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Ciência inspiradora



Estudantes do CTISM resgatam contribuições e imagens de cientistas

A ciência, por meio de suas descobertas, é responsável por invenções que aumentaram a qualidade de vida da espécie humana. Mesmo pautada em metodologias, ela é desacreditada pelo movimento negacionista, que se apoia em convicções infundadas. Com o objetivo de estimular a reflexão sobre a importância da ciência, a professora Josiane Menezes, que leciona Biologia no Colégio Técnico Industrial de Santa Maria (CTISM), desafiou seus alunos com uma atividade diferente. Os estudantes dos primeiros e segundos anos dos cursos técnicos integrados tiveram de elaborar um infográfico sobre uma personalidade da ciência que os inspirasse. 

De início, alguns alunos estranharam a ideia de resgatar a história, os desafios e o legado de cientistas em um infográfico, formato de mídia que combina imagens e textos. Além disso, tinham que posar para uma foto que representasse o cientista escolhido. “Foi tirando a foto que comecei a me sentir interessado pelo trabalho”, conta Bruno Barchet, aluno do primeiro ano de Informática para Internet. Já o estudante Victor Machado, do curso de Eletrotécnica, conta que sua família o ajudou na recriação da fotografia. “Acabou sendo um momento muito legal. Nos divertimos e aprendemos juntos”, recorda.

Novas perspectivas para pensar o cotidiano

O infográfico proposto pela professora Josiane trouxe personalidades não tão conhecidas. “Vários trabalhos de outros colegas me apresentaram diferentes cientistas que eu nunca tinha ouvido falar sobre”, conta a estudante Júlia Firmiano. 

Luiza Iensen conhecia Hedy Lamarr apenas por sua carreira como atriz. “Não fazia ideia que foi ela quem inventou a base do Wi-fi”, afirma. A estudante reflete sobre o fato de que, apesar de estarmos familiarizados com a tecnologia, não pensamos com ela surgiu. Gabriela Bisso compartilha do mesmo ponto de vista: “Não sabemos quem fez muitas das realizações científicas com as quais convivemos. É muito legal saber quem inventou aquilo e pensar no contexto no qual foi inventado”.

Apesar de desafiadora, a tarefa foi bastante divertida para os alunos e fez com que eles se envolvessem. “Com o trabalho, fui mais a fundo na história da cientista e pude conhecer um pouco mais sobre ela. Algo que, sem a atividade, não teria tanto interesse”, afirma Thiaine Padilha.

Mulheres que mudaram o mundo

A professora Josiane conta que a avaliação foi inspirada no livro “As cientistas – 50 mulheres que mudaram o mundo”, que ganhou de sua filha e aluna, a estudante de Informática para Internet, Gabrielli Menezes Pedron. A obra, ilustrada pela própria autora, Rachel Ignotofsky, conta os desafios enfrentados por mulheres que marcaram a ciência ao longo da história. 

O formato lúdico tornou a tarefa mais interessante de ser realizada. Colocar as fotos dos alunos ao lado das de personalidades transmitiu a mensagem de que qualquer um pode se tornar um cientista. A experiência foi bastante enriquecedora para Luiza Iensen, que se sentiu muito inspirada por Rita Lobato Velho Lopes, referência na medicina, área que a pretende seguir.  

Nascida no Rio Grande do Sul, Rita Lobato estudou medicina na Universidade Federal da Bahia. Ela foi a primeira mulher a ser formar em medicina no Brasil e a segunda na América Latina – a universidade inclusive teve que criar um banheiro feminino. Após se formar em metade do tempo previsto do curso, Rita revolucionou a forma de se realizar cesarianas, salvando até hoje inúmeras vidas. “Sua história de vida e seus feitos me inspiram muito. Me fazem ter ainda mais certeza sobre meu futuro e o que desejo fazer pelo mundo. A descoberta dessa personalidade, graças ao trabalho da professora Josiane, vai ser algo que nunca vou esquecer!”

Tarefa despertou interesse pela contribuição científica

O astrofísico Neil DeGrasse Tyson e o estudante Ricardo Viçosa

A avaliação de Biologia despertou o interesse de alunos de fora do CTISM. “Quando contei para os meus amigos que estudam em outras escolas, todos ficaram interessados e quiseram ver como ficou o meu trabalho, também ficaram curiosos sobre qual era o cientista escolhido e quais foram as contribuições dele”, relata Daniel Ros. Após a publicação no Facebook e no Instagram, os infográficos somaram mais de 3 mil visualizações. 

O estudante Ricardo Viçosa completa: “Essa atividade só incentivou o interesse que tenho pela ciência, porque mostra como a gente pode aprender e se divertir ao mesmo tempo. Mesmo a questão da foto sendo um pouco diferente para mim, foi muito divertido, ainda mais compartilhar e ver o trabalho dos colegas”.

