<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>		<rss version="2.0"
			xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
			xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
			xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
			xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
			xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
			xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
					>

		<channel>
			<title>Revista Arco - Feed Customizado RSS</title>
			<atom:link href="https://www.ufsm.br/midias/arco/busca?q=&#038;sites%5B0%5D=601&#038;tags=transtorno-mental&#038;rss=true" rel="self" type="application/rss+xml" />
			<link>https://www.ufsm.br/midias/arco</link>
			<description>Jornalismo Científico e Cultural</description>
			<lastBuildDate>Thu, 12 Mar 2026 19:44:01 +0000</lastBuildDate>
			<language>pt-BR</language>
			<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
			<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>

<image>
	<url>/app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico</url>
	<title>Revista Arco</title>
	<link>https://www.ufsm.br/midias/arco</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
						<item>
				<title>Na subjetividade do trabalho</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/na-subjetividade-do-trabalho</link>
				<pubDate>Thu, 30 Aug 2018 19:28:22 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Dossiê Saúde Mental]]></category>
		<category><![CDATA[9ª edição]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[Transtorno Mental]]></category>

				<guid isPermaLink="false">http://coral.ufsm.br/arco/sitenovo/?p=4218</guid>
						<description><![CDATA[Transtornos mentais e comportamentais são a principal causa de afastamento de servidores da UFSM
]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <span style="font-weight: 400"><img class="alignleft wp-image-4344 size-thumbnail" src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2018/08/trigger-warning-150x150.png" alt="" width="150" height="150" /></span>

<span style="font-weight: 400"><strong>Esta matéria possui conteúdo que pode desencadear fortes emoções. Caso você esteja passando por </strong><strong>um momento de maior sensibilidade tenha cautela ao prosseguir com a leitura. Se se sentir desconfortável interrompa a leitura e volte quando estiver mais forte emocionalmente.</strong></span>

<span style="font-weight: 400">O trabalho abrange diversos aspectos da vida humana, sendo condição preponderante para a realização do sujeito, segundo a psicologia. Dessa forma, as condições às quais os trabalhadores têm de se submeter diariamente para a realização de determinado fim são cruciais para a qualidade do serviço e da própria saúde física e mental. Em um ambiente tão complexo quanto o universitário – que compreende muito além das atividades em sala de aula -, as situações que podem desencadear um adoecimento profissional são diversas.</span>

<span style="font-weight: 400">Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 2017, 20% das licenças concedidas a servidores técnico-administrativos em educação (TAEs) e docentes para tratamento de saúde foram para casos de transtornos mentais e comportamentais. A psicóloga e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM Luciana Schneid Ferreira afirma que o trabalho jamais é neutro: “O sofrimento, ao contrário do que muitos pensam, não é sinônimo de adoecimento. Ele é inerente ao ser humano. Se o sujeito tiver autonomia e reconhecimento em seu trabalho, vai transformar este sentimento em algo bom, que promoverá saúde, desenvolvimento e realização. Se, por outro lado, não tiver as condições mínimas para conduzi-lo, vai desencadear uma doença”.</span>

<span style="font-weight: 400">Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017, três das dez doenças mais incapacitantes para o trabalho no mundo são de origem mental. A depressão é a primeira da lista, afetando mais de 300 milhões de pessoas – um aumento de 18% entre 2005 e 2015. Transtornos causados por álcool e ansiedade aparecem em quinto e  sexto lugares no ranking, respectivamente.</span>

<span style="font-weight: 400">No mesmo ano, um boletim organizado pelos ministérios da Fazenda e do Trabalho no Brasil mostrou que os transtornos mentais e comportamentais foram a terceira causa de incapacidade para o trabalho, no período de 2012 a 2016, considerando a concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez.</span>

<b>Reflexo mundial</b>

<span style="font-weight: 400">A UFSM reflete o que acontece no país e no mundo - como mostram os gráficos na página seguinte. Os levantamentos foram feitos pela Perícia Oficial em Saúde (PEOF) da Universidade, responsável por avaliar e conceder licenças a servidores para tratamento médico próprio ou de familiares. O setor é vinculado à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progep) e atua em conjunto com a Coordenadoria de Saúde e Qualidade de Vida do Servidor (CQVS), formada por uma equipe psicossocial que acompanha os servidores em adoecimento profissional.</span>

