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Existir e resistir

Professores relatam a experiência de assumir sua sexualidade diante dos alunos em sala de aula



Se meus alunos reparam no relógio do meu pulso e perguntam onde eu comprei, tenho o direito de dizer que foi presente do meu namorado. Assumir-se em sala de aula, me parece, é o mais prosaico e banal, mas também complexo e revolucionário, ato de ser quem você é”.

 

A fala é do professor Ricardo, que ensina literatura e língua espanhola em um curso pré-vestibular de Santa Maria. Ela reflete um dilema presente no cotidiano de parcela significativa de profissionais da educação, que enfrentam o preconceito no ambiente escolar.

 

O debate sobre gênero e sexualidade em ambientes educacionais ainda é questionado por pais e professores, porque implica não apenas a relação da escola com a educação das crianças, mas também com sua formação em um sentido mais amplo, além de crenças familiares e religiosas, por exemplo. Até mesmo os professores têm dificuldade de lidar com a discussão nas escolas – em parte pela complexidade do tema, e das implicações que pode gerar para as crianças e as famílias, em parte porque existe uma grande deficiência na formação dos profissionais de educação, que, em geral, não recebem instrução adequada para abordar esses debates em sala de aula.

 

 

 

Quando a sexualidade bate à porta da sala de aula

O educador e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Filipe Gabriel Ribeiro França, se interessou por essas questões durante o seu período de formação no Mestrado em Educação da UFJF. A pesquisa foi realizada a partir de entrevistas narrativas com sete professores que se autoidentificam como homossexuais. “Assumir-se enquanto professor/a homossexual organiza a forma com que o sujeito se comporta dentro da escola, vivenciamento um contínuo processo de negociação com o outro e consigo mesmo. Ao mesmo tempo tal atitude é um ato político que expõe as múltiplas maneiras possíveis de vivências da sexualidade”, explica França.

 

Uma das histórias contadas pelo pesquisador é a de Hermógenes, professor homossexual de anos iniciais do ensino fundamental da rede pública na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. França mostra como o professor constrói a sua identidade enquanto docente homossexual e as relações que se formam no âmbito escolar. Hermógenes se tornou referência para seus colegas de trabalho na questão da homossexualidade, o que, segundo a pesquisa, acaba por cooperar para uma desconstrução do estereótipo do homem homossexual.

 

França acredita que a presença de pessoas como Hermógenes nas escolas é capaz de provocar mudanças de visão nas comunidades escolares, colocando todos para pensar na diversidade. “@s professor@s homossexuais instigam e provocam os outros e a si mesm@s a repensarem as práticas sociais que dão sentido e regem a sociedade contemporânea”, explica.

 

Mas não só as relações sociais e as perspectivas culturais são impactadas com essa presença nas escolas. Outras questões emergem quando se aprofunda a discussão sobre esse tema, tais como a sexualidade das crianças, a educação sexual na escola e o estudo de gênero. Segundo França, a sexualidade das crianças é constantemente reprimida no ambiente escolar, pois as escolas tendem a ignorar o fato de que os debates sobre gênero e sexualidade fazem parte da experiência de vida e da formação dos alunos. “A pessoa não chega na escola e deixa a sua sexualidade pendurada num cabide do lado de fora do portão, pelo contrário, ela entra no espaço escolar carregando-a consigo, pois é impossível separar-se dela, ela nos constitui”, explica. A sexualidade, assim como a cor da pele, a etnia, o gênero, entre outras características, não são escolhas.

 

A discussão de temas como gênero e sexualidade nas escolas não podem ser reduzidos à ideia de que a educação sexual é o “ensino de sexo” para os alunos. Muito além disso, é uma forma de abordar assuntos que mais cedo ou mais tarde aparecem e devem ser tratados com cuidado, porque é um aspecto importante na formação da identidade das crianças e adolescentes. Laura, que é professora de fotografia no ensino superior, defende que as escolas e universidades devem oferecer esses debates, e acrescenta que cada ambiente exige didáticas e metodologias diferentes adaptadas a sua realidade.

 

É o que também defende Ricardo, o professor do começo da reportagem. Para ele, “a não abordagem deste tema é prejudicial, não ao professor, mas ao aluno, que pode tornar-se uma pessoa defasada, sem conhecimentos básicos para se apresentar como um sujeito crítico na sociedade”.

 

Outro ponto pouco falado, mas muito importante é o da representatividade dentro da sala de aula. Para alunos que estão começando a entender a própria sexualidade, conhecer alguém homossexual em posição de destaque, nesse caso os professores, é de extrema relevância. Laura diz que assumir a sexualidade é um modo de “tratar com naturalidade questões naturais” sobre os sujeitos. É propiciar a dissipação das ideias preconceituosas em torno de pessoas que são iguais a qualquer outra.

Reportagem: Sabrina Cáceres e Mariana Flores
Infográfico: Juliana Krupahtz
Foto de capa: Júlia Goulart

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