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Mediação no Século XXI



Jornalismo precisa ser equiparado à produção científica para resgatar a credibilidade perdida nos últimos anos

O jornalismo é responsável por parte daquilo que se pensa da cultura em sociedade e sua prática se aproxima do que faz o cientista. Tanto os jornalistas quanto os cientistas se baseiam em fatos. Apesar da similaridade, a professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/FW) Luciana Carvalho explica que esses profissionais têm critérios e padrões de condutas próprios e distintos, o que faz com que seus trabalhos tenham efeitos diferentes na sociedade. Ela afirma que, diferentemente dos cientistas, o jornalista se relaciona, antes de tudo, com o público e a necessidade primordial de comunicar. 

Outra e, talvez, uma das maiores diferenças entre cientistas e jornalistas é o uso da linguagem. “Não se trata de ser melhor ou pior, mas diferente”, pondera Luciana. Segundo a professora, assim como a ciência, o jornalismo funciona como processo de construção de conhecimento. “O jornalismo, ao construir narrativas sobre o mundo, também faz parte da cultura, principalmente se adotarmos a perspectiva da construção social da realidade, pela qual compreendemos que as notícias são resultado de agenciamentos entre a cultura profissional, os fatos, as questões empresariais, políticas e econômicas”, esclarece. 

Mesmo com bases práticas de investigação e de checagem de dados e informações, tornou-se cada vez mais comum encontrar posicionamentos contrários aos trabalhos dos jornalistas e dos cientistas, principalmente nas redes sociais. O cuidado nos resultados disponibilizados à sociedade não isenta o jornalismo e a ciência de carregarem consigo uma verdade provisória. “Sabemos que não há uma única verdade e que, por mais que dela cheguemos perto, nunca a alcançaremos por inteiro”, acentua Luciana. 

Diante de tantos contrapontos, da negação do aquecimento global e da propagação de que as vacinas são estratégias de redução populacional ou que causam doenças, a ciência e o jornalismo enfrentam o mesmo problema, a falta de credibilidade. “Recentemente, temos visto emergir um cenário de pós-verdade, em que o conhecimento científico e a produção jornalística são atacados e desmerecidos, o que torna cada vez mais importante a busca pelo fortalecimento desses campos, por meio da valorização de seus métodos de trabalho”, salienta a professora.

Para além do lead 

Diariamente, o jornalista lida com várias pautas, assuntos de áreas distintas e, por isso, o profissional precisa estar bem informado e ser curioso. A partir desse estereótipo que a professora Luciana Carvalho coloca que algumas pessoas consideram o jornalista um especialista em generalidade. Para ela, diferente do cientista, o jornalista não tem obrigação de ter conhecimento aprofundado sobre tudo, mas precisa saber onde e como buscar o que necessita apurar para informar à sociedade. “Quando surge uma pauta, temos que saber com quem falar, onde encontrar informações básicas, buscar o histórico daquele assunto”. Assim Luciana exemplifica o processo de apuração e investigação da notícia. 

Na maioria das vezes, as qualidades básicas do jornalistas são despertadas na universidade, local em que acontece a instruçãoe a experimentação daqueles que passam a atuar na sociedade. É o processo em que está o estudante José Bruno Fiorini, acadêmico de Jornalismo e participante do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Tecnologia e Sociabilidades da UFSM, campus de Frederico Westphalen. 

Ele se mostra preocupado com a ascensão das redes sociais como meios de difusão da informação e, por isso, volta sua formação para conhecer mais sobre o funcionamento dessas ferramentas de mediação jornalística. Bruno alerta que nem tudo o que está vinculado às redes sociais é jornalismo, ainda que publicado em plataformas de veículos de comunicação. Segundo o acadêmico, a falta desse feeling parece descaracterizar a representação de um dos principais critérios para definir o que é notícia: o interesse público. “Acumular conteúdo nas páginas do Facebook não é fazer jornalismo nas mídias sociais. Compartilhar o horóscopo nos Stories não é produzir conteúdo [jornalístico] audiovisual”, explica. 

Para ele, os produtos audiovisuais para Facebook e Instagram, por exemplo, trazem ao jornalismo novas formas de linguagens e de interação com o público. Neste sentido, a aproximação entre veículo e público é uma das principais características dessas mídias. Ao encontro disso, Luciana frisa que as redes sociais são “ambientes digitais que, por suas características, acabam se tornando mídias, as denominadas mídias sociais digitais, que é o termo que considero mais adequado, atualmente, por envolver também os aplicativos móveis”. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio do relatório Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores 2017, no Brasil, o acesso à internet em casa atinge 70,5% da população. Pelos celulares e smartphones, chega a mais de 80%. Há muita gente que só se informa por grupo de Whatsapp. “Esses usuários são as vítimas mais fáceis das fake news. Além disso, há empresas e partidos políticos trabalhando para desinformar a população, criando pânico, desacreditando os jornalistas e a ciência”, alerta Luciana. Ela reforça ainda que, nos anos 1990, quando a internet se expandiu para toda a sociedade, autores como Pierre Lévy já falavam que o ciberespaço promoveria uma desintermediação ao tornar dispensáveis os mediadores tradicionais do conhecimento, como os jornalistas e os cientistas.