<span style="font-weight: 400">“O número de afastamentos por transtornos mentais é o maior, e ainda assim não traduz todos os casos de doença mental que existem na Instituição”, afirma a psicóloga da CQVS Quenia Rosa Gonçalves. Essa é uma das preocupações de Luciana, que também atua como psicóloga do CQVS, em sua pesquisa de mestrado, iniciada no ano passado. Ela procura traçar o perfil dos servidores que adoecem na UFSM, utilizando como base a Psicodinâmica do Trabalho, abordagem científica desenvolvida na França na década de 1980, por Christophe Dejours. A teoria possibilita uma compreensão contemporânea sobre a subjetividade no trabalho, relacionando-o com prazer, autonomia, liberdade, reconhecimento, mas também com sofrimento, quando ausentes os sentimentos anteriores.</span>

<b>Como o trabalho causa o adoecimento?</b>

<span style="font-weight: 400">A OMS apresenta como causas dos transtornos mentais as cargas de trabalho excessivas, as exigências contraditórias, a falta de clareza na definição das funções, a comunicação ineficaz por parte de chefias e colegas, e o abuso sexual ou psicológico.</span>

<span style="font-weight: 400">Somando-se a isso, Quenia aponta que dificuldades no convívio interpessoal, subordinação e subutilização são as demandas mais recebidas na CQVS. “Acompanhamos casos de servidores super qualificados que não conseguiam desenvolver todo seu conhecimento e suas habilidades no cargo que assumiram, porque eram subutilizados em outros serviços. Com o tempo, isso gera angústia e outros sintomas, e a pessoa não suporta”, expõe a psicóloga. A Psicodinâmica, de acordo com Luciana, definiria o caso pelos conceitos de trabalho prescrito e trabalho real: o que está determinado em contrato como atribuições do cargo, em contraste com os problemas e imprevistos do dia a dia da profissão.</span>

<span style="font-weight: 400">A precarização do serviço público e as crises econômicas também fazem parte desse cenário. Atualmente, cargos desocupados por aposentadoria não têm reposição de novos servidores. Como solução, há sobrecarga de trabalho aos que ficam, além da entrada de funcionários terceirizados. Relacionada a isso, está a hipersolicitação, que ocorre quando o servidor é requerido no ambiente de trabalho, mas também por e-mail, celular e outras plataformas.</span>

<span style="font-weight: 400">Segundo Luciana, os pesquisadores da área afirmam que, no serviço público, os casos de assédio moral tendem a ser mais graves e duradouros, se comparados aos da iniciativa privada. Isso porque, em instituições como a UFSM, o servidor dificilmente pede demissão, devido ao ingresso por concurso e à estabilidade do cargo, e acaba se submetendo por muito mais tempo àquela violência. Outra peculiaridade das organizações públicas é a questão política, que comumente norteia a escolha de gestores. “Quem está à frente de um setor não está necessariamente capacitado no âmbito interpessoal para isso, mas tem inclinações políticas. Isso pode prejudicar o trabalho dos funcionários e, em consequência, possibilitar um quadro de adoecimento”, pontua a mestranda.  </span>

<span style="font-weight: 400">Apesar de todas as situações apresentadas, os casos de adoecimento profissional não obrigatoriamente têm relação com o trabalho. Podem ter influência em predisposições genéticas e/ou problemas pessoais, sociais e familiares, sendo difícil delimitar com exatidão o chamado nexo causal das patologias.</span>

<b>Tratamento é um direito</b>

<span style="font-weight: 400">Todo servidor público federal tem direito à Licença para Tratamento de Saúde (LTS), conforme determina o art. 202 do Regime Jurídico Único. Legalmente, o servidor pode ficar afastado da instituição com a qual tem vínculo empregatício por até dois anos. Depois desse período, a providência tomada é a aposentadoria por invalidez.</span>

<span style="font-weight: 400">A assistente social da PEOF Fabiane Drews explica que o tempo de afastamento é relativo, pois depende do diagnóstico e da reação do paciente ao tratamento. “A maioria dos casos de doença mental que chegam ao setor ocasiona uma licença. Mas isso não é regra geral. Muitas vezes, tentamos conduzir de outras maneiras, como solicitando a troca do funcionário de setor ou intervindo nos conflitos”, comenta Fabiane. A médica do trabalho que coordena a PEOF, Liliani Brum, explica que geralmente as licenças por problemas mentais são mais longas devido à complexidade e à subjetividade da matéria.</span>

