Ir para o conteúdo Revista Arco Ir para o menu Revista Arco Ir para a busca no site Revista Arco Ir para o rodapé Revista Arco
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita

Aviso de Conectividade Saber Mais

Início do conteúdo

Visibilidade Infantil



Bel tem 8 anos. É uma criança como qualquer outra, que gosta de brincar, correr e passear. A diferença é que Bel tem um canal no Youtube chamado “Bel para meninas” com mais de 2 milhões e 700 mil inscritos e um bilhão de visualizações de seus vídeos. O canal existe desde 2013 e conta com mais de 100 vídeos. Bel tem o canal kids mais assistido do Brasil , cujo conteúdo são vídeos de desafios, esquetes, tours e vídeos sobre a vida da menina. Todos os dias, às 10 da manhã, o canal é atualizado pelos pais de Bel com um novo vídeo.

Bel faz parte do fenômeno das blogueiras mirins. O termo se refere a crianças que exercem a função de blogueiras – de moda ou de lifestyle, como é o caso da Bel – que antes era “coisa de adulto”. Hoje, muitas crianças vivem essa vida de blogueira, postando vídeos e tutoriais nos seus canais do youtube ou fotos do look do dia em seus blogs.

A inserção das crianças na blogosfera gera inúmeras dúvidas e debates. Em março deste ano, o Ministério Público abriu inquérito para investigar se os vídeos em que Bel mostra os produtos que ela ganha de diversas marcas devem ser considerados publicidade infantil. Em junho, o Ministério Público Federal de Minas Gerais recomendou que o Google retirasse do Youtube as publicidades de produtos e serviços destinados ao mercado infantil e protagonizados por crianças de até 12 anos de idade, pois, segundo o MPF, a legislação brasileira proíbe esse tipo de publicidade. 

Essa importante decisão do MPF está relacionada a outro fator que deve ser levado em conta quando se fala das youtubers infantis: como a visibilidade infantil na internet pode afetar o desenvolvimento dessas crianças? A revista Arco conversou com a psicóloga Camila Schmitt da Silva, do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo, da UFSM, para entender mais sobre o assunto. Confira na entrevista a seguir.

Como a exposição na mídia pode influenciar no crescimento da criança?

Depende muito de como a criança percebe a exposição dela e como isso é tratado com ela. Por exemplo, se ela tem um canal e não se dá conta do alcance, se na escola isso não afeta o rendimento dela, se dentro da família isso não é uma questão que muda as atitudes, não há um grande problema. Mais do que a exposição, a gente deve se perguntar sobre qual é o caráter que dão para esses canais. Eu vejo algo muito preocupante, por exemplo, nos canais de demonstração de brinquedos. Existem vídeos com ovos gigantes, com crianças abrindo esses ovos com muitos brinquedos dentro. Um desses brinquedos já seria o suficiente para a criança. E eles tiram 20 de lá. Isso é um apelo enorme ao consumo, e acaba se tornando confuso para a criança. A partir do momento em que ganhar brinquedos e demonstrá-los em vídeos vira o cotidiano da criança, isso se torna preocupante. Agora um canal de penteados, por exemplo, pode ser explorado de uma maneira saudável, se for algo que a criança gosta de fazer e se sente reconhecida e realizada. Se você souber valorizar o conteúdo de uma forma que ele não seja apelativo para a criança, não tem problema.

Como isso contribui para formar a personalidade da criança?

Com certeza essa exposição vai moldar a maneira como a criança se relaciona com o mundo. Esse universo passa a ser algo importante para ela. Tem as questões estéticas, por exemplo. A miniblogueira fitness que surgiu há um tempo é um exemplo disso. É uma criança, com pais personal trainers, que tem um blog onde aparece para outras crianças fazendo exercícios. No entanto, tudo isso é visando o apelo do corpo. Não é algo lúdico, de brincadeiras. E isso mostra o tipo de valor que está se dando para aquilo que a criança está fazendo. Esse tipo de valor é o que vai influenciar a criança ao longo do processo de crescimento dela. No caso da miniblogueira fitness, a lógica do exercício físico para a saúde foi quebrada e ela não vê a prática como algo bom para ela, mas sim como algo estético.  

