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Do cartaz ao monumento



Três anos após a morte do artista plástico e professor Silvestre Peciar, seu legado segue vivo no mundo artístico e no campo educacional

Mural Auwe, pintado por Peciar em 1983. (Foto: Melissa Konzen/Arco)

A figura mais importante que passou pelo Centro de Artes e Letras. É assim que o professor Alphonsus Benetti define o artista plástico Silvestre Peciar Basiaco, colega de departamento. Nascido em Montevidéu, Uruguai, em 1935, Peciar estudou Desenho e Pintura na Escola Nacional de Belas Artes. Local esse em que posteriormente lecionou Desenho do Secundário até 1973, momento em que a ditadura militar o tirou de sua função como professor e, depois, fechou a instituição. 

Nem mesmo a ditadura foi capaz de afastá-lo de sua grande paixão. No ano de 1975, o artista buscou exílio no Brasil e escolheu Santa Maria como destino. Ao atuar como professor na UFSM, pôde dar continuidade ao seu trabalho, que sempre teve como tripé a pedagogia, a obra plástica e o pensamento político. 

Com formação modernista e vertente expressionista, Peciar experimentou diferentes tipos de procedimentos artísticos durante sua carreira. Para evitar o perfeccionismo, recomeçava sempre. Com novas técnicas e materiais, buscava manter a mente de principiante, sempre aberta a novos aprendizados. Assim, trabalhou do cartaz ao monumento. Fez gravuras, pinturas, mosaicos e murais. Mas  foi na construção de esculturas que seu talento lhe rendeu maior destaque. 

O artista, que adotou Santa Maria como lar, lecionou na UFSM durante 23 anos. Em 2001, retornou a Montevidéu, onde permaneceu até sua morte, em 5 de março de 2017. No período em que trabalhou no CAL fez grandes contribuições, tanto para o cenário artístico e cultural, quanto para a vida dos alunos que passaram por seu ateliê. É o caso do artista plástico Juliano Reis Siqueira que foi aluno em 2001, na graduação na UFSM, e em 2003, no Instituto Escola Nacional de Bellas Artes, quando Peciar voltou a lecionar em Montevidéu. Posteriormente, Juliano defendeu sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina, na qual pesquisou “Peciar e a formação do artista”.

Para Juliano, o trabalho educativo do professor foi determinado pela generosidade que ele possuía. Esse foi um dos motivos que o fez estudar a fundo as contribuições de Peciar para a formação artística dos estudantes. O pesquisador também destaca o comprometimento do educador com a liberdade e com a integração da arte à vida diária, além da maneira única com que potencializava o crescimento dos alunos por meio da autonomia e da criação em liberdade. 

Diferentes obras e técnicas

Escultura Feminina. Localizada em frente à Reitoria da UFSM. Silvestre Peciar, ano desconhecido. (Foto: Melissa Konzen/Arco)

Ao longo dos anos em que Silvestre Peciar integrou o corpo docente do curso de Desenho e Plástica  – que mais tarde veio a se chamar Artes Visuais – criou inúmeras obras, sozinho e também com estudantes. “A ideia dele era sempre ensinar e passar conhecimento. Isso foi importante para o crescimento de muitos alunos que, depois, se dedicaram à escultura”, afirma o artista plástico e antigo colega de departamento, professor Juan Amoretti. 

Existem 89 obras de autoria de Peciar no Centro de Artes e Letras. O maior número entre os artistas que por ali passaram. Além disso, muitas outras estão espalhadas pela Universidade, em locais públicos da cidade e também no Museu de Arte de Santa Maria (MASM). Em 2001, o artista doou 82 obras de seu acervo pessoal para o Museu, o que, segundo o amigo Amoretti, foi um gesto de retribuição à cidade, que o recebeu, acolheu e confiou no seu trabalho. O número total de peças produzidas durante sua carreira atinge a marca de 4 mil. 

As peças produzidas pelo artista eram figurativas ou abstratas. Em sua maioria, prevalecia a figura feminina. O professor também trazia temas de seu cotidiano e suas vivências, como a ditadura militar, que foi frequentemente abordada. Paisagens de Camobi e de Vale Vêneto também eram registradas. 

O pesquisador Juliano, em sua tese, dividiu o trabalho de Peciar em três fases: o período de formação no Uruguai (1949-1975); o exílio no Brasil (1975- 2001); e o retorno a Montevidéu (2001-2017). Cada fase possuiu diferentes linhas. Nos anos 1960, era abstrata e funcional. Nos anos 1970, imaginativa. Em 1980, expressionista e política. Depois, na década de 1990 foi arte pública. Ao voltar para o Uruguai, houve uma imersão na cor, por meio de mosaicos figurativos e lembranças dos morros de Santa Maria. 

