo. E, para o jornalista, checar discurso é uma tarefa bastante complexa. “Por isso, é necessário a utilização de critérios para que uma informação possa ser checada”, lembra.</p><p>Por esse motivo, entre os principais materiais checados estão: frases de políticos, programas de partidos políticos e de governo, vídeos publicitários, vídeos e declarações com amplo alcance de público em redes sociais, além de entrevistas de personalidades nos meios de comunicação hegemônicos ou alternativos, frases de senso comum enunciadas em situações do cotidiano, entre tantas outras possibilidades. “O enfoque está na relevância e na viabilidade de checagem da declaração ou da informação citada pela fonte original”, explica Lucas.</p><h4><b>Janela aberta</b></h4><p>Informar jovens sobre as notícias falsas foi a proposta do Laboratório de Hipermídia do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (Poscom) da UFSM durante o Janela Aberta - iniciativa que aproxima a Universidade e as escolas de ensino médio de todo o estado. Em duas semanas de julho de 2018, mais de 600 alunos e professores assistiram às oficinas sobre a produção e a circulação de<i> fake news</i> no Brasil e no mundo. </p><p>Segundo a professora <a href="http://www.ufsmpublica.ufsm.br/docente/4760" target="_blank" rel="noopener">Ada Cristina Machado da Silveira</a>, líder do grupo de pesquisa Comunicação, Identidades e Fronteiras, parceiro no Laboratório na realização das oficinas, a resposta dos alunos foi praticamente unânime quando questionados se já tiveram contato com as<i> fake news</i>: grande parte afirmou que sim. “Porém, notou-se um grau de surpresa quando comentamos as características, as pretensões e, principalmente, a grande circulação e as consequências da viralização das notícias falsas”, relata Ada. </p><h4><b>Pega na Mentira</b></h4><p>Desde março de 2019, o jornalista Marcelo de Franceschi apresenta o programa Pega na Mentira, na <a href="https://farol.ufsm.br/transmissao/unifm">UniFM 107.9</a>. De segunda a sexta-feira, das 14h às 15h, o ouvinte fica a par de notícias checadas por agências, plataformas e jornais especializados, além de saber sobre educação para a mídia, cultura digital, educomunicação e informática. “Eu queria fazer um programa que contribuísse para a conscientização dos ouvintes sobre as desinformações que recebem e compartilham via redes sociais”, relata Marcelo, que afirma já ter recebido conteúdo falso de parentes através dessas plataformas.</p><p>O jornalista reconhece que muitas pessoas têm dificuldades de identificar uma notícia falsa. Por isso, faz questão de reforçar, durante os programas, que nem tudo o que aparece nos celulares e computadores é verdade, e que compartilhar uma mentira, mesmo sem querer, pode aumentar os efeitos dela. “Falar sobre esse tema na UniFM valida a checagem de informação e a torna mais acessível. Acho que a rádio pública pode cumprir um papel crucial de mediadora tentando alertar seu público mantenedor acerca dos perigos desse cenário caótico”, destaca. </p><h4><b>Educação para a mídia </b></h4><p>A partir do cenário de efervescência das <i>fake news</i> que foi criado, no campus de Frederico Westphalen, um projeto de extensão vinculado ao Departamento de Ciências da Comunicação. O “Compreender os letramentos locais para (in)formar novos leitores (Letramentos)” surge com uma proposta de colocar em diálogo as ciências da linguagem e da comunicação, com o objetivo de refletir sobre o papel e a importância da leitura como meio de formação, interação e ação social.</p><p>Para a coordenadora do projeto, professora <a href="http://www.ufsmpublica.ufsm.br/docente/18482" target="_blank" rel="noopener">Marluza da Rosa</a>, a preocupação está direcionada, principalmente, para a compreensão de como se tem lido as notícias e para a formação crítica do leitor.“Quando se fala de formação crítica e/ou de competência leitora, é inevitável tratar da relação dos leitores com as mídias, visto que são nossas principais formas de acesso às informações e ao conhecimento na atualidade”, explica.</p><p>Nesse sentido, o projeto trabalha com a noção da importância de perguntar a si mesmo como nos relacionamos com as informações que recebemos: se as questionamos ou não, se as assimilamos de forma passiva ou se adotamos um posicionamento ativo frente ao que lemos.