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Arco Entrevista: No ‘reino da ciência’, as mulheres são uma verdade inconveniente

Em entrevista, a pesquisadora da UFRGS Márcia Cristina Barbosa fala sobre como o assédio, o corte de recursos, a maternidade e o estereótipo prejudicam a atuação de mulheres cientistas



Márcia Cristina Barbosa se descobriu mulher no primeiro dia da faculdade de Física. O baixo número de estudantes mulheres despertou um incômodo que a acompanha até hoje. De 1978 a 1981, cursou Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A UFRGS marca toda sua trajetória acadêmica: foi lá que fez seu mestrado, de 1982 a 1984; e seu doutorado, de 1985 a 1988. Depois disso, saiu para estudar no exterior por dois anos, mas retornou à federal do Rio Grande do Sul para ocupar um cargo de docência no Departamento de Física.

Márcia estuda física teórica, pesquisa na qual desenvolve métodos para obter água limpa usando anomalias da água. É diretora da Academia Brasileira de Ciências – ABC, e membra da Academia Mundial de Ciências – AMC. Além das preocupações com a água, sua carreira acadêmica é marcada pela atuação em questões de gênero e em políticas científicas. 

Na Jornada Acadêmica Integrada de 2021 da UFSM, Márcia participou como palestrante na segunda-feira (22), e falou sobre as mulheres na ciência como uma verdade inconveniente. A Revista Arco conversou com a cientista sobre a temática. 

ARCO: A sua área de formação é a física. Como e por que você se interessou por atuar no campo pelos direitos de gênero na ciência?

Márcia Barbosa: Gosto de dizer que descobri que era uma mulher no primeiro dia de aula de Física. Eu vim de escola pública, gostava de ciências, mas ninguém se metia para dizer que não era meu lugar, a minha família nunca interferiu, porque eles achavam que a gente tinha que estudar. Quando entrei na Física, percebi que não tinham mulheres professoras, nós éramos oitenta alunos e só oito meninas. Naquela época, outra coisa que afetava todas as áreas é que as mulheres não estavam em nenhum posto de liderança. Era uma época de efervescência política, da ditadura militar e de muita mobilização, as mulheres distribuíam panfletos, mas os caras é que faziam os discursos, que concorriam para os diretórios. Eu não via mulheres e aquilo me incomodava muito. A primeira coisa que comecei a fazer foi me postular para os cargos, dizer “ eu também quero ser parte de quem é representante discente”. Assim foi indo, toda minha vida querendo ser parte, vendo e coletando evidências. Percebi que tinha um problema muito sério nesse local que eu estava, que era o da física. Eu via que ali tinha um problema de baixa representação feminina e comecei a militar junto. Eu estudava física – porque tem que estudar muito -, militava politicamente e também trazia essa questão e esse incômodo de gênero para dentro de todo ambiente onde entrei. 

ARCO: Uma das suas atuações dentro da universidade é contra o assédio. Na sua opinião, um acontecimento desses na vida de uma estudante pode prejudicar a produção científica das mulheres? De que maneira?

Márcia: Em um estudo que fizemos na UFRGS, descobrimos que o assédio moral atinge em torno de 50% das pessoas entrevistadas, e o assédio sexual, 10%. Agora estamos vendo dois efeitos: o assédio moral te afasta, te tira do teu local, como quem diz ‘não é pra tu ficar aqui’. É isso que ele te diz constantemente, que não é o teu lugar. Então ele te ‘desambiciona’, a pessoa que sofre acha menos de si. A universidade vai dizendo ‘não é pra ti, não é pra ti, não é pra ti’, que é o assédio moral – e assim elas [as mulheres] não vão produzir, não se vêem naqueles locais, não ousam. Tem uma coisa muito pior que é o assédio sexual.

O assédio sexual é imobilizador, porque normalmente acontece com aquela pessoa que te deu algum espaço, que era o teu orientador, o teu professor favorito, alguém que te chamou e te apoiou, e aí te assedia.