Deve haver limites em relação a quais assuntos as crianças podem abordar?

Deve haver um cuidado de como esse assunto será abordado. Se a criança vai ter um canal no Youtube para mostrar brincadeiras que estimulem a coordenação motora, a criatividade, a interação com outras crianças, é legal. Se os pais souberem explorar isso de uma maneira saudável, com a vida da criança não sendo pautada pela rotina dos vídeos e e que ela não esteja o tempo inteiro exposta à mídia, torna-se algo divertido. Não pode haver pressão da família de “temos que fazer vídeo agora”, nem levar isso como obrigação.

Como os pais devem agir junto à criança?

Eles devem garantir que aquilo não é uma obrigação, um fardo para a criança. Que essa atividade não está sendo explorada de uma maneira equivocada ou enganosa para ela, que a criança não trabalha com o apelo ao consumo ou estético, que seja pelo prazer dela que essa atividade está sendo desenvolvida.  A criança precisa ver isso como uma atividade de prazer e não de obrigação.

Como isso interfere na relação entre os pais e as crianças?

Uma coisa é ser mãe, outra é ser produtora e agente. O maior perigo do impacto da relação com a família é quando isso se torna uma fonte de renda e é preciso lidar com o fator dinheiro. Se a família não estabelece limites de como isso vai ser, pode se tornar uma situação complicada, no sentido que “é minha mãe, mas tenho vínculo profissional”. Também pode começar uma pressão para a criança manter o blog ou o canal por ser uma fonte de renda, mas não ser mais a vontade dela. É preciso administrar como a família está “adultizando” a criança. Se a criança se percebe mais adulta, isso é um risco. As meninas que estão nesse meio fazem por imitação, muitas vezes. O papel da família é mediar e colocar limites no que a criança pode ou não. Essa é uma obrigação da família, não da criança.

É positivo para a criança quando essa atividade se torna fonte de renda para a família?

Isso é algo que a família tem que conversar. É algo interno, da administração familiar. Por exemplo, se tem uma família que não tem uma renda legal e essa fonte de renda pode fornecer para a criança oportunidade de uma melhor educação e outras coisas, eles podem explorar isso. Acho complicado a ideia de deixar o dinheiro todo na mão da criança naquele momento. A família pode ir administrando à medida que a criança vai aprendendo a lidar com o dinheiro.

Quais aspectos devem ser notados pelos pais par perceber que a criança chegou ao seu limite?

Se aquilo se tornar uma obrigação na vida da criança, causando estresse, se a rotina é organizada em torno daquilo, começa a ter um rendimento escolar ou interpessoal inadequado. Criança demonstra muito em termos de sono, conduta alimentar, relacionamento com colegas. Se deve observar sempre qual impacto está tendo para ela.

E quando os pais não sabem se controlar e acabam fornecendo para a criança mais do que ela pode administrar (como brinquedos, por exemplo)?

Isso é bem complicado para a formação da criança. Primeiro que se perde aquela coisa do especial, do “você ganhou esse brinquedo porque hoje é o seu aniversário”. Dar tudo que a criança quer é errado, isso atrai para o consumo. Ela acaba perdendo o “aprender a esperar”, quando ela quer algo e diz “quero uma Barbie” e você diz “só no Natal” que está meses longe, a criança aprende a lidar com a ansiedade, a frustração de não ter as coisas na hora que quer, com o nervosismo de receber algo. Ao dar várias coisas sem necessidade, acaba perdendo-se esse referencial. Muitas vezes, os pais não sabem se controlar e acabam dando para a criança aquilo que não tiveram, ou dão aquilo que as crianças pedem porque ficam com pena. Temos que parar e refletir o que estamos criando na criança com esse imediatismo.

_delimiter_Reportagem: Andressa Foggiato e Jocéli Lima


Publicações Recentes