Ir para o conteúdo Revista Arco Ir para o menu Revista Arco Ir para a busca no site Revista Arco Ir para o rodapé Revista Arco
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita
Início do conteúdo

Derechos no sul do Brasil: o que são?



Há poucos anos, o Rio Grande do Sul foi o cenário perfeito para o acontecimento do derecho. Mas, o que é isso?

 O derecho é um fenômeno atmosférico que se manifesta em tempestades. Classificado de maneira mais precisa no final dos anos 80, um derecho pode ser compreendido como uma extensa massa de ventos associada a tempestades que se movem rapidamente e por uma longa extensão territorial. 

O nome do intenso vendaval de longa duração e que pode percorrer mais de 400 km origina-se de uma palavra espanhola que significa “direta”. Por isso, a palavra “derecho” tem sido usada para se referir aos ventos fortes que se movem em linha reta. Diferente dos tornados, fenômeno bastante presente em nosso imaginário como ventos extremamente destrutivos, o derecho não é composto por ventos “torcidos”, ou seja, não gira em torno de si.

Aqui,  na Universidade Federal de Santa Maria, o fenômeno atmosférico raro foi cientificamente documentado pelo meteorologista Eliton Lima de Figueiredo durante o doutorado, realizado no Programa de Pós-graduação em Meteorologia (PPGMet). No Brasil, o trabalho é considerado pioneiro na documentação e no estudo  sobre o derecho. 

Orientado pelo meteorologista e professor do PPGMet Ernani de Lima Nascimento, o trabalho explora as tempestades que ocorreram em 29 de maio de 2013 e nos dias 18 e 19 de outubro de 2014, no Rio Grande do Sul. Com imagens captadas pelo radar meteorológico localizado em Santiago, cidade vizinha de Santa Maria, Eliton passou quatro anos estudando com o objetivo de mostrar que o fenômeno derecho aconteceu bem aqui, pertinho de nós. 

“O desafio foi bastante grande. No Brasil, são raros as pesquisas que falam sobre o fenômeno, então o trabalho foi muito baseado em estudos norte-americanos. Por isso, a oportunidade de estudar e documentar o derecho foi uma experiência muito boa”, lembra. 

Além da tese, a pesquisa deu origem a dois artigos científicos extremamente importantes para área. O primeiro deles intitulado “Analysis of two derecho events in Southern Brazil” foi publicado na edição impressa de outubro da revista Meteorology and Atmospheric Physics. É a primeira vez que um artigo científico sobre o tema é publicado. O segundo, ainda não publicado, trabalha com a simulação numérica da tempestade a partir  de números e cálculos matemáticos.

O trabalho publicado é de autoria de Eliton Lima de Figueiredo e teve a colaboração do orientador Ernani de Lima Nascimento e de Maurício Ilha de Oliveira, mestre egresso do PPG da UFSM e, atualmente, doutorando em Meteorologia pela Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. A contribuição de Maurício na pesquisa diz respeito aos tornados, fenômeno que estuda há anos.

“Trabalho entendendo os tornados, mas existem outros fenômenos atmosféricos muito interessantes. Então, nosso horizonte deve permanecer expandido porque sempre tem algo a ser descoberto”, conta o doutorando.

Para ele, a observação desses fenômenos é essencial para a área da meteorologia, principalmente no Brasil, e deve continuar sendo feita. “Observar um fenômeno na nossa região é importante para a comunidade científica, já que podemos, por exemplo, enxergar algo que ainda não foi visto em região alguma”, explica.

 

Vendaval pode chegar a 140 km/h

Mas, se o “derecho” é raro, quais são as características que fazem dele um fenômeno tão especial? Primeiro, o vendaval é extremamente forte. Os ventos podem chegar a 140 quilômetros por hora. Segundo, a extensão territorial do fenômeno é bastante grande. O derecho pode começar um rastro de destruição em Uruguaiana e chegar até Santa Maria, por exemplo. E, terceiro, pode durar por horas, mas, é alta a velocidade com que as tempestades se deslocam. Logo, o potencial de destruição do derecho é intenso e causa, por exemplo, a derrubada de árvores, destelhamentos, quedas de energia e até fatalidades humanas.

 Segundo o coordenador do Curso de Graduação em Meteorologia da UFSM, Ernani de Lima Nascimento, toda a tempestade gera ventos. Porém, o pesquisador lembra que quando essas tempestades se organizam lado a lado, formam as linhas de instabilidade e as rajadas de vento se somam, como se fosse uma combinação.

“Tem algumas situações que são raras em que esses ventos são extremamente intensos e podem ser comparados ao de um tornado. Mas, com a diferença que não tornam em si, não são ventos giratórios. São derechos, ventos de, em média, 140 quilômetros por hora”, ressalta Ernani. 

 Além disso, o fenômeno possui um formato interessante que desperta curiosidade. No radar meteorológico de Santiago, foi possível visualizar a tempestade em formato de arco.  O bow echo, como é conhecido na meteorologia, nada mais é que o retorno característico do radar de um sistema convectivo de mesoescala com a forma de um arco. Esses sistemas podem produzir ventos fortes em linha reta e, ocasionalmente, tornados, causando grandes danos. Podem também se tornar derechos, como foi o caso dos acontecimentos de maio de 2013 e outubro de 2014. E, ainda mais curioso, o radar captou uma formação extremamente rara: a tempestade em formato de arco e flecha. Foi a primeira documentação científica desta organização de tempestades em território brasileiro.

Ernani lembra ainda que os derechos são linhas de instabilidade que podem ser em forma de ponta de lança ou em forma de arco.

“Na meteorologia, usamos objetos conhecidos para associar às formações de tempestades. Assim, também são conhecidas como ecos de radar de ponta de lança ou ecos de proa”, conta o professor. 

Sobre os efeitos do derecho, o que se sabe sobre o rastro de destruição causado está relacionado aos acontecimentos observados nos Estados Unidos. Lá, o vendaval intenso é mais comum devido à largura do continente, característica que propicia este fenômeno. Em 2011, Chicago foi atingida por um derecho que deixou dezenas de milhares de residências sem energia elétrica. Além disso, afetam severamente os meios de comunicação e, devido aos estragos relacionados a queda de árvores, destelhamentos, alagamentos e etc, afetam também a mobilidade de uma cidade, por exemplo. 

 

Afinal, por que trabalhos como este são importantes para a sociedade?

Os resultados apresentados na tese de Eliton e no artigo escrito em colaboração com Ernani e Maurício são fundamentais para o apoio à meteorologia operacional brasileira no tocante à emissão de alertas de tempo severo.

Segundo os pesquisadores, é fundamental que tenhamos conhecimento sobre tempestades e outros fenômenos naturais já que somos diretamente afetados. Mesmo que não possam ser evitados, justamente pode se tratarem de manifestações da natureza, o investimento e o conhecimento tornam tais fenômenos mais previsíveis e, dessa forma, a sociedade pode se preparar a fim de reduzir ou evitar os possíveis danos. 

 

Repórter: Leandra Cruber, acadêmica de Jornalismo

Ilustradora: Giovana Marion, acadêmica de Desenho Industrial

Mídia Social: Nataly Dandara, acadêmica de Relações Públicas

Editora de Produção: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista


Publicações Recentes