</p><p><strong>Expediente desta reportagem nas múltiplas plataformas</strong></p><p><b><i>Reportagem</i></b><i>: Andressa Motter e Leandra Cruber.  </i></p><p><b><i>Ilustrações</i></b><i>: Marcele Reis e Giovana Marion</i></p><p><b><i>Diagramação da matéria impressa e animação</i></b><i>: Marcele Reis</i></p><p><b><i>Mídia Social</i></b><i>: Nathalia Pitol</i></p><p><b><i>Revisão: </i></b><i>Alcione Bidinoto</i></p><p><b><i>Edição de arte: </i></b><i>Lidiane Castanha</i></p><p><b><i>Edição de produção</i></b><i>: Melissa Konzen</i></p><p><b><i>Edição geral:</i></b><i> Maurício Dias</i></p><p><em>*Matéria publicada na <a href="https://issuu.com/revistaarco/docs/11__edi__o">11ª edição</a> impressa da revista Arco. </em></p>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Um dossiê sobre as mídias sociais</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/arco-11</link>
				<pubDate>Mon, 06 Jul 2020 19:14:53 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê Mídias Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[arco]]></category>
		<category><![CDATA[checagem de fatos]]></category>
		<category><![CDATA[discurso de ódio]]></category>
		<category><![CDATA[dossiê mídias sociais]]></category>
		<category><![CDATA[fake news]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Revista Arco]]></category>

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						<description><![CDATA[A&nbsp;11ª edição&nbsp;da revista Arco chega no mês em que a publicação completa sete anos. O tema do dossiê é o uso das mídias sociais, utilizadas para interação, divertimento, informação, educação e trabalho. Nosso olhar, aqui, é sobre os problemas mais latentes das plataformas sociais: a falta de filtros na publicação e circulação de conteúdos, as [&hellip;]]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  A&nbsp;<a href="https://issuu.com/revistaarco/docs/11__edi__o" target="_blank" rel="noopener noreferrer">11ª edição</a>&nbsp;da revista Arco chega no mês em que a publicação completa sete anos. O tema do dossiê é o uso das mídias sociais, utilizadas para interação, divertimento, informação, educação e trabalho. Nosso olhar, aqui, é sobre os problemas mais latentes das plataformas sociais: a falta de filtros na publicação e circulação de conteúdos, as notícias falsas e o discurso de ódio. Mais do que apenas refletir sobre as temáticas, buscamos soluções para essas questões, que ganharam ainda mais destaque durante a pandemia do novo coronavírus.

<a href="https://issuu.com/revistaarco/docs/11__edi__o">
<img width="1024" height="1024" src="https://www.ufsm.br/midias/arco/wp-content/uploads/sites/601/2020/07/PEÇA_card1-1024x1024.jpg" alt="">								</a>
<p dir="ltr" style="margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt;color: #000000;font-size: 16px;line-height: 1.38">O volume de&nbsp;fake news&nbsp;sobre a covid-19 é considerado pela agência de checagem de notícias&nbsp;<a style="color: #0d63e6 !important" href="https://www.aosfatos.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><i>Aos Fatos</i></a>&nbsp;como uma infodemia - uma pandemia de informações. Concordamos com o alerta e acreditamos que o&nbsp;fact checking&nbsp;é uma das formas de combate à disseminação das notícias falsas. Neste sentido, além da edição que você poderá ler agora em versão digital, recomendamos que acompanhe nosso trabalho com o Mitômetro.</p>
<p dir="ltr" style="margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt;color: #000000;font-size: 16px;line-height: 1.38"></p>
<p dir="ltr" style="margin-top: 0pt;margin-bottom: 0pt;color: #000000;font-size: 16px;line-height: 1.38">A pandemia mudou nossas rotinas, inclusive na distribuição da revista impressa, momento importante de diálogo com leitores. Por enquanto, ficamos na torcida para que as condições sanitárias logo permitam a entrega dos exemplares da Arco para quem já conhece ou está interessado em conhecer. Ao longo da semana anunciaremos novidades. Acompanhe e tenha uma ótima leitura.</p>]]></content:encoded>
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