<span style="font-weight: 400">No entanto, as profissionais comentam que ainda há preconceito e falta de conhecimento em relação aos transtornos mentais. “A pessoa pensa que vai aguentar, porque não entende o adoecimento mental como doença, principalmente por não ser tão visível quanto os problemas físicos”, explica a psicóloga Quenia. Outro limitador é o estereótipo de que servidor público não trabalha. Como contraponto, a Psicodinâmica diz que o trabalhador que adoece é justamente aquele que tem vontade de trabalhar e não consegue desenvolver seu trabalho por conta da doença.</span>

<span style="font-weight: 400">Diante deste cenário, Luciana entende que a organização do trabalho deve ser questionada: “Para mudar, é necessária uma ação conjunta na gestão da instituição como um todo, na intenção de diminuir o número de casos e acabar com preconceitos. Priorizar a saúde em detrimento da política e de outras questões é fundamental”.</span>

<em><span style="font-weight: 400"><strong>Reportagem:</strong> Andressa Motter </span></em>

<em><span style="font-weight: 400"><strong> Diagramação e Lettering:</strong> Juliana Krupahtz </span></em>

<em><span style="font-weight: 400"><strong>Ilustração:</strong> Giana Bonilla e Deirdre Holanda</span></em>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>A sobrecarga invisível na Universidade</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/a-sobrecarga-invisivel-na-universidade</link>
				<pubDate>Thu, 23 Aug 2018 23:03:05 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Dossiê Saúde Mental]]></category>
		<category><![CDATA[9ª edição]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[estresse]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[Transtorno Mental]]></category>

				<guid isPermaLink="false">http://coral.ufsm.br/arco/sitenovo/?p=4212</guid>
						<description><![CDATA[Rotina e pressão no ambiente universitário são apontadas como causas de problemas de saúde mental dos estudantes]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <p style="text-align: center"><strong><img class="wp-image-4344 size-thumbnail alignleft" src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2018/08/trigger-warning-150x150.png" alt="" width="150" height="150" />Esta matéria possui conteúdo que pode desencadear fortes emoções. Caso você esteja passando por </strong><strong>um momento de maior sensibilidade tenha cautela ao prosseguir com a leitura. Se se sentir desconfortável interrompa a leitura e volte quando estiver mais forte emocionalmente.</strong></p>


<span style="font-weight: 400">“No dia em que entreguei a versão final da minha dissertação, voltei sozinha da Universidade pro centro. Quando cheguei perto do Theatro Treze de Maio, eu parei. Não sabia aonde estava indo. Entrei em pânico porque sabia que era uma crise e eu estava sozinha. Era pra ser um dia feliz, um dia de me sentir competente, mas eu fui engolida por essa coisa horrível”.</span>

<span style="font-weight: 400">Esse relato é de Luísa Greff, que cursa o doutorado em Letras na UFSM, mas também pode ser tomado como realidade próxima de outros tantos estudantes. Comumente, histórias parecidas expõem a pressão acadêmica e os altos níveis de estresse como parte da experiência universitária.</span>

<span style="font-weight: 400">Para algumas pessoas, entrar na universidade é um dos primeiros passos rumo à independência da família. Desde cedo, o jovem se depara com uma série de desafios, a começar pela preparação e ingresso em vestibulares e processos seletivos. Depois, sua capacidade de adaptação é posta à prova: grande parte das vezes envolve sair de casa, ambientar-se em uma cidade distinta, conhecer pessoas novas, inserir-se e ampliar o círculo de amigos. Junto a isso, há um processo maior, que compreende adaptar-se à vida acadêmica e conciliar os estudos com a vida pessoal. O conjunto de ações que antecedem e acompanham a nova rotina pode acarretar problemas físicos e/ou psicológicos até então inexistentes ou, ainda, piorar a situação daquelas pessoas que já possuem algum transtorno.</span>

