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Sotaques do campus

Estudantes que vêm de diferentes regiões brasileiras transformam a Universidade em um grande laboratório de fonética



Ilustração colorida horizontal em azul claro e laranja de pessoas em frente ao arco de acesso à Universidade

Se você circula pelos espaços da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) já deve ter ouvido esses diferentes modos de falar que se diferenciam no ritmo, entonação, ênfase e até no uso das palavras. São os sotaques presentes na Universidade, fenômeno fonético em que determinados indivíduos pronunciam palavras de forma particular

A UFSM é um espaço diverso. A professora do  Departamento de Letras Clássicas e Linguística, Célia Della Méa, destaca que uma das formas de perceber essa multiplicidade geográfica existente nela é por meio dos sotaques dos acadêmicos. “Eu penso que a sala de aula é um laboratório de fonética, porque nunca temos uma turma que seja só daqui [de Santa Maria]”, afirma a docente.

A variação linguística, área de estudo da sociolinguística, explica como diferentes culturas dão origem a diferentes formas de expressão da língua. A alteração pode ser: 

  • Diatópica: quando está associada aos aspectos geográficos;
  • Diastrática: ligada ao grupo social do indivíduo falante;
  • Diacrônica: relacionada aos fatores históricos; 
  • Diafásica: associada ao contexto comunicativo, como situações formais e informais. 

Assim, o sotaque é uma das formas de perceber a variação linguística por meio do som, mas ela também pode ser identificada na construção de frases e no significado de palavras e expressões utilizadas na comunicação. 

A UFSM é uma universidade, que, só na graduação, tem cerca de 20.900 estudantes. Destes, 16.870 são de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. São, portanto, mais de 4 mil alunos que saem de suas regiões e estados de origem para estudar em Santa Maria. De acordo com o portal ‘UFSM em Números’, depois do Rio Grande do Sul, São Paulo é o estado que mais tem representação (944 estudantes). Depois, vêm os estados de Santa Catarina (399), Paraná (290), Rio de Janeiro (264), Minas Gerais (217) e Bahia (101). Todos os estados brasileiros estão representados no espaço da UFSM.  Além disso, a nacionalidade dos estudantes estrangeiros da graduação contempla 20 países.

Perceber o sotaque

Para quem chega a Santa Maria para estudar, o sotaque dos outros é um dos primeiros choques culturais. João Pedro Sousa percebeu essa diferença ao chegar na rodoviária de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Calouro de Jornalismo na UFSM, João Pedro é natural de Marabá, cidade que fica no interior do Pará. Ele estranhou a pronúncia do ‘r’ quando uma vendedora perguntou sobre o troco. “Chegando em Santa Maria, eu não percebi o meu sotaque. Eu percebi o sotaque de vocês, a forma que vocês falam e que é bem diferente da que eu conhecia”, relembra João Pedro. 

Essa percepção foi parecida para Anna Claudya da Silva, estudante de Produção Editorial e natural de Barueri, em São Paulo. “Quando eu vim para cá, percebi a diferença de sotaques, mas não do meu sotaque”, comenta Anna Claudya. A estudante conta que colegas e amigos que atentaram que o sotaque e as expressões linguísticas dela são diferentes. “Só fui perceber essa diferença quando cheguei aqui”.

A professora Célia aponta que a diversidade de sotaques existente em nosso país também é resultado do contato entre línguas locais e estrangeiras que aconteceram ao longo da história e que impactaram de formas distintas nas cinco regiões do Brasil. “A língua também é um componente de identidade das pessoas. O sotaque é uma forma de identidade e todo esse conjunto de variedades que nós temos se marca na língua. As pessoas manifestam a diversidade através da língua”, ressalta. 

Emily Aguiar, que está no quinto semestre de Engenharia Florestal, veio para Santa Maria em 2020. Mas, por conta da pandemia, voltou para sua cidade natal, em São Luís, no Maranhão. Foi neste ano que, ao retornar à UFSM, percebeu as diferenças na fala. “Falaram que meu sotaque é gostoso de ouvir, e eu acho divertido, porque gosto de conhecer pessoas novas e lugares novos”, afirma Emily. 

João Pedro lembra que percebeu o próprio sotaque só após a entrada na universidade: “As pessoas comentam que eu tenho um sotaque muito forte, muito presente, mas antes eu não percebia isso, acho que pelo fato de estar com as pessoas que eu convivi e que falam da mesma forma. Isso não era uma pauta”, explica.

