{"id":250,"date":"2016-05-17T10:03:32","date_gmt":"2016-05-17T13:03:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/comunicacao\/arco\/2016\/05\/17\/post250\/"},"modified":"2016-05-17T10:03:32","modified_gmt":"2016-05-17T13:03:32","slug":"post250","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/post250","title":{"rendered":"A vida por tr\u00e1s das grades"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAquele n\u00e3o \u00e9 um lugar qualquer, mas uma m\u00e1quina de produzir mulheres abandonadas, por isso, todo acontecimento \u00e9 singular.\u201d A frase \u00e9 da antrop\u00f3loga e pesquisadora D\u00e9bora Diniz, ao se referir \u00e0 Penitenci\u00e1ria Feminina do Distrito Federal. Durante seis meses, ela conviveu com presas e ouviu depoimentos para escrever o livro \u201cCadeia: relatos sobre mulheres\u201d. \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">D\u00e9bora Diniz percebeu que os n\u00fameros e hip\u00f3teses com os quais estava habituada deveriam dar lugar a hist\u00f3rias reais e n\u00e3o ser apenas estat\u00edsticas de pesquisas. Dessa forma, construiu o livro, com a dificuldade de deixar de lado o texto acad\u00eamico para adotar o liter\u00e1rio. Tudo isso para mostrar ao mundo os relatos das mulheres presas, como relata na entrevista abaixo.<\/span><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"margin: 15px auto; display: block;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/pqdiniz1.jpg\" alt=\"\" width=\"266\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando e por que surgiu a ideia de escrever o livro \u201cCadeia: relatos sobre mulheres\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha primeira pesquisa no sistema \u2013 essa \u00e9 a express\u00e3o usada pelas presas para as institui\u00e7\u00f5es prisionais \u2013 foi com os manic\u00f4mios judici\u00e1rios, institui\u00e7\u00f5es a meio caminho entre pres\u00eddios e hosp\u00edcios. Dessa experi\u00eancia, escrevi livro e fiz filme. Foi da\u00ed que comecei a visitar o pres\u00eddio feminino de Bras\u00edlia para pesquisas acad\u00eamicas tradicionais \u2013 fiz um censo das mulheres que ali viviam. Identificamos que uma em cada quatro delas veio de unidades socioeducativas de interna\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia. Depois de um tempo coletando n\u00fameros e perfis, entendi que precisava de outra maneira de contar as mesmas hist\u00f3rias: aquele era um jarg\u00e3o acad\u00eamico que falava para poucas pessoas. Importante, \u00e9 verdade, mas limitado. Foi assim que resolvi ensaiar outra forma de escuta e escrita. Al\u00e9m disso, eu queria que os relatos sobre as mulheres da cadeia fossem conhecidos <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">por mais gente do que minhas colegas acad\u00eamicas ou feministas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Durante quanto tempo voc\u00ea realizou a pesquisa e conviveu com as detentas?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foram seis meses de escuta no N\u00facleo de Sa\u00fade do pres\u00eddio feminino da capital do pa\u00eds. Eu n\u00e3o fiz nenhuma pergunta \u00e0s presas. Eu s\u00f3 fiz ouvir as hist\u00f3rias de necessidade, de sofrimento e de precis\u00e3o que elas vinham contar ao assistente social, \u00e0 psic\u00f3loga, \u00e0 m\u00e9dica. Eu s\u00f3 fiz anotar hist\u00f3rias no tempo real em que eram contadas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 abordado no livro a realidade vivida pelas detentas dentro da pris\u00e3o? E como \u00e9 o ambiente?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro conta as hist\u00f3rias de necessidade de sa\u00fade de 50 mulheres que buscaram o N\u00facleo de Sa\u00fade do pres\u00eddio. Elas vivem os mesmos conflitos que as mulheres de fora dele \u2013 a diferen\u00e7a \u00e9 que ali as agonias s\u00e3o mais intensas. Consegue imaginar o que \u00e9 ser uma mulher presa porque n\u00e3o cortou o cord\u00e3o umbilical da filha e foi acusada de homic\u00eddio? Ou de uma av\u00f3 que sucumbiu \u00e0\u00a0press\u00e3o do neto e, depois de anos como visitadora, carregou droga na vagina para evitar uma surra prometida? Os conflitos das mulheres comuns est\u00e3o ali dentro, mas com uma diferen\u00e7a importante: aquele n\u00e3o \u00e9 um lugar qualquer, mas uma m\u00e1quina de produzir mulheres abandonadas, por isso, todo acontecimento \u00e9 singular.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 15px auto; display: block;\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-content\/uploads\/sites\/601\/2021\/05\/Cadeia-Dd.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"372\" \/><\/span><\/p>\n<p><strong>Quais foram as maiores dificuldades encontradas durante o processo de escrita?