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Guerra Literária

As disputas políticas no Brasil da Independência a partir dos panfletos que circulavam no país e em Portugal



José Murilo de Carvalho esteve na UFSM em 2016, para divulgar sua pesquisa mais recente. Foto: Rafael Happke / Arco

Em tempos que um post no Facebook pode produzir incidentes políticos, pode ser estranho pensar que panfletos impressos já exerceram papel crucial em disseminar informações e ideologias revolucionários. Esse é o objeto de pesquisa recente do professor José Murilo de Carvalho, um dos mais respeitados historiadores do país e membro das Academias Brasileiras de Ciências e de Letras.

Escritos com uma linguagem poderosa, os panfletos, colados nos postes das cidades, eram um instrumento importante de comunicação em um período marcado por revoltas e tensões políticas, como o da Independência do Brasil. A intensidade das manifestações rendeu ao acontecido o nome de “Guerra Literária”, e se estendeu entre o reino e a colônia durante um curto período do século XIX – desde 1820, quando acontece a revolução liberal do Porto, em Portugal, até 1823, com o movimento de Independência da Bahia, no Brasil.

A pesquisa de fôlego, coordenada pelo pesquisador José Murilo de Carvalho, retrata esse fenômeno da comunicação política na história do Brasil. A empreitada resultou em uma série de quatro livros publicados pela editora UFMG. “Foi um trabalho exaustivo, porque o problema era saber onde encontrar todos esses manuscritos”, conta o historiador.

Coleção Guerra Literária, Editora UFMG 2014.

No trabalho de apuração, pesquisa e produção dos materiais, Carvalho contou com a parceria de outros pesquisadores, como a professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Lúcia Bastos, e o professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Marcello Basile. Eles fizeram buscas em acervos de bibliotecas, dentre elas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), nas Bibliotecas Nacionais de Lisboa, Portugal e Uruguai, no Arquivo Histórico do Itamaraty, e até mesmo na Biblioteca Oliveira Lima, em Washington (Estados Unidos). A equipe conseguiu recuperar uma coleção de 362 panfletos, que revelam aspectos pouco conhecidos da época da Independência. A coleção não pode ser considerada completa, mas já constitui material significativo uma vez que consegue se aproximar do total de panfletos que foram preservados daquela época.

Panfleto de Raimundo José da Cunha Matos, 1776 - 1839

Dentre os critérios de seleção do material para análise estavam a necessidade de terem serem publicados no Brasil ou em Portugal e terem circulado no Brasil, ou ainda, terem sido publicados apenas em Portugal, mas com referências ao Brasil. Os panfletos tratavam sobre cidadania e liberdade, como também sobre as concepções de nação e revolução. A metáfora de que o Brasil era mantido como escravo de Portugal movia muito o pensamento por trás dos panfletos. Contudo, esses ideais libertários não eram para todos, visto que mesmo após a independência o Brasil continuou a ser um país escravocrata.

A variedade de formatos literários encontrados foi muito grande. É marcante a presença de cartas, sermões, manifestos e apelos. “Eles criavam interdiscursos voltados para a independência. Por exemplo, a partir do pai-nosso os padres recriavam textos para o contexto de independência. Jogo de palavras. Quem escrevia os panfletos eram jornalistas, militares e padres, que tinham um letramento maior nos impressos”, revela Lúcia. Numa época em que a sociedade, especialmente a brasileira, era pouco alfabetizada, os panfletos eram produzidos para serem lidos em voz alta, na rua, em público. “Tinham erros de português, mas a mensagem transmitida era muito forte”, complementa o pesquisador.

Dentre os panfletos, poucos possuíam autoria. “Antes da abolição da censura era mais difícil ter autoria. No entanto, percebemos ainda um certo receio de colocar autorias após esse período. Alguns achavam mais seguro não colocar o nome”, afirma Carvalho. Para o historiador, essa guerra literária contribuiu para o entendimento dos grandes debates desse período, pelo avanço e renovação de uma nova nação.

Reportagem: Luciane Volpatto e Luan Romero
Fotografia: Rafael Happke
Imagens: divulgação

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