“A ética de Peciar foi o compromisso com a comunidade, por isso fez muitas obras públicas”, ressalta Juliano. Ele considera imenso o legado deixado pelo educador-artista, tanto nas artes plásticas, quanto no campo educacional. O pesquisador destaca que o ideal de Peciar era se aproximar de gente comum, fora das galerias e dos museus. “Seu legado é nossa missão em tempos tão autoritários”, complementa. 

A arte de educar

“Da prática apaixonada da arte e da docência, Peciar constituiu seu estilo de vida”, redige Juliano Siqueira em sua tese. Segundo o pesquisador, a satisfação com os bons resultados de seus alunos era semelhante à que sentia com seus próprios feitos. 

O professor Peciar também questionava o sistema de educação tradicional, como, por exemplo, a atribuição de notas, que presenteava ou castigava o aluno de acordo com o relacionamento existente com o professor, além de fomentar a competição. Assim, no período em que lecionou, Peciar idealizou, junto com alunos, o novo currículo do curso de Desenho e Plástica. 

Segundo o amigo e professor Alphonsus Benetti, naquele currículo os trabalhos das disciplinas passaram a ser avaliados por bancas de professores, que atribuíam conceitos em vez de notas – sistema semelhante ao da atual pós-graduação. A proposta que inspirou outras universidades é classificada por Benetti como o melhor projeto curricular para a área já criado em instituições federais brasileiras. 

“Peciar rompeu com os modos autoritários e centralizados de se construir o currículo”, explica Juliano. Para ele, a ideia era a livre escolha. Cada estudante podia fazer a autogestão de seu próprio currículo e, assim, ele tornava-se único. O novo currículo era vegetal, orgânico e aumentava a autonomia do educando. 

Sobre as aulas com o artista, Juliano classifica-o como intuitivo e sensível. E afirma: “Peciar era mais que professor, ‘não ensinava’, deixava que os estudantes aprendessem e ajudava sem interferir no processo singular de cada um. Atuava mais por contágio do que por palavras. Vivia intensamente a arte e a docência, por isso consideramos ele um mestre”.

Abertura da exposição de Peciar Basiaco, em 17 de agosto de 1981. (Foto: Arquivo Fotográfico UFSM - Departamento de Arquivo Geral)

Mais do que fazer arte, é preciso mantê-la

Peciar trabalhava em diferentes projetos ao mesmo tempo. Desenvolvia obras no ateliê da UFSM e também na própria casa, onde geralmente eram feitos os trabalhos maiores. Alphonsus Benetti conta que mesmo quando lecionava/orientava, o amigo criava. “Ele não conseguia ficar parado. Estava sempre produzindo”, recorda. 

Em 1983, Peciar finalizou, na entrada da Antiga Reitoria, o mural “Auwe”, que significa amizade em xingú. Com o passar dos anos, as pinceladas se deterioraram devido a um vazamento de água e vandalismos. O artista plástico Juan Amoretti conta que há 15 anos já havia a intenção de restaurar o mural. Na época, entrou em contato com o próprio Peciar, que havia voltado a residir em Montevidéu. Os dois se correspondiam através de cartas, nas quais o uruguaio enviava fotos do mural original e ricos detalhes sobre cada parte da pintura. 

Restauração do mural Auwe pelo artista plástico Juan Amoretti. (Foto: Melissa Konzen/Arco)

“Isso é algo muito valioso, pois ele conseguiu me enviar as fotos. Logicamente que são em preto e branco, mas, como há vestígios da pintura na parede, eu posso completar as partes que foram danificadas”, descreve Amoretti. O professor estudou na Escola de Belas Artes do Peru e trabalhou com restauração durante sua formação, além de ter sido auxiliar de restauração no Museu de Arte de Lima. 

Nas cartas, Peciar ressalta “pintado com vinílico e acrílico, nada de luzes e sombras, só linhas e planos de cor. Confio em tua habilidade! Espero imagens coloridas depois da restauração!” O processo de restauro foi iniciado em janeiro deste ano. Amoretti trabalha com cautela para preservar ao máximo a pintura original. As imagens coloridas da obra restaurada, infelizmente, ele ficou devendo. 

Repórter e Mídia Social: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista


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