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Arco entrevista química Paola Mello



Professora da UFSM ganha prêmio internacional de química e conta sobre a importância da representatividade na ciência

Ilustração de 3 pesquisadoras mulheres da área de química

Diversidade, ciência e globalização: ainda em outubro ocorreu o terceiro ano consecutivo da premiação “Women in Quemistry and Related Sciences” – em tradução livre, “Mulheres na Química e Ciências Relacionadas”. O evento foi organizado pela American Chemistry Society (ACS), em parceria com a Sociedade Brasileira de Química. Ele também contou com patrocínio da Chemical & Engineering News (C&EN) e do CAS (Chemical Abstracts Service), uma divisão da ACS. Nesta edição, o objetivo foi promover a igualdade de gênero na ciência, na tecnologia, na engenharia e na matemática no Brasil. Visto isso, o prêmio reconheceu mulheres cientistas que se destacavam pelas suas contribuições na química ou em outras áreas relacionadas.  

A premiação era desenvolvida a partir de três categorias: liderança na indústria, para alguém que trabalhasse na área, cujas investigações trouxeram inovação e benefício para a comunidade; liderança na academia, para alguém com um percurso consolidado no meio acadêmico, com contribuições de impacto social; e líder emergente na química e ciências relacionadas, que reconhecia os feitos de uma jovem cientista excepcional, com até 40 anos de idade e sem ter concluído o seu doutoramento há mais de 10 anos.

Entre as ganhadoras estavam Sonia Maria Cabral de Menezes (Petrobras), Ana Flávia Nogueira (UNICAMP) e Paola de Mello, professora associada de química da UFSM. A revista Arco conversou com Paola, que contou um pouco mais sobre a sua pesquisa, as vantagens de uma ciência globalizada e os desafios na busca pela igualdade na ciência. 

ARCO – Primeiramente, pode explicar o seu trabalho de pesquisa?

Paola Mello – Atualmente nosso grupo de pesquisa, formado por dez professores(as) e cerca de 60 estudantes de graduação e pós-graduação, se envolve com duas linhas de pesquisa principais: a de desenvolvimento de métodos de determinação de componentes ou contaminantes em matrizes diversas e a de intensificação de processos industriais com energias alternativas. De forma resumida, um processo industrial pode ser influenciado por sua matéria-prima (e, assim, conhecer sua composição ou eventuais contaminantes é crucial, bem como monitorar seus subprodutos), assim como pode gerar produtos distintos, que precisam ser caracterizados em termos de seus componentes, para atingir uma dada especificação (controle de qualidade). Para além das especificações, há também questões como toxicidade e impacto ambiental, por exemplo, que comumente são aspectos que demandam que a química analítica forneça métodos e resultados, com o que nos envolvemos em pesquisa.

Foto de perfil de mulher jovem com roupa branca. A imagem traz uma série de ilustrações relacionadas à química, como átomo

ARCO – Quais foram as motivações para o desenvolvimento do projeto?

Paola Mello – Acredito que haja um conjunto, compatível com a dimensão e importância da ciência. Podemos citar algumas principais: novas demandas da comunidade científica e da sociedade, melhorias em processos e produtos, exigências de organismos de regulamentação.

ARCO – Quais são os principais benefícios que a pesquisa pode trazer para a Química e para sociedade em geral?

Paola Mello – Podemos citar informações sobre a composição de matérias-primas e produtos diversos, envolvendo questões como toxicidade, impactos sobre o meio ambiente e para os seres vivos, bem como produtos e processos com menor consumo energético, economia de reagentes, minimizar a geração de resíduos e dos impactos dele decorrentes, dentre outros.

ARCO – Você ganhou o prêmio da categoria Líder Emergente, que busca reconhecer jovens cientistas com menos de 40 anos. O que isso significa para você e para as suas perspectivas acerca do futuro de sua carreira?

Paola Mello –  Essa premiação teve a intenção de auxiliar na promoção da igualdade de gênero especialmente nas ciências, tecnologias, engenharias e matemática (a área “STEM”). Tive a honra de estar entre as selecionadas, dentre tantas outras merecedoras. A distinção tem um significado importantíssimo: o reconhecimento é fundamental para a motivação em prol das nossas atividades diárias e da persistência para superação dos desafios que a profissão nos impõe.

ARCO – Um dos objetivos do evento era promover a diversidade na ciência. No seu ponto de vista, quais são os maiores desafios enfrentados por mulheres na busca pela igualdade de gênero na área?

Paola Mello – Acredito que os desafios surgem quando olhamos a diferença de representatividade, na ocupação dos espaços e no reconhecimento das carreiras das mulheres. São muitos os desafios e é preciso observar o contexto para pensar políticas para mudar essa realidade. Por exemplo, no contexto acadêmico, podemos citar a baixa representatividade, a menor ocupação de espaços de tomada de decisão, a diferença no reconhecimento de carreiras, entre outros.  Avançamos, graças ao empenho de muitas, mas ainda temos muito a avançar e barreiras a superar para vencer a (des)igualdade.

ARCO –  A premiação foi organizada pela Sociedade Americana de Química, porém reconhece cientistas brasileiras. Como a maior conectividade promovida pela internet e pela globalização afeta o âmbito da pesquisa? 

Paola Mello – A maior conectividade faz com que olhemos de forma mais ampla o mundo que nos rodeia, colocando-nos em contato e permitindo que possamos buscar experiências e ideias mundo afora, de forma muito positiva. Hoje temos mais contato com pesquisadores e pesquisadoras do mundo todo, sem sair de nossas instituições. Algo que pesquisamos aqui é publicado e pode ganhar alcance global, assim como temos acesso a tudo que é feito. 

ARCO – Os cortes de verbas do governo atual para as áreas de pesquisa brasileira têm desmontado o desenvolvimento da ciência no país. Qual a importância de uma premiação como essa neste momento? E quais os próximos passos na luta por um maior reconhecimento da ciência?

Paola Mello –  A ciência tem mostrado o quanto é indispensável à nossa sociedade e isso precisa ser visto como um alerta para que sigamos buscando mudar o cenário de investimentos insuficientes em educação, ciência e tecnologia. Uma premiação como essa é importante para fomentar e incentivar novos projetos e torço para que mais e mais oportunidades como essas surjam. Precisamos lutar para reverter o preocupante cenário em que vivemos para que sigamos, como cientistas, contribuindo para a sociedade nas suas mais variadas demandas. 

Expediente

Repórter: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustradora: Julia Dutra, acadêmica de Publicidade e Propaganda e bolsista

Fotografia: grafismo de Julia Dutra sobre foto de divulgação da Sociedade Brasileira de Química

Mídia Social: Nathália Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Editor: Maurício Dias, jornalista


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