<span style="font-weight: 400">O problema é visível, mas de onde ele vem? Por que os alunos estão adoecendo no ensino superior? O que faz com que a universidade seja, por vezes, apontada como culpada? Seriam os professores os “vilões” da história?</span>

<img class="wp-image-4213 aligncenter" src="https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/601/2018/08/09_01_CAPA_SITE-300x173.jpg" alt="" width="432" height="249" />

<b>O debate nas redes</b>

<span style="font-weight: 400">Nos últimos anos, o compartilhamento de relatos e experiências pessoais nas redes sociais foi um importante mecanismo para o assunto ganhar mais visibilidade. Frente a isso, estudantes de diversas universidades no país protagonizaram movimentos com o intuito de debater temas pertinentes à saúde mental do estudante e questionar as lógicas produtivistas do universo acadêmico.</span>

<span style="font-weight: 400">Em 2017, uma série de tentativas de suicídio entre alunos do quarto ano de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) chamou a atenção da mídia, e a expressão #EstamosJuntos mobilizou estudantes e professores de uma das melhores faculdades do país. Ainda, na mesma instituição, outro exemplo foi a campanha #NãoÉNormal, criada por alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e que possui mais de 30 mil curtidas na página do Facebook. A hashtag é seguida de frases como: "esperar entrar de férias para poder cuidar da saúde” e “ficar fazendo trabalho durante os feriados sem poder voltar para casa e rever a família".</span>

<span style="font-weight: 400">Paralelo a isso, o texto Eu não sou um mau aluno, de autoria desconhecida, viralizou nas redes sociais. A escrita faz menção a episódios da vida acadêmica: noites mal dormidas, notas baixas, afastamento dos amigos e da família. Muitos estudantes se identificaram com a narrativa e, apesar de questionarem a rotina exaustante, culpabilizavam-se: teriam se tornado maus alunos diante de uma série de fatores estruturais.</span>

<span style="font-weight: 400">A cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, atualmente professora titular visitante da UFSM no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais, tem pesquisas relacionadas ao tema. No texto Depressão e sofrimento na pós-graduação: frescura catártica ou saúde pública?, publicado em abril de 2018, ela defende que “ainda há uma carência do tema no debate público”, pois é custoso para as pessoas admitirem falhas individuais. Apesar de a vida acadêmica ser permeada por momentos de escrita e produção – ações que, naturalmente, podem gerar ansiedade e agitação mental –, o fenômeno hoje atinge proporções inéditas. Portanto, deve ser encarado por uma rede ampla de profissionais que atuam no ensino superior.</span>

<b>O entusiasmo desgastado</b>

<span style="font-weight: 400">Para além dos muros e das salas de aula das universidades, a rotina acadêmica é, muitas vezes, romantizada e idealizada. O estudante de Medicina da UFSM Geferson Pelegrini conta que, no período que antecede a faculdade, já é “natural” que aconteça a privação de elementos importantes da vida social para alcançar o objetivo tão sonhado. “Acredito que idealizamos os cursos que almejamos – foi assim comigo a respeito da Medicina – e quando estamos na universidade nos deparamos com um ambiente, na maioria do tempo, hostil, que nos padroniza e nos cobra sem pensar em nossa individualidade e em nossas necessidades”, relata o estudante. Na graduação, Geferson cursou a disciplina de Saúde do Estudante de Medicina e do Médico, que, contraditoriamente, fora ofertada ao meio-dia, no horário que tecnicamente deveria ser destinado ao almoço.</span>

<span style="font-weight: 400">Nesse sentido, o artigo Precisamos falar de vaidade na vida acadêmica, também escrito pela professora Rosana Pinheiro-Machado e publicado em 2016 pela revista CartaCapital, virou uma espécie de manifesto. A escrita problematiza o adoecimento das pessoas que passam pelo sistema acadêmico, devido às lógicas de produtividade e competitividade. “A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio”, descreve a pesquisadora.</span>