Isso traz duas coisas, primeiro que é uma pessoa poderosa contra ti, é muito ruim. E a segunda coisa é que tu questiona a tua própria habilidade científica. Ela pensa: ‘Será que lá atrás aquela pessoa só me deu espaço não porque eu sei, mas porque eu tenho esses atributos físicos?’. Ele é persecutório. As pessoas que assediam, depois ficam perseguindo a assediada e inviabilizando coisas, em parte por medo da denúncia e em parte para justificar que aquela pessoa não vale mesmo. Esse é um assunto doloroso e a gente precisa tratar dentro das instituições. 

ARCO: Nos últimos anos, estamos assistindo a um corte de recursos para ciência – por exemplo, as bolsas do CNPq. Esses cortes podem constituir um peso maior para as mulheres? De que maneira? 

Márcia: O Parent in Science é um movimento maravilhoso, da Fernandes Sales Costa, aqui da UFRGS, e mostrou, com dados, que durante a pandemia a produção das mulheres foi menor que a produção dos homens. Mulheres pararam de produzir porque assumiram encargos familiares. Bem, quando se tem cortes, fica mais duro ainda, pois, quando se analisa quem deve sofrer cortes, é quem produz menos. Então, naturalmente as mulheres vão ser mais cortadas. Isso não quer dizer que em tempos bons as mulheres estão bem. 

ARCO: Além do assédio e do corte ou da falta de recursos, quais outros aspectos podem dificultar a atuação de mulheres na ciência?

Márcia: Nós temos dois outros fatores que precisamos começar a trabalhar. O primeiro deles é a questão da maternidade, ou seja, a família. 

Ter uma família é sempre considerado uma decisão pessoal e, portanto, tem que ser incorporada ao sacrifício do indivíduo, e esse indivíduo sempre é mulher, porque os homens não sofrem nada quando tem filhos.

Existe a ideia de que filho não pode atrapalhar em nada a tua produtividade. E precisamos dizer que sim, filho é importante. Essa é a mensagem: criança se desenvolver bem é importante para a sociedade, e é importante incorporar essa questão nas dinâmicas e no nosso fazer. A segunda temática é o estereótipo: a gente precisa desconstruir o que considera uma pessoa poderosa, uma pessoa que tem direito a crescer na carreira. A visão sempre envolve ser homem branco. Então a sociedade tem que começar a ter a ideia de que qualquer um e qualquer uma pode chegar a postos ‘chaves’, seja a pessoa alta, baixa, gorda, magra, branca, negra, gay, hétero: qualquer um pode chegar. Isso vai ser muito importante nas exatas, onde há um forte estereótipo da visão do que é um/uma cientista.

ARCO: Recentemente houve a inclusão do período de licença-maternidade no currículo Lattes. Essa pode ser considerada uma conquista? É suficiente?

Márcia: Nada é suficiente, mas tudo é importante. Começou lá atrás, quando conseguimos incorporar nas bolsas a licença maternidade. Antigamente, não tinha licença nenhuma. Agora que tem licença maternidade, vamos colocar na vida da pessoa como um todo o fato de ter os filhos, e precisamos trabalhar dentro das instituições para entender que família é um valor. Vamos ter que entender que, na dinâmica dos trabalhos das pessoas, as mulheres têm sido colocadas para trás, as pessoas tendem a colaborar menos com as mulheres e com isso elas têm menos citações. Precisamos pontuar a diversidade como um valor, ela tem que ser monitorada ao longo da distribuição de recursos e este valor deve ser incorporado dentro das políticas dos diversos ministérios, das diversas secretarias dos estados, dos municípios. Isso tem um nome: se chama ação afirmativa, mas não é só cota, ação afirmativa é uma maneira de olhar as questões.

ARCO: Por que as mulheres na ciência são uma ‘verdade inconveniente’? 

A ciência é um reino que foi separado pelos homens por ele significar inteligência, poder e dinheiro.

