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Quando a dor inspira conhecimento



27 de janeiro de 2013. Esta data ficou marcada pela dor da perda de 242 vítimas no incêndio da Boate Kiss. Metade delas tinha vínculo com a UFSM. Naquele dia, outras 680 pessoas tiveram suas vidas expostas a risco, além das tantas que foram afetadas indiretamente pela tragédia.

 

Atualmente, dois projetos de construção de memoriais em homenagem às vítimas são delineados: um na Rua dos Andradas, onde funcionava a boate, e outro no campus da Universidade. Além disso, durante estes cinco anos, o acontecimento foi abordado por autores e pesquisadores locais e nacionais. Na UFSM foram produzidas pesquisas sob diversos pontos de vista e a revista Arco selecionou algumas delas. Confira a seguir.

 

Acorda Santa Maria: Um estudo sobre as estratégias coletivas de organização dos familiares das vítimas da boate Kiss

Priscila dos Santos Peixoto (defesa em 2014)

 

A cientista social Priscila dos Santos Peixoto realizou um estudo etnográfico para compreender as diferentes formas de organização dos familiares das vítimas da tragédia. A pesquisadora começa sua dissertação contando como foi acordada no dia 27 de janeiro de 2013 por sua tia. “Ah, você está em casa Piu (o apelido da autora)”. Depois daquele telefonema ela foi procurar mais informações sobre o que estava acontecendo e soube do falecimento de uma pessoa próxima. “Foi através da perda de uma conhecida que me aventurei lançando mão do tema de pesquisa que estava em andamento para abraçar esse tema, da morte, do luto, da dor e de diferentes emoções”, conta Priscila.

 

A pesquisadora conseguiu identificar a formação de uma rede de apoio entre os familiares de 12 vítimas. Eles se organizaram em duas sub-redes: uma atrelada ao sentimento de justiça e outra ao de solidariedade, ambas possuindo como elo aspectos relativos à espiritualidade. Através da participação observante, na qual há a imersão do pesquisador no contexto que investiga, e de entrevistas, Priscila relata as tentativas simbólicas de explicar a tragédia e a morte.

 

No capítulo A despedida anunciada, a cientista social conta como os familiares lidam com os acontecimentos relacionados à tragédia por meio de formulação de presságios de morte, sinais da presença pós tragédia e estratégias de comunicação com os filhos através da religiosidade, sonhos e coincidências do cotidiano.   

 

Lazer, mercadoria e juventude: relações entre o público e o privado a partir do caso concreto da Boate Kiss

Thaiane Bonaldo Nascimento (defesa em 2015)

 

A professora de Educação Física Thaiane Bonaldo, em sua dissertação, examinou como se articulam os interesses em torno das opções de lazer oferecidas aos jovens. O principal foco de análise é a legislação que regula as danceterias, a partir do caso da Boate Kiss. Conforme Thaiane, a boate funcionava de forma pública sob a aparência da legalidade, o que ampliava a oferta de riscos aos frequentadores. Dessa maneira, a pesquisadora considerou a tragédia como resultado de negligências do poder público, seguidas do descompromisso dos donos em cumprir as legislações.

 

Ao apurar como os estabelecimentos de lazer se constituem como mercadorias no sistema capitalista, Thaiane analisou notícias publicadas pelo jornal Diário de Santa Maria, além do texto da lei complementar nº 14376, de 26 de dezembro de 2013 (Lei Kiss), e o inquérito policial sobre o incêndio. Dessa forma, ela percebe que o lazer é comercializado de maneira alienada, e que é preciso existir um questionamento sobre como se dá o gerenciamento da infraestrutura e das normas de segurança.

 

Para a professora, abordar a Kiss como temática foi uma forma de homenagear os amigos que faleceram na tragédia. “[Quis] criticar como a felicidade é vendida em nossa sociedade e, através da escrita, imortalizar esse desastre”, relata a Thaiane.