<b>“O que você faz da meia-noite às seis?”</b>

<span style="font-weight: 400">A maior parte das reclamações vem do tempo, ou da falta dele. A acadêmica de Arquitetura da UFSM Isabela Moreira Braga relata que, já no primeiro semestre do curso, chegou a passar mais de cinquenta horas acordada para dar conta de um trabalho da faculdade. Isabela também teve a autoestima fortemente agredida, pois diante de todas as demandas tinha impressão de que nunca poderia ser uma boa aluna e futura profissional do ramo. Os agravamentos também tiveram impactos físicos: como evitava “gastar” o tempo com outras coisas que não fossem trabalhos da faculdade, acabou emagrecendo, e as longas horas que dedicava sobre as maquetes resultaram em problemas na coluna e nos músculos. “Houve dias, não muito raros, em que a dor se agravava e dificultava o desenvolvimento de um projeto e até mesmo o meu descanso”, conta a estudante, que teve de se submeter a tratamento psicológico e sessões de fisioterapia.</span>

<span style="font-weight: 400">Os prazos são curtos e quando não consegue finalizar uma tarefa, é provável que o aluno seja questionado pelo professor em tom de brincadeira: “O que você faz da meia-noite às seis?”. O acadêmico do curso de Arquitetura Jeison de Paula afirma já ter ouvido a frase diversas vezes, e a sua resposta é sempre a mesma: “Trabalho”. Para se manter na universidade, desde os primeiros semestres, buscou aliar o estudo ao trabalho e, por conta das demandas, acabou reprovando em uma disciplina.</span>

<span style="font-weight: 400">Na UFSM, essa discussão foi pauta de uma palestra em 2017. A iniciativa foi idealizada por estudantes de diferentes áreas que compunham a Liga Comum Unidade, que tem por objetivo abrir espaços de estudo e reflexão da atuação dos sistemas de saúde. No evento em questão, a psiquiatra e coordenadora do Espaço Nise da Silveira &amp; AFAB Martha Noal avaliou o problema como consequência do modo como o ser humano opera em sociedade: “Nós é que normalizamos as coisas que não deveriam ser normais. Não é normal as pessoas não dormirem à noite para conseguirem dar conta das suas demandas do dia”.</span>

<b>A ordem vem de cima</b>

<span style="font-weight: 400">Ao passo que os alunos encontram dificuldades para gerenciar o tempo para a resolução das tarefas, os professores têm a responsabilidade de fazer as ofertas. Para a professora do Departamento de Saúde Coletiva da UFSM Liane Righi, o problema reside no fato de as ofertas não estarem articuladas: “Não é ilegítimo que o professor exija da turma conteúdos que acrescentem para a qualidade da universidade. No entanto, se a pessoa faz 12 disciplinas, ela terá 12 fardos. São 12 professores achando que o conteúdo é exclusivo, tentando se legitimar”.</span>

<span style="font-weight: 400">Na visão de Liane, a estrutura departamental da universidade contribui para isolar as pessoas nas suas especialidades, fragmenta o trabalho docente, o aprendizado e as ofertas. Com isso, os acadêmicos também não aproveitam as demais oportunidades que a universidade oferece: oficinas, espaços de lazer, biblioteca e acesso à cultura.</span>

<span style="font-weight: 400">Segundo Martha Noal, um dos fatores causais é também a falta de preparação dos profissionais na área educativa. “No Centro de Educação, os profissionais das licenciaturas têm formações pedagógicas. Nas outras áreas isso é mais complicado: os professores aprendem a ser jornalistas e médicos, mas não aprendem, de fato, a serem professores”, problematiza a pesquisadora.</span>

<b>Outros agravantes</b>

<span style="font-weight: 400">No entanto, as situações que podem gerar problemas psicológicos nem sempre surgem da relações entre alunos e professores. É comum encontrar casos em que estudantes são afastados de determinados grupos ou se sentem acuados por não se enquadrarem em certos “padrões” da turma. Além disso, a busca incessante por ter as melhores notas pode dificultar o relacionamento e acirrar a competitividade entre os colegas. Martha Noal afirma que é preciso acabar com a ideia de seleção natural. “Acreditamos que o bom aluno será um bom profissional, e não necessariamente vai ser assim”, reforça a psiquiatra.</span>

<span style="font-weight: 400">Ademais, as tensões no ambiente acadêmico podem ser motivadas por algum tipo de discriminação ou preconceito. A cientista social Rosana Pinheiro-Machado traz um dado interessante: enquanto a segmentação por gênero atinge homens cis em 31% e mulheres cis em 41%, na população transgênero o percentual sobe para 57% na academia. A pesquisadora salienta que, além do gênero, as vítimas da opressão têm sotaque e classe social. Neste universo, entram também questões raciais.</span>

