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“Se reproduz na UFSM o que acontece no país”



Professora da UFSM há 23 anos, Cristina Wayne Nogueira é uma das mulheres que se destacam na pesquisa científica da Universidade. Formada em Farmácia e pesquisadora da área da Bioquímica, ela é, atualmente, a única mulher da UFSM, entre 11 homens, a atingir o nível 1A de excelência de produtividade em pesquisa pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)- que ela mantém desde 2008. Trata-se de um nível altamente competitivo, que reflete a excelência continuada dos pesquisadores na produção científica e na formação de recursos humanos, além de liderança de grupos de pesquisa consolidados.

Em 2017, Cristina foi reconhecida com o Prêmio de Pesquisador Destaque UFSM e o Prêmio Pesquisador Gaúcho Destaque em Ciências Biológicas. Em entrevista à Revista Arco, a docente expõe sua trajetória e destaca o papel da mulher na pesquisa.

ARCO: De onde veio seu primeiro incentivo para trabalhar com ciência?

CRISTINA WAYNE NOGUEIRA: Meu primeiro incentivo para seguir na pós-graduação, que é o caminho para se fazer ciência, veio da minha família, dos meus pais. O meu pai e a minha mãe são professores universitários, hoje aposentados, e fizeram a pós-graduação na década de 1960, uma época em que os cursos de PG eram poucos no Brasil. Certamente, o modelo da minha família, no qual minha mãe trabalhava e estudava em condição de igualdade com o meu pai, a forma como a minha mãe administrou sua vida profissional e familiar, o fato de que todos os filhos (um homem e duas mulheres) tiveram direitos iguais no que tange à escolha profissional, e ao incentivo para trilhar a carreira profissional, contribuíram para quem sou profissionalmente.

É preciso destacar também dois grandes mestres: o professor [do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFSM] Carlos Eugênio Daudt, meu orientador do mestrado, e o professor [do Departamento de Bioquímica da UFRGS] Diogo Onofre Gomes de Souza [, meu orientador do doutorado.

ARCO: Quais você considera que tenham sido os fatores de sucesso na sua carreira acadêmica e científica?

CRISTINA: Esta é uma pergunta de difícil resposta, mas acredito que o sucesso na minha carreira acadêmica e científica deve-se ao prazer e a satisfação que sinto no que faço. O trabalho para mim não tem a conotação de peso, sou uma profissional identificada com as atividades acadêmicas (as aulas) e científicas (as atividades no laboratório de pesquisa assim como o complexo processo de orientação).

Algumas características pessoais talvez tenham sido também importantes, destacaria o foco, a disciplina e a organização. Acredito que para dar conta das diferentes atividades que envolvem a docência e a carreira científica é preciso persistência e muita disciplina.

Não poderia deixar de destacar a importância dos alunos (tanto os ex-alunos, quanto os atuais) do meu grupo de pesquisa (pós-doutores, doutores, mestres e iniciação científica) nesta trajetória. Os alunos que trabalham (ou trabalharam) no meu grupo de pesquisa se identificam com a minha forma de trabalho, aceitam os desafios propostos e, efetivamente, carregam o “piano”, isto é, são os que executam os projetos de pesquisa.

Digno de grifo também são os colegas, professores João Batista Teixeira da Rocha e Gilson Zeni, parceiros de grupo de pesquisa e, portanto, colaboradores da minha trajetória científica.

Destaco aqui também a grata satisfação e o desafio, quase que diário, das aulas na graduação, leciono uma disciplina “considerada” difícil [Bioquímica 2], nos primeiros semestres dos cursos de graduação; portanto, “conquistar” os alunos e ajudá-los a “enxergar” o mundo da bioquímica são missões que me engrandecem e gratificam.

ARCO: E quais foram as dificuldades encontradas nesta trajetória?

CRISTINA: As dificuldades para quem trabalha com ciência no Brasil, e mais precisamente no Rio Grande do Sul, são muitas, desde problemas estruturais até as limitações financeiras. De fato, o financiamento das pesquisas é um problema sério no país, e principalmente, se levarmos em conta a capacidade de aporte das fundações estaduais, que são muito desiguais.

Entretanto, sou uma otimista e acredito na nossa capacidade de superação. E é isto que demonstramos toda a vez que um pesquisador do interior do estado do Rio Grande do Sul conquista uma bolsa, verbas para pesquisa, prêmios, distinções etc….

ARCO: Você acredita que as mulheres enfrentam mais dificuldades que os colegas homens no mundo acadêmico?

CRISTINA: Esta é uma questão muito pertinente. Eu considero que a carreira nas universidades não favorece os colegas homens em detrimento das mulheres. E acho constrangedor a possibilidade de que as mulheres sejam admitidas no serviço público ou contempladas por editais (bolsas de produtividade, fomento etc…) apenas para preencher cotas.  Defendo este ponto de vista sob a ótica de que as mulheres são tão competentes profissionalmente quanto os homens e não vejo injustiças ou iniquidades na carreira universitária.

