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Será que estamos no início do fim da pandemia?

Especialistas avaliam se a variante Ômicron significa o surgimento de uma endemia de Covid-19



Ilustração horizontal colorida de homem, em vermelho, batendo com uma espada no coronavírus

Desde o fim de novembro de 2021, quando a variante Ômicron foi detectada pela primeira vez, uma onda de novos casos surgiu. O aumento mais significativo se deu após as comemorações de final de ano. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a onda de casos como um ‘tsunami’. No dia 27 de dezembro de 2021, o mundo chegou a registrar o pico de 1,4 milhão de casos. Um dos motivos foi o relaxamento das restrições, por conta do avanço da cobertura vacinal: 54% da população mundial recebeu o esquema completo, segundo o Our World in Data.

Diferentemente das variantes anteriores, como a Delta e a Alfa, a Ômicron causa infecções menos graves, ou seja, provoca menos hospitalizações e óbitos, mas é altamente transmissível. Por apresentar essas especificidades e pelo aumento da vacinação mundial, começou-se um debate na comunidade científica: a variante seria um indício do início do fim da pandemia? 

Novas variantes são um processo natural

Quando o vírus invade um hospedeiro, ele se replica dentro da célula. Durante esse processo, pode ocorrer uma diversidade de alterações no código genético desses novos vírus, o que representa novas mutações. Em alguns casos, essas modificações apresentam vantagens evolutivas para o vírus. O médico epidemiologista da Vigilância em Saúde de Santa Maria e professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Marcos Antônio de Oliveira Lobato, comenta que as mudanças no padrão da pandemia ocorrem por alguns fatores: 

  • As características das variantes têm relação com a Teoria da Evolução de Darwin – apenas algumas mutações passam pela barreira ou pelo desafio seletivo. Essa seletividade faz com que o vírus fique com maior ou menor letalidade, que se reproduza mais rapidamente ou que apresente melhor resistência ao sistema imunológico do hospedeiro.
  • Precisa-se analisar o contexto biológico e social no qual surgem as variantes. A vacina não impede que o vírus circule, contudo, impede que casos mais graves da doença ocorram.

De acordo com o Instituto Butantan, a Ômicron é considerada pela OMS uma variante de preocupação, que carrega mais mutações e, por isso, é mais transmissível. A nova variante tem um poder de transmissão ainda maior do que as demais: Alfa, Beta, Gama e Delta. Ainda segundo o Instituto, estudos mostraram que a variante é capaz de infectar mais rapidamente os tecidos respiratórios superiores – cavidade nasal, garganta e parte superior da traquéia – em vez dos pulmões. Isso indica uma razão pela qual pessoas infectadas desenvolvem uma doença menos grave quando comparadas com a Delta, por exemplo.

A partir disso, o médico infectologista Alexandre Vargas Schwarzbold, docente do Departamento de Clínica Médica da UFSM, comenta que não é a vacina que mudou as características do vírus, mas que o vírus se adaptou a uma população imunizada. “Poderia ter demorado mais para se adaptar. A Ômicron ‘engoliu’ a Delta pela capacidade de transmitir”, explica o especialista que participou do estudo da Universidade de Oxford em parceria com Astrazeneca e Fundação Oswaldo Cruz para verificação da segurança e da eficácia do imunizante.

De acordo com Schwarzbold, todas essas características da nova variante do vírus mostram que “ela veio para ficar”. Para o infectologista, quando o vírus começa a ter muitas mutações, ele começa a perder a capacidade patológica de letalidade. “Essa é a razão pela qual acredito que vírus muito transmissores começam a ficar mais leves”, argumenta.

A infecção não significa ineficácia da vacina

A nova variante tem uma facilidade maior de infectar pessoas imunizadas, mas isso não significa a ineficácia das vacinas contra a Covid-19. “Nosso foco agora tem que ser se é grave ou não, se hospitaliza ou não, se a pessoa tem tendência a morrer por ser infectada. Os cientistas que desenvolveram a vacina nunca mentiram sobre a função dela. As vacinas servem para as pessoas não morrerem, e elas estão cumprindo muito bem esse papel”, afirma Schwarzbold. 