Estranhamentos da linguagem

Expressões linguísticas também são diferenças encontradas nas regiões do país. Lagartear, bergamota, rótula, sinaleira e pão cacetinho são termos característicos usados no Rio Grande do Sul. Emily relata que o conceito de ‘lagartear’ é algo que ela começa a entender agora, e que ainda estranha outras expressões. “Não tem quem faça eu falar cacetinho. Eu vou na padaria e falo ‘quero quatro pães desse aqui’, e aponto para o que eu quero, que no caso é o pão francês”, conta. Outro episódio que marcou a estudante foi a primeira vez que o cardápio do Restaurante Universitário teve ‘tatu ao molho’ como opção proteica. “Eu fiquei: ‘como assim estão servindo tatu?’, porque na minha cabeça era tatu de verdade e não o corte que chamam de tatu”, recorda. 

Para Felipe Borges, estudante de Engenharia Aeroespacial e natural de Caldas Novas, em Goiás, apesar de encontrar expressões diferentes, elas não se tornaram barreiras de comunicação, já que muitas vezes o contexto permitia o entendimento. Uma palavra, em específico, foi mais difícil de compreender: “As pessoas falaram bastante de rótula, e eu pensei que era a papelaria, mas na verdade as pessoas chamam a rotatória de rótula, e eu levei um tempo para descobrir isso”, conta. A referência é a um local que fica no Bairro Camobi, em que fica localizada a UFSM, e que leva a expressão no nome por ficar próxima a uma rótula.

Mudanças e adaptações


Pierre Jácome Nascimento (23) encontrou dificuldades para entender o sotaque e o modo de falar do estado gaúcho. O estudante de Artes Visuais veio de Araçatuba, no interior de São Paulo, em 2019. “Mas depois de um tempo [o sotaque] começou a ficar do meu cotidiano e acabei me acostumando, tive até dificuldades em falar algumas coisas quando voltei para lá [Araçatuba] por causa da pandemia”, comenta.

A professora Célia explica que é comum haver a adaptação ao modo de falar a partir da convivência com sotaques diferentes. “Como nós nascemos e estamos em um determinado meio, a gente acaba adotando aquele meio. Não por imitação e sim por questões culturais, e os sotaques estão ali, essas variações linguísticas estão ali”, destaca. De acordo com ela, a adaptação também pode ocorrer de forma planejada com o treinamento do aparelho fonador por meio de trabalhos com fonoaudiólogo, algo muito utilizado em novelas em que atores precisam representar formas de falar particulares de determinado personagem.

Para quem já está há um tempo em Santa Maria, percebe diferenças no modo de falar, seja na incorporação das expressões comuns do local, seja na incorporação de elementos do sotaque. Régis Diniz é estudante de Direito na UFSM e está em Santa Maria desde 2016, quando decidiu se mudar de São Paulo. Apesar de entender que seu modo de falar ainda carrega características da capital paulista, percebe que seu sotaque já mudou. “Acontece, realmente, essa incorporação da forma de falar, do jeito de se expressar, e também a utilização de algumas frases e termos que são pertencentes a um lugar”, reflete.

Outra pessoa que acredita que perdeu um pouco de seu sotaque e incorporou o da cidade gaúcha é o estudante de Farmácia André Lucas Pacheco, natural de Barra do Corda, no interior do Maranhão, e que já está em Santa Maria há cinco anos. “Eu acho que a experiência de estar em um lugar em que tem pessoas de vários lugares é uma coisa que te enriquece muito, porque tu conhece diversas realidades”, ilustra. Um elemento que percebe em sua fala é que o som do ‘s’, que ele pronunciava com chiado, não é mais tão presente. No entanto, quando fala com a família no telefone, o sotaque maranhense volta.

Preconceito linguístico 

Lívia Maria Fernandes Crescêncio, 18 anos,  cursa Gestão Ambiental e também é de Marabá. Ela está em Santa Maria há cinco meses, mas há seis anos mora no sul do país. Na cidade anterior, Palmeira das Missões, percebeu muita diferença no sotaque e, inclusive, conta que já sofreu preconceito por conta disso. “Eu falava muito rápido e as pessoas não entendiam. Confesso que perdi bastante meu sotaque, tem várias palavras que eu falava e não falo mais”, relata.

 

A docente do curso de Letras explica que existe a ideia de valor social em relação às variações linguísticas, o que gera preconceitos a determinados modos de falar. Normalmente, as pessoas não querem se adaptar ao “R” marcado, porque é considerado “caipira”, enquanto outros sons são aceitos com mais facilidade e até admirados. “Depende muito do valor linguístico que aquela variedade tem para aquela comunidade”, esclarece Célia.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária, e Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design Gráfico: Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista, e Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia Social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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