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Sopra, Norte



Tem o barulho de uma tempestade, causa desordem como um furacão, desarruma o cabelo e levanta o vestido, deixa alguns felizes e estressa outros tantos. A resposta para a charada está na ponta da língua de quem vive em Santa Maria. Afinal, é impossível não reconhecer quando sopra o vento norte na cidade. 

Característico dos meses de julho e agosto, o vento norte é veloz, quente e seco. Além disso, costuma durar três dias consecutivos e anuncia chuva. Mas por que ele é tão peculiar na região central do estado? E como é capaz de influenciar no humor dos seres humanos? A Arco explica.

 

Influência do relevo

 

O vento norte sopra em todo o Rio Grande do Sul, mas ganha condições peculiares na região central por conta do relevo. Santa Maria está localizada na Depressão Central, caracterizada por ter terras de menor altitude, e é cercada, ao norte, pela serra que delimita o fim do planalto. Ela é a responsável por dar velocidade e calor ao vento norte quando ele desce pela encosta. 

Segundo o professor Cássio Arthur Wollmann, do Departamento de Geociências do Centro de Ciências Naturais e Exatas da UFSM, as leis da climatologia explicam o que acontece. A primeira diz que o vento aquece um grau para cada 100 metros de queda. Considerando que a diferença entre o topo e a base da serra é de 400 metros, o vento é 4ºC mais quente em Santa Maria do que em Itaara, por exemplo. Já a segunda é a Lei da Gravidade: quando o vento chega na borda da serra, a gravidade acelera sua velocidade em direção à cidade de Santa Maria ao descer o rebordo do planalto. 

GIF mostra a formação do vento norte

Vento de rajadas

O vento norte sopra a partir do quadrante norte, que engloba também os pontos colaterais de noroeste e nordeste, para sul, com velocidade de aproximadamente 40 km/h – considerada intensa. Entretanto, segundo Cássio, o que mais importa não é a velocidade média, mas as rajadas de vento – totalmente imprevisíveis. “Nessas rajadas, a velocidade passa tranquilamente dos 90 km/h. Elas são as responsáveis pelos estragos no ambiente urbano”, pontua o professor.

Ilustração com o seguinte texto: O vento norte foi amplamente pesquisado por Maria da Graça Barros Sartori, professora do Departamento de Geociências da UFSM entre 1980 e 2008. Natural de Júlio de Castilhos, na região central do estado, Maria da Graça cresceu no ambiente rural, em contato com ditados populares sobre o tempo e o clima - muitos deles envolvendo o vento norte. Por conta disso, dedicou a trajetória acadêmica a explicar cientificamente o conhecimento popular, em parceria com alunos de graduação e pós-graduação. Muitos dos resultados estão reunidos no livro Vento Norte, publicado no ano de falecimento da professora, 2014.

Canyons urbanos

No sopé da serra não existe outra cidade do tamanho de Santa Maria, com redes de telefone, torres de energia elétrica, edifícios altos. Essas estruturas formam os chamados canyons urbanos, que são as ruas no meio dos grandes prédios capazes de alterar a direção do vento. A rua Alberto Pasqualine e a conexão com as ruas Floriano Peixoto e Astrogildo de Azevedo, no centro de Santa Maria, são exemplos típicos de canyons urbanos. 

Tempo-sensitividade

Ilustração de rosto de mulher com cabelo muito longo ao vento

A reação do corpo humano ao vento se dá a partir de diversos estímulos. De forma geral, os ventos frios e quentes, violentos e secos, são nocivos ao corpo humano, pois ressecam e racham a pele, irritam os brônquios, provocam tosse e tornam difícil a expectoração. Além disso, segundo o professor Cássio, a energia produzida pelo vento reage com o cérebro humano; e o corpo, ao ser massageado pelo vento, responde com a variação do fluxo sanguíneo e a dilatação dos vasos capilares da pele e dos músculos. 

Cada indivíduo atribui um juízo de valor ao que experiencia. “Você deve ter vivido alguma situação em dia de vento norte que fez você associá-lo a algo negativo ou positivo. Quando ele sopra, sua memória climática é ativada”, pontua Cássio. Segundo as pesquisas feitas por Maria da Graça e apresentadas no livro, aproximadamente 70% da população santa-mariense não gosta de vento norte e apresenta reações psicofisiológicas como irritação, indiferença ao trabalho, agitação, mau humor e nervosismo. Isso está relacionado à tempo-sensitividade de cada indivíduo.

Maria da Graça também comprovou que os índices de violência doméstica em Santa Maria aumentam em dias de vento norte. Além disso, ao observar alunos de Ensino Fundamental e Médio, percebeu dificuldade de concentração, agitação, mal-estar e mau humor quando o vento soprava com mais velocidade. As pesquisas completas estão na obra publicada pela professora.

Instinto de sobrevivência 

 

O vento indica mudanças de condições meteorológicas, o que implica em alteração de comportamento do animal como instinto de sobrevivência. A saracura, por exemplo, tem o hábito de cantar ao fim do dia para se alimentar de insetos à noite. Se ela sente o vento norte, readapta a rotina, porque sabe que provavelmente choverá em breve e a alimentação ficará mais difícil.

 

Então, já sabe: o vento característico de Santa Maria influencia muito mais do que parece. E você, o que acha do vento norte? Conta para nós em @revistaarco.

Reportagem: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Edição de produção: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Ilustrações e animação: Giovana Marion, acadêmica de Desenho Industrial

Jornalista responsável: Maurício Dias

 



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