{"id":1480,"date":"2013-10-01T16:06:52","date_gmt":"2013-10-01T19:06:52","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=1480"},"modified":"2021-02-10T13:53:40","modified_gmt":"2021-02-10T16:53:40","slug":"vidas-que-continuam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/vidas-que-continuam","title":{"rendered":"Vidas que continuam"},"content":{"rendered":"<p>Podemos compreender a morte como parte do curso da vida, mas a aceita\u00e7\u00e3o diante dela n\u00e3o costuma ser t\u00e3o simples. Quando se trata de uma m\u00e3e ou pai dizendo adeus ao filho, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Como explicar essa invers\u00e3o do que esperamos ser o ciclo natural de nossa exist\u00eancia? N\u00e3o parece haver uma resposta que d\u00ea sentido \u00e0s coisas. H\u00e1 casos, por\u00e9m, em que a morte n\u00e3o \u00e9 necessariamente o fim e nos quais ela passa a ser vista como o recome\u00e7o para outra pessoa. \u00c9 aqui que entra em cena a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre a doa\u00e7\u00e3o e a morte de um filho foi abordada na UFSM pela pesquisa intitulada A perda de um filho: luto e doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os. Ela foi realizada pela psic\u00f3loga Ana Luiza Portela Bittencourt, pelo professor de Psicologia Alberto Manuel Quintana e pela professora de Medicina Maria Teresa Aquino de Campos Velho. O objetivo foi pensar sobre o sofrimento advindo da perda do filho e como isso se apresenta nas situa\u00e7\u00f5es em que h\u00e1 a possibilidade de doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h3><strong>A REALIDADE DO LUTO<\/strong><\/h3>\n<p>A morte n\u00e3o \u00e9 um evento individual, pois traz repercuss\u00f5es no desenvolvimento de pais, irm\u00e3os e amigos. Cada uma dessas pessoas \u00e9 afetada de diferentes formas \u2013 afinal, o luto n\u00e3o segue sempre um padr\u00e3o. No entanto, encar\u00e1-lo quando se trata de algu\u00e9m jovem torna-se mais dif\u00edcil, pela prematuridade que \u00e9 posta. \u00c9 menos doloroso enfrentar a morte quando temos a no\u00e7\u00e3o de que o ente querido viveu o suficiente para realizar seus sonhos e alcan\u00e7ar a felicidade.<\/p>\n<p>O luto constitui um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o momento em que s\u00e3o expressos os sentimentos decorrentes da perda. O professor Alberto Quintana ressalta que ele n\u00e3o deve ser ignorado pelos profissionais da sa\u00fade; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma fase que precisa ser valorizada e acompanhada. A viv\u00eancia do luto permite o entendimento de que a morte \u00e9 real e possibilita a retomada da rotina.<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>O que \u00e9 morte encef\u00e1lica?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a defini\u00e7\u00e3o legal de morte. Ela representa a completa e irrevers\u00edvel parada de todas as fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro. Isto significa que, como resultado de uma forte agress\u00e3o ou ferimento grave no c\u00e9rebro, o sangue que vem do corpo e supre o c\u00e9rebro \u00e9 bloqueado, e ele morre.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><strong>A DOA\u00c7\u00c3O E A EQUIPE DE SA\u00daDE<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>A doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, com exce\u00e7\u00e3o daquelas feitas em vida, pode ser realizada quando \u00e9 detectada a morte encef\u00e1lica, ou morte cerebral, como \u00e9 mais conhecida. Por\u00e9m, ainda que o paciente tenha declarado o desejo de ser um doador, cabe \u00e0 fam\u00edlia autorizar ou n\u00e3o que isso aconte\u00e7a. A grande dificuldade \u00e9 que o processo precisa ocorrer de forma r\u00e1pida e coincide com um momento em que a fam\u00edlia ainda n\u00e3o foi capaz de assimilar a perda. Al\u00e9m disso, ainda h\u00e1 muitos mitos e d\u00favidas envolvendo o assunto. O professor Alberto cita ainda outro fator que pode influenciar na decis\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Observamos que quanto mais a pessoa se sente confiante e satisfeita com o atendimento que foi prestado \u00e0 pessoa que faleceu, mais ela est\u00e1 inclinada a doar. Isso porque a doa\u00e7\u00e3o depende muita da confian\u00e7a na equipe que vai solicit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m segundo a pesquisa, outra dificuldade \u00e9 a de que, quando \u00e9 dado o diagn\u00f3stico de morte encef\u00e1lica, o poss\u00edvel doador ainda apresenta batimentos card\u00edacos e respira com a manuten\u00e7\u00e3o de equipamentos. Assim, muitos pais costumam ter receio de que a pessoa ainda esteja viva e sentem medo de causar algum dano a ela. Nesse sentido, a atua\u00e7\u00e3o da equipe de sa\u00fade \u00e9 fundamental. \u00c9 preciso que fique claro para a fam\u00edlia o conceito de morte encef\u00e1lica e que seja dado um tempo at\u00e9 a informa\u00e7\u00e3o ser processada. Para isso, \u00e9 importante que a equipe de sa\u00fade esteja pronta para responder a todas as d\u00favidas sobre o assunto e deixar os pais mais seguros sobre a decis\u00e3o a ser tomada.