Jornalismo e(m) redes sociais 

É preciso definir o que se entende por mídia alternativa ou independente. Se for para considerar todas as iniciativas que buscam se desvincular das pressões organizacionais da grande mídia, que não se associam a financiamento do governo ou de empresas, a professora diz que poucas conseguem se manter neste modelo. Para Luciana, é o que acontece no caso da Agência Pública e da Ponte, que, aparentemente, mantêm-se com recursos de editais e contribuições de leitores. “Alguns blogs e coletivos se dizem independentes, mas essa independência é relativa, pois estão muitas vezes vinculados a partidos políticos ou grupos com interesses que vão além da prática do jornalismo”, critica. Segundo a professora, o posicionamento do veículo de comunicação não é um problema, pelo contrário, desde que seja exposto para o leitor de que lado se está. Ainda mais se o lado escolhido for aquele de combate às injustiças sociais.

As redes sociais são metáforas para as ligações que se estabelecem entre as pessoas. Como essas mídias são alimentadas por meio da troca de informações e da conversação online, mostram um grande potencial para a prática jornalística. “Eu diria que o jornalismo continua sendo jornalismo nas redes ou mídias sociais digitais. E, ao mesmo tempo, surgem novas práticas, novas rotinas, novas linguagens, que parecem criar um tipo diferente de jornalismo, mais próximo da informalidade e do entretenimento, como já foi visto surgir, em outros moldes, na televisão ou no rádio”, explica Luciana. 

A professora demonstra preocupação com o teor de notícias falsas, porque abusam de uma possível ingenuidade do público. “Muitas pessoas não sabem ou não fazem questão de saber diferenciar o boato do fato, a notícia da falsa notícia, a informação da desinformação, o jornalismo do pseudojornalismo”, analisa. Para ela, falta letramento digital, mas também há quem lucre e tenha vantagens em disseminar informações falsas ou maliciosas de modo deliberado, como ocorre em conflitos ou eleições. 

Luciana leva em conta que o digital não criou a desinformação, mas a potencializou, pois muitos recebem e repassam conteúdos para suas redes sociais sem checar a credibilidade da fonte. No Brasil, ainda há o agravante da decisão do Supremo Tribunal Federal, que em 2009 suspendeu a obrigatoriedade do diploma superior em jornalismo para a obtenção do registro profissional de jornalista. A professora menciona ainda que o mercado de trabalho está cheio de pessoas sem formação que atuam no lugar de profissionais, o que acaba por precarizar a área. 

Curadoria algorítmica 

A curadoria é ressignificada no digital. O termo se relaciona ao ato de cura, vigilância e zelo. Na comunicação social, historicamente, o mediador tem realizado a função curadora. Ele age como uma espécie de filtro. Por meio de base teórica e prática, seleciona, checa a veracidade e direciona informações à sociedade. Antes realizada quase como uma exclusividade do jornalista, no século XXI outros profissionais passam a realizar a função de curadoria. 

Em uma sociedade cada vez mais digitalizada, os Relações Públicas, por exemplo, passam a ser inseridos nessa tarefa, já que eles estreitam ou mantêm o relacionamento entre empresa e público de forma estratégica. No entanto, quem têm chamado atenção no protagonismo desse funcionamento são os algoritmos. Aparentemente, a curadoria por meio de algoritmos se sobressai à feita por humanos. A relações públicas Maríndia Dalla Valle, formada pela UFSM/FW, trabalha como analista de mídias digitais. Ela explica que esta é uma área de instabilidade, porque a cada semana surge uma nova atualização de uma mídia social digital ou um recurso novo para ser usado. 

Luís Krötz, formado em Tecnologia em Sistemas para Internet na UFSM, conta que as empresas de jornalismo podem usar o recurso das plataformas para identificar e atingir determinados públicos e que há um processo de curadoria algorítmica nessa relação. “De acordo com o público, podem ser selecionadas múltiplas plataformas de propaganda social, em geral utiliza-se mais de uma, algumas para atingir um público mais genérico e outras para atingir determinados nichos de usuários”, diz o gerente de tecnologia. 

Assim, o conhecimento que antes parecia restrito aos profissionais das ciências da computação passa a ser de interesse de todos, dos comunicadores e da sociedade em geral, afinal todos estão submersos na linguagem do zero e um. “Dentro da lógica das mídias sociais digitais, o algoritmo é fundamental, pois sem ele ficaria impossível receber e procurar conteúdo online. No processo de comunicação social, ele auxilia para aproximar o usuário das pessoas com as quais esse mais tem contato digital e dos conteúdos com os quais ele mais interage”, explica Dalla Valle.

Reportagem: Inácio de Paula

Diagramação e ilustração: Yasmin Faccin

Edição: Maurício Dias e Melissa Konzen

Revisão: Alcione Bidinoto

*Matéria publicada na 11ª edição impressa da revista Arco. *

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