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Pela via da educação

Planejamento urbano e educação no trânsito podem melhorar o dia a dia das cidades



O modo como as pessoas se movimentam nas cidades é um fator importante e estratégico do ponto de vista do desenvolvimento econômico, da sustentabilidade ambiental e da qualidade de vida. Santa Maria tem o seu crescimento populacional urbano diretamente relacionado às potencialidades de sua posição geográfica, centro do estado, atraindo pessoas devido ao seu cotidiano de cidade universitária e também por ser um ponto de passagem e de ligação entre regiões, o que se evidencia pelo seu passado ferroviário.

Na concepção do professor do curso de Engenharia Civil e doutor em Mobilidade Urbana Carlos José Antônio Kümmel Félix, “mobilidade urbana deve ser entendida como o deslocamento das pessoas”. No entanto, na formação histórica do trânsito brasileiro, a mobilidade é pensada a partir do deslocamento dos veículos, baseado no transporte em rodovias, avenidas e ruas. Esse conceito mostra a preferência pelos automóveis, ou seja, pelo transporte individual, em detrimento de outros meios de locomoção, como transporte coletivo e transportes não motorizados. Isso ocorre porque, supostamente, o automóvel oferece ao usuário privacidade, liberdade na escolha de rotas e economia de tempo. Entretanto, essa visão, aliada à urbanização desorganizada, engessou o trânsito das grandes e médias cidades.

“Mobilidade urbana deve ser entendida
como o deslocamento das pessoas”

 

O professor Félix explica: “Quando se fala, hoje, ‘é preciso alargar as vias’, há um provável equívoco! É preciso conceber um sistema que sirva à população em geral”. Ele ressalta que é necessário ter um novo planejamento de trânsito e circulação, visto que o Brasil é o país que mais se urbanizou no mundo nos últimos 50 anos. Aproximadamente 85% da população brasileira vivem, hoje, nas áreas urbanas de 5.565 municípios, que são carentes de infraestrutura. Para atender à demanda do uso do automóvel nas cidades, é evidente que são necessárias adequações e ampliações do sistema viário. Mas não é só isso. A solução para os problemas de trânsito vai além da simples construção ou alargamento das vias de acesso, retiradas de estacionamento, construção de estruturas como pontes e viadutos. Para Félix, a solução é uma série de ações conjuntas e articuladas, com base na gestão, na engenharia, na fiscalização e no esforço legal, apoiadas principalmente na educação.

“O mais importante” diz o docente “é a conscientização da população, estabelecendo as bases de um transporte mais racional, aliadas a um esforço de organização espacial do desenvolvimento urbano, do transporte público e da circulação, funções inerentes à gestão pública e definidas pelos planos urbanos”. Há uma relação estreita entre a estrutura e a organização espacial de uma cidade, seu sistema de transportes e sistema viário, de circulação. Em outras palavras, existe uma relação entre o sistema de atividades (morar, trabalhar, estudar) com os sistemas que permitem essa interação (transportes, circulação e viário). O grande desafio urbano atual é equilibrar essas funções urbanas, atendendo essas necessidades, de forma que os deslocamentos sejam rápidos, econômicos, seguros e sustentáveis.

No caso de Santa Maria, além de um insuficiente sistema viário local para atender o crescente fluxo de tráfego, especialmente nos horários de pico, são utilizadas rodovias federais e estaduais para interligar diferentes regiões da cidade. É o caso das BR/RS-287 e RS-509, que ligam o centro da cidade ao bairro Camobi e ao campus da UFSM. O uso dessas rodovias, associado ao tráfego local, pode gerar insegurança no trânsito e atrapalhar aqueles que apenas passam pela cidade, porque mistura o tráfego cotidiano do município com o de outros indivíduos que utilizam as vias, sem ter interesse específico em Santa Maria. Além disso, segundo Félix, a cidade investe, prioritariamente, em avenidas e ruas, estimulando o uso do transporte individual. Deveria haver também um maior incentivo e estímulo ao uso do transporte coletivo, associados com investimentos em estruturas seguras para fazer os trajetos a pé ou com bicicletas.

Em busca de soluções 

O curso de Engenharia Civil da UFSM procura auxiliar na busca de soluções para os problemas da cidade. Existe, por exemplo, um Departamento de Transportes, onde são oferecidas as disciplinas obrigatórias de Projeto, Execução e Planejamento de Sistemas Viários. Além dessas, existem duas Disciplinas Complementares de Graduação (DCGs) coordenadas pelo professor Carlos Félix: Engenharia de Tráfego e Transporte Público.

Dentro dos estudos do tráfego, os alunos são levados a conhecer e pesquisar as ruas e vias da Santa Maria, através dos levantamentos de volumes de fluxo em diferentes horários, das condições estruturais, operacionais e físicas das vias. Estes estudos, associados aos dados populacionais e sociais, ajudam a entender como funcionam a movimentação e a dinâmica urbana. A partir daí, desenvolvem-se diagnósticos e proposições referentes às realidades encontradas. A aplicabilidade desse desenvolvimento técnico e das possíveis soluções permite ao aluno sentir a real dimensão da mobilidade na cidade em que vive.

Viva a faixa!

Uma das contribuições da UFSM a Santa Maria foi a campanha “Viva a Faixa! Com respeito, a vida é mais bonita”, que tem como principais objetivos a conscientização da população e a educação para o trânsito. A campanha, que já existe há dois anos, foi organizada pela empresa de comunicação RBS e teve a consultoria e orientação técnica do professor Carlos Félix, além de outros agentes públicos e privados. Segundo o professor, “a campanha mudou Santa Maria”.

Uma das facetas que ela evidencia é que, em nossos dias, as pessoas não pensam mais em sair à rua como pedestres. O ritmo de vida estressante torna a todos dependentes dos veículos. “Nós esquecemos que podemos e devemos caminhar. Caminhar ainda é a forma mais natural e segura de o ser humano se locomover”, destaca o professor.

A campanha se espalhou pelo estado e ajudou a difundir massivamente as leis de trânsito. As mortes nas travessias de vias diminuíram cerca de 80% só em Santa Maria, de acordo com levantamentos feitos pelo Jornal Diário de Santa Maria/Grupo RBS. O lançamento foi organizado no Centro de Tecnologia da UFSM, onde uma minicidade foi montada para que crianças de escolas públicas e privadas aprendessem como atravessar a rua. A atividade teve apoio e orientação do Comando Rodoviário da Brigada Militar. O professor explica: “A Universidade deve contribuir para apresentar, discutir e propor soluções para resolver esses problemas. Além de um compromisso educacional, a partir do conhecimento técnico, também temos um compromisso social de auxiliar a comunidade”.

Embora com ampla divulgação, a campanha aposta mesmo é na educação das crianças, pois são os exemplos captados na infância que vão orientar o indivíduo na idade adulta. Ao mesmo tempo, os pais são os primeiros a serem afetados pela orientação passada aos filhos. Além disso, o professor Félix reforça que o aprendizado no trânsito deve ser contínuo, e que a campanha não pode parar. “Nós temos que trabalhar para melhorar nossa qualidade de vida, e deixar um mundo melhor para nossos filhos, mais seguro, sustentável, justo e solidário. Mais feliz!”, resume o professor.

Repórter: Victor Carloto

Fotografias: Luciele Oliveira

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