<span style="font-weight: 400">Em 2017, Elisandro Ferreira, acadêmico do Direito da UFSM, passou por uma situação que nunca havia imaginado que passaria no universo acadêmico: foi julgado pela cor da sua pele. Ao chegar na sala do Diretório Acadêmico do Direito, viu o seu nome e o de uma colega escritos na parede, ao lado de manifestações de cunho racista. Naquele momento, sentiu-se extremamente impotente e, nos dias que seguiram, passou a desconfiar de todos aqueles que o cercavam. A saúde mental de Elisandro foi fortemente abalada e ele chegou a pensar em desistir do curso. Com o apoio emocional de amigos e familiares, permaneceu, e hoje milita ativamente pelo movimento Racismo, Basta!</span>

<span style="font-weight: 400">Para lidar de maneira mais saudável com as tensões do ambiente universitário, a professora Liane Righi orienta que os alunos passem a destacar prioridades, dentro de suas próprias limitações: “Destacar também é dizer: nesta disciplina, nesta área, eu não serei o melhor, isso me interessa menos”. Mas a deterioração da qualidade de vida pode se manifestar de maneiras distintas em cada indivíduo. No senso comum, existe também a ideia de colocar o suicídio como o único “extremo”. No entanto, casos graves de surtos etambém podem ser considerados como “extremos”. Um aumento significativo no sentimento de tristeza, apatia e reflexos em sintomas físicos – falta de vontade de se alimentar ou vontade de comer demais; dormir demais ou ter insônia – podem indicar problemas. Mesmo que não saiba explicar bem o motivo, basta que o estudante não se sinta bem para que busque ajuda.</span>

<span style="font-weight: 400">Esse é também o conselho de Luísa Greff, a doutoranda que abre esta reportagem. Ela, que ao longo de boa parte do tempo acadêmico, teve acompanhamento psicológico, alerta: “A gente quer fugir de dentro da nossa cabeça. E não dá. Não adianta viajar, o problema vai na bagagem. Não adianta beber o fim de semana inteiro, pois na segunda-feira o problema está lá. Como na música de Chico Buarque, ‘inútil dormir que a dor não passa’”.</span>

<em><span style="font-weight: 400"><strong>Reportagem:</strong> Tainara Liesenfeld </span></em>

<em><strong>Diagramação e Lettering: </strong>Juliana Krupahtz</em>

<em><span style="font-weight: 400"><strong>Ilustração:</strong> Deirdre Holanda</span></em>]]></content:encoded>
													</item>
						<item>
				<title>Filmes e saúde mental</title>
				<link>https://www.ufsm.br/midias/arco/post468</link>
				<pubDate>Thu, 25 May 2017 13:40:44 +0000</pubDate>
						<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Transtorno Mental]]></category>

				<guid isPermaLink="false">https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/2017/05/25/post468/</guid>
						<description><![CDATA[O CineMental busca combater estigmas sociais relacionados a transtornos mentais através da exibição de filmes]]></description>
							<content:encoded><![CDATA[  <span style="font-weight: 400;">Sofrimentos psíquicos de moderados a graves são cada vez mais comuns. De acordo com o Manual Merck de Informação Médica, 20% da população mundial sofre de transtornos mentais alguma vez na vida. Para combater os estigmas que existem com relação </span><span style="font-weight: 400;">aos desequilíbrios da saúde mental,</span><span style="font-weight: 400;"> o CineMental foi criado em junho do ano passado para promover a discussão do assunto a partir da exibição de filmes. O projeto era um sonho antigo da médica psiquiatra Martha Helena Oliveira Noal, que coordena a Associação de Familiares, Amigos e Bipolares de Santa Maria (AFAB) e o Espaço Nise da Silveira.  “</span><span style="font-weight: 400;">A comunidade precisa cada vez mais se inserir nos temas da saúde mental de forma clara e realista, quebrando tabus e preconceitos que se perpetuam há gerações”, argumenta a Martha.</span>

&nbsp;