A professora Josiane lembra que discutir ciência sempre foi importante e, com a pandemia do novo coronavírus, tornou-se uma questão de sobrevivência. No entanto, ela reconhece que essa tarefa é bastante árdua e complexa, pois a ciência não detém grande prestígio junto à população. Em pesquisa realizada no ano passado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, os cientistas não apareceram entre as fontes mais confiáveis de informação – lembrados por apenas 12% dos entrevistados, atrás de líderes religiosos, com 15%, médicos e jornalistas com 26% ambos. 

Os estudantes têm uma visão bastante semelhante à da professora. Eles acreditam que, apesar de a ciência proporcionar progressos nos mais diversos âmbitos e nos tornar capazes de entender e interagir com o mundo, a figura do cientista é pouco valorizada no Brasil. Gabrielli Pedron argumenta que o descrédito se deve ao descaso do governo com a educação. Já Daniel Ros acredita que a pandemia trouxe mais visibilidade e valorização ao trabalho do cientista.

Os alunos do CTISM, como Luiza Iensen, ressaltam que a disseminação de notícias falsas é outro fator que aumenta a importância de se falar sobre ciência. A professora lembra do movimento antivacina e o negacionismo sobre mudanças climáticas. Mas o exemplo em maior evidência é o negacionismo em relação ao coronavírus. O vírus, que já vitimou mais de 1 milhão de pessoas no mundo, ainda é subestimado por figuras políticas, em especial nos Estados Unidos e Brasil – que, não por coincidência, são os dois países com o maior número de vítimas fatais, representando juntos um terço do número total de  mortos. 

Destaques nacionais na ciência

Apesar da dificuldade, a ciência brasileira rendeu e rende frutos. Ao falarem sobre cientistas que admiram e que até os inspiram, os alunos do CTISM citaram tanto figuras históricas como atuais. Oswaldo Cruz, foi um dos responsáveis pelo fim da febre amarela, da varíola e da peste bubônica no Brasil. Nise da Silveira se tornou referência na psicologia por sua luta antimanicomial e pela reinserção de pessoas deficientes mentais na sociedade. Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, foram responsáveis por decodificar o RNA do coronavírus menos de 48 horas após o primeiro caso no Brasil. Suzana Herculano-Houzel descobriu um método para contar o número de neurônios em humanos. Também foram lembrados os médicos cearenses responsáveis por desenvolver tratamento para queimaduras graves com pele de Tilápia, considerado revolucionário por acelerar o processo de cicatrização e diminuir a dor do paciente.

Victor Machado considera inspiradores os jovens cientistas que conseguem transpor as dificuldades para realizar seus objetivos. Seu grande exemplo é a sua mãe, que voltou a estudar, ingressou na UFSM e foi selecionada para uma bolsa de iniciação científica. A universitária já conseguiu publicar um capítulo em um livro. 

A tarefa estimulou ainda a reflexão sobre as desigualdades sociais. Como a professora Josiane lembra: “todos os cientistas têm a mesma sede de conhecimento, mas nem todos têm as mesmas oportunidades de explorar as respostas”. Por questões como gênero, raça e orientação sexual, muitos cientistas sofreram discriminação, que trouxeram muitas dificuldades e, infelizmente, isso não ficou completamente no passado. Mesmo assim, algumas pessoas superaram essas barreiras para colocar seu nome na história da humanidade e servir de exemplo para as futuras gerações. 

Brilhantismo contra o preconceito

A matemática Annie Easley e a estudante Andressa Schons

Na década de 1960, nos Estados Unidos, homens e mulheres lutavam para conquistar o espaço: os homens, o espaço sideral; e as mulheres – em especial as negras – seu espaço no mercado de trabalho. Katherine Johnson e Annie Easley são exemplos dessa luta e deram contribuições importantes à engenharia espacial. 

Katherine Johnson trabalhou para a NASA como “computador humano”. A partir dos seus cálculos, foi possível que se orbitasse a Terra pela primeira vez no ano de 1962 e o homem fosse a lua em 1969. A estudante Gabriela Bisso conheceu sua história através do filme Estrelas Além do Tempo e achou muito interessante como, apesar das oportunidades limitadas pelo machismo, o racismo e a segregação racial, Katherine conseguiu se tornar uma grande cientista. “Eu escolhi falar de uma cientista negra justamente pelo fato de que ela pode servir de inspiração para muitos outros jovens negros, que, infelizmente, sofrem diariamente com o racismo”, afirma.

A matemática e cientista da computação da NASA, Annie Easley foi uma das responsáveis pelo primeiro lançamento bem sucedido de um foguete, em 1963. A partir da década de 1970, ela participou de projetos sobre energias renováveis, implementando programas que auxiliaram na produção de energia solar e eólica. 

Apesar de suas contribuições para a ciência espacial, Easley foi cortada de praticamente todas as fotos dos projetos que participou por ser negra. A estudante de Informática para Internet, Andressa Schons desde o início queria dar visibilidade a uma mulher cientista pois é notável que ao longo da história elas não recebem os créditos por seus feitos. Além de encontrar um perfeito exemplo da invisibilidade das mulheres cientistas em Annie Easley, Andressa encontrou um exemplo, já que pensa em atuar na área da ciência da computação. “A história dela me inspirou ainda mais a seguir na carreira e usar os conhecimentos adquiridos no curso para, como ela, estudar maneiras de melhorar as tecnologias atuais tentando diminuir a emissão de gases poluentes”, afirma.