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCadeia\u201d \u00e9 um experimento de linguagem, mas tamb\u00e9m uma pe\u00e7a ortodoxa de pesquisa acad\u00eamica. Explico-me. Se, por um lado, a prosa cient\u00edfica \u00e9 perturbada no livro por uma vizinhan\u00e7a com a literatura, por outro, o livro \u00e9 resultado de uma submiss\u00e3o \u00e0s regras de m\u00e9todo sobre o que se define como uma pesquisa respeit\u00e1vel. As mulheres de Cadeia n\u00e3o s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es ficcionais, mas registros etnogr\u00e1ficos de vidas escondidas entre as grades. Portanto, n\u00e3o falaria em dificuldade no processo de escrita, mas em desafio. Assim, foi de um sentimento de insufici\u00eancia da linguagem acad\u00eamica que passei ao experimento de linguagem. Comecei escrevendo o que eu chamava de mementos do campo \u2013 pequenas e curtas hist\u00f3rias. Mandava para um grupo seleto de leitoras: todas chatas e cr\u00edticas, e elas come\u00e7aram a dizer que aquele era um jeito interessante de narrar pesquisa. Resumindo, eu diria que foi essa combina\u00e7\u00e3o: um sentimento de fadiga da linguagem tradicional e o est\u00edmulo de leitoras meticulosas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual dos depoimentos mais te marcou e por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil de responder, pois as hist\u00f3rias foram muitas \u2013 mais do que as 50 contadas no livro \u2013 e cada uma com sua singularidade. Todas as hist\u00f3rias s\u00e3o importantes e versam sobre uma faceta no mundo das necessidades de sa\u00fade que envolve estar em um pres\u00eddio. E, aqui, volto a esclarecer: n\u00e3o ouvi depoimentos. Fui quase uma mosca na parede, ouvindo os pedidos sobre necessidades de sa\u00fade para os profissionais do N\u00facleo de Sa\u00fade. Mas posso adiantar uma que pode atormentar qualquer um: Ana foi a presa mais jovem que conheci, pois caiu tr\u00eas dias depois de completar 18 anos, em que a lei diz ser a adolescente j\u00e1 mulher adulta para a cadeia. Ana perambulou por ruas e pra\u00e7as, conheceu o crack ainda menina e passou a adolesc\u00eancia em reformat\u00f3rios e abrigos. Da fam\u00edlia n\u00e3o tinha registro, nem mesmo no nascimento. Chegou ao pres\u00eddio como indocumentada, mulher que os governos da vida desconhecem, ou algu\u00e9m que se deixou desaparecer pela sobreviv\u00eancia. No primeiro confere de exist\u00eancia na casa, descreveu-se no tempo presente, \u201csou crackeira e moradora de rua\u201d. Ana estava certa, esses s\u00e3o dois qualificadores que se eternizam no corpo da presa. Ela estava gr\u00e1vida. O teste da s\u00edfilis foi impiedoso, mas as verrugas pelas m\u00e3os j\u00e1 anunciavam o que o sangue segredava.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que mulheres presas sofrem mais preconceito, por parte da sociedade e da fam\u00edlia, do que homens presos? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maior ang\u00fastia das mulheres \u00e9 igual a dos homens \u2013 estar privada de liberdade. Viver entre grades, ter a vida regrada e controlada \u00e9 uma experi\u00eancia aterrorizante. Mas, diferente de muitos homens, as mulheres vivem um acr\u00e9scimo de ang\u00fastia: os filhos dependem delas ou as acompanham ao pres\u00eddio. A hist\u00f3ria mais comum \u00e9 uma mulher cair, ou seja, ser presa, ap\u00f3s seu companheiro ter sido preso. Assim, a pris\u00e3o de uma mulher, regra geral, marca um ciclo dram\u00e1tico para a sobreviv\u00eancia familiar: os filhos dependem dela antes mesmo da entrada no crime e depender\u00e3o mais ainda com a pris\u00e3o do companheiro e dela. H\u00e1 tamb\u00e9m um termo sociol\u00f3gico que descreve o c\u00edrculo de mulheres em torno da pris\u00e3o: aprisionamento secund\u00e1rio. Visitadoras s\u00e3o sempre mulheres. S\u00e3o mulheres visitando os homens, s\u00e3o mulheres visitando as mulheres. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no pres\u00eddio masculino, as visitadoras s\u00e3o m\u00e3es, companheiras ou namoradas. No pres\u00eddio feminino, s\u00e3o m\u00e3es, filhas ou amigas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para finalizar, D\u00e9bora Diniz afirmou \u201cacredito sempre na transforma\u00e7\u00e3o humana. Sempre. O que desacredito \u00e9 na pris\u00e3o como institui\u00e7\u00e3o transformadora. S\u00e3o duas coisas diferentes \u2013 aquelas mulheres t\u00eam a pot\u00eancia para se redescreverem, precisam de garantias legais e sociais. N\u00e3o \u00e9 na pris\u00e3o que elas ter\u00e3o suas necessidades protegidas. \u201d<\/span><\/p>\n<p>Reportagem: Marina Fortes<br \/>\nFotografias: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora de Bras\u00edlia lan\u00e7ou livro com depoimentos de mulheres presas<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":972,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1814],"tags":[],"class_list":["post-250","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=250"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/972"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}