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Um sonho em construção

Projeto estimula empoderamento feminino através da qualificação de mulheres de baixa renda para o trabalho na construção civil



De pequena, Sandra queria ser pedreira. O tempo passou e ela cresceu. Deixou de ser menina e, sem oportunidade, deixou também o atípico sonho adormecer. Em vez de construir casas, passou a limpá-las e organizá-las. Sandra virou faxineira. Trabalhou de domingo a domingo, sem descanso, até que um dia, em 2010, viu um cartaz no mural da escola onde estudava, na comunidade da Vila Maringá, em Santa Maria. O cartaz convidava as mulheres do bairro a participarem de um curso de construção civil. Sandra conversou com as professoras da escola, informou-se e logo fez a inscrição. Foi o primeiro passo rumo à realização do sonho de infância adormecido.

Também foi o momento em que o caminho de Sandra Oliveira Santos cruzou pela primeira vez com o do Núcleo de Estudos sobre Mulheres, Gênero e Políticas Públicas (NEMGeP) da UFSM. Era o NEMGeP que estava oferecendo o curso para mulheres interessadas em trabalhar na área de construção civil. O programa de extensão Mulheres Conquistando Cidadania surgiu do engajamento do Núcleo na luta pela implementação do Plano Nacional de Políticas úblicas para Mulheres, que tem como um dos eixos fundamentais o estímulo à autonomia econômica das mulheres e à igualdade no mundo do trabalho, com inclusão social.

O Núcleo, formado em 2009, no curso de Enfermagem da UFSM, sob a coordenação da professora Maria Celeste Landerdahl, desenvolve diversas atividades relacionadas à saúde e cidadania das mulheres. Atualmente, além de acadêmicas da Enfermagem, o grupo possui integrantes de cursos como Serviço Social e Psicologia. Na mesma época em que o Núcleo surgiu, nasceu a ideia de implementar o Mulheres Conquistando Cidadania na cidade. “A partir desse momento, nós fomos nos sentindo comprometidas e responsáveis por estar criando novas frentes. Foi assim que começou. E em cada espaço que a gente sentia que tinha que lutar por direitos das mulheres a gente entrava. Nessa caminhada continuamos até hoje ”, conta Celeste.

De acordo com a professora, projetos como o Mulheres Conquistando Cidadania já vinham sendo implementados em outros municípios, inclusive no Rio Grande do Sul, com a proposta de qualificar mulheres de baixa renda para o trabalho na construção civil. “Seria uma alternativa à falta de trabalho ou ao trabalho doméstico remunerado informal. Uma possibilidade a mais de trabalho àquelas que desejassem um campo de atuação que propiciasse autonomia financeira”, explica a professora.

Para Celeste, a independência conquistada através do trabalho é entendida como um requisito importantíssimo para a promoção da cidadania e da saúde da mulher. A política atual considera as desigualdades de gênero e a falta de empoderamento das mulheres como questões que afetam a saúde feminina. “O que causa doença? Não é só comer alimento estragado. O tipo de relação que você mantém com as pessoas com quem convive pode causar doenças, sim. E colocar isso em uma política para mulheres é um avanço, porque temos que atacar isso. É uma questão de saúde pública”, afirma.

As atividades do Mulheres Conquistando Cidadania começaram em 2010. Incluindo Sandra, o programa teve 60 mulheres inscritas, todas de localidades onde o curso de Enfermagem desenvolvia ações de saúde. O curso profissionalizante foi dividido em dois eixos: técnico e político. O primeiro foi ministrado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), contando com aulas de assentamento de cerâmica e de pintura predial interna e externa. O segundo eixo foi desenvolvido pelo NEMGeP, através de oficinas de saúde e cidadania, com rodas de conversas e dinâmicas. Dentre os temas discutidos, estavam assuntos como gênero e empoderamento, direitos das mulheres, políticas públicas para mulheres, violência e igualdade de gênero.

No final de 2010, o programa entregou os certificados de conclusão do curso profissionalizante a 38 mulheres, ampliando as possibilidades de independência econômica, empoderamento e melhor qualidade de vida para elas e suas famílias. “A Universidade tem um papel fundamental na mudança da sociedade, sempre por meio do conhecimento, para que as pessoas tenham um pensamento mais crítico. E é isso que a gente tem tentado fazer. Alguma coisa estamos conseguindo. Se a gente não pensar que está conseguindo, a gente para. Temos que acreditar que é possível. Sempre pra nós a mudança é possível”, fala Celeste.

Dentre as formandas, lá estava Sandra novamente, cheia de felicidade. Um mês depois, em janeiro de 2011, ela foi chamada para trabalhar em uma empresa de construção civil na cidade. “Comecei como servente e desde que eu entrei eles assinaram minha carteira, tudo regular. Antes eu não tinha isso. Depois passei a meio-oficial e agora sou pedreira profissional”, conta Sandra, com o orgulho de quem realizou um sonho de infância. Mas o sonho cresceu. Agora ela quer ser mestre de obras. Enquanto procura o curso profissionalizante para isso, segue sua rotina de trabalhadora, na empresa e em casa. Sandra está construindo com suas próprias mãos a futura casa da família.

Repórter: Camila Marchesan Cargnelutti

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