De acordo com um estudo publicado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, no dia 21 de janeiro de 2022, a terceira dose ou a dose de reforço obteve 90% de eficácia na prevenção de internações durante o período de dezembro de 2021 a janeiro de 2022. Os resultados também comparam pacientes com as duas doses, após pelo menos seis meses da segunda imunização, e foi apresentado 57% de eficácia no intervalo de tempo analisado. Posto isso, o estudo concluiu que as pessoas com a dose de reforço estão menos propensas a serem infectadas pela Ômicron. 

Ademais, quanto maior o número de pessoas no mundo com o esquema vacinal completo, menor é a circulação do vírus. Lobato explica que as pessoas vacinadas transmitem em uma escala menor, e em alguns casos, podem nem transmitir. Por isso, a menor circulação leva a uma menor chance de reprodução do vírus e, por consequência, diminui a possibilidade de novas mutações. 

É o início do fim da pandemia para o mundo ou só para a Europa?

Em anúncio à imprensa, no dia 3 de fevereiro, o diretor regional da OMS na Europa, Hans Kluge, afirmou que o momento da pandemia no velho continente “deve ser visto como um ‘cessar-fogo’ que pode trazer uma paz duradoura”. O cenário mais animador na Europa deve-se a três principais fatores: diminuição no número de hospitalizações pela menor gravidade da variante Ômicron; a proteção das vacinas e o final do inverno. 

A imunização completa chega a 69,29% na Europa e ocorre o relaxamento de algumas medidas de segurança, como o uso de máscaras. O destaque é Portugal, com 91,42% dos habitantes completamente imunizados. Mas esta não é a realidade de toda a região. Na Bósnia e Herzegovina, por exemplo, a taxa está em 25,93%.

A realidade da América Latina e Caribe é mais desigual. De um lado, Cuba, Argentina, Equador, Brasil e Costa Rica com mais de 70% dos habitantes com vacinação completa – sem contar a dose de reforço. De outro, 14 países que não atingiram 40% de imunização, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde. Um exemplo é o Haiti, o país mais pobre da região, que tem 0,86% população com esquema completo.

A África é o continente que menos vacinou. Conforme dados da OMS, apenas 11% da população adulta africana está imunizada. Há desertos de imunização. Em Burundi, país que enfrenta crise humanitária, o esquema completo chegou para apenas 0,07% dos 12,5 milhões de habitantes. A situação é semelhante na República Democrática do Congo e no Chade, países com problemas sociais onde a imunização não atingiu 1%, de acordo com dados da Our World in Data.

Dessa forma, enquanto houver desigualdade vacinal em outros territórios, em especial nas populações mais vulneráveis, há chances maiores de surgirem novas mutações, por conta da circulação do vírus. 

Vamos conviver com a Covid-19?

É um consenso entre pesquisadores e a comunidade científica que a humanidade vai precisar conviver com o vírus Sars-Cov-2. Schwarzbold e Lobato comparam este com o vírus Influenza: todos os anos pessoas são infectadas com ele e surgem novas variantes. Um exemplo é a H1N1 que, entretanto, tem número de infecções e hospitalizações estáveis. 

É provável que, ao longo do tempo, a Covid-19 se torne uma doença endêmica – limitada a populações de determinadas localidades geográficas. Com isso, sua taxa de incidência e transmissão serão previsíveis. Porém, para que os números de casos se estabilizem e as internações diminuam, esse cenário esperado pela comunidade científica só será possível com o avanço da vacinação mundial. 

Veredito final: É possível

A humanidade vai estar mais perto do início do fim da pandemia quando a cobertura vacinal não for tão desigual em diversos países. 

Expediente:
Reportagem: Eduarda Paz, acadêmica de Jornalismo e bolsista do projeto Divulga Ciência;
Design Gráfico: Cristiele Luíse, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;
Ilustração mitômetro: Giovana Marion, designer
Mídia Social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.
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