 

Avaliação do risco de incêndio de edificações em conformidade com a legislação de prevenção e proteção contra incêndio do estado do Rio Grande do Sul através do método de Gretener: um estudo em uma IES

Eleusa de Vasconcellos (defesa em 2015)

 

Como pesquisa de mestrado, a engenheira civil Eleusa de Vasconcellos investigou a avaliação do risco de incêndio em edificações prevista pela legislação do Rio Grande do Sul. Em seu estudo, propõe a utilização de uma metodologia alternativa baseada na análise do desempenho dos imóveis. Ela considera que o método prescritivo da lei na época, quando aplicado a edifícios já existentes, poderia encontrar empecilhos, mesmo o edifício tendo capacidade de proteção satisfatória.

 

Ao avaliar as alterações na legislação desde a defesa do mestrado, em 2015, Eleusa considera que certas mudanças deixaram alguns procedimentos importantes menos rigorosos. “Houve uma flexibilização da Legislação para Centros de Tradição Gaúcha (CTGs), salões paroquiais, salões comunitários, entre outros, possibilitando que edificações com até 1.500 m² façam um Plano Simplificado de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PSPCI). No meu entendimento, como esses locais reúnem um grande número de pessoas em seus eventos, devem ser tratados com mais rigor”, pontua a pesquisadora.

 

Alterações na difusão do monóxido de carbono e teste de caminhada em vítimas de inalação de fumaça após incêndio em casa noturna

Cíntia Franceschini (defesa em 2015)

 

A médica Cíntia Franceschini estudou os efeitos da inalação da fumaça durante o episódio em sobreviventes. A temática surgiu quando ela atuava como residente no Serviço de Pneumologia do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). No período, os profissionais do setor elaboravam os procedimentos para tratar e analisar a evolução dos pacientes afetados pela tragédia. Cíntia teve o apoio do chefe do Serviço de Pneumologia, Dr. José Wellington Santos, e de sua orientadora, Dra. Maristela Oliveira Beck.

 

Através de questionários e de testes de caminhada e de difusão do monóxido de carbono, a médica chegou à conclusão de que os 64 pacientes estudados apresentaram redução na difusão do monóxido de carbono maior do que a encontrada até então na literatura. Dessa maneira, o desenvolvimento de complicações pulmonares crônicas – em especial, a bronquiolite obliterante – era, em 2015, uma possibilidade concreta, e por esse motivo os pacientes deveriam seguir em acompanhamento.

 

Cíntia explica que o teste de difusão do monóxido de carbono consiste na inalação de uma pequena quantidade do gás pelo paciente, com posterior avaliação da quantidade de monóxido exalada na expiração. Esses dados dão uma estimativa sobre a integridade da membrana dos alvéolos pulmonares.

 

Em sua dedicatória, Cíntia conta sobre o que viu no pronto socorro do Husm enquanto atendia às vítimas da tragédia. “Apenas nós, médicos, não conseguiríamos sozinhos. Lembro que uma secretária do Pronto Socorro do Husm apareceu com uma bandeja de lanche para os médicos e enfermeiros que estavam há horas atendendo. A auxiliar da limpeza fazia seu trabalho o mais rápido possível, liberando leitos o quanto antes que podia. Enfim, todos foram importantes”, conclui a médica.

 

Percepção Ambiental Sob o Aspecto de Segurança: Método de Avaliação da Percepção a Partir da Experiência do Usuário no Ambiente da Tragédia da Boate Kiss

Maike Adriel dos Santos (defesa em 2017)

 

As memórias daquela madrugada foram redesenhadas por Maike Adriel dos Santos em seu trabalho de conclusão do curso no Desenho Industrial. Sobrevivente da tragédia, o acadêmico se dedicou à criação de um método de avaliação da percepção por parte do relato de outros onze sobreviventes. Orientado pelo professor Sergio Antonio Brondani, o objetivo principal da pesquisa foi avaliar a eficiência da sinalização de emergência e segurança, considerando as recomendações das normas nacionais vigentes.

 

Em um primeiro momento, ademais do estudo de normas e regulamentos de prevenção de incêndio, foram reunidas as documentações da boate e do inquérito policial. Junto à marcenaria do curso de Desenho Industrial da UFSM, foi então materializada a planta baixa da Boate Kiss, definindo os acessos, ambientes e paredes divisórias. Na terceira etapa, os entrevistados receberam uma explicação sobre a maquete – identificando os ambientes e os acessos – a fim de situá-los no local, como no dia da tragédia. Com lápis, caneta e borracha, foram sendo desenhados mapas mentais, identificando e assinalando o início e o término do percurso de cada sobrevivente dentro da casa noturna.

