{"id":1663,"date":"2014-01-07T17:40:17","date_gmt":"2014-01-07T19:40:17","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.ufsm.br\/arco\/sitenovo\/?p=1663"},"modified":"2021-02-10T15:35:33","modified_gmt":"2021-02-10T18:35:33","slug":"a-africa-que-nao-lemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/a-africa-que-nao-lemos","title":{"rendered":"A \u00c1frica que n\u00e3o lemos"},"content":{"rendered":"<div id=\"container_dados\">\n<div class=\"texto_noticia\">\n<p>Angola, Cabo Verde, Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9 Bissau e S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe: s\u00e3o esses pa\u00edses, no continente africano, que possuem o portugu\u00eas como idioma oficial. Embora no Brasil o conhecimento geral da literatura de l\u00edngua portuguesa fique restrito ao que \u00e9 produzido no pr\u00f3prio pa\u00eds e na ex-metr\u00f3pole Portugal, os pa\u00edses da \u00c1frica possuem vasta produ\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Com o intuito de explorar e estudar mais a fundo a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria africana, surgiu no ano passado o projeto de pesquisa intitulado Resson\u00e2ncias e disson\u00e2ncias no romance lus\u00f3fono contempor\u00e2neo: o imagin\u00e1rio p\u00f3s-colonial e a (des)constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional, sob a coordena\u00e7\u00e3o do professor Anselmo Peres Al\u00f3s, do Departamento de Letras Vern\u00e1culas da UFSM.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o do projeto come\u00e7ou com a ideia de que os estudos do tema n\u00e3o ficassem restritos a disciplinas isoladas da grade do curso de Letras da Universidade. No bacharelado, por exemplo, a disciplina de Literaturas Africanas de Express\u00e3o Portuguesa faz parte do \u00faltimo semestre da gradua\u00e7\u00e3o, e o foco s\u00e3o as culturas nacionais que falam portugu\u00eas. Al\u00e9m disso, existe uma disciplina de cultura brasileira e v\u00e1rias de literatura portuguesa:<\/p>\n<p>\u2014 A ideia do projeto \u00e9 criar uma massa cr\u00edtica, para os alunos pesquisarem mais a fundo e darem continuidade ao que viram nas disciplinas. E aos que ainda n\u00e3o viram, para se familiarizarem com o conte\u00fado \u2013 explica Al\u00f3s.<\/p>\n<h3><strong>EXPERI\u00caNCIAS IN LOCO\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>O interesse de Al\u00f3s pela literatura africana remete ao per\u00edodo em que ele esteve em Mo\u00e7ambique, atuando em uma universidade do pa\u00eds, onde teve contato com as literaturas africanas, em especial a mo\u00e7ambicana. Por se tratarem de literaturas muito jovens (veja no quadro ao lado), ainda s\u00e3o pouco conhecidas no Brasil. Nesses pa\u00edses, onde o portugu\u00eas \u00e9 o idioma oficial, l\u00ea-se muito a literatura brasileira, principalmente em Angola, Cabo Verde e Mo\u00e7ambique. Esses s\u00e3o, tamb\u00e9m, os tr\u00eas pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa em que a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 mais significativa no continente africano.<\/p>\n<p>Dentro do grupo de pesquisa, \u00e9 utilizado o vi\u00e9s da literatura comparada: estuda-se uma obra da literatura africana de l\u00edngua portuguesa, comparando-a com outra narrativa:<\/p>\n<p>\u2014 A no\u00e7\u00e3o chave de literatura comparada \u00e9 a ideia de intertextualidade. Todo texto rel\u00ea, parodia ou reescreve os textos anteriores a ele \u2013 detalha Al\u00f3s.<\/p>\n<p>Foi atrav\u00e9s da literatura comparada que o acad\u00eamico do curso de Letras-Licenciatura, e integrante do projeto de pesquisa h\u00e1 um ano e tr\u00eas meses, Felipe Freitag, desenvolveu o trabalho Contares de um narrador-menino, ou o espregui\u00e7ar de um abacateiro. Nele, Freitag trabalha quest\u00f5es como identidade, nacionalidade e alteridade no romance Bom dia, camaradas, do autor angolano Ondjaki (pseud\u00f4nimo de Ndalu de Almeida). A obra foi publicada em 2001, em Angola, e em 2003, em Mo\u00e7ambique. No romance, o personagem principal, um garoto angolano, rememora sua inf\u00e2ncia, e a partir disso surgem fatos ligados ao momento pol\u00edtico e social de Angola ap\u00f3s sua independ\u00eancia, em 1975. Freitag colocou o texto africano em contraponto \u00e0 obra O Limite Branco, de Caio Fernando Abreu. E explica o motivo:<\/p>\n<p>\u2014 Segundo a minha leitura, as duas obras t\u00eam um processo de forma\u00e7\u00e3o da personagem. O Maur\u00edcio [protagonista de O Limite Branco] est\u00e1 \u00e0 procura da identidade sociocultural e da sexualidade, e as duas obras se encaixam na literatura de forma\u00e7\u00e3o \u2013 conta.