Entretanto, quando trata-se da academia (refiro-me aqui à carreira de pesquisadora), das representatividades e das distinções e premiações, considero que as mulheres enfrentam mais dificuldades do que os homens, principalmente pelo fato de que as representatividades são majoritariamente masculinas. Alguns dados dão suporte a esta colocação, sabe-se que apenas 10% dos integrantes da Academia Brasileira de Ciências são mulheres e que o universo de mulheres bolsistas de produtividade 1A do CNPq é de 24%, e que esta porcentagem, embora aumente dos estratos 1B para 2, não ultrapassa os 34% (Dados do CNPq 2015).

Portanto, é fato que, apesar dos intensos avanços femininos na carreira científica e participação na Pós-Graduação, há poucas mulheres no topo da carreira científica. Assim como o pequeno aumento percentual de mulheres em nível altamente competitivo (Pq 1A) demonstra que o reconhecimento do mérito acadêmico das cientistas ainda é insignificante.

O que gostaria de diferenciar aqui é que, quando os critérios de julgamento são mais à luz da subjetividade, as mulheres tendem a ter menos chances de serem contempladas, o que poderia ser explicado pelo caráter histórico de representatividade masculina nos cargos diretivos, comitês científicos, associações de classe e fundações.

ARCO: Você sentiu algum tipo de preconceito, por ser mulher, no desenvolvimento da sua carreira?

CRISTINA: Retomo aqui o ponto de vista destacado na pergunta anterior, quando se trata de carreira universitária não senti qualquer tipo de preconceito, e galguei todas as categorias da carreira profissional em igualdade de condições às dos colegas homens.

Com relação à carreira científica ratifico também o que já coloquei anteriormente; eu não sofri preconceito no desenvolvimento da minha carreira, mas imagino que um pesquisador homem, com o meu currículo e minha trajetória, poderia ter tido mais facilidades e oportunidades.

Gostaria de deixar claro que estas questões são apenas reflexões e não tem peso na minha trajetória. Talvez o que poderíamos ponderar é que as mulheres precisam trabalhar mais cientificamente para chegar ao mesmo patamar dos homens.

ARCO: Pela sua experiência, e de mulheres com as quais você convive, como é conciliar a carreira científica com a vida familiar (matrimônio, gravidez, etc)?

CRISTINA: Acho que esta é uma questão muito importante e que certamente impacta na vida profissional das mulheres. É preciso determinação, foco e organização para conciliar a carreira científica com a vida familiar.

No meu caso, como fui mãe muito jovem (aos 17 anos), toda a minha trajetória de formação e de construção da minha carreira acadêmica e científica foi compartilhada com a maternidade. Aprendi a ser mãe e profissional praticamente ao mesmo tempo. Para mim, ser mulher, ser mãe e ser profissional não tem peso, nem culpas…..é ser quem sou!!

ARCO: Na sua opinião, há incentivo para fomentar o equilíbrio de gênero na pesquisa brasileira e mundial?

CRISTINA: Esta questão deve ser analisada com cautela. Poderíamos analisar este assunto sob a ótica das bolsas de produtividade, em que a parca presença feminina é histórica e pode ser relacionada com alguns fatores, dentre eles a concentração de bolsas nas diferentes áreas do conhecimento, bem como as características de cada área.

A saber, algumas áreas são mais historicamente masculinizadas, como as Ciências Exatas e da Terra, e Engenharias, em que apenas 20% das bolsas estão com mulheres. Outras têm um maior contingente de mulheres, como a área de Linguísticas, Letras e Artes, na quais as mulheres dão conta de 63% das bolsas de produtividade, e outras, ainda, como as Ciências Biológicas, área na qual atuo, e a Saúde são mais equânimes, nestas áreas em torno de 46% das bolsas estão com mulheres.

Ainda levando-se em conta a questão histórica, precisamos considerar que as áreas com maior número de bolsas disponíveis são exatamente aquelas nas quais as bolsistas mulheres têm um peso relativo reduzido, o que ajuda a entender o desequilíbrio de gênero na distribuição das bolsas de produtividade do CNPq.

Acho que a forma de tratar o desequilíbrio de gênero na pesquisa brasileira seria a ampliação do número de bolsas, principalmente nas áreas em que este desequilíbrio é maior. Reitero a minha convicção de que não seria necessária a reserva de cotas para mulheres, e que bastaria dar condições de igualdade baseadas no mérito.