<span style="font-weight: 400;">As exibições, que acontecem na sala 316 do Antigo Hospital Universitário</span><span style="font-weight: 400;">,</span><span style="font-weight: 400;"> dão oportunidades para ampliar a visão de mundo dos participantes. “São debates de alto nível, desencadeados após os filmes, onde a troca de saberes permite a integração de estudantes e profissionais de saúde, com seus conhecimentos teóricos e práticos, com a experiência viva de quem passou por circunstâncias representadas nos filmes”, afirma Martha. A maioria dos filmes apresentados têm em comum o deslocamento de pessoas da sociedade por alguma desrazão, contudo “ao final de </span><span style="font-weight: 400;">todos [os filmes] fica o questionamento sobre qual a maior desrazão: se é a dos que adoecem ou daqueles que segregam seres humanos sob o juízo de que não seriam aptos para viverem em sociedade”, aponta Martha. </span>

&nbsp;

<span style="font-weight: 400;">A AFAB é </span><span style="font-weight: 400;">um projeto de extensão do</span><span style="font-weight: 400;"> Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) e já recebeu prêmios nacionais relativos a suas atividades. O Espaço Nise da Silveira coordenado pela psiquiatra foi criado no ano de 2015 para complementar as ações da Associação em relação a capacitação e articulação da saúde mental. Além do CineMental, existem outros projetos promovidos no Espaço, como:</span>

&nbsp;
<ul>
 	<li style="font-weight: 400;"><strong>Projeto Comunidade de Fala: </strong><span style="font-weight: 400;">proposto pelo ativista em saúde mental Richard Weingarten, com apresentações de narrativas de usuários de serviços de saúde mental visando a quebra do estigma e preconceitos sociais. Foram realizadas 33 palestras desde 2015.</span></li>
 	<li style="font-weight: 400;"><strong>Projeto de Extensão Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio:</strong><span style="font-weight: 400;"> conta com 32 intervenções desenvolvidas na cidade e região, desde a sua criação em junho de 2014. É realizado em parceria com o Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar (NVEH).</span></li>
</ul>
&nbsp;

<span style="font-weight: 400;">Para comemorar o aniversário da Associação</span><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">que completa 20 anos no mês de maio, foram organizadas atividades, no dia 31 de maio. A celebração começa às 15h, na sede da SEDUFSM (rua André Marques, 665).</span>

&nbsp;

<span style="font-weight: 400;">Confira a lista com seis filmes exibidos com comentários da médica psiquiatra Martha Noal:</span>

&nbsp;
<p style="text-align: center;"> <img src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/04/2%C2%BA%20Estamira.jpg" alt="" width="400" height="208" /></p>
&nbsp;

<em><span style="font-weight: 400;">Estamira </span></em><span style="font-weight: 400;">- O documentário mostra como vivem Estamira e seus amigos em um lixão do Rio de Janeiro. “Apesar de se expressar através de seus delírios ao longo de todo o longa, [Estamira] se revela sábia quanto às noções de sobrevivência, resiliência, ecologia, antropologia, fazendo uma crítica social aos tratamentos desumanos e a sociedade de consumo. De "trocadilho" em "trocadilho", ela vai desconcertando os "copiadores" que se limitam a repetir ações sistemáticas sem reflexão”.</span>

&nbsp;
<p style="text-align: center;"><img src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/04/7%C2%BA%20CineMental%20Uma%20Mente%20Brilhante.JPG" alt="" width="400" height="185" /></p>
&nbsp;

<em><span style="font-weight: 400;">Uma Mente Brilhante</span></em><span style="font-weight: 400;"> - É apresentada a vida do matemático ganhador do prêmio Nobel John Forbes Nash Jr. “O filme mostra como é possível a superação, mesmo de quadros psiquiátricos graves, com um bom suporte clínico e familiar. A importância de se continuar dando vasão às potencialidades da pessoa em tratamento, mesmo compreendendo que em alguns casos, não se conseguirá atingir o padrão de funcionamento prévio ao adoecimento. É uma aula de reabilitação psicossocial.”</span>

&nbsp;
<p style="text-align: center;"><img src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/04/4%C2%BA%20HELENO.jpg" alt="" width="400" height="185" /></p>
&nbsp;