Uma mãozinha hollywoodiana

A inventora Hedy Lamarr e a aluna Gabrielli Menezes

Na época da Segunda Guerra Mundial, uma estrela de Hollywood deixou sua marca na ciência: Hedy Lamarr usou seu tempo livre fora dos sets para revolucionar a telecomunicação. Lamarr, junto com o músico George Antheil, criou um sistema de comunicação extremamente seguro, incapaz de ser detectado pelos radares nazistas. A invenção não foi aceita pela marinha norte-americana na época, mas posteriormente a tecnologia possibilitou o surgimento de celulares, do Wi-fi, bluetooth e GPS.

Precursora em uma área ainda masculina

A matemática inglesa Ada Lovelace é considerada a primeira programadora da história, graças ao algoritmo que escreveu em 1843. Ada é um exemplo por ser pioneira em uma área que era – e ainda é – em sua maioria masculina. Thaiaine Padilha, estudante de Informática para Internet, diz: “Uma mulher na computação no século XIX é algo para se admirar muito e que pode inspirar mais mulheres a seguirem na área” e conta que se sentiu muito parecida com Ada durante o desenvolvimento da fotografia por ela ser uma referência na sua área de estudo.

Gênio da matemática sem ensino formal

Outro destaque da matemática é o indiano Srinivasa Ramanujan. Após enfrentar a extrema pobreza durante toda a sua vida e mesmo sem um ensino acadêmico formal, Ramanujan trouxe contribuições que abriram áreas completamente novas para a matemática e inspiraram vastos campos de pesquisa – como a análise matemática, teoria dos números, séries infinitas, frações continuadas e outras, onde ele resolveu problemas que eram considerados insolúveis. Seu esforço e talento o fizeram ser considerado o maior matemático indiano de todos os tempos e até ser equiparado a grandes nomes da história da matemática.

Persistência como maior legado

Outra cientista premiada com o Nobel de Medicina foi Gertrude Elion. Por ser mulher, a bioquímica estadunidense enfrentou dificuldades para conseguir um emprego e nunca conseguiu realizar um doutorado. Mesmo assim desenvolveu diversos medicamentos, entre eles, para tratamentos de leucemia, de malária, e para combater a rejeição de órgãos transplantados. Gertrude é uma figura inspiradora para a estudante Júlia Firmino porque ela se recusou a desistir: “Mesmo com todas as dificuldades que a época apresentava para uma mulher na ciência, ela prosseguiu e conseguiu realizar grandes coisas”, afirma.

Pai das invenções

A persistência foi a característica de Thomas Edison que mais chamou a atenção do estudante do curso de Eletrotécnica, Daniel Ros. Segundo ele, assim que a proposta da atividade foi apresentada, Edison foi o primeiro nome a vir em sua cabeça – devido às contribuições do cientista para a sua área de estudo. Thomas Edison é um dos grandes responsáveis pela revolução tecnológica do século XX. Ao longo de sua vida, registrou 2332 patentes de inventos, entre elas a lâmpada elétrica, a câmera cinematográfica e o fonógrafo – o primeiro aparelho a gravar e reproduzir sons -, além de ter aperfeiçoado outras criações como o telefone e a máquina de escrever. O estudante lembra de uma frase de Edison que ilustra bem a sua dedicação: “Nunca fiz nada dar certo por acidente; nenhuma das minhas invenções surgiu por acidente; elas vieram do meu trabalho.”

Um empurrãozinho do destino

O médico Alexander Fleming e o aluno Bruno Barchet

Ainda que não seja o caso de Edison, algumas invenções que revolucionaram o mundo contaram com uma pequena ajuda do acaso. Um exemplo disso é o de Alexander Fleming: apesar de existir o dito popular “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”, esse não foi o caso de Fleming que, em seu laboratório, presenciou dois acidentes que proporcionaram grandes avanços para a medicina. O primeiro permitiu a criação da lisozima, uma substância capaz de destruir células bacterianas. O segundo – que como lembra o estudante de Informática para Internet, Bruno Barchet, “revolucionou a medicina” – foi a descoberta da penicilina. 

A penicilina, que rendeu o Nobel de Medicina para Fleming, deu início à era dos antibióticos e foi usada para o tratamento de doenças como pneumonia, sífilis, meningite e bronquite, as quais, na época, eram mortais. Ela salvou muitas vidas e serviu de base para os antibióticos que temos hoje, porém, assim como com outras descobertas, isso só foi possível graças à curiosidade e à capacidade de observação de pessoas que inspiram até hoje.

Expediente

Repórter: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo da UFSM, bolsista

Ilustração e tratamento de imagens: Renata Costa, acadêmica de Produção Editorial da UFSM, bolsista

Fotografias: arquivos pessoais dos estudantes do CTISM

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas da UFSM, bolsista

Editora de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo da UFSM, bolsista

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista


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