<\/p>\n<p>A forma como s\u00e3o conduzidas as campanhas em prol da doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os tamb\u00e9m \u00e9, na vis\u00e3o de Quintana, um dos empecilhos para que a\u00e7\u00f5es como essa sejam realizadas em mais ocasi\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2014 Todas as campanhas t\u00eam uma proposta de nos fazer entender que \u00e9 bom doar, que voc\u00ea pode salvar vidas. Na pesquisa que n\u00f3s fizemos, quase a totalidade das pessoas era a favor da doa\u00e7\u00e3o. Mas quando se perguntava se elas doariam os \u00f3rg\u00e3os de algu\u00e9m pr\u00f3ximo que teve morte encef\u00e1lica, a grande maioria respondia que n\u00e3o.<\/p>\n<p>As pessoas sabem o quanto doar \u00e9 positivo, mas ainda assim t\u00eam receio de faz\u00ea-lo. Essa \u00e9 uma mentalidade que est\u00e1 ligada a uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, tais como: cren\u00e7as, medo de violar o corpo, abordagem inadequada, falta de informa\u00e7\u00e3o e tantas outras. Entre essas outras quest\u00f5es est\u00e1 tamb\u00e9m o desconhecimento, por parte da fam\u00edlia, de que o ente gostaria de ter seus \u00f3rg\u00e3os doados. Deixar isso claro \u00e9 uma forma de fazer com que essa vontade seja respeitada.<\/p>\n<p>Se por um lado a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os \u00e9 muito importante, \u00e9 tamb\u00e9m fundamental a manuten\u00e7\u00e3o da \u00e9tica por parte dos profissionais envolvidos no processo. A escolha por doar os \u00f3rg\u00e3os do familiar n\u00e3o pode ser feita mediante press\u00e3o. O que precisa ocorrer \u00e9 um consentimento informado, que se caracteriza quando h\u00e1 o entendimento da situa\u00e7\u00e3o e, livre de qualquer controle por parte de outro, autoriza-se que o profissional realize o procedimento. Quando o contr\u00e1rio acontece, a decis\u00e3o \u00e9 baseada em press\u00f5es externas e a experi\u00eancia pode ser traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>\u201cNa pesquisa que n\u00f3s fizemos, quase a totalidade das pessoas era a favor da doa\u00e7\u00e3o. Mas quando se perguntava se elas doariam os \u00f3rg\u00e3os de algu\u00e9m pr\u00f3ximo que teve morte encef\u00e1lica, a grande maioria respondia que n\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><strong>O MOMENTO DE DECIDIR<\/strong><\/h3>\n<p>Enquanto o momento da morte \u00e9 de luto para alguns, pode adquirir um significado de uma vida que ressurge para outros. Foi o que motivou Ecilda Nunes e Claudiomiro Rodrigues a doar os \u00f3rg\u00e3os do filho, Felipe da Silva Rodrigues, de 19 anos, quando foi diagnosticada a morte encef\u00e1lica.<\/p>\n<p>Felipe foi atropelado por uma motocicleta enquanto trabalhava e j\u00e1 chegou ao hospital em estado cr\u00edtico. Foram dez dias at\u00e9 que viesse a confirma\u00e7\u00e3o da morte cerebral. Quando isso ocorreu, a fam\u00edlia logo conversou e decidiu pela doa\u00e7\u00e3o, como explica Ecilda:<\/p>\n<p>\u2014 A gente veio para casa, junto com nossos outros dois filhos, e conversamos sobre o que fazer. Decidimos doar os \u00f3rg\u00e3os dele, porque sabemos que tem muita gente que precisa. Naquele momento est\u00e1vamos arrasados, mas sab\u00edamos que aquele gesto ia ser a alegria de algumas pessoas que h\u00e1 tempos estavam na fila de espera.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria fam\u00edlia, Ecilda e Claudiomiro j\u00e1 haviam acompanhado o caso das sobrinhas, que possu\u00edam problemas renais e precisavam de um transplante. Ambos conhecem o sofrimento causado pela espera. A doa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato de colocar-se no lugar do outro. Talvez esse seja um bom (e necess\u00e1rio) exerc\u00edcio a se fazer.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>Rep\u00f3rter<\/strong>: Daniela Pin Menegazzo<\/em><\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A complexa rela\u00e7\u00e3o entre a realidade do luto e a possibilidade da doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":1431,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1552,1895],"tags":[],"class_list":["post-1480","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-2-edicao","category-saude"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/26"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1480"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1480\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}