<\/p>\n<p>O interesse do acad\u00eamico pela literatura africana surgiu justamente pelo fato de se tratar de algo pouco conhecido no Brasil:<\/p>\n<p>\u2014 Quem l\u00ea literatura africana aqui? \u2013 pergunta-se.<\/p>\n<p>Outra integrante do projeto, Bruna Cielo, elogia a liberdade na escolha dos assuntos trabalhados no grupo, de acordo com a identifica\u00e7\u00e3o de cada um. O interesse da acad\u00eamica, que est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas meses no projeto, \u00e9 na \u00e1rea da literatura feminina mo\u00e7ambicana:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma literatura que trabalha com uma cr\u00edtica social, contra o sistema paternalista mo\u00e7ambicano \u2013 explica.<\/p>\n<p>Bruna trabalhou na an\u00e1lise da obra de Paulina Chiziane. A autora foi a primeira mulher mo\u00e7ambicana a publicar um romance, no ano de 1990, intitulado Balada de Amor ao Vento. Em fun\u00e7\u00e3o disso, chegou a sofrer inclusive amea\u00e7as de morte. Na obra, aparecem v\u00e1rias refer\u00eancias autobiogr\u00e1ficas. O fato de se tratar de uma literatura jovem tamb\u00e9m desperta a aten\u00e7\u00e3o da estudante:<\/p>\n<p>\u2014 Os pa\u00edses que a gente estuda tiveram um processo de nacionaliza\u00e7\u00e3o muito tardio. A partir da literatura, \u00e9 constru\u00edda a identidade nacional deles, e isso \u00e9 muito interessante \u2013 considera.<\/p>\n<p><a class=\"bigger_image\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2014\/01\/africa-nova.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2014\/01\/africa-nova.jpg\" alt=\"\" width=\"839\" height=\"372\" \/><\/a><\/p>\n<h3><strong>ENTENDA\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>As na\u00e7\u00f5es africanas de l\u00edngua lus\u00f3fona (destacadas em cor clara no mapa \u00e0 esquerda) atingiram sua independ\u00eancia pol\u00edtica na metade da d\u00e9cada de setenta. O processo de descoloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica, no entanto, iniciou um pouco antes, no come\u00e7o da d\u00e9cada de sessenta \u2013 com algumas exce\u00e7\u00f5es, como a Lib\u00e9ria (primeira na\u00e7\u00e3o africana a declarar independ\u00eancia), que se tornou independente em 1847, e pa\u00edses como o Egito e a Eti\u00f3pia, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1940, respectivamente.<\/p>\n<p>O esquadrinhamento do mapa pol\u00edtico do continente africano entre as pot\u00eancias colonizadoras europeias no s\u00e9culo XIX, na Confer\u00eancia de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, desrespeitou uma s\u00e9rie de identidades locais, que eram entendidas atrav\u00e9s de caracter\u00edsticas \u00e9tnicas e lingu\u00edsticas, e n\u00e3o como estados-na\u00e7\u00e3o. O territ\u00f3rio dos zulus, por exemplo, \u00e9 dividido em tr\u00eas pa\u00edses, atualmente nos territ\u00f3rios de Mo\u00e7ambique, \u00c1frica do Sul e Suazil\u00e2ndia.<\/p>\n<h3><strong>IMPACTO NA LITERATURA\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Al\u00e9m de todos os problemas pol\u00edticos e sociais que essas divis\u00f5es \u00e0 margem dos interesses locais acarretaram, isso influenciou diretamente na literatura dos pa\u00edses africanos, inclusive nos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. As divis\u00f5es provocam, consequentemente, um acr\u00e9scimo de valores dentro de identidades nacionais j\u00e1 constitu\u00eddas, como explica o professor Al\u00f3s:<\/p>\n<p>\u2014 Quando se d\u00e1 o processo de independ\u00eancia, se adota a l\u00edngua do colonizador, mas os conflitos anteriores v\u00e3o ser tematizados pela literatura \u2013 finaliza.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"texto_rodape\"><em><strong>Rep\u00f3rter<\/strong>: Nicholas Lyra<\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupo de pesquisa aborda problem\u00e1ticas de identidade nacional de pa\u00edses africanos que falam portugu\u00eas<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":1448,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1776],"tags":[1356,4425,4426,482,4432,4428,25,4430,4431,4429],"class_list":["post-1663","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-africa","tag-angola","tag-cabo-verde","tag-cultura","tag-cultura-africana","tag-guine-bissau","tag-literatura","tag-literatura-africana","tag-mocambique","tag-sao-tome-e-principe"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/26"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1663"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1663\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1448"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}