<em><span style="font-weight: 400;">Heleno </span></em><span style="font-weight: 400;">- </span><em><span style="font-weight: 400;">“</span></em><span style="font-weight: 400;">Narra a história do jogador de futebol, do auge de sua carreira de sucesso ao declínio e morte num manicômio, esquecido pela família e sociedade. Baseado em fatos reais, desperta a inquietação sobre qual desfecho sua vida poderia ter, se tivesse recebido um tratamento digno e humanizado.”</span>

&nbsp;
<p style="text-align: center;"><img src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/04/5%C2%BA%20Menos%20que%20Nada.jpg" alt="" width="400" height="185" /></p>
&nbsp;

<em><span style="font-weight: 400;">Menos que Nada</span></em><span style="font-weight: 400;"> - “Do diretor gaúcho Carlos Gerbase, transita pelos preceitos da psicanálise, da teoria sistêmica e da psiquiatria social com maestria, fazendo um contraponto da psiquiatria ortodoxa com a psiquiatria humanista. Aassepsia e mesmo a ética do cientificismo é posta à prova por outra ciência, tão moderna quanto antiga, das humanidades.”</span>

&nbsp;

<strong>Ciclo de Cinema em comemoração aos 20 anos</strong>
<blockquote style="float: right;"> <img src="https://www.ufsm.br/comunicacao/arco/wp-content/uploads/sites/601/2019/04/CARTAZ%20DO%20CICLO%20DE%20CINEMA.JPG" alt="" width="380" height="525" /></blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Em meio às celebrações dos 20 anos, foi sugerido pelo </span><span style="font-weight: 400;">psicólogo, colaborador do projeto de extensão Dione Lemos, que fosse promovido </span><span style="font-weight: 400;">um Ciclo de Cinema</span><span style="font-weight: 400;"> pelo CineMental</span><span style="font-weight: 400;">. Então, todas as quintas-feiras do mês de maio foram exibidos filmes, diferentemente da habitual sessão que acontece somente na última quinta-feira de cada mês. Foram selecionadas quatro obras cinematográficas, confira o comentário da médica psiquiatra sobre duas delas:</span></p>
&nbsp;

<em><span style="font-weight: 400;">Holocausto Brasileiro</span></em><span style="font-weight: 400;"> - “No filme dirigido pela própria autora do livro homônimo Daniela Arbex, as violações dos direitos humanos chegam ao seu grau máximo. Fome, frio, crueldade e descaso geram o que costumo denominar de ‘as bárbaras cenas de Barbacena’. Filme angustiante em sua dura realidade, chegou aos cinéfilos e profissionais da saúde, como um marco na reforma psiquiátrica brasileira, para que atrocidades como aquelas não se repitam jamais.”</span>

&nbsp;

<em><span style="font-weight: 400;">Nise </span></em><span style="font-weight: 400;">- </span><em><span style="font-weight: 400;">o coração da Loucura</span></em><span style="font-weight: 400;"> - “Narra a trajetória da psiquiatra alagoana, pioneira na humanização dos tratamentos psiquiátricos, ao sair da prisão e retornar para o trabalho no Hospital Dom Pedro II, atual Instituto Nise da Silveira. O filme explicita as resistências enfrentadas por Nise, os maus tratos aos quais os pacientes eram submetidos, e o apogeu de sua técnica, com exposições das obras do Museu de Imagens do Inconsciente no Brasil e no exterior, com o aval de Carl Gustav Jung.”</span>

&nbsp;

<span style="font-weight: 400;">Para finalizar o Ciclo de Cinema, o próximo filme a ser exibido pelo CineMental é </span><em><span style="font-weight: 400;">Nise - o coração da loucura,</span></em><span style="font-weight: 400;"> no dia 25 de maio, às 14h30, sala 316 no prédio de apoio da UFSM (rua Floriano Peixoto, 1750). </span>

&nbsp;

<span style="font-weight: 400;">Para mais informações sobre a programação da AFAB basta entrar em contato pelo telefone (55) 3220-9238 ou acessar <a href="http://www.facebook.com/AFABSM" target="_blank" rel="noopener noreferrer">a página no Facebook</a>.</span>

&nbsp;

Repórter: Julia Goulart
Ilustração de capa: Ítalo Paula]]></content:encoded>
													</item>
					</channel>
        </rss>
        