Ao longo da história, o conhecimento esteve na mão de grupos distintos: quando eram homens eram os magos que eram protegidos pelos reis, uma série deles recebia dinheiro até dos papas. Enquanto isso, as mulheres eram as bruxas, não era o local delas. E se elas tocam naquele local, ele fica ruim. Então assim se criou esse clubinho. Quando tu pertence a um clubinho, tu tem um privilégio e é muito difícil de te dar conta dele e ainda mais difícil estar disposto a abrir mão dele. Então ela [a mulher na ciência] é uma verdade inconveniente porque, para incorporar a diversidade, nós vamos precisar que os homens brancos do hemisfério norte se deem conta de que eles têm o privilégio. Eles não estão lá pela meritocracia, mas sim porque criaram esse clubinho e põe regras nele. Nós vamos ter que desconstruir isso. E é doloroso para eles abrir mão do privilégio. É necessário, porque a diversidade é importante, mas ela é inconveniente para eles, porque tira o sistema todo do equilíbrio, aquele sistema que dizia que a mulher vai pra cá e o homem vai pra lá, que onde a mulher for, o salário desce: todas essas verdades vão ter que ser reconstruídas. É uma revolução possível abarcando diferentes formas de ver o mundo. É interessante nesse sentido e tem muita reação.

ARCO: Uma das suas pesquisas fala sobre a distribuição regional de gênero entre os pesquisadores da Associação Brasileira de Ciências. Queria que você falasse um pouquinho sobre os resultados da pesquisa. 

Márcia: Uma das coisas que fiz quando entrei na Academia Brasileira de Ciências foi medir a própria academia. O que eu descobri é que ela tem 18% de mulheres. Notem: é um número minúsculo, mas é um dos maiores do mundo. A Academia Mundial de Ciências, que faz um tremendo esforço para atrair mulheres, tem 15%. Ah, então é ruim. Mas dentro dessa ruindade, tu vai ver que, em diversas áreas, o percentual é distinto. Eu tenho 25% de mulheres na Academia na área de biológicas e 4% na área de física. Além de não ser global, de ser pequena, tem uma distorção de áreas que precisamos trabalhar e que está vinculada a essa questão do estereótipo. Agora, mais interessante de observar é que se diz que tem pouca mulher na ABC porque tem pouca mulher no topo, no CNPq – e é ali que a gente vai buscar potenciais membros da ABC. O que que eu quero dizer com o topo? Quando se torna professora ou professor, tu pode pedir uma bolsa de produtividade de pesquisa e que te ajuda a ganhar todos os demais editais. E o percentual de mulheres com bolsa de produtividade de pesquisa também é baixo. Se olhar o grosso das pesquisadoras, por exemplo, na área de biológicas, as mulheres são em torno de 50% como bolsistas. Então, se elas são 50% como bolsistas, tem que ser 50% no topo como bolsistas e 50% na ABC. Tinha que ser, mas não é assim. É 50% como bolsista, 30% no topo das bolsistas e 25% na ABC, ou seja, vai decaindo o percentual. Quando chega na minha área, que é a física, é 13% como bolsista, 7% no topo e 4% na ABC. Tem um decréscimo, ao longo da carreira, que é catastrófico. É muito ruim e mostra que é mais do que maternidade, porque esse decréscimo do topo da carreira para a Academia ocorre numa faixa etária que ninguém tá tendo filho. Então não é isso, é outra coisa, é essa visão do que é poderoso, a concepção do que é poder – que a gente também precisa trabalhar. E as coisas não vêm mudando nessa área de poder, as coisas tão mudando aqui na base. Estamos construindo uma articulação de baixo para cima a partir da comunidade, a partir dos movimentos feministas e esperemos que, em 2023, com outra visão de país, consigamos ter uma Secretaria da Mulher que articule algumas políticas também de cima para baixo.

ARCO: Qual é o cenário da ciência para as mulheres? 