 

Como resultado, a pesquisa apontou a dificuldade para encontrar a saída, pois a fumaça do incêndio bloqueou a visibilidade da sinalização de emergência. Além da incoerência da utilização das sinalizações indicativas de saídas, foram destacados também fatores como o mau planejamento arquitetônico do ambiente e a superlotação do espaço. Diante disso, constatou-se que as normas nacionais vigentes não se mostraram capazes de fornecer auxílio às pessoas que estavam na boate naquela noite.

 

A proposta de Maike – para sanar parte dos problemas – é a utilização de iluminação indicativa de saída ao nível do piso, mas ainda não há aplicação prática do estudo. O acadêmico acredita na implementação da proposta em um futuro próximo, a exemplo do que já acontece no Japão. Maike ainda destaca a importância de considerar estudos e pesquisas que trabalhem na temática da percepção do indivíduo em ambientes edificados, e levar em consideração as experiências pessoais: “Eu perdi em torno de 15 amigos na tragédia. De certa forma – tanto como profissional do Design, bem como sobrevivente desta tragédia – senti que deveria de alguma forma ajudar e contribuir para que novas tragédias não ocorram mais, ou pelo menos que a probabilidade de eventos similares diminuam”.

 

O professor na crise: os saberes da docência diante da dor do outro

Fabiane Bortoluzzi Angelo (defesa em 2017)

 

Diante de um significativo crescimento de eventos trágicos, e, especialmente, do ocorrido na Boate Kiss, o grupo de pesquisa Formação, Saberes e Desenvolvimento Profissional – vinculado ao Programa de Pós Graduação em Educação da UFSM –  passou a se dedicar ao estudo da formação de professores para lidar com situações de crise. A dissertação de autoria de Fabiane Bortoluzzi Angelo e orientação de Amarildo Luiz Trevisan buscou identificar a relevância do desenvolvimento de saberes no percurso da docência, ligados às dores emocionais de situações potencialmente traumáticas.

 

Fabiane foi voluntária no atendimento de vítimas sobreviventes da tragédia. Até 2013, seu trabalho era voltado à psicologia clínica, passando depois para a área da Psicologia nas Emergências e Desastres. A partir daquele janeiro, a comunidade acadêmica de Santa Maria necessitaria “reforços”, já que mais de uma centena de vítimas passavam pelo campus diariamente. Ao se aproximar do grupo de pesquisa, Fabiane foi delineando e expandindo a problemática: E quanto aos professores? Que papel e lugar ocupam na tragédia ou na sua prevenção? Os docentes estão preparados para lidar com os desafios demandados por situações traumáticas?

 

A pesquisa de cunho qualitativo foi realizada através de entrevistas semiestruturadas com professores da UFSM que tiveram alunos vitimados na tragédia da Boate Kiss e que quiseram compartilhar suas experiências sobre o ocorrido. As entrevistas foram realizadas após a aprovação do Comitê de Ética da Universidade. O relato dos quatro docentes entrevistados apontou para a necessidade de uma formação sensível à prevenção de novas ocorrências de tragédias, já que foram unânimes em declarar a falta de uma instrução embasada nas humanidades. Entre as causas citadas para a deficiência dessa formação está a rotina frenética produtivista. Frente a isso, foram apontadas respostas de saberes virtuosos dos profissionais da educação como serenidade, sensibilidade, alteridade e transformação.

 

Para Fabiane, a relevância do trabalho desenvolvido está justamente no aprendizado que se obtém a partir da escuta das vivências do outro. “Podemos lembrar da importância dessa questão para a formação de professores pela voz dos professores, afinal, infelizmente temos cada vez mais professores passando por situações com potencial traumático e necessitando lidar com elas”, reforça a pesquisadora. A dissertação foi defendida em 2017 e a temática continuará sendo abordada na linha de pesquisa do doutorado. Além disso, atualmente, Fabiane integra a Comissão nomeada para tratar do memorial que será construído em homenagem às vítimas na UFSM, junto ao orientador Amarildo e outros docentes.

 

Reportagem: Luan Romero e Tainara Liesenfeld

Fotografia: Rafael Happke – registro de 27 de janeiro de 2017 pela passagem dos quatro anos da tragédia


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