{"id":241,"date":"2016-05-04T15:08:01","date_gmt":"2016-05-04T18:08:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2016\/05\/04\/post241\/"},"modified":"2016-05-04T15:08:01","modified_gmt":"2016-05-04T18:08:01","slug":"post241","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post241","title":{"rendered":"Agentes pela legaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diego Souza Ferreira, Inspetor de Pol\u00edcia, \u00e9 o primeiro policial civil do Rio Grande do Sul a se tornar porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition \u2013 Leap Brasil, uma organiza\u00e7\u00e3o internacional que re\u00fane ju\u00edzes, policiais e agentes da lei a favor da legaliza\u00e7\u00e3o de todas as drogas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Criada em 2002 por policiais estadunidenses e canadenses, a Leap \u00e9 formada por integrantes das for\u00e7as policiais e da justi\u00e7a criminal, na ativa e aposentados, que falam sobre a fal\u00eancia das atuais pol\u00edticas de drogas. Na vis\u00e3o da entidade, continuando a combater a chamada \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, os governos t\u00eam agravado os problemas sociais ao inv\u00e9s de reduzi-los. Um sistema de regula\u00e7\u00e3o e controle dessas subst\u00e2ncias seria uma pol\u00edtica p\u00fablica menos danosa, menos custosa, mais \u00e9tica e mais eficaz, segundo a Leap.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando come\u00e7ou a trabalhar no Departamento Estadual de Investiga\u00e7\u00f5es do Narcotr\u00e1fico do Rio Grande do Sul (Denarc-RS), que investiga o tr\u00e1fico de drogas no estado, Diego Souza Ferreira come\u00e7ou a mudar sua vis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s selecionadas drogas il\u00edcitas, questionando os principais argumentos que justificam a \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d no Brasil, como culpar os usu\u00e1rios pelo tr\u00e1fico.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com cargo no setor de intelig\u00eancia, o policial passou a estudar o assunto na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e come\u00e7ou a comparar o resultado das pesquisas com seu trabalho. A repercuss\u00e3o de sua pesquisa fez com que fosse convidado para ser porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition (Leap) no Brasil.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O porta-voz da Leap foi uma das fontes consultadas pela ex-aluna do curso de Jornalismo, Diossana da Costa, para a realiza\u00e7\u00e3o de seu projeto experimental de conclus\u00e3o de curso, que consta em uma s\u00e9rie de reportagens intitulada \u201cDesentorpecer a raz\u00e3o\u201d, sobre a atual pol\u00edtica de drogas no Brasil e suas consequ\u00eancias nos mais diversos setores, como a pol\u00edtica, sa\u00fade p\u00fablica, seguran\u00e7a p\u00fablica, entre outros. O trabalho tamb\u00e9m faz um resgate hist\u00f3rico sobre a rela\u00e7\u00e3o cultural da humanidade com as drogas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois de se notabilizar como um cr\u00edtico da proibi\u00e7\u00e3o, em 2015, Diego foi removido de seu posto no Denarc-RS sem maiores explica\u00e7\u00f5es e sem ser consultado. Diego declara que n\u00e3o \u00e9 a favor das drogas, mas sim de uma nova pol\u00edtica de drogas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A jornalista Diossana da Costa conversou com Diego Ferreira para saber um pouco mais sobre seu posicionamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atual pol\u00edtica de \u201ccombate \u00e0s drogas\u201d e a atua\u00e7\u00e3o da Leap-Brasil.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"margin: 15px;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/leap.jpg\" alt=\"Diego Souza Ferreira, Inspetor de Pol\u00edcia da Pol\u00edcia Civil do RS e porta-voz do Leap-Brasil\" width=\"768\" height=\"512\" \/><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 o primeiro porta-voz da Leap-Brasil no Rio Grande do Sul. Tamb\u00e9m h\u00e1 poucos pesquisadores e pessoas engajadas no tema. Voc\u00ea acredita que isso seja devido ao conservadorismo e moralismo que existe dentro da pol\u00edtica relacionado ao assunto?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu fiz uma pesquisa na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em 2013, e fui um dos primeiros a abordar o tema dentro da pol\u00edcia civil. A Leap j\u00e1 existe desde 2002 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">nos EUA, criada por policiais americanos e canadenses. E no Rio de Janeiro a partir de 2012. N\u00f3s temos mais de 170 policiais hoje, no Brasil, e mais de 50 mil no mundo todo. Mas aqui eu percebi que a discuss\u00e3o, principalmente dentro das institui\u00e7\u00f5es policiais, era uma coisa muito fechada, muito tabu. Com a minha experi\u00eancia de ir para o Rio de Janeiro, encontrar a Leap e ver o que eles estavam fazendo no Rio de Janeiro, como parcerias com a Escola do Minist\u00e9rio P\u00fablico, com a Pol\u00edcia Civil, Pol\u00edcia Militar, entre outras organiza\u00e7\u00f5es, discutindo o tema h\u00e1 tr\u00eas anos, inclusive nos cursos de forma\u00e7\u00e3o para policiais e ju\u00edzes. E, aqui no Rio Grande do Sul, n\u00e3o existe isso ainda. Eu tentei articular um semin\u00e1rio na Acadepol ano passado e n\u00e3o consegui. Ent\u00e3o, comecei a fazer debates dentro de f\u00f3runs, via rede social, da Pol\u00edcia Civil. Sofri repres\u00e1lias e fui mal interpretado muitas vezes. Fui acusado de ter rela\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas. Por\u00e9m, quem tem todo interesse que a pol\u00edtica atual se mantenha do jeito que est\u00e1 s\u00e3o os traficantes. No mercado ilegal eles n\u00e3o precisam pagar imposto, n\u00e3o precisam ter controle do Estado, n\u00e3o precisam dar satisfa\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Diego, o que faz de algu\u00e9m traficante<\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O traficante \u00e9 um comerciante da subst\u00e2ncia ilegal. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A palavra traficante tem um peso forte, que seria uma pessoa do mal, uma pessoa deplor\u00e1vel. E ele nada mais \u00e9 do que o comerciante de um produto que hoje est\u00e1 ilegal, porque nem sempre foram no passado. Por\u00e9m, o papel incumbido ao traficante \u00e9 o de inimigo do Estado. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que elimin\u00e1-lo. Como estamos em uma pol\u00edtica de guerra, em uma guerra temos que eliminar o inimigo. Ent\u00e3o o traficante tem esse papel de inimigo e a pol\u00edcia tem que fazer o enfrentamento.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por que punir esses grupos e quais as consequ\u00eancias disso<\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A quest\u00e3o das atuais drogas que foram colocadas na ilegalidade \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o cient\u00edfica. Uma quest\u00e3o de controle de mercado, persegui\u00e7\u00e3o de povos, preconceito e racismo. A quest\u00e3o da <em>cannabis<\/em> ou <em>marijuana<\/em>, ela \u00e9 uma planta que era consumida no Brasil pelos negros que foram escravizados da \u00c1frica. Consumida tamb\u00e9m pelos portugueses que colonizaram o Brasil. No caso dos EUA, quem utilizava a <em>cannabis<\/em> eram os mexicanos. Quando o \u00e1lcool foi (re)legalizado, toda aquela estrutura estatal policial de repress\u00e3o ficou sem sentido, eles tiveram que buscar outro objetivo, e foram buscar, no caso, na<em> cannabis<\/em> e no \u00f3pio. Ent\u00e3o, em vez\u00a0de criminalizar aqueles povos diretamente, se criminalizou a cultura, os costumes e rituais praticados. Quando se criminaliza o costume, est\u00e1 se criminalizando as pessoas indiretamente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quais as suas considera\u00e7\u00f5es sobre a pol\u00edtica de drogas atual<\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pol\u00edtica atual de drogas \u00e9 uma pol\u00edtica irracional e fracassada. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Uma pol\u00edtica bipolar, pois para algumas drogas \u2013 como o \u00e1lcool e o tabaco \u2013 n\u00f3s temos legaliza\u00e7\u00e3o, controle, regula\u00e7\u00e3o, tributa\u00e7\u00e3o, direitos e deveres. Para outras \u2013 como a maconha e a coca\u00edna \u2013 n\u00f3s temos criminaliza\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o discriminada, preconceito e guerra. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem sentido, porque todas as drogas fazem mal ou fazem bem, o que vai depender de uma quest\u00e3o pessoal.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em um artigo, voc\u00ea fala sobre a falta de conhecimento dos policiais em rela\u00e7\u00e3o ao assunto, e sobre at\u00e9 mesmo pronunciar a palavra \u201cdroga\u201d ser um crime para alguns&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A palavra droga vem da express\u00e3o holandesa <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">drug<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">, que significa folha seca. Ent\u00e3o, antes, na lei de drogas, n\u00e3o era escrito droga, era escrito \u2018\u2019subst\u00e2ncia entorpecente que causa depend\u00eancia&#8230;\u201d, o que pode ser qualquer coisa. Como trocaram por droga, que at\u00e9 \u00e9 a nomenclatura mais correta, se associou que droga s\u00e3o somente as drogas ilegais. E na realidade n\u00e3o. Como diz uma psiquiatra da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abad) do Distrito Federal, \u2018\u2019Droga \u00e9 bom, droga n\u00e3o \u00e9 ruim. As pessoas usam porque \u00e9 bom. E n\u00f3s vamos na drogaria comprar drogas.\u201d Esse conhecimento sobre drogas, todo mundo \u00e9 ignorante nisso. E o policial vem da sociedade, ent\u00e3o n\u00f3s como policiais, juristas, o pessoal da \u00e1rea da justi\u00e7a criminal, sabemos sobre a lei de drogas, sobre direito. Quem sabe sobre droga \u00e9 qu\u00edmico, farmac\u00eautico e m\u00e9dico. E eu, com essa minha pesquisa de muito tempo, eu comecei a buscar conhecimento nesses outros ramos. Ent\u00e3o, eu fui estudar, buscar informa\u00e7\u00e3o. E cheguei ao conhecimento de que n\u00e3o existe droga boa, droga ruim, tudo \u00e9 droga. S\u00f3 que demora para chegarmos nesse racioc\u00ednio.<\/span><\/p>\n<p>Reportagem: Diossana da Costa<br \/>\nFotografia: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Policial ga\u00facho integra grupo internacional que defende uma nova pol\u00edtica anti-drogas<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":782,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1742],"tags":[],"class_list":["post-241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-extenda-10a-edicao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/782"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}