Márcia: Se olhar de dentro das universidades, a coisa tá melhorando porque estamos estabelecendo algumas ações nesse nível, de baixo para cima. Mas de cima para baixo, os cortes impactam mais as mulheres, então nós estamos com um sério problema geral, eu estou perdendo aluno para o exterior, porque obviamente quem puder está fugindo do Brasil. Eu tenho mais esperança, sou uma pessoa que acha que a partir de 2023 a gente pode construir políticas. Além de dar palestra feito uma louca para conversar com as pessoas que vão estar aqui para a construção das políticas, eu oriento em um Programa de Pós-Graduação em Educação e Ciência, que forma funcionários dentro do CNPq, Capes e ministérios, para que essas pessoas estejam instrumentalizadas com instrumentos de política baseada em evidência. Aí vamos poder montar políticas que não vão ser na base do “eu acho”, vão ser na base do “eu testei essas ideias”.

ARCO: Você acha que hoje a ciência é um campo mais acolhedor para os homens do que para as mulheres? 

Márcia: Depende bastante da área. Ela não é acolhedora para as biológicas e sociais quando tu pensa no topo, mas na entrada sim, porque tu vê um monte de mulher e pensa que ali é teu lugar, mas vai sentindo mais impacto quando vai querer ir pro topo. Na física, algumas engenharias, na agronomia, na informática, ela não é acolhedora nem na entrada, onde os professores, em geral, fazem comentários muito misóginos. Uma coisa que observamos nesse estudo sobre assédio é que está muito entranhado dentro da comunidade o professor e mesmo algumas professoras dizerem o que dá na cabeça, e não entender que tem que ter um regramento sobre o que tu faz.

Essa falta de treinamento faz com que docentes repitam a misoginia do meio social. Vão ser misóginos porque a sociedade é misógina, e vão se sentir muito apoiados em replicar essa misoginia.

ARCO: E o que é preciso fazer, em termos práticos, para que a ciência se torne um lugar mais acolhedor? 

Márcia: A universidade tem que ser acolhedora mesmo, não tem que só dar cota para as pessoas entrarem e serem rechaçadas lá dentro. Não, ela tem que acolher e tem que incorporar a dinâmica do que entra. 

A universidade fez cota e não mudou nada. É como se ela fosse uma fábrica de fazer quadrado, e agora entrou círculo, triângulo, outros formatos, e ela quer transformar todo mundo em quadrado. 

Não é assim que conhecimento funciona. Ele é uma troca. Precisamos nos organizar em todos os níveis que temos. Temos que nos organizar para impedir que o professor ou professora seja assediador, que as instituições sejam assediadoras, que dê espaço para as pessoas, olhar um comitê e se incomodar se só tiver homem branco, dizer que não pode ser assim e abrir a boca e falar. Em qualquer nível a gente consegue fazer política, levando as universidades a fazer uma mudança. Mas talvez para o ano que vem a mudança mais importante seja a mudança política. Nós precisamos nos articular para eleger pessoas que tenham uma visão para a diversidade e para um conhecimento que gera desenvolvimento. Vai ser um ano de muito debate e nós não podemos nos esquivar desse debate político: a retomada de 2023 depende da nossa articulação em 2022.

ARCO: Por fim, há algo que não foi perguntado e que você considera que é importante de pontuar?

Márcia: No meio acadêmico, é muito importante formarmos redes. Quem acha que vai brilhar e vencer sozinho/sozinha, tá mal. A união é muito interessante, porque ela nos preserva, nos educa, nos mostra que não somos tão ruins quanto pensamos e nem tão maravilhosos também. Formem redes. Eu sei que na pandemia é difícil fazer isso, mas tem WhatsApp, tem toda a internet, coisas que eu não tinha – e a gente conseguiu organizar um monte de coisa. Formem redes e se apoiem, juntos e juntas podemos. 

Expediente

Repórter: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustradora: Yasmin Faccin, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista

Fotografia: Arquivo Pessoal

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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