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Um olhar humanizado sobre a medicina



ATENÇÃO: Esta matéria foi atualizada no dia 20 de fevereiro, às 15h43min devido a equívoco cometido no ano da formatura de Jesus Zevallos.

 

Mesmo depois de 55 anos de formado, o ex-aluno da UFSM e médico Jesus Velarde Zevallos, leva consigo valores e aprendizagens que desenvolveu ainda no início de sua graduação, concluída em 1963. Após a formatura, Zevallos, que é natural do Peru, fez residência e especialização no Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.

 

No exercício da profissão, defendeu a medicina preventiva como fundamental para o bem estar e a qualidade de vida das pessoas. Além disso, Zevallos reforça a importância do desenvolvimento de uma relação próxima entre o médico e a comunidade, em uma prática humanizada. Ele também tece críticas à medicina como forma de negócio e ao consequente desenvolvimento de uma sociedade hipocondríaca.

 

A Revista Arco conversou com o médico durante sua visita a Santa Maria. Confira:

 

ARCO: Como começou sua trajetória dentro da Medicina?

Zevallos: Me formei em 1963 com meus incríveis colegas de quem gosto muito. Devo ressaltar o Magnífico professor Mariano da Rocha Filho, uma pessoa e um trabalhador admirável, com muita planificação estratégica. Quando eu cheguei a Santa Maria, fomos recebidos por ele e foi uma honra para nós. Ele disse que seríamos grandes cirurgiões. Tudo o que ele falava passava uma imagem de segurança e de paixão.

 

“A vida toda é paixão, se não se coloca paixão nas coisas, não se faz nada”.

 

Depois de graduado, fiz a residência no Instituto Nacional de Câncer do Rio de Janeiro. Voltando ao Peru, fiz a parte assistencial e a parte docente. Na assistencial, trabalhei com cargos como diretor do hospital e presidente de um corpo médico. Na parte docente, tenho um instituto de investigação. Damos um curso de técnica cirúrgica e fazemos trabalho de investigação.

 

Jesus Zevallos ao lado do quadro do fundador da UFSM, José Mariano da Rocha Filho

ARCO: Por que você escolheu a UFSM para estudar Medicina? Existe algo específico que lhe atraiu?

Zevallos: Nós, quando chegamos ao Brasil, depois da seleção que tivemos na embaixada de Lima, tivemos que passar pelo Ministério da Educação. No Ministério, fizeram a distribuição. Vim para Santa Maria e me encantei com a cidade. Tive muito amor fraternal aqui dentro. Isso ajudou a formar meus valores éticos e morais de forma excelente. A vida vai nos dando oportunidades e não podemos perdê-las.

 

ARCO: Quais são as áreas que mais se destacam dentro da sua prática médica?

Zevallos: Nós trabalhamos muito com o que se diz de prevenção. Hoje estamos lutando para que a prevenção seja declarada um direito humano, porque é o único procedimento da saúde capaz de controlar a pessoa saudável. O médico foi formado para cuidar o paciente são, e não somente o doente. Nós também solicitamos um projeto de lei chamado Prevenção: responsabilidade compartilhada, ou seja, a prevenção deve ser dada por todas as entidades de saúde e com a responsabilidade do paciente. Além disso, trabalhamos com muita ênfase na docência através do que chamamos de “novos paradigmas do ensino médico e da gestão de políticas de saúde”. O médico e o estudante de Medicina têm que estar em íntimo contato com a comunidade, não só com a universidade. Também focamos no uso das plantas medicinais. Elas não são curativas, mas ajudam em diversas coisas, o que conduz a um estilo de vida muito saudável.

 

ARCO: Você poderia falar mais sobre o a sua experiência no uso de plantas medicinais como tratamento?

Zevallos: As plantas medicinais são o melhor tratamento que podemos fazer. É preciso haver um uso contínuo, não apenas esporádico. O uso das plantas medicinais tem que se tornar um hábito diário para que funcione. Não é uma medicina alternativa, é um tratamento alternativo. A medicina é uma só. Os médicos estão deixando que outras profissões se encarreguem do uso e do acompanhamento de tratamentos com as plantas medicinais, enquanto nos encarregamos só da medicina com o uso de remédios. No Peru, aprendemos que existem cuidados simples que podem prevenir diversos problemas, como lavar as mãos e a hidratação através da ingestão de líquidos.

 

“O uso exagerado de medicamentos faz com que se crie uma sociedade hipocondríaca, então temos que lutar para que a medicina preventiva seja cultivada”.

 

ARCO: Em textos que você escreveu, cita a Medicina Humanista. O que podemos entender a partir dela?

Zevallos: Dentro do que estamos vivendo, ela não existe. A medicina é um negócio, e é uma tristeza dizer isso, mas é assim. Estamos submetidos ao que dizemos ser a evolução da ciência e tecnologia. O médico deve atender diversos pacientes por hora para haver produtividade – e isso deixa de ser humanista. A humanidade está na prevenção, que é o cuidado da pessoa sã.

 

“Dentro da medicina humanista, precisamos ver o ser humano com integridade, não fragmentá-lo”.

 

Nós formamos a Sociedade Peruana do Ato Médico, porque acreditamos muito nisso. O ato se dá a partir da relação médico-paciente e do respeito com o paciente. Além disso, temos que dar respaldo ao núcleo familiar, pois quando alguém fica doente, isso desequilibra a família e, por isso, eles devem se manter sempre informados.

 

Jesus Zevallos entregando presente para o reitor da UFSM, professor Paulo Afonso Burmann

Jesus Zevallos esteve na Universidade, em dezembro de 2018, durante a comemoração dos 55 anos de formatura da sua turma de Medicina. Emocionado com a homenagem, ele agradeceu à Universidade, aos seus professores e colegas de turma. Para demonstrar sua gratidão, o médico entregou presentes típicos peruanos ao reitor. Também mostrou seu livro de poemas, que incluem textos sobre o tempo em que morou em Santa Maria.

 

Reportagem: Martina Irigoyen, acadêmica de Jornalismo

Edição: Maria Helena da Silva

Fotografia: Rafael Happke

 


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