Entretanto, precisamos considerar o grave momento em que se encontra a ciência e a educação no país, graças ao avassalador corte de verbas a que estão submetidas. Somos sabedores de que o aumento de bolsas requer aplicação de recursos financeiros, e esta é uma agenda que certamente não será contemplada no cenário atual. Infelizmente, a educação, a ciência e a tecnologia, no Brasil, costumam ficar em segundo plano na hora de se definir prioridades na distribuição dos recursos financeiros. É de conhecimento de todos que a comunidade científica enfrenta problemas de escassez de recursos, ameaça de cortes de bolsas e que este momento se apresenta com enormes desafios em relação ao futuro das pesquisas e da ciência no Brasil. Desta forma, me parece que a luta, do momento, é a manutenção do financiamento existente e a esperança de que, em um futuro próximo, possamos trazer a pauta do desequilíbrio de gênero na pesquisa para discussão.

Com relação às políticas existentes para fomentar o equilíbrio de gênero destacaria: o financiamento de projetos com temáticas relacionadas ao estudo de gênero (CNPq) e a parceria L’Oréal, Unesco e ABC que premia jovens pesquisadoras, tendo reconhecido mais de 70 cientistas brasileiras desde 2006. Destaco também o programa dedicado a mulheres cientistas no mundo, o L’Oréal-UNESCO For Women in Science fundado em 1998, que reconhece pesquisadoras na firme convicção de que o mundo precisa de ciência e a ciência precisa de mulheres.

ARCO: De que forma você acredita que mais meninas poderiam ser incentivadas a se interessar pela ciência e ambicionar se tornar cientistas?

CRISTINA: Esta questão me parece mais complexa e pressupõe uma reflexão baseada em dados para que possamos vislumbrar a realidade. Apenas para contextualizar, segundo o censo escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, levando em consideração os anos de 2000 a 2012, há paridade entre o número de homens e mulheres que concluíram o ensino médio- e esta distribuição de gênero se reflete no número de concluintes da graduação. De forma semelhante, os dados de distribuição das bolsas de iniciação científica do CNPq, que se destinam a iniciar os alunos de graduação na carreira científica, dão conta de que 59% dos bolsistas são mulheres. O que nos indica que no ingresso à carreira científica, há equidade entre os gêneros. Entretanto, apenas uma minoria das mulheres atinge o topo da carreira.

Apenas a título de exemplo, a distribuição de gênero no meu laboratório de pesquisa no ano de 2017 foi: pós-doutores (1 homem e 1 mulher), doutorandos (1 homem e 6 mulheres), mestrandos (2 homens e 3 mulheres) e iniciação científica (3 mulheres e 2 homens). Isto é, predominantemente mulheres.

Retomando o que já conversamos anteriormente, o cenário aponta um problemático acesso das mulheres nos pontos mais altos da hierarquia das bolsas e sugere que isto se deva a entraves na manutenção da carreira científica a nível competitivo e não a falta de interesse, ou de acesso, das mulheres à carreira científica.

ARCO: O fato de você ser a única pesquisadora 1A na UFSM indica que há um déficit importante de pesquisadoras mulheres com essas bolsas de produtividade, que representam, segundo o CNPQ, “excelência continuada na produção científica e na formação de recursos humanos, e que liderem grupos de pesquisa consolidados”. Você poderia fazer uma análise de a que se deve essa quase ‘exclusividade’ masculina na UFSM de bolsistas 1A (são 11 no total, somente você mulher)?

CRISTINA: Várias das questões abordadas anteriormente nos ajudam a entender este “fenômeno”, isto é, se reproduz na UFSM, de forma um pouco mais acentuada, o que acontece no país.  Se o percentual de mulheres pesquisadoras 1A é de aproximadamente 20% no país, na UFSM esta percentagem cai para 9% (1 de 11). Portanto, não é um fenômeno da UFSM.

Ao analisar os dados de professores da UFSM que possuem bolsa de produtividade nos deparamos com o seguinte cenário: 10% do total de professores é bolsista, 44% das bolsas no estrato 2 (início da carreira científica) são de mulheres, isto é, não há desequilíbrio de gênero neste estrato. Entretanto, o fenômeno que discutimos anteriormente, também se revela na UFSM, isto é a porcentagem média de mulheres bolsista no estrato 1 (1B, 1C e 1 D) cai para 20% e quando analisamos o estrato 1A chegamos a 9% (1 mulher pesquisadora em um total de 11).

Portanto, a distribuição de bolsas da UFSM segue o cenário nacional apontando as dificuldades das mulheres em acessar os níveis mais altos da hierarquia das bolsas de produtividade, possivelmente devido aos entraves na manutenção da carreira científica a nível altamente competitivo.

Precisamos considerar também que a maioria dos pesquisadores homens na UFSM é vinculada a áreas com prevalência de profissionais deste gênero (Ciências da Terra, Engenharias e Ciências Rurais).

Repórter: Luciane Treulieb

